Puro

Andrew Miller · Capítulo 11 de 48

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Puro

Capítulo 10

 

Quão difícil é encontrar trinta homens? Não é difícil, numa época dessas. Mas o que dizer de trinta homens satisfatórios, capazes de dar conta do trabalho?

Jean-Baptiste já se decidiu sobre onde procurá-los: nas minas em Valenciennes. Lá, recebendo salários de fome, estão homens habituados ao tipo de trabalho que mataria outros em menos de um mês.

Escreve para Lecoeur. Lecoeur é — ou foi — um dos administradores do veio norte. No período em que Jean-Baptiste trabalhou nas minas, os dois, isolados de toda a sociedade, meio escondidos naquele bolsão úmido e remoto no norte da França, os nervos tensos devido à fumaça, ao barulho das ferramentas, à eventual selvageria do local, forjaram uma espécie de pacto, uma intimidade, embora tudo isso tenha cessado após a partida de Jean-Baptiste.

Era hábito de ambos, sobretudo durante o primeiro inverno interminável, inventar utopias nas quais tudo que lhes ofendia os ouvidos, os olhos e o coração jovem tornava-se bom em sua imaginação. A criação predileta de ambos, a mais detalhada e satisfatória, era Valenciana. Em Valenciana, a economia e a moral, a virtude e o trabalho se entrelaçavam para o bem e o aperfeiçoamento de todos. Havia praças com casinhas simpáticas para as famílias, blocos de dormitórios para os homens solteiros, parques onde o ar era limpo e as crianças podiam brincar como fazem as crianças, brincar e talvez crescer menos malformadas que os próprios pais. Em Valenciana, ninguém menor de doze anos seria obrigada a entrar numa mina. Ninguém com menos de dez anos seria empregado na superfície para empurrar carroças ou desempenhar outras tarefas pesadas, incompatíveis com a sua tenra idade. Haveria escolas geridas por homens bons e instruídos — homens como Jean-Baptiste e Lecoeur. Não existiriam igrejas em Valenciana (assunto que gerou acalorada discussão certa noite), embora nos espaços abertos pudessem figurar estátuas de deidades clássicas, como Atena, Apolo e Prometeu, mas não de Dioniso ou Afrodite. Por insistência de Lecoeur, também não haveria lugar onde os homens pudessem se reunir para consumir bebida alcoólica. Era mais que um jogo. Os dois chegaram a discutir a possibilidade de apresentar Valenciana ao mundo na forma de um livro e, ao menos durante uma noite, partilharam um sonho quase real de entrarem, os dois, tímidos, porém seguros, nos salões da capital.

Estaria Lecoeur ainda trabalhando nas minas? Teria interesse no Les Innocents? A carta é enviada no coche do meio-dia para Lille, em 7 de novembro de 1785.

Ao indagar sobre cavalos, Jean-Baptiste é discretamente orientado a procurar um jovem oficial, com quem se encontra numa estalagem ao lado da fábrica de porcelana Sèvres, na estrada para Versalhes. O jovem oficial, ao que tudo indica, fornecerá tudo. Não é preciso limitar-se a cavalos.

Em seu casaco azul e culote cor de creme (e como são compridas as suas pernas!), o jovem, que atende pelo nome de Louis Horatio Boyer-Duboisson, dá a impressão de se sentir muito à vontade no mundo. Menciona de passagem o pai, uma propriedade em Burgundy. Parece saber mais sobre o trabalho de Jean-Baptiste do que Jean-Baptiste se recorda de ter lhe contado. Será ligado ao ministro? A Lafosse? Haverá algum arranjo circular que possibilite canalizar os recursos do estado de volta ao estado ou, ao menos, a seus representantes? Os dois combinam um novo encontro para dali a uma semana para que Jean-Baptiste veja uma amostra dos animais. Cumprimentam-se com uma leve reverência, e, embora não aprecie nem ache confiável o soldado, que o faz lembrar-se de um jovem Conde S., o engenheiro não consegue se impedir de desejar um tantinho ser o soldado, vestir a vida como uma boa camisa e poder, se o tempo melhorar, cavalgar pelos campos e rios da propriedade do pai em Burgundy.

O tempo não melhora. As nuvens se enroscam nas chaminés de Paris. O vento vem do leste. Lá pelo meio da tarde, na maioria dos dias, já está escuro demais dentro de casa para ler com conforto.

Diariamente Jean-Baptiste se obriga a entrar no cemitério, a caminhar entre seus muros, às vezes sozinho, às vezes na companhia da garota, que fala dos mortos sob os pés de ambos como se falasse de uma grande família estendida, chegando a fingir ser capaz de identificar muitos dos ossos espalhados pelo terreno — o maxilar pertencente a uma Madame Charcot, o fêmur de um Monsieur Mericourt, um veterinário que morreu de gripe.

Da sua parte, Jean-Baptiste prefere não pensar que os ossos têm donos e nomes. Se começar a tratá-los como ex-pessoas, veterinários, mães, ex-engenheiros talvez, onde achará audácia para enfiar uma pá na terra e separar por toda a eternidade um pé de uma perna, uma cabeça do seu devido pescoço?

Na rue de la Lingerie, suas noites com os Monnard se revelam menos desprovidas de prazer do que ele antecipara de início. Com Monsieur Monnard, ele conversa, de forma vaga e cuidadosa, sobre política. Impostos, escassez, as finanças nacionais. Monsieur Monnard, como seria de esperar, não é um liberal. Fala superficialmente de Voltaire, de Rousseau, de ideias sonhadoras, dos salões, dos tumultos. Mostra-se a favor da ordem. Firmemente imposta, se necessário. Também aborda os negócios, a respeitabilidade dos lojistas. Em resposta, Jean-Baptiste se limita a fazer comentários gerais sobre a conveniência de reformas, o tipo de observação que não perturbaria senão o mais aristocrata dos reacionários; como é preciso, de alguma forma, tornar as coisas melhores e mais justas, embora ele não saiba, na prática, de que maneira fazê-lo, salvo mediante alguma forma de radiação intelectual. Saberá alguém? Quase menciona, numa dada noite, sua velha utopia, Valenciana, mas morde a língua a tempo. Não se pode esperar que um homem como Monnard, que só lê o jornal, entenda, e, de todo modo, as lembranças daquelas noites junto ao calor jamais completamente adequado e provido por carvão na sala de Lecoeur não deixam de soar um tanto constrangedoras. Aquela versão mais jovem, mais loquaz dele próprio, as cabeças de ambos juntas em confabulações em meio às sombras do aposento, a estranha urgência da coisa toda...

Com Madame Monnard, Jean-Baptiste discute os caprichos do tempo. O vento soprou mais forte hoje? Fez mais frio de manhã ou à tarde? O que Monsieur Baratte acha da possibilidade de nevar? Ele gosta de neve? De qualquer tipo de neve?

E tem Ziguette. As conversas com Ziguette — às vezes, à mesa, às vezes, no canapé junto à lareira ou sentados próximo à janela que dá para o cemitério — exigem mais esforço. Ele tenta falar de música, mas ela conhece o assunto ainda menos que ele, jamais ouviu o nome de Clérambault ou de alguém da família Couperin. Teatro é outro tópico infrutífero — nenhum dos dois domina suficientemente o tema —, e, quanto a livros, é evidente que a moça não faz mais uso deles que os pais. Ele indaga sobre a história dela; o tópico parece entediá-la. Ela quer saber sobre o trabalho dele, o que o obriga a ser evasivo. Ele se pergunta se ela está apaixonada, não por ele, claro, mas por alguém. Pergunta-se se a deseja. Não tem muita certeza. Seu interesse nela não parece mais marcante do que o seu interesse na criadinha de braços cabeludos que serve o jantar. Quanto a casamento... Será que ele poderia? A filha — a filha muito bonita — de um lojista bem-estabelecido em Paris seria considerada pela maioria um bom partido, um partido que traria vantagens para ambas as partes. Às vezes, enquanto conversa com ela, Jean-Baptiste conduz experimentos reflexivos nos quais os dois estão numa sala, num cabriolé, num leito de dossel, com o hálito dela suavizado depois da erradicação do cemitério promovida por ele e com parte do dinheiro do sogro trancado num baú sob a cama... Esses pensamentos não são desagradáveis, embora as imagens sejam diáfanas como nuvens. Nada disso convence.

A comida dos Monnard continua impalatável como sempre. Até mesmo uma torta de maçã consegue fazê-lo lembrar-se daqueles pequenos cogumelos prateados que crescem nos cantos mais úmidos de um porão. Apesar disso, ele sempre limpa o prato, prática essa que, em parte, lhe foi incutida na mais tenra infância pelas costas da mão do pai e mais tarde consagrada pelas varas e punições dos irmãos da Ordem Oratoriana em Nogent. Em parte, porém, depois de quase cinco semanas na casa, ele simplesmente vem se habituando, se habituando a tudo. E, quando acaba o jantar, recolhe-se ao quarto, ao banyan e a uma ou duas páginas de Buffon. Então, deita-se, apaga a vela e recita o catecismo de sempre. Não se indaga se está feliz ou infeliz. A pergunta é adiada. No céu da boca, tem agora um par de úlceras, que, deitado no escuro, ele explora com a ponta da língua. Será que o seu hálito apodreceu? Conseguirá descobrir se tiver acontecido? Não lhe ocorre, por mais que se esforce, uma pessoa com quem possa sanar essa dúvida.

No dia 15, ele volta a se encontrar com Louis Horatio Boyer-Duboisson. Começa a escurecer, e os dois estão num terreno atrás da estalagem onde se viram da última vez. Os cavalos — cinco — perfilam-se sob a chuva fina, suas rédeas seguras por dois soldados que, em seus uniformes malcortados, mais parecem duas crianças.

Jean-Baptiste circula em torno dos cavalos e depois pede que os façam circular à sua volta. O pai tinha bom olho para cavalos. Quem sabe o dom não lhe foi passado geneticamente? No entanto, de pé ali sob o chuvisco, ele sente que apenas imita a postura do pai, imita aqueles pequenos movimentos de olho e boca que indicavam avaliação.

— Não vou pagar por nenhum que manque ou esteja doente.

— Naturalmente — concorda o oficial. — Quem pagaria?

— E você vai mantê-los no estábulo até que eu precise deles?

— Estarão à sua espera.

Os jovens soldados são deixados na chuva enquanto Jean-Baptiste e Boyer-Duboisson se dirigem à estalagem para concluir o negócio. Pedem uma sala privada e são atendidos. Jean-Baptiste dá um sinal de cem livres. Pede recibo. O oficial ergue uma sobrancelha e depois sorri como se recordasse com quem está lidando, que classe de homem. Os dois tomam um copo de vinho de sabor indiferente e depois caminham até onde estão os cavalos e os meninos-soldados reunidos, mais parecendo uma única criatura complexa vestindo um casaco de chuva cinzenta.

Chegam duas cartas, que são entregues a Jean-Baptiste por Marie, na escada. Ela tem um pequeno, porém eficaz, leque de expressões faciais, todas elas ligeiramente perturbadoras.

Ele agradece e se retira para o quarto com as cartas. No canto da primeira, vê a impressão de um polegar sujo de fuligem. Rompe o lacre. É de Lecoeur. A caligrafia, salpicada de borrões de tinta e dando a impressão de ter sido feita a toda disparada e sobre o lombo de um cavalo, é parcialmente ilegível, mas o teor é claro o bastante. Que prazer receber notícias do velho amigo! A vida nas minas é tão desagradável quanto sempre foi, só que agora sem o consolo de uma companhia inteligente. Os novos administradores — ninguém dura muito mais de um ano — têm uma instrução reles, estritamente comercial, enquanto os mineiros e suas esposas aterrorizadas continuam a viver como cães semidomados. Quanto a contratá-los, continua a haver o habitual excesso de trabalho e uma extrema dificuldade a envolvê-lo. Trinta homens — ou sessenta — não serão difíceis de obter. Que projeto é esse, tão sedutoramente vago? E ainda por cima em Paris! Acaso Jean-Baptiste não necessitaria também de alguém que conheça os homens, alguém capaz de orientá-los com eficiência em suas tarefas? Alguém consciencioso, discreto? Um colega filósofo, por exemplo?

A outra carta, em bom papel e com uma caligrafia irrepreensível, vem de um tal De Verteuil, da Academia de Ciências. O assunto diz respeito a certos preparativos em curso numa pedreira próxima à Porte d’Enfer, ao sul do rio, para a recepção dos restos retirados da igreja e do cemitério de Les Innocents. Adquiriu-se uma casa na qual as escadas do porão dão acesso ao velho canteiro de obras e que tem no jardim um poço cuja circunferência ultrapassa três metros, e se esvazia também no terreno da pedreira, um local apropriadamente seco e bastante adequado à finalidade pretendida. Quando tudo estiver pronto, o bispo há de consagrar os corredores e câmaras pertinentes. Isso feito, o sr. Engenheiro estará liberado para iniciar os primeiros traslados. O sr. Engenheiro faria a gentileza de enviar sua estimativa sobre o número de ossos que espera encontrar?

Jean-Baptiste dobra a carta e a guarda entre as páginas do caderno. O número de ossos? Não faz a mínima ideia.