Puro
Capítulo 11
Em Les Innocents aumenta consideravelmente o número de ratazanas. Ratazanas visíveis. Na opinião de Guillotin, elas estão partindo. Os homens arrumam gatos. Cada barraca conta com pelo menos um, embora nem mesmo Lecoeur saiba como foram conseguidos. Talvez com as mulheres das noites de sábado, as suas teteias. Às vezes, o engenheiro tem a impressão de flagrar Ragoût no meio do bando, patrulhando ao crepúsculo, mas, visto de longe, um gato se parece muito com qualquer outro. À noite, os animais travam batalhas épicas. Um gato é morto, mas isso também acontece com uma quantidade enorme de ratazanas. Seus corpos, inteiros ou em pedaços, são encontrados na grama crescida ou deixados como troféus nos degraus das sepulturas.
Uma nova cova — a de número quatorze — é aberta nas proximidades do ossuário sul. Além disso, o engenheiro decide perfurar a primeira das criptas privadas. Reúne uma pequena equipe — Slabbart, Biloo, Block, Everbout —, a qual leva ao ossuário oeste, sob as janelas da rue de la Lingerie. Começarão pela da família Flaselle, lacrada em 1610. Com cinzel e marreta, eles quebram a argamassa, afrouxam a lápide e depois inserem por baixo dela uma barra de ferro com a extremidade em forma de cunha para forçar o deslocamento da pedra. Baixam uma escada, que mal alcança o fundo. A cripta, ao que parece, tem dimensões aristocráticas. Jan Biloo é o primeiro a descer. Durante o caminho, seu lampião começa a bruxulear. Próximo ao final da descida, ele se apaga. Gritam para Biloo; ele não responde. Jean-Baptiste e Jan Block descem para resgatá-lo. Prendem a respiração como mergulhadores em busca de mariscos. Encontram o mineiro pelo tato, arrastam seu peso morto escada acima até Everbout e Slabbart se incumbirem de segurá-lo. O homem volta a si quase imediatamente, mas, junto com o engenheiro e Jan Block, demora alguns minutos acocorado na grama do lado de fora do ossuário, cuspindo e inspirando ar fresco.
Mais tarde, na cozinha do coveiro, Jean-Baptiste faz esboços de equipamento para respiração — máscaras com filtros feitos de lã de ovelha ou pó de carvão. Pensa, também, em algo mais completo: um capuz fechado com um cano de ar e algum tipo de válvula-tranca para permitir que o ar seja expelido. Tenta despertar o interesse de Lecoeur nessas ideias, mas a cabeça de Lecoeur está noutro lugar.
— Monsieur Lecoeur anda exausto — diz Jeanne, talvez de forma mais incisiva do que pretendesse. — Todos estão exaustos.
Ele assente. Ela já sabe de Héloïse Godard, é claro; o bairro todo sabe, embora só Armand aborde o assunto abertamente. Dobrando o esboço, o engenheiro o guarda no bolso.
Lecoeur sorri, distante, para ambos.
— Nós, os Lecoeur — começa —, nós, os Lecoeur...
Então, dá de ombros e se vira para olhar novamente pela janela.