Puro

Andrew Miller · Capítulo 20 de 48

Páginas do PDF

Puro

Capítulo 5

 

Segundo dia: o trabalho segue pesado há uma hora, quando a concentração do engenheiro é quebrada por um assovio estridente. Ele se vira e vê Armand, que o chama, com um aceno, à igreja. Armand diz que três homens desejam lhe falar.

— Na igreja?

— Na igreja.

— Você os conhece? — indaga Jean-Baptiste.

— Nunca vi nenhum dos três — responde Armand, acertando o passo com o do engenheiro.

Os homens estão de pé na nave, ao lado de uma coluna da qual os restos de um chapéu com aba larga de cardeal pendem como um prato de sopa santificado. Um dos homens é Lafosse. Os outros dois são desconhecidos.

— Monsieur — diz Jean-Baptiste a Lafosse. Os outros simplesmente ficam parados, sorrindo de leve. Jean-Baptiste apresenta Armand.

— Um organista? — pergunta um dos desconhecidos. — O senhor decerto toca Couperin, não?

— Toco todos eles — responde Armand.

— Eu gostaria de ouvir alguma peça — diz o desconhecido —, antes que o órgão seja desmantelado. O Parnassus, talvez.

— Só a música é imortal — observa Armand.

— Esses homens — intervém Lafosse, fixando o olhar em Jean-Baptiste — são médicos. Irão conduzir certas investigações. Você deverá lhes prestar toda a assistência.

— Uma exumação dessa proporção — emenda o admirador de Couperin, um cavalheiro de aparência próspera e elegante, de uns cinquenta anos — é algo extraordinário. Cada estágio de decomposição será aparente, até o derradeiro punhado de terra.

— Historicamente, a jornada do homem — começa seu colega, um sujeito mais anguloso, de constituição mais leve — tem sido medida do momento do seu nascimento ao momento da sua morte. Do primeiro ao último suspiro. No entanto, graças às lâminas afiadas de nossos anatomistas, temos agora um bom conhecimento daqueles meses em que permanecemos invisíveis dentro de nossas mães. Seu trabalho aqui, monsieur, nos permitirá obter uma visão bastante completa do nosso destino após o acontecimento que chamamos de morte.

— Nosso destino físico — acrescenta o outro num tom divertido, indicando com um gesto o local em que, na penumbra, o altar se destaca.

— É verdade, é verdade — concorda o colega. — Quanto ao restante, temos de confiar na sabedoria da Madre Igreja.

— Providencie um lugar para eles — diz Lafosse. — Um lugar onde possam trabalhar sem serem perturbados.

De um ponto muito acima de suas cabeças vêm alguns ruídos ligeiros, nitidamente de locomoção, que podem não significar outra coisa senão o movimento dos pássaros que fazem ninho ali, mas Jean-Baptiste troca olhares com Armand e rapidamente se oferece para ajudar os médicos com o que precisarem. Não tem a menor vontade de ouvir a voz de Père Colbert trovejar acima de sua cabeça novamente, ouvi-la deixar bem claro quão pequeno é o seu controle aqui.

— Então, esta conversa está encerrada — diz Lafosse, que se vira, inseguro, como a procurar a saída.

— Sou o dr. Thouret — apresenta-se o mais leve dos dois desconhecidos, percebendo, finalmente, que não haverá apresentações por parte do emissário do ministro. — Meu colega aqui — prossegue, indicando o outro desconhecido, que sorri educadamente — é o dr. Guillotin.

Depois do almoço, seguindo instruções de Jean-Baptiste, os homens montam uma grua com três hastes fortes amarradas, uma roda e um pedaço de corrente. Providenciam, ainda, um berço de lona que será preso à extremidade da corrente, e duas escadas com degraus largos e firmes. O fogo é atiçado, e o trabalho recomeça.

Com seu fio de prumo, Jean-Baptiste mede a profundidade da cova. Um pouco mais de treze metros. O muro ósseo logo estará alto demais para que seu topo seja alcançado. Tal profusão seria menos perturbadora caso, na noite anterior, ele não tivesse recebido uma comunicação vinda da Porte d’Enfer informando-o da ocorrência de uma enchente provocada por uma nascente não cartografada, o que implica dizer que vai demorar um pouco para que tudo esteja pronto para aceitar qualquer material de Les Innocents. Nada indica se essa demora será de dias, semanas ou meses. Ainda que sejam apenas algumas semanas, nesse ritmo o cemitério se tornará um labirinto. Os homens se perderão uns dos outros em corredores de ossos.

Os grupos — cavadores, coletores, empilhadores — passam por rodízios a intervalos de uma hora. É evidente que ninguém deve ser deixado mais que duas horas no fundo da cova. Próximo ao fim da tarde — o dia foi daqueles em que a luz briga para se impor, para convencer —, um dos homens, subindo a escada ao final de seu turno, faz uma pausa, perde o equilíbrio no degrau e cai de costas. Felizmente, não desaba sobre a cabeça dos colegas e é içado para a superfície no berço de lona.

— É Block — diz Lecoeur, ajoelhando-se ao lado dele. — Jan Block.

A céu aberto, Block desperta, olha à volta e, ainda muito pálido, se põe de pé.

— Deixe que ele vá para a barraca, se quiser — sugere Jean-Baptiste. Já ouviu alguém resmungar a expressão “sufocação por gás”. Todos a conhecem, e, em Valenciennes, todos já viram ou sabem de alguém que viu um homem se asfixiar em algum elemento não detectável. É absurdo, claro, supor que isso possa existir na cova, mas mesmo assim ele decide fazer uma pausa no trabalho e deixar a garrafa passar de mão em mão. Os homens olham para ele, que vê em seus olhares algo que não é capaz de rotular. Passados quinze minutos, ele manda um novo grupo descer.

Entre os objetos encontrados hoje na cova se incluem: uma moeda verde do reinado de Carlos IX; um pedaço de armadura para pescoço, enferrujado, mas reconhecível; um anel com uma cruz gravada — sem valor; mais botões; a lâmina de uma faca — por quê? Para serem usados no outro mundo? Um estranho pedacinho de vidro colorido, em forma de coração, bem bonito.

Este último, o engenheiro limpa na água quando vai lavar as mãos à noite e, por um impulso qualquer, ou simplesmente por não saber que destino lhe dar, ele o presenteia a Jeanne, que o aceita com um sorriso solene nos lábios.