Puro

Andrew Miller · Capítulo 29 de 48

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Puro

Capítulo III

 

Logo os vizinhos despertam e correm para ver a cena, que não mais é de morte, mas de romance.

Cadet de Vaux, Mémoire Historique et Physique

sur le Cimetière des Innocents

A princípio, a escuridão não permite ver ou entender o que o cerca. Não há senão a descida, a sensação dos degraus sob os pés. Então, uma luz suave e rósea, um corredor estreito, uma mesa onde há uma latinha e uma sineta. Uma mulher se senta atrás da mesa. Ela não o encara, mas sabe que ele está lá. Toca a sineta e, embora não se ouça qualquer som discernível, a cortina no final do corredor é imediatamente afastada. Um homem sorri para ele, faz sinal com a cabeça para que se aproxime...

Estão em um corredor. De cada lado, cortinas drapeadas escondem o que supostamente são entradas para quartos. Diante de um deles — cuja cortina foi imperfeitamente fechada — ele para e espia, embora talvez não seja, com efeito, um quarto. As paredes parecem feitas de terra negra prensada. As dimensões são incertas, assim como o número de pessoas lá dentro, homens, mulheres e crianças, sentados, agachados, deitados. Todos se viram para olhá-lo. Há alguma coisa ardente nesses olhares. Ardente, atônita, indiferente. Ele lhes dá as costas. Tem medo de que um deles comece a falar, lhe dirija a palavra, saiba seu nome...

O guia aguarda no final do corredor. Mais uma cortina. Gestos delicados que sugerem um convite. Ele entra, o guia logo atrás. O que quer que aconteça, acontecerá ali e agora. Os dois se encontram, ao que tudo indica, no quarto dele na casa dos Monnard, ou num lugar semelhante, pois não há janelas e as paredes são nuas. A luz vem de uma única vela grande sobre a mesa. Um homem está deitado na cama. Veste apenas uma camisa, cujas fraldas lhe chegam aos joelhos. Os olhos estão abertos, mas os lábios foram desajeitadamente costurados com linha preta.

O guia pega a vela na mesa e se aproxima da cama. Não leva mais que um instante, diz ele. Temos de liberar o flogisto, o agente de transformação. O destruidor de impurezas.

Ele se inclina e, como se derramasse algo precioso no ouvido do homem na cama, encosta o pavio da vela em seu cabelo, que imediatamente se inflama, queimando como grama seca. Então, as chamas se espalham pelo rosto do homem, lhe envolvem a garganta, descem até a pele do peito, do torso. Como é possível um corpo arder assim? Um homem não deveria queimar como papel! O que foi feito? Que método é esse?

Em seu invólucro de chamas, o corpo começa a se mexer. Um braço, uma perna. O torso se ergue — flutua! — dos lençóis que ardem. A linha que unia os lábios foi rompida. A boca se abre. Urra, urra...