Puro

Andrew Miller · Capítulo 28 de 48

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Puro

Capítulo 13

 

No cemitério de Les Innocents, à luz perolada das oito da manhã, os mineiros estão reunidos no portão que dá para a rue aux Fers. A maioria, talvez encorajada pelas prostitutas, se esforçou para melhorar a aparência, para parecer mais com súditos de Luís XVI e menos com homens que içam da terra ossos, caixões e moças miraculosamente preservadas. Paletós foram escovados, e a lama, sacudida das botas. Alguns chegaram a se lavar e desembaraçar as barbas. Três dos mais jovens — de pé, eles formam o grupo mais próximo ao portão — montaram guirlandas de grama trançada para ornamentar a aba dos chapéus. Outros, vistos de perto, ostentam objetos usados, no passado, para enfeitar os mortos, berloques pescados na terra úmida ou permutados à noite na privacidade das barracas. Um sujeito de olhar cristalino e tranquilo, as costas mais eretas que as dos demais, ostenta um par de anéis sugestivos: Respice finem, numa das mãos, Mens videt astra , na outra, o metal esverdeado envolvendo a primeira falange de um dedo que só tem duas.

Há muito todos já comeram seu pão e tomaram seu café. Empilharam lenha no local da fogueira, junto à cruz do púlpito, fogueira essa que será alimentada por outros durante a sua ausência Estão prontos agora. Estão inquietos.

Do lado de fora da casa do coveiro, Lecoeur consulta o relógio, faz caretas e resmunga baixinho. Justo nessa manhã particularmente inconveniente Baratte resolveu dormir além da hora. Claro que no conforto de seus aposentos deve ser muito fácil esquecer os companheiros, aqueles que moram cá embaixo. Os homens, porém, decerto não hão de gostar dessa perda de tempo. Ele mesmo não há de gostar, aliás. Cinquenta gotas do remédio ontem à noite! Ao menos cinquenta, e Deus sabe quanta bebida para acompanhar, mas, ao contrário de prover uma noite de sono restaurador, a droga serviu apenas para torná-lo um estranho para si mesmo. Foi como — de que maneira descrever? — se ele, Lecoeur, não passasse do corpo de Lecoeur, um invólucro de carne, e uma outra coisa, uma inteligência invasora, estivesse enraizada em seu âmago, animando-o, orientando suas ações. Será que o verdadeiro Lecoeur tomara a decisão de sair no meio da noite? Será? Não acreditava nisso, mas, ainda assim, saíra, vestido apenas com a camisa de dormir, tomara o rumo da oficina dos médicos e lá abrira a tampa do caixão e contemplara Charlotte, à luz de uma vela acesa surgida como que por mágica em sua mão. Uma excitação tremenda! Uma enorme tensão no coração. E aparentemente nos dentes também, pois, a julgar pela dor nas mandíbulas, ele passara horas trincando-os com furor...

Ouve passos atrás de si, passos leves. Vira-se e vê Jeanne, com um xale em volta dos ombros, saindo da casa para juntar-se a ele. Ela sorri, bonita como sempre, mas não está hoje corada como de hábito, com sua costumeira vivacidade.

— Estranho ele não ter aparecido — observa a moça.

— Talvez tenha bebido além da conta ontem à noite — replica Lecoeur.

— Não acho isso provável — diz ela, com certa rispidez.

— Não, não — insiste Lecoeur. — Provavelmente surgiu algum imprevisto profissional. Um encontro com o tal de Lafosse, quem sabe. O representante do ministro.

Ela assente.

— Você também vai sair hoje?

— Acredito que sim — responde Lecoeur. — Monsieur Saint-Méard me convidou para ir com ele e alguns amigos numa espécie de excursão. Não me disse exatamente do que se trata.

— Vai ser agradável, garanto — diz ela. — Você está com a chave?

Ele mostra uma velha chave que tem na mão.

— Acho que Monsieur Baratte gostaria que você os deixasse sair — observa Jeanne.

— Você acha?

— Por que não?

— Creio que você tem razão. — Ele olha para os homens, abre um meio sorriso e depois torna a olhar para a moça. — Vamos fazer isso juntos? — indaga.