Puro
Capítulo 9
Sete da manhã. Geou nos tijolos do ossuário. Um sol branco se espreme entre duas casas da rue Saint-Denis.
— Ouvi mulheres rindo — diz ele a Lecoeur. — Uma, pelo menos.
— Hummm — responde Lecoeur, que hoje está usando seu colete grosso de tricô. — É. Não podemos esquecer que o nosso patrão tem uma visão perfeita da gente e pode nos espionar a seu bel-prazer.
— Eu não estava espionando — atalha Jean-Baptiste. — Não tenho o hábito de espionar.
— Não? Como você gostaria que chamássemos o que você faz olhando para cá do alto do seu cantinho no céu?
— O que eu gostaria era de não encontrar você bêbado já de manhã.
— Bêbado? Está bem. Agora você resolveu me difamar. E se eu estivesse... se eu estivesse bêbado, como você diz? Acaso não seria compreensível? Você escapa toda noite, enquanto eu preciso continuar cercado de covas e ossos. É intolerável!
— Preferia estar em Valenciennes?
— Já queimei todas as minhas pontes por lá, monsieur. E em seu benefício. Para que você possa alimentar os cisnes em Versalhes na companhia dos poderosos!
— Eu não alimento cisne algum! E jamais vou a Versalhes. Vou para aquela casa ali. E dali não passo. Na companhia de gente que não consigo entender.
O tom de ambos cresceu quase a ponto de virar uma gritaria. Cada um está levemente ciente de ser observado, ouvido.
— Mas sinto muito — desculpa-se Jean-Baptiste, alarmado de se ver, de repente, à beira das lágrimas. — Sinto muito por você achar isto aqui... intolerável. Mas sempre foi livre para ir e vir. Sabe que na casa do coveiro há chaves para todas as portas. Se quiser, saia agora mesmo. Dê uma volta pela cidade. Posso dar conta de tudo por aqui. E... você podia ir jantar comigo na casa dos Monnard. Eu estava mesmo para lhe fazer esse convite. Garanto que o meu senhorio terá muito prazer em conhecê-lo. Venha esta noite, se quiser.
— Esta noite? — Lecoeur dá um passo adiante, resmungando algo acerca de perdão, acerca do doce bálsamo da amizade. Tenta abraçar Jean-Baptiste, mas o engenheiro, que não tem o menor desejo de ser abraçado por Lecoeur, recua, e, durante alguns instantes, enquanto um avança e o outro tenta se esquivar, a dupla parece dançar.
— Você ainda não me falou sobre as mulheres — observa Jean-Baptiste, levando ambos a se deterem junto à beirada da segunda cova.
— As mulheres? Meia dúzia de teteias, das mais ousadas destas bandas. Subiram no muro com a ajuda de uma escada. Nossos homens providenciaram os meios para que descessem deste lado. Não interferi. Em consequência, você vai ver que o moral deles melhorou muito. Os cemitérios já foram, é claro, muito frequentados por esse tipo de mulher.
— Você as viu?
— Os vultos. A uma certa distância.
— E nenhuma delas... nenhuma delas pareceu se destacar de alguma forma?
— Eu diria que todas eram do mesmo tipo. Assíduo. Imemorável.
— Jeanne as viu?
— Nós as vimos juntos. O espetáculo, aparentemente, a deixou animada.
— Talvez ela as conheça.
— Saiba seus nomes, você quis dizer?
— É.
— Não faço ideia.
— Isso não pode acontecer todas as noites — avisa Jean-Baptiste. — Deve haver... deve haver regras. Elas podem vir numa noite estipulada. Aos sábados, por exemplo. Vão entrar pela porta. Não precisarão de escadas.
— Mas como iremos comunicar esse arranjo? Pelo pregoeiro da cidade?
— Por Monsieur Saint-Méard. Ele há de conhecer ao menos uma delas. Uma já basta.
— Será um novo papel para nós — diz Lecoeur.
— Papel?
— Existe um nome para isso, não é mesmo? Para quem toma esse tipo de providência.
Com um rápido aperto de mão os dois se despedem — Lecoeur toma a direção das latrinas, Jean-Baptiste, a da casa do coveiro, onde Jeanne, Lisa Saget e a menina, Natalie, estão ocupadas à mesa da cozinha. Devem ter assistido, da janela, ao seu estranho encontro com Lecoeur, mas nada comentam. Ele anseia por perguntar a Jeanne sobre as mulheres, as teteias, sobre a altura delas e a cor do cabelo, embora já tenha, mentalmente, imaginado Héloïse subindo por uma escada encostada ao muro do cemitério. Descartou essa imagem, contudo, por não considerá-la mais provável do que a da moça abrindo a capa e alçando voo por sobre o muro.
Junto ao fogo, na cozinha, há agora duas cadeiras. A do coveiro está vazia; a outra, ocupada por Jan Block, os ombros curvados sob um cobertor, os olhos encovados e opacos. Mas dá para perceber que se trata de um homem no início da convalescença. Jean-Baptiste lhe dá os parabéns. Block assente, lança um olhar na direção de Jeanne e torna a olhar para as chamas ondulantes.
— Muito bem — diz o engenheiro, falando consigo mesmo, com o ar, com quem quer que se dê ao trabalho de ouvir. — Agora vamos em frente.
Na mesma noite — embora no fundo seja a última coisa que ele deseje —, Jean-Baptiste retorna à rue de la Lingerie acompanhado de Lecoeur e o apresenta aos Monnard. Mais um lugar é posto à mesa. Lecoeur se senta em frente à Madame. Jean-Baptiste alertou-o, no caminho, para não mencionar as obras no cemitério, já que os Monnard são pessoas peculiarmente sensíveis a mudanças, tumultos. Lecoeur prometeu atender seu pedido e está cumprindo a promessa, embora fale de tudo o mais, fluente e incessantemente, como se as palavras há semanas se amontoassem dentro dele e não precisassem de mais nada além de um clima cortês e da presença de um piano-forte para sair voando de sua boca.
Monsieur Monnard, contudo, parece genuinamente interessado nas minas em Valenciennes, nos detalhes técnicos de bombas e equipamentos, enquanto Madame se mostra tocada pela descrição que o convidado faz da morte da mãe, vitimada pela hidropisia anos antes e atendida no final da agonia por Lecoeur e a irmã, Violette.
— Então, o senhor e Monsieur Baratte se entendem muito bem — observa madame. — Monsieur Baratte teve a má sorte de perder o pai numa idade em que seria de esperar ainda contar com ele. E quem pode dizer que perda é mais sofrida, se a do pai ou a da mãe? E os dois são jovens muito sensíveis, não é mesmo?
— Acredito que sim, madame — confirma Lecoeur. — A nossa amizade se baseia nos pilares gêmeos de sensibilidade e filosofia. Conhecemos os pensamentos um do outro, madame.
— Eu diria que o mesmo acontece entre mim e minha filha, monsieur. Precisamente como o senhor descreveu.
— A senhora tem uma filha? Presumi que a senhora fosse a filha — diz ele, fazendo um floreio com a mão. O punho duplo do casaco acerta a borda do copo. Marie é chamada. Ela se ajoelha e recolhe o copo quebrado com o avental.
Depois do jantar, os amigos sobem ao quarto de Jean-Baptiste. Jean-Baptiste acende o fogo na lareira. Oferece a cadeira a Lecoeur e se senta na cama, satisfeito por mostrar a Lecoeur a simplicidade de seus aposentos. Seu quarto, em tamanho e mobília, não difere muito daquele em que Lecoeur dorme na casa do coveiro. Faz alusão ao fato, alusão que é ignorada.
— Não vim para cá de mãos vazias — diz Lecoeur, tirando de dentro da camisa um embrulho amassado, o qual põe na mesa entre os dois e alisa para desamassar. O embrulho está atado com uma fita vermelha. Ele o abre e levanta a folha branca de papel que está por cima. Sob a folha há uma imagem, um diagrama complicado numa tinta desbotada, cheio de anotações. Lecoeur sorri e o entrega a Jean-Baptiste, que o examina e assente:
— Valenciana.
— Isso mesmo, Valenciana.
— Nossos velhos esboços. Você guardou tudo.
— Por acaso achou que eu poria no fogo? Agora que somos mais velhos, mais versados nas questões mundanas, devíamos revisá-los. Destilá-los.
— Devíamos?
— Veja! — exclama Lecoeur, pegando a régua de metal na mesa, segurando-a horizontalmente e a erguendo acima da cabeça, como um padre celebrando a Eucaristia. — Valenciana ressurge das cinzas!
Durante uma hora e meia — até que a vela, quase gasta, ameace deixá-los sentados no escuro — eles trocam entre si folhas e pedaços de papel em que a mera caligrafia, por vezes de Jean-Baptiste, por vezes de Lecoeur, evoca a euforia daquelas noites invernais nas minas, seis anos antes. Há cabeçalhos que dizem “Sobre a Educação Feminina”, “Sobre Combustão”, “A Esposa Ideal”, “Uma Investigação a Respeito da Religião Racional”, “Alguns Figurinos Femininos”, “A Pureza das Formas”, “Um Transporte para Mulheres”, “Projeto de uma Ponte”.
— Olhe! — diz Lecoeur. — Tínhamos até um estudo sobre o descarte de cadáveres.
— Nem me lembrava — observa Jean-Baptiste. — Não me lembrava de muita coisa.
— Foi precisamente por isso que eu trouxe — explica Lecoeur. — As primeiras ambições são as melhores. Mais tarde ficamos menos corajosos, não acha?
— Ou será que simplesmente mudamos?
— Quer dizer que amadurecemos?
— Maduros. Mudados.
— Mas esta noite tudo está como antes. Mente falando com mente, coração com coração. A fonte da juventude em nosso peito... fervilhando! Sabe o que diferencia um homem de outro? A vontade de um deles de manter-se imaculado enquanto o outro, devido a uma espécie de ócio, permite que a sua boca se encha de terra. Terra de túmulos.
Jean-Baptiste assente, indicando a vela.
— Vou acompanhar você até lá embaixo.
— Quem sabe eu fico por aqui? — diz Lecoeur.
— Acho — responde Jean-Baptiste — que seria incômodo para nós dois.
Despedem-se à porta. Trocam apertos de mão. Lecoeur, de pé na rua como a sombra de si mesmo, um espírito ao qual se exige que volte ao Hades, demora-se e suspira, antes de finalmente se virar para partir com uma relutância de dar pena.
Jean-Baptiste fecha a porta, passa a tranca e depois fica de pé um tempo no corredor, na escuridão entre a porta da frente e a da cozinha. Fez seu dever, não fez? Estendeu a mão do companheirismo, revisitou o passado, um entusiasmo ainda mais remoto do que poderia ter previsto. O que mais se poderia esperar que fizesse? Ainda assim, enquanto tateia para achar o caminho da escada, o que lhe pesa no peito inequivocamente é um sentimento de traição. Não o examina. Entrega-se à escuridão à volta e, com cuidado, sobe a escada.
Por volta da hora do almoço do dia seguinte, a segunda cova, esvaziada e preenchida, pode ser riscada da lista, e, embora não seja fácil mensurar o moral num lugar como Les Innocents, na opinião de Jean-Baptiste os homens recuperaram alguma coisa, receberam, na companhia das mulheres alegres, uma espécie de transfusão de energia. A terceira cova é delimitada a oeste da segunda, e à uma da tarde, sob uma garoa intermitente que logo se transforma em chuva constante, os homens (alguns dos quais descobriram um jeito de fumar seus cachimbos com os fornilhos virados para baixo) rasgam a terra.
Novamente os médicos estão presentes. Portam guarda-chuvas possantes para se proteger da chuva. Parecem bem confortáveis, como uma dupla de cavalheiros pescadores à beira de um lago, na expectativa de pescar um belo peixe para o jantar, embora, na verdade, tenha havido pouca coisa no cemitério para atiçar seu interesse profissional. Remexem nos ossos, passam, vez por outra, uma hora na companhia do coveiro e de seu caldeirão, elaboram esboços, tiram medidas e esquadrinham meticulosamente os ossuários, embora pudessem muito bem fazer o mesmo em qualquer cemitério antigo — Saint-Séverin ou Saint-Gervais, por exemplo. Então, pouco depois das três horas, dois caixões são içados e pousados lado a lado na grama molhada. À primeira vista, nada de óbvio os diferencia dos quarenta outros içados desde a hora do almoço. A madeira talvez esteja um tantinho menos podre, mas não há, com efeito, tempo hábil para gastar numa inspeção mais cuidadosa. Dois mineiros atacam a tampa com suas pás. Quase todos agora são especialistas nessa tarefa, a de abrir caixões como se fossem ostras. Então, ambos recuam. Um deles deixa cair a pá, que desaba, silenciosamente, na grama úmida. Dentro dos caixões estão duas jovens. Pele, cabelo, lábios, unhas, cílios . Tudo, mesmo as mortalhas de lã que as envolvem, parece apenas precisar de lavagem, algum lustro e um pouco de linha para ser restaurado.
Durante vários segundos ninguém se mexe. A chuva cai sobre os rostos das moças mortas. Então, os médicos se ajoelham e, com os guarda-chuvas a abrigá-los, de pescadores passam, de repente, a pretendentes. Conduzem seus exames preliminares. Thouret toca o cabelo cor de feno de uma delas; Guillotin, com delicadeza, afasta os lábios da outra com a ponta de um cravo de metal, um palito de prata, talvez. Os dois confabulam. Guillotin manda que os caixões sejam fechados e levados imediatamente para a oficina.
— Uma forma de mumificação — explica a Jean-Baptiste. — Uma coisa notável. Notável! Como um par de flores secas...
O carrinho de mão de Manetti é usado. Os médicos, andando cada qual de um lado, acompanham os caixões em sua viagem até a igreja e a oficina. O trabalho cessou por completo. Os homens enchem seus cachimbos. A tarde é quieta e cheira a chuva. Agora que a morte tanto se pareceu com a vida, não deveria haver alguma cerimônia para tornar decente o momento? Não seria recomendável pedir a Père Colbert para sair da igreja e fazer uma prece, espargir água benta? Mas Colbert, ainda que conseguissem encontrá-lo, surgiria no meio deles como João Batista com uma dor de dentes lancinante. Provavelmente atiraria alguém na cova — o jovem engenheiro, por exemplo.
Lecoeur, com a chuva escorrendo da aba do chapéu, olha para Jean-Baptiste. Jean-Baptiste assente. Lecoeur dá ordem para prosseguirem, no que mais parece um latido. Sem uma palavra, os homens obedecem.
Depois que escurece, Armand, Lecoeur e Jean-Baptiste são convidados por Guillotin para contemplar as mulheres preservadas, ou melhor, contemplar uma delas, pois a outra já foi examinada pelos médicos e, em consequência, está menos contemplável. Lecoeur segura uma vela, o dr. Guillotin, um lampião de óleo de baleia, que não produz fumaça. O caixão se encontra sobre a mesa de cavalete na oficina improvisada com lonas. A tampa é retirada e todos contemplam a morta.
— Eu a batizei de Charlotte — diz Guillotin —, em homenagem a uma sobrinha que mora em Lyon, com a qual acho que ela devia se parecer em vida.
— Ela é jovem — observa Armand numa voz, como a do médico, quase reduzida a um sussurro.
— Jovem e velha ao mesmo tempo — diz o médico. — Calculo que tenha morrido com cerca de vinte anos e sido entregue à terra há uns cinquenta. Nosso bom coveiro afirma se lembrar do enterro de duas jovens, mais ou menos na época em que veio trabalhar aqui. Uma dupla de beldades locais, solteiras. Um evento que gerou, aparentemente, grande comoção.
— Então elas morreram virgens — diz Lecoeur, com algo próximo a reverência na voz.
— Poucas beldades locais morrem virgens — atalha Armand.
— Talvez seja fato — diz o médico. — Ainda não verifiquei se Charlotte morreu intacta. Quanto à outra, porém, o dr. Thouret e eu acreditamos que haja indícios de ter concebido.
— Havia um bebê nela? — indaga Jean-Baptiste.
— Não posso afirmar com certeza. Os órgãos internos assumiram a consistência de polpa de madeira ou papel machê. Existem, contudo, indícios.
— O que faremos com ela? — pergunta Armand. — Com a sua Charlotte? Abri-la como foi feito com a outra?
— Acho — responde o dr. Guillotin — que prefiro me esforçar para preservá-la como está. Podemos construir uma vitrine de vidro para ela, exibi-la na academia.
— E ela vai se manter assim, agora que está exposta novamente ao ar? — indaga Jean-Baptiste.
Os outros se viram. Jeanne se encontra de pé na entrada da oficina. Com exceção do dr. Guillotin, os homens parecem momentaneamente constrangidos, como se tivessem sido flagrados no auge de algum entusiasmo impróprio.
— Eu queria saber se desejam alguma coisa — diz Jeanne, que não chega a entrar, não se aproxima do caixão. Passado um tempo, Guillotin e Lecoeur, com cuidado, repõem a tampa.