Puro

Andrew Miller · Capítulo 6 de 48

Páginas do PDF

Puro

Capítulo 5

 

Ele chega no intervalo entre a sopa e um ensopadinho, também feito com as sobras da vitela de terça-feira. Não pretendia chegar tão tarde, nem na escuridão. Sua bagagem, um baú grande, canelado (um dos gomos foi lascado ao ser desembarcado do bagageiro do coche), é levado para dentro por ele e um garoto enorme e mudo, parente das pessoas com quem se hospedou na noite anterior próximo à agência dos coches.

— Estávamos com medo de que tivesse se perdido! — exclama Monsieur Monnard, todo afável, do alto do primeiro lanço de escadas. — Perdido por completo.

— Estive em Versalhes, meu senhor, e depois o cavalo era manco...

— Versalhes! — ecoa Monsieur Monnard, observando enquanto o jovem sobe a escada e depois o convidando a entrar no leve aquecimento da sala de cima. — Monsieur Babette esteve em Versalhes hoje.

— Baratte, meu senhor.

— Hã?

— Baratte. Meu nome, senhor. Baratte.

Sentam-no em frente a Ziguette. Discute-se brevemente se o ensopado deve voltar à cozinha enquanto o recém-chegado toma sua sopa. Será que a sopa está quente o bastante? Monsieur Baratte quer sopa?

— E como estava Versalhes hoje? — indaga Monsieur Monnard, como se fosse um frequentador do palácio.

Jean-Baptiste toma uma colherada da sopa tépida e descobre em si uma fome voraz. Se estivesse sozinho, era capaz de tomá-la diretamente do prato e imediatamente encontrar um lugar para adormecer. Mas precisa fazer um esforço para angariar simpatia. Essa gente há de constituir seu círculo social mais íntimo, ao menos durante algum tempo. Não deseja que eles o achem tedioso nem grosseiro, um provinciano mal-educado. Não deseja ser tomado por nada daquilo que em seus momentos de fraqueza acredita ser. Ergue os olhos do prato de sopa. Que boca grande e vermelha tem essa garota! Deve ser a gordura da sopa que faz com que seus lábios brilhem tanto.

— Versalhes — diz ele, virando-se para o pai dela — é o lugar mais estranho que já vi.

— Uma ótima resposta — aprova Madame Monnard com um gesto decisivo de cabeça. Pede a Marie que sirva um pouco de vinho ao convidado. — E dê mais uma atiçada no fogo, Marie. Nunca vi tanto frio em outubro.

Jean-Baptiste descobre que os Monnard gostam de conversar — uma conversa que soa bem diferente dos ritmos mais deliberados com os quais foi criado em Bellême. Eles também gostam de comer — sopa, ensopado, peixe frito, salada de beterraba, queijo, um bolinho. Tudo, pelo que vê, adequadamente preparado, embora maculado por um paladar estranho, um sabor cuja presença na comida não lhe parece adequada.

Depois do jantar, todos se sentam junto ao fogo. Nas estações frias, o aposento serve como sala de estar e de jantar, o que funciona muito bem, embora a presença do piano-forte implique fazer um pequeno desvio ao cruzar o cômodo. Monsieur Monnard alivia um pouco a tensão do rosto com uma série de caretas. As mulheres Monnard fingem costurar. Ouvem-se arranhões na porta. Um gato é admitido na sala, gato este quase tão grande quanto o cachorro que Jean-Baptiste viu urinar no chão na antessala do gabinete do ministro, um vira-lata negro com um pedaço em forma de meia-lua faltando numa das orelhas. Chama-se Ragoût. Ninguém é capaz de se lembrar quem o batizou nem de entrar num acordo a esse respeito. O bichano se dirige diretamente a Jean-Baptiste e cheira as solas de seus sapatos.

— O que você andou aprontando, seu danadinho? — diz Madame Monnard, pegando o animal do chão com certo esforço e pondo-o no colo. — Não coloco a mão no fogo pelos seus princípios morais — diz ela, rindo satisfeita, para depois acrescentar: — Ragoût e Ziguette são inseparáveis.

Jean-Baptiste lança um olhar para a moça. Parece-lhe que ela olha para o animal com certo desagrado.

— Os rapazinhos que gostam de queijo — comenta Monsieur Monnard — não duram muito nesta casa.

— O que Ragoût não pega — emenda Madame Monnard — meu marido encurrala com suas maquininhas.

— Máquinas? — pergunta Jean-Baptiste, em quem a palavra sempre causou frisson.

— Eu as fabrico e as vendo na loja — começa Monsieur Monnard. — Uma gaiola, uma mola, uma portinhola... — Faz, então, um movimento com a mão. — A criatura é capturada. Depois, basta jogar a armadilha num balde d’água.

— Marie lhes corta a garganta — diz Ziguette.

— Garanto que ela não faz uma coisa dessas — intervém a mãe. Para o convidado, ela diz: — Meu marido tem uma loja na rue des Trois Mores.

— O senhor vende armadilhas? — indaga Jean-Baptiste.

— Lâminas, monsieur, das simples às rebuscadas. Damos acabamento, afiamos e polimos. Somos famosos pela qualidade. Père Poupart da igreja Saint-Eustache corta sua carne com uma das minhas facas.

— Quando esfria — diz Ziguette —, os ratos entram. Na casa.

— Acontecia o mesmo na minha — observa Jean-Baptiste — nas noites mais frias.

— Na Normandia? — pergunta Madame Monnard, como se a espantasse ouvir que os ratos haviam descoberto lugar tão remoto.

— O senhor deve sentir saudades — diz Ziguette.

— De casa? — Por um instante, em seu cansaço, ele vê corvos, tal qual trapos negros, alçando voo de um campo ao entardecer; vê a torre solitária de uma igreja provinciana. — Acho que me satisfaz estar onde o meu trabalho me leva.

— Muito viril — aprova Madame Monnard, cutucando o pelo do gato.

— E qual é o seu trabalho aqui? — pergunta Ziguette. Ela parece tão bonita ao fazer a pergunta, tão meiga em seu vestido creme, que ele sente a tentação de lhe contar precisamente o que veio fazer aqui. Pergunta-se o que Lafosse lhes terá dito, que história lhes contou, se é que lhes contou alguma.

— Estou aqui — diz ele, ciente de que os três de repente o escutam com a maior atenção — para fazer um levantamento de Les Innocents.

— Les Innocents? — repete Madame Monnard, depois de uma pausa durante a qual nada se ouviu salvo o ronronar do gato e o crepitar do fogo.

— Sou engenheiro — responde Jean-Baptiste. — Não lhes disseram?

— Quem nos diria? — pergunta Monsieur Monnard.

— A mesma fonte que providenciou a minha hospedagem aqui.

— Não fomos informados de coisa alguma, exceto que um cavalheiro da Normandia precisava de um quarto.

— Com refeições — acrescenta a esposa.

— Isso mesmo — confirma Monsieur Monnard. — Uma refeição pela manhã e outra à noite.

Ziguette diz:

— Uma vez um músico se hospedou conosco.

— Sim, um cavalheiro bastante peculiar — emenda Monsieur Monnard.

— Ruivo — diz Madame.

Ziguette abre a boca, como se prestes a acrescentar algo, mas, passado um átimo de segundo, uma semínima de hesitação, torna a fechá-la.

— Sua vocação — observa Madame, com um sorriso complacente — é muito pragmática. Parabéns.

— Meu professor — diz Jean-Baptiste — na École des Ponts foi Maître Perronet, o maior engenheiro da França.

Acima da cabeça do gato, Madame Monnard aplaude com as pontas dos dedos.

— O senhor já construiu alguma ponte? — indaga Ziguette.

— Uma. Na Normandia.

— Ligando o quê?

— Os cantos de um lago.

— Ninguém imagina que um lago tenha cantos — diz Ziguette.

— É melhor o senhor dizer a Marie se prefere café ou chocolate pela manhã — sugere Madame Monnard.

— O músico gostava de chocolate — informa Ziguette.

— Marie pode levá-lo ao quarto, se preferir — diz Madame. — E água para a sua toalete. Basta determinar a que horas.

— Ele ainda não viu o quarto — intervém Ziguette.

— É verdade — concorda a mãe. — Acho que não viu.

— Então, vou ajudá-lo a subir a escada com o baú — oferece-se Monsieur Monnard, ficando de pé. — É pesado demais, até para Marie.

O quarto fica nos fundos da casa, no piso abaixo do sótão. Os dois homens, arfando um pouco, sobem com o baú os quatro lanços de escada desde o vestíbulo. Marie segue à frente, com uma vela na mão.

— Acho que o senhor vai ter tudo de que precisa cá em cima — diz Monsieur Monnard.

— Sim — concorda Jean-Baptiste, cujo olhar registra a cama estreita, um conjunto de mesa e cadeira, o aparador de três pés com a bacia de metal vidrado, a lareira pequena e a janela de veneziana acima da cama.

— O quarto de Ziguette é do outro lado do corredor. Madame Monnard e eu dormimos no quarto de baixo. Marie, é claro, no sótão. Seu antecessor costumava lhe pedir para tirar os tamancos quando estava no quarto. Tinha um ouvido muito sensível ao barulho.

— O senhor deseja que eu lhe pague o aluguel adiantado?

— Muito profissional da sua parte. Admiro isso num jovem. Então, vejamos. Seis livres por semana, acho eu. Sem incluir as velas e a lenha.

Jean-Baptiste, pondo-se ligeiramente de costas para o dono da casa, despeja um punhado de moedas da bolsa sobre a mesa e pega uma moeda de meio-louis.

— Duas semanas de aluguel — diz ele.

Monsieur Monnard aceita a moeda, belisca-a e a enfia num dos bolsos do colete.

— Seja bem-vindo — saúda, com a expressão de um homem que acabou de vender uma coleção de boas facas a um padre. — Não deixe de pedir a Marie tudo de que precisar.

Durante um segundo ou dois, o hóspede e a criada se olham nos olhos; então, ela acende o toco de vela sobre a mesa com a vela que tem na mão.

— Se o senhor puder, leve a sua vela lá para baixo de manhã — diz ela — e a deixe na prateleira junto à porta da frente. Tem pederneira e aço lá para acendê-la.

— Mal vai precisar sair — observa Monsieur Monnard, assentindo para as venezianas — para fazer o seu levantamento.

— Dá para ver daqui?

— Ainda não teve a oportunidade de dar uma volta no bairro?

— Não, meu senhor.

— Bem, à luz do dia verá que tenho toda a razão.

Com pequenos gestos de assentimentos e sorrisos, os homens se despedem. Monsieur Monnard e Marie saem do quarto e fecham a porta. De repente, Jean-Baptiste se vê sozinho numa casa estranha numa cidade onde ele não conhece quase ninguém. Por cima da cama, alcança as venezianas, as quais afasta mexendo nas dobradiças emperradas e, então, vendo apenas a si mesmo e a chama da vela no vidro, torna a se inclinar, gira a maçaneta oval e empurra a janela com um leve safanão. Agora nada existe entre ele e o céu noturno, nada entre ele e a igreja de Les Innocents, já que, sem dúvida, aquele maciço vulto negro, mal discernível de encontro ao céu, é Les Innocents. E, logo abaixo, o espaço de escuridão entre a igreja e a rua... Aquele, evidentemente, é — pois o que mais poderia ser? — o cemitério. Se subisse na cama e pulasse pela janela, Jean-Baptiste estaria lá dentro, no lugar que atualmente envenena Paris! Sem dúvida, envenena a rue de la Lingerie com o fedor que entra pela janela aberta, do qual ele já sentiu uma amostra no hálito de todos os Monnard e no sabor da comida. Terá de se habituar a ele, habituar-se rapidamente ou sair porta afora, pegar o coche de volta para casa, empregar-se com o Conde S., implorar para construir outra ponte...

Fecha a janela e as venezianas. A vela sobre a mesa não há de durar muito mais. Desata as amarras do baú, remexe lá dentro, tira um exemplar da Histoire Naturelle Volume II, do Conde de Buffon, além de uma comprida régua de bronze, uma caixinha de utensílios para escrever, uma caixa pequena de madeira rosa contendo um par de compassos de metal. Embrulhada numa camisa de lã, retira ainda sua gravura da Ponte de Rialto, de Canaletto. Procura um prego na parede, encontra-o acima da lareira vazia, pendura o quadro e fica em pé por um instante a examiná-lo.

Põe o relógio em cima da mesa ao lado do livro de Buffon, a bolsa sob o travesseiro, encarapita a peruca nas costas da cadeira e se despe, ficando apenas de camisa e meias, as peças que manterá no corpo para se aquecer. Não há água, nada para se lavar. Enfia-se sob as cobertas, pensa brevemente, com desconforto, no músico ruivo que dormiu ali antes dele e depois apaga a vela gotejante e fica deitado numa escuridão tão profunda que sua visão, absolutamente nula, nela desenha formas estranhas, imagens estranhas. Fecha os olhos — escuridão dos dois lados! — e após uma pausa começa a recitar baixinho não uma prece, mas uma ladainha de autoidentidade.

— Quem é você? Jean-Baptiste Baratte. De onde? De Bellême, na Normandia. O que você faz? Sou engenheiro, formado na École des Ponts. Em que acredita? No poder da razão...

Foi um hábito que adquiriu nas semanas seguintes à morte do pai. No início, tinha um quê de desafio, de quase júbilo. Ele estava vivo, era jovem e estava vivo. Ecce homo! Mais tarde, porém — talvez ao começar a trabalhar nas minas em Valenciennes —, as perguntas passaram a parecer, de fato, perguntas, e perguntas cuja simplicidade dava origem a confusões, a vertigens momentâneas que tornaram a prática — a formulação das perguntas — mais necessária que nunca. Devia abandoná-la, claro. Era infantil. Uma fonte de vergonha íntima, quase um vício. Mas, por ora, esta noite, neste lugar...

— Quem é você? Jean-Baptiste Baratte. De onde? De Bellême, na...

Alguém ou alguma coisa está arranhando a madeira da porta. Ele prende o fôlego, escuta. O gato de moral questionável? Será que seu antecessor deixava a criatura dormir ao pé da cama? Bom, ele não tem objeções, na verdade apreciaria a companhia, mas, no instante em que se senta na cama, os arranhões cessam. Sob a porta, o suave movimento de uma luz. Depois, nada.