Puro
Capítulo 12
Não fosse por Marie e sua bisbilhotice, ele teria sangrado até morrer. Ela o vira apagar a vela com um sopro, enfiara-se na própria cama, rezara em disparada uma ave-maria, se esfregara um pouco entre as pernas e cochilara um minuto, ou durante uma ou duas horas, antes de abrir os olhos e perceber um foco de luz no chão. Totalmente desperta de imediato, escorregou para o chão, rastejou pelo assoalho frio e grudou um olho no buraco. O que ele estaria pretendendo ao acender novamente a vela no meio da noite? Marie tinha certeza de que isso jamais acontecera antes. Então — mais estranho ainda, excitantemente estranho —, viu que ele dormia, sem dúvida alguma dormia, e a luz vinha de uma vela empunhada por outra pessoa, alguém que ela ainda não conseguia ver. Durante o que pareceu um século, embora na verdade possa não ter passado de meio minuto, nada aconteceu — nada! —, e Marie já estava quase fora de si de frustração. E se quem quer que estivesse lá simplesmente saísse e ela jamais descobrisse, jamais visse esse indivíduo? Jamais a visse, aliás, pois estava convencida de que o observador secreto — o outro observador secreto — era uma mulher. No entanto — Jesus, Maria e José! —, o que poderia tê-la preparado para o choque de ver Ziguette, nua em pelo, adentrar tranquilamente seu campo visual? Se houvesse mais que apenas um ou dois goles de vinho roubado em sua bexiga, ela teria alagado o assoalho. Ziguette e seus grandes melões rosados! Ziguette e seu grande traseiro rosado! Numa das mãos a moça segurava uma vela e, com a outra, ela pegou algo na mesa do hóspede, alguma coisa que refletiu a luz e fez, ao bater de encontro a outro objeto na mesa, um barulhinho metálico que o sujeito adormecido deve ter ouvido, pois começou a mexer-se. Era aquela coisa de metal que ele usava para medir. Será que Ziguette pretendia medi-lo? Medir o quê? O pescoço, os pés, o cocoricó?
Para a última cena, bem curta, Marie podia jurar que ele já se encontrava desperto e alerta à presença de Ziguette, embora nenhum dos dois tenha proferido uma única palavra. Mentalmente, Marie parecia já estar assistindo ao que viria a seguir — as cobertas lançadas longe, os amantes apertadinhos no abraço mútuo, os beijos e arrulhos, os “ohs” e “ahs”, e acima de tudo os movimentos rítmicos na cama. Mas não foi o que aconteceu. O objeto de metal, a régua, cortou o ar e golpeou a cabeça do hóspede, matando-o. A própria Marie deve ter feito algum ruído, emitido um gritinho agudo, já que Ziguette de repente olhou para cima, o rosto totalmente sombrio, mais parecendo uma máscara. Diante disso, dessa visão, não foi possível à criada impedir que finalmente algumas gotas do vinho dos Monnard molhassem o chão.
Furtiva como um gato, ela se afastou do buraco e se agachou junto à cama, tentando ouvir o barulho de passos na escada. Então, quando não houve barulho, quando não houve ranger de portas, quando nenhuma patroa nua surgiu com uma régua de metal ensanguentada na mão, Marie teve vontade de voltar para a cama e dormir, pensando que se assim fizesse acordaria de manhã e nada do que vira teria acontecido. E talvez assim agisse, caso não tivesse escutado um ruído vindo do hóspede, uma espécie de ronco, um som terrível, como o de alguém preso num pesadelo do qual não consegue acordar. Aguçou o ouvido. Seu medo diminuiu. Se a tola da Ziguette entrasse em seu quarto, ela simplesmente quebraria sua cabeça com um dos tamancos. Isso daria conta dela. Garotas dos pardieiros de Saint-Antoine não têm motivos para temer meninas mimadas de Les Halles.
Vestiu-se. A escuridão era total, mas ela estava mais que habituada a vestir-se no escuro. Encontrou seu caminho tateando com o pé calçado só com a meia, desceu a escada e parou no corredor do segundo andar. Viu que havia luz vazando por baixo da porta do quarto de Ziguette, mas não ouviu barulho de passos ou de choro, ou de o que quer que faça uma moça depois de tentar abrir a cabeça de um homem. Numa inspeção mais atenta, percebeu que a porta não estava totalmente fechada e que um empurrãozinho à toa seria capaz de escancará-la. Lá estava a patroa, aconchegada na cama, inocente como um cordeirinho, a régua no pé da cama, a vela sobre a mesinha de cabeceira. Marie entrou, pegou a vela e foi até o quarto do pensionista. Ao abrir a porta, Ragoût passou como uma flecha por ela e mergulhou de cabeça escada abaixo. A vela tremelicou em sua mão, por pouco não caiu. Marie recuperou o fôlego, foi em frente, dirigiu-se diretamente até a cama e contemplou o homem, como fizera Ziguette. E como ele estava mal! Recordou-se de algo que vira na infância, um tio, uma espécie de tio, que metera uma bala na cabeça numa tarde escaldante de domingo. Sangue, sangue, sangue. Poças de sangue. O hóspede, porém, ao contrário do tio dela, ainda respirava, e não ruidosamente como antes, mas em tragos curtos de ar, como faz uma criança depois de muito chorar. “Para estancar o sangue de um ferimento, cobrir o local com teias de aranha.” Ouvira isso em algum lugar. Mas onde encontrar teias de aranha? Não havia — como boa empregada que era — varrido todas elas? Foi até o baú do hóspede e o abriu. Logo em cima estava o traje de seda verde que ela achara tão curioso e bonito na primeira vez que o viu. Remexendo um pouco, tirou algumas peças de roupa de banho e voltou para junto da cama. Segurou a vela acima da cabeça do rapaz, tocou o corte, suas beiradas polposas. Ele gemeu, estremeceu, como se prestes a ter uma convulsão.
— Mal encostei a mão — sussurrou Marie.
Então, com rapidez e precisão, pressionou um quadrado de pano dobrado de encontro à ferida (um trapo usado pelo rapaz para se enxugar após a toalete) e amarrou-o no local com um lenço de pescoço. Depois, para garantir, tirou uma das próprias meias, ainda quente, passou-a por baixo do queixo do doente, prendendo o pano que já começava a escurecer. Sentou-se na cama e observou o infeliz. De vez em quando as pálpebras adejavam, mas jamais se abriam. Ela lhe afagou o pulso, sem vontade de abrir mão da posse dessa maravilhosa catástrofe, mas a ideia de anunciar aos semiadormecidos Monnard o que a filha acabara de fazer era por demais tentadora, e, pegando a vela, Marie desceu até o quarto deles (com uma perna nua e a outra calçada) e lhes contou tudo no tom mais frio imaginável, acrescentando no final — não conseguiu se refrear: “Nossa, madame, é bem possível que ela seja enforcada.”