Puro
Capítulo 8
Ela se recusa a lhe dar qualquer garantia. Vai pensar no assunto. É um grande passo. Vai pensar nisso e lhe mandar um recado. Seria bom, sugere, que ele fizesse o mesmo enquanto isso. Que pensasse se de fato quis dizer o que disse. De verdade.
Durante quase uma semana, ele se vê num estado de intensa incerteza. No quinto dia — na quinta noite —, de repente lhe brota a certeza de que não há de acontecer. Esse é o seu instinto, seu momento de estalo. Não vai acontecer, não pode acontecer. O mais provável é que ela ouça semanalmente meia dúzia de homens lhe proporem morar com eles, homens que confundem luxúria com algo mais terno, algo que nada tem a ver com a atividade que ela pratica. Ela é dura, precisa ser: racionalmente, tal conclusão se impõe. Ela é dura, oca. Ou é boa, infinitamente generosa, e não aceitará a proposta para o bem dele. Um homem instruído, um profissional que evidentemente busca ascender no mundo, para o qual se unir a uma mulher como ela equivaleria a ser condenado publicamente ao ridículo, à ignomínia. Um aristocrata como o Conde S. poderia se dar a esse luxo, como também alguém de menor importância, alguém que já alcançou tudo que é capaz de alcançar e pouco tem a perder com a falta do próprio nome. Para ele, porém — que nem é grande nem pequeno —, trata-se de uma impossibilidade. E ela entendeu e optou, em detrimento do próprio conforto, por protegê-lo da própria loucura.
Ele anseia poder conversar com alguém. Jamais se sentiu tão estranho a si mesmo, como se a vida fosse uma sala onde todos os objetos familiares tivessem sido substituídos por meras imitações. Deve falar com Armand? Mas Armand será veemente demais, demasiado contrário ou a favor, frívolo demais. Guillotin? Guillotin há de escutar, há de, com a experiência de tantos anos, olhar para o assunto com uma visão abrangente. Uma visão médica? Não é improvável. Talvez seja a visão correta. Ele não está bem! Não está bem nem é ele mesmo. Não como deveria.
Encontra o médico no meio de uma manhã amena sentado num tamborete na oficina dos médicos, polindo um dos crânios dos órfãos. Ao ver aquele pobre objeto luzidio na palma da mão do médico, a ideia da confissão imediatamente se evapora. Em vez disso, os dois falam sobre os ossos da cabeça. Frontal, parietal, occipital. De como, nas crianças e nos adultos jovens, os vários ossos ainda não se fundiram e de como isso é necessário no momento do nascimento, quando o crânio se sujeita a uma enorme pressão ao passar pelo canal de parto.
— Eles são perfeitos — diz o médico, passando o crânio para Jean-Baptiste. — Não se partem como melões. Não se quebram como bolas de vidro.
Ele se levanta para examinar o ferimento do engenheiro, afastando com cuidado o cabelo recém-crescido, e se declara satisfeito com a aparência da cicatriz.
— Você continua sem apresentar outros sintomas, além das dores de cabeça?
— Eu... — começa Jean-Baptiste, mas depois dá de ombros. — Estou como o senhor vê. E gostaria, finalmente, de saber seus honorários. Pelos seus serviços. Pela generosidade de cuidar de mim. Jamais lhe agradeci como devia.
O médico descarta a proposta com um gesto.
— A menos, meu caro engenheiro, que tenha mudado de ideia quanto a me deixar sua famosa cabeça.
Está voltando do cemitério ao final da tardinha quando um rapaz, cuja sombra se inclina de encontro à sombra do muro do cemitério, dá um passo e lhe corta o caminho. É o rapaz mudo, o que o ajudou a carregar seu baú na noite em que se mudou para a casa dos Monnard. Está com a mão estendida, e, no primeiro momento, Jean-Baptiste acha que é para lhe pedir alguma coisa, que ele se inclinou para esmolar, mas, na verdade, o rapaz quer lhe entregar alguma coisa, um pedaço de papel dobrado. A claridade — desde que se vá até o meio da rua — é suficiente apenas para ler o bilhete contido no papel. É muito curto. “Aceito a proposta se ainda for válida.”
Ele não tem nada em que escrever. Ao rapaz ele diz:
— Você pode se fazer entender por sinais?
O garoto assente.
— Então, volte até a mulher que lhe deu isso. Diga que ela venha amanhã. Às três da tarde. Agora me mostre como vai fazer.
O rapaz lhe mostra. Para Jean-Baptiste, a mensagem parece totalmente clara. Ele dá uma moeda ao garoto.
— Vá. Encontre-a ainda esta noite.