Puro

Andrew Miller · Capítulo 4 de 48

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Puro

Capítulo 3

 

Enquanto atravessa um ou dois corredores, uma ala, ele tem certeza de estar refazendo os próprios passos. Passa por janelas grandes o bastante para permitir a passagem de um cavalo, quem sabe mesmo de um elefante. Desce lanço após lanço de degraus curvos, passa por enormes tapeçarias alegóricas que estremecem sob correntes de ar outonal, e provavelmente esgota a capacidade visual de apreciar hordas de mulheres retratadas em cada detalhe, em bordados perfeitos, flores ao pé do Parnaso, flores do campo francês — papoulas, centáureas, esporas, camomila...

O palácio é um tabuleiro de jogo, mas Jean-Baptiste está ficando cansado de jogar. Alguns corredores são escuros como a noite; outros se encontram iluminados por castiçais contendo velas que pingam. Nesses, ele vê grupos de criados que se acotovelam, mas quando pede informações é ignorado ou lhe apontam quatro caminhos diferentes. Um deles o chama:

— Siga o seu nariz!

Mas o nariz lhe diz apenas que os excrementos dos poderosos são praticamente iguais aos excrementos dos miseráveis.

E por todo lado, em todos os corredores, há portas. Será que deveria passar por alguma delas? É assim que se escapa do Palácio de Versalhes? Mas as portas de lugares como esse são tão sujeitas às leis da etiqueta quanto o restante. Em algumas, deve-se bater; noutras, o certo é arranhar a madeira com a unha, explicou-lhe o Primo André, o advogado, que, embora seja três anos mais jovem, já domina um mundanismo matreiro, um invejável conhecimento dessas coisas.

Jean-Baptiste se detém diante de uma porta que lhe parece, por algum motivo, mais promissora que as vizinhas. E não é que sente uma corrente de ar frio sob os pés? Procura marcas de arranhões na madeira. Não encontra e bate com delicadeza. Ninguém responde. Gira a maçaneta e entra. Há dois homens sentados a uma mesa pequena e redonda, jogando cartas. Ambos têm olhos grandes e azuis, e usam casacos prateados. Informam-lhe que são poloneses e que estão no palácio há meses, mal se lembrando de quando ali chegaram.

— Você conhece Madame de M.? — indaga um deles.

— Lamento, mas não conheço.

Os dois suspiram; cada um desvira uma carta. No fundo da sala, uma dupla de gatos afia as garras no estofado de seda de um divã. Jean-Baptiste cumprimenta os homens com uma ligeira reverência e se prepara para sair. Não gostaria de ficar e jogar um pouco? Piquê é um passatempo tão bom quanto qualquer outro. Ele explica que está tentando achar a saída.

Saída ? Os dois o encaram e riem.

Novamente no corredor, ele faz uma pausa para observar uma mulher de cabelo roxo amarrado num coque alto sair, carregada, de um aposento. Ela vira a cabeça; os olhos negros o examinam. Ela não é o tipo de pessoa a quem pedir informações. Jean-Baptiste desce até o piso inferior por uma escada de pedra bem estreita. Ali, os soldados descansam em bancos, enquanto garotos de uniforme azul cochilam curvados sobre mesas, debaixo de mesas, em assentos sob janelas, em qualquer lugar onde haja espaço. Correndo em sua direção, Jean-Baptiste vê uma dezena de mocinhas se aproximar encoberta por trouxas de roupa suja. Para evitar ser atropelado, ele entra (sem bater nem arranhar) pela porta mais próxima e se descobre num espaço, um salão grande e espraiado, onde arvorezinhas, talvez uma centena delas, o aguardam em enormes vasos de terracota. Embora seja um nortista, um nortista genuíno, ele sabe, por causa do tempo passado a serviço do Conde S., que se trata de limoeiros, limoeiros que foram revestidos de palha e aniagem a fim de enfrentar o inverno que se aproxima. O ar é perfumado, suavemente botânico, e a luz penetra, enviesada, por um correr de janelas em arco. Jean-Baptiste força uma delas a se abrir e, subindo num barril de água, salta para o mundo exterior.

Atrás dele, no palácio, inúmeros relógios cantam a hora. Ele tira do bolso o próprio relógio, que lhe foi, assim como o traje, presenteado, nesse caso por Maître Perronet, por ocasião da sua formatura. Na tampa, uma pintura do olho maçônico que tudo vê, embora Jean-Baptiste não seja maçom nem saiba se Maître Perronet o é. Conforme os ponteiros encostam no número dois, o relógio vibra delicadamente na palma da sua mão. Fechando-o, ele o devolve ao bolso.

À frente, um caminho de cascalho pálido se estende entre muros de cerca viva aparada, alta demais para que se possa enxergar o outro lado. Ele segue esse caminho; não há nada para guiá-lo. Passa por uma fonte com a bacia seca e já repleta de folhas de outono. Está com frio e, repentinamente, cansado. Abriga-se mais no guarda-pó de viagem. O caminho se bifurca. E agora, para que lado? No entroncamento, há um pequeno caramanchão com um banco semicircular e, acima do banco, um cupido de pedra salpicado de líquen, mirando com sua seta quem quer que se sente abaixo dele. Jean-Baptiste se senta. Tira o lacre do papel que lhe deu Lafosse. Ali está o endereço de uma casa onde deverá se hospedar. Abre a bolsa, despeja algumas das moedas pesadas na mão. Cem livres? Talvez um pouco mais. Fica grato por isso — aliviado —, pois há meses vem vivendo da sua magra poupança; deve dinheiro à mãe, ao Primo André. Ao mesmo tempo, percebe que a quantia não pretende adulá-lo. Dá a impressão de ter sido estritamente calculada. A remuneração corrente pelo que quer que ele seja agora, um empreiteiro, um mercenário a serviço do estado, um demolidor de cemitérios...

Um cemitério! Ele ainda não absorveu totalmente a notícia. Um cemitério no centro de Paris! Um famoso asilo de ossos! Deus sabe que, o que quer que esperasse dessa viagem, qualquer que fosse o projeto que imaginou que lhe pudessem oferecer — quem sabe algum trabalho no próprio palácio —, ele jamais sequer sonhou com isso. Poderia ter recusado? A possibilidade não lhe ocorreu, provavelmente jamais existiu. Quanto a saber se desencavar ossos é uma tarefa compatível com seu status, sua dignidade na condição de diplomado pela École Royale des Ponts et Chaussées, terá de descobrir alguma forma de pensar no assunto de forma mais... abstrata. Afinal, ele é um jovem cheio de ideias, de ideais. Não há de ser impossível pensar no seu trabalho como algo digno, sério. Algo para o bem maior. Algo que os autores da Encyclopedie aprovariam.

Diante do banco, uma dezena de pardais se juntou, as penas arrepiadas pelo frio. Ele observa os pássaros, que saltitam sobre as pedras. Num dos bolsos do casaco — um bolso fundo o bastante para enfiar todos os pardais —, ele guardou um pouco do pão que sobrou do café da manhã tomado no escuro, na garupa de um cavalo. Dá uma mordida, mastiga, depois puxa um dos cantos do pão e o esfacela entre o polegar e o indicador. Enquanto comem, os passarinhos parecem dançar entre seus pés.