Puro

Andrew Miller · Capítulo 2 de 48

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Puro

Capítulo 1

 

Um rapaz jovem, porém não muito jovem, está sentado na antessala de algum lugar numa ala qualquer do Palácio de Versalhes. Ele aguarda. Aguarda já faz um bom tempo.

Não há lareira no aposento, embora estejamos na terceira semana de outubro e faça tanto frio quanto no mês de fevereiro. Suas pernas e costas parecem duras — por causa do frio e dos três dias de viagem no frio, primeiro com o Primo André, de Bellême a Nogent, depois no coche, superlotado de gente de pele crestada envolta em casacões de inverno, com cestas no colo, embrulhos sob os pés, alguns viajando com cães e um velho que esconde um frango debaixo do casaco. Trinta horas até Paris e a rue aux Ours, onde desceram pisando em cascalho e estrume, e andaram de um lado para outro na porta da agência dos coches como se não se sentissem seguros sobre as próprias pernas. E então, esta manhã, a partida da hospedaria que o alojara na rue... — rue o que mesmo? — bem cedinho, em um cavalo alugado que o trouxe a Versalhes e a este dia, que pode ser o mais importante da sua vida ou coisíssima alguma.

Ele não se encontra sozinho na sala. Um homem quarentão senta-se à sua frente numa poltrona estreita, o casacão abotoado até o queixo, as mãos cruzadas no colo, um anel grande de aparência muito antiga em um dos dedos. De vez em quando o homem suspira, mas, afora isso, permanece em completo silêncio.

Atrás do dorminhoco, tanto de um lado quanto do outro, há espelhos que vão do assoalho até os frisos do teto, cobertos de teias de aranha. O palácio é cheio de espelhos. Para seus moradores deve ser impossível não topar com a própria cara uma centena de vezes ao dia, cada corredor uma fonte de vaidade e incerteza. Os espelhos à sua frente, com a superfície embaçada pela poeira (algum dedo ocioso desenhou um pênis bulboso e, ao lado, uma flor que talvez seja uma rosa), projetam uma claridade esverdeada, como se o prédio todo estivesse submerso, afogado. E ali, como parte dos destroços, seu reflexo amarronzado, o rosto no vidro mofado não nítido o bastante para ser digno de nota ou peculiar. Uma forma oval pálida em um corpo sentado, um corpo metido num traje marrom — traje este presenteado pelo pai —, o tecido cortado por Gontaut, que as pessoas gostam de chamar de melhor alfaiate de Bellême, mas que, na verdade, é seu único alfaiate, já que Bellême é o tipo de lugar onde um bom traje costuma ser legado como parte dos bens de alguém, juntamente com o ferro para a cama, o arado, a charrua e as selas. Está um pouco apertado na altura dos ombros, um pouco cheio demais nos quadris, um pouco pesado nos punhos, mas todo ele foi bem-confeccionado e, para o estilo, ficou perfeito.

Ele pressiona as coxas, pressiona os ossos dos joelhos e depois baixa o braço para limpar alguma coisa do cano da meia esquerda. Teve todo o cuidado para manter as meias tão limpas quanto possível, mas saiu quando ainda estava escuro, atravessou ruas desconhecidas, e, na ausência de lampiões acesos àquela hora, quem saberia dizer no que pisou? Remove a sujeira com a ponta do polegar. Lama? Tomara. Não cheira o polegar para verificar.

Um cão pequeno adentra o cômodo, as patas derrapando no chão. O animal olha para ele, brevemente, com olhos grandes e baços, antes de ir até o jarro, uma ânfora alta e dourada exposta ou abandonada num dos cantos espelhados do salão. Fareja e ergue a pata. Uma voz — idosa, feminina — arrulha para ele do corredor. Uma sombra passa atrás da porta aberta; o som da barra de seda roçando o assoalho é como o de um começo de chuva. O cão sai afobado atrás dela, enquanto sua urina escorre serpenteando desde o jarro até os calcanhares cruzados do homem adormecido. O mais jovem observa o líquido, o jeito como ele atravessa a superfície irregular do parquete, o jeito como até mesmo o xixi de um cachorro está sujeito às leis inalteráveis da física...

Ele ainda está observando o líquido (nesse dia que pode ser o mais importante da sua vida ou coisíssima alguma) quando a porta do gabinete do ministro se abre com um pequeno ruído que lembra o rompimento daqueles lacres afixados nas portas das casas infectadas. Uma figura — um criado ou secretário — angular, de olhar baço, lhe faz sinal erguendo de leve o queixo. Ele se levanta. O homem mais velho abriu os olhos. Os dois não se falaram, não sabem os nomes um do outro, simplesmente partilharam três horas gélidas de uma manhã de outubro. O homem mais velho sorri. É a expressão mais resignada, mais elegante do mundo; um sorriso que brota como a flor de uma vasta erudição inútil. O mais jovem assente, depois passa, rapidamente, pela porta entreaberta do gabinete por medo de que ela novamente se feche, deixando-o de fora, repentina e eternamente.