Puro

Andrew Miller · Capítulo 30 de 48

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Puro

Capítulo 1

 

—Mantenham-no quieto — ordena Guillotin, inclinado sobre a cama. Um filete de linha preta atravessa o rosto do paciente como uma rachadura. Marie segura firme as pernas que chutam. É uma garota forte, boa na arte de segurar firme. O médico põe mãos à obra.

Durante as primeiras quarenta e oito horas há perigo, um sério perigo. Se o cérebro estiver sangrando... bem, alguma coisa precisa ser feita — existe um cirurgião na rue Saint-Honoré que maneja um bisturi moderno, mas poderá ser chamado a tempo? O paciente é observado com constância. Marie, Jeanne, Lisa Saget, Armand, Lecoeur. Guillotin faz uma visita toda manhã e mais outra à tardinha. Examina o paciente, pondera os riscos e depois olha pela janela para a igreja de Les Innocents, mergulha em grandes reflexões sobre os homens, suas cabeças, seus corações, sobre como é o mundo. O velho mundo e o mundo que talvez esteja para surgir.

* * *

A despeito da sucessão de enfermeiros vigilantes, quando finalmente abre os olhos, o engenheiro pode jurar que o quarto está vazio. No travesseiro, sua cabeça é um peso morto, um pedaço de cartilagem viva costurado no toco do seu pescoço. A dor não está na superfície, mas nas profundezas ocas do cérebro. Seu ritmo é o ritmo do seu sangue. A cada batida do coração, ele faz uma careta. A porta se move. Madame Monnard espia lá dentro. Quando vê os olhos do doente abertos, quando vê que ele, aparentemente, a olha, ela foge.

— Quem sou eu?

— Você? Você é o médico.

— Meu nome?

— Guillotin.

— Ótimo. E você?

— Baratte.

— E o nome do nosso rei?

— Luís.

— Você se lembra do que lhe aconteceu?

— Em parte.

— Em parte?

— O suficiente.

— Monsieur Lafosse nos fez uma visita — diz Lecoeur. (Quantas horas se passaram? Quantos dias?) — Acho que o dr. Guillotin lhe contou sobre... sobre o seu infortúnio. Ele me mandou apressar o trabalho. Disse que não seria bom deixar os homens ociosos. Que tempo é dinheiro.

— Ziguette? — murmura Jean-Baptiste, mas muito baixinho.

— E tem mais — prossegue Lecoeur —, Jeanne mandou um remédio. Ervas, eu acho. — Ele mostra o frasco ao doente. Em suas mãos, há teimosos salpicos pretos, de tinta preta.

— Provavelmente uma poção do amor — observa Armand, que também está no quarto, embora não no campo visual do engenheiro.

— Que dia é hoje? — indaga o paciente.

— Dia? — indaga Lecoeur. — Quarta-feira. Quarta-feira de manhã.

Marie está sentada numa cadeira ao lado da cama, fazendo alguma coisa com o fogo na lareira. Ele não quer mexer a cabeça para ver o que é. Qualquer movimento brusco de cabeça faz o mundo dar cambalhotas.

— Ziguette? — pergunta.

— Por quê? — indaga Marie. — Tem medo de que ela torne a visitá-lo? — Então, quando não há resposta, acrescenta: — Fui eu que salvei você.

A luz é um lençol branco na janela, um lençol branco e opaco que diariamente é dobrado e depois outra vez pendurado na aurora seguinte. Já não o vigiam todo o tempo. Sem ser visto, ele escapa da cama, se senta dez minutos na cadeira, grudado no assento. No dia seguinte, senta-se durante meia hora. Sentar-se vira um treinamento. Às vezes, quando é varrido por ondas de piedade — dele mesmo, do pai opressor, das vidas assombradas de estranhos, dos ossos frios do cemitério —, ele faz movimentos estranhos com a boca, uma espécie de choro seco. Noutras, fica indiferente, calmo e totalmente indiferente, até que a crueza do mundo, sua própria respiração, as arestas do ar tornem a despertá-lo. Examina as mãos, olha para o fogo, contempla, indagador, a gravura da ponte. Ergue os olhos para a janela: as nuvens são da cor do mar em Dieppe. Quem é você?, pergunta o médico. Ele é Adão, sozinho no jardim. É Lázaro arrancado do seu sepulcro, uma vida apartada da outra por uma pausa na escuridão.

Guillotin aparece para sangrá-lo; a flebotomia é uma precaução comum nesses casos. Primeiro, ele conduz o exame habitual do ferimento.

— Vocês, normandos, têm belas cabeças duras — diz ele. — Você não se incomodaria de me deixar sua cabeça, não é?

— O que o faz pensar que vai sobreviver a mim?

— Seu gosto em matéria de mulheres — diz o médico, voltando a atenção para o braço direito do engenheiro e fazendo um corte junto ao cotovelo. O sangue escorre para uma tigela de estanho. — Não se preocupe. Não vai demorar.

— Onde ela está?

— Sua agressora?

— Ninguém me diz onde ela está.

— Estava aqui até dois dias atrás, na casa. Agora foi mandada embora. Parentes idosos em Dauphiné. Gente com uma religião muito severa. Espero que você não faça objeção, mas avalizei o esquema. Não pode haver cura mais eficaz para o ardor de uma jovem do que um ou dois anos recitando novenas numa casa fria de uma província remota. Concluí que você não haveria de querer processá-la. Um homem não conseguiria senão cair no ridículo processando uma mulher em tais circunstâncias. Se você tivesse morrido, é claro, o assunto estaria além de uma decisão puramente privada. Vocês eram amantes?

— Não.

— Acredito em você — diz o médico, pressionando o corte com um pedaço de pano limpo, antes de dobrar com cuidado o braço do paciente. — Mas, se não foi amor, ciúme ou desejo, o que você imagina que a tenha feito entrar no seu quarto e tentar partir sua cabeça?

— Les Innocents.

— O cemitério? Para impedir você de destruí-lo? Ela pode ser mais louca do que pensei. Esperemos que não retalhe os parentes em Dauphiné. A responsabilidade pesaria um pouco.

— Quanto tempo faz?

— A agressão? Duas semanas. Um pouco mais.

— Preciso voltar ao trabalho.

— Um mês ao ar puro da Normandia seria uma receita melhor.

— Estou bem.

— Você levou um golpe considerável na cabeça. Os efeitos de um golpe desses são, ao mesmo tempo, imprevisíveis e de longa duração. Tem percebido algo fora do comum? Alucinações? Lapsos de memória?

— Nada — mente Jean-Baptiste.

O médico enxuga a lâmina do bisturi.

— Nesse caso, que tal se nos dispusermos a levar você até a sala de estar amanhã? Os Monnard sem dúvida estarão ansiosos para lhe prover todo o conforto. — Ele ri. — Enquanto isso, você tem o Conde de Buffon para lhe fazer companhia — acrescenta, pegando o livro na mesa e o pousando sobre as cobertas. — Você sabe, suponho, que existem mais trinta volumes disto, não?

Depois da saída do médico, Jean-Baptiste olha para o livro e, passado um momento, o abre. Não é essa a primeira tentativa que faz desde o ataque. Fecha os olhos, torna a abri-los, concentra-se, apela para o poder da concentração que no passado tanto serviço lhe prestou. Põe um dedo no alto do lado esquerdo da página esquerda. As primeiras duas palavras não apresentam dificuldade: “Consideremos agora...” A palavra seguinte ele não consegue ler. A seguinte a essa é, supõe, “exemplo”. A que vem depois não passa de uma forma, tão sem sentido quanto uma mancha de tinta. O mesmo ocorre com sua vizinha e a vizinha desta. E não são apenas as palavras em um livro que se foram, mas também as palavras em sua cabeça. Nomes de coisas, coisas bastante comuns, objetos cujo nome qualquer criança sabe. Como e .

E se isso — essa cegueira — se tornar pública? Se Lafosse e depois o ministro descobrirem? Quem nessa vida haveria de empregar um homem assim para destruir um cemitério?

Fecha o livro e o joga no chão. Levanta-se da cama, tenta permanecer em pé, espera que o sangue se rearrume e depois dá passinhos curtos até o espelho. Está usando uma touca de dormir, com uma espécie de atadura por baixo. Parece — o quê? — tolo e santo, e levemente assustador. Passa os dedos pela barba que cobre o queixo, toca o crânio como se fosse um ovo cru e qualquer movimento pudesse quebrá-lo, fazer um buraco por onde se esvair a gema do cérebro...

Leva vinte minutos para tirar a touca e depois a bandagem que tem a parte inferior rósea e úmida. O cabelo foi cortado, tosquiaram-no de qualquer maneira, mas seja como for que examine a cabeça, praticamente nada consegue ver do ferimento, salvo um feio pedaço de pele descorada e, destacando-se daí como um único pelo grosso, um fio de linha preta.

Procura as roupas, o traje de trabalho que usou no dia em que Ziguette Monnard apareceu à noite para matá-lo. Não o encontra. Foi guardado ou levado embora. Estragado? Manchado com seu próprio sangue, com sangue da arma, aquela coisa, aquela coisa de metal, cujo nome (uma fagulha de pânico brota em seu peito) ele também perdeu? Como se espera que um homem pense, afinal, se não tem as palavras com as quais pensar? O que pode orientá-lo se não as palavras?

Vai até o baú e levanta a tampa. O choque da cor, da luminosidade da cor, o obriga a piscar, mas ele sente alívio ao ouvir a palavra “verde” na cabeça e “seda”, e até mesmo “pistache”. Leva o traje até a cama, deita-o ali, contempla-o durante algum tempo e depois se mete dentro dele. Que seja essa a resposta, então. Ele simplesmente seguirá o mundo. O mundo e as coisas do mundo serão seus mestres. Fará o que sugerirem. Não importa se pode ou não lhes dar nomes. Será como uma criança correndo atrás de uma bola que quica escada abaixo. Talvez sempre tenha feito isso. Não consegue se lembrar direito.

Quando já está vestido, procura o banyan, o tarbuche, a peruca alugada, o papel em que tudo isso estava embrulhado, torna a embrulhar tudo num pacote grande e desajeitado. Calça os sapatos e veste o guarda-pó. Com os dentes trincados, acomoda o chapéu na cabeça como se o ferimento pudesse ser esmagado por uma mera sombra. Desce a escada. Ninguém o vê. A porta da cozinha está aberta, mas o cômodo, vazio. Ele olha para a porta do porão, resiste ao impulso de tentar abri-la, abre a porta da frente, entrefecha os olhos contra a claridade, fica um minuto inteiro encostado ao muro da casa, reunindo energia, coragem, o que quer que lhe seja necessário para seguir em frente. Calcula que alguma versão da história já esteja circulando, que ele não seja agora apenas o engenheiro, mas o homem que a garota Monnard atacou, o homem que deve, de alguma forma, tê-la provocado. Observa dois meninos subirem a rua chutando um brinquedo, um grande anel de madeira. Deixa os garotos passarem e depois se afasta de chofre do muro; então, toma fôlego e desanda a caminhar.

Na barbearia Gaudet, lhe fazem a barba. É o único freguês. Quando entra, o barbeiro está sentado na cadeira lendo o Mercure de France e roendo uma unha. O ato de ser barbeado lhe dá um prazer sensual. O ferimento, claro, não é mencionado, embora Gaudet tenham tempo de sobra para examiná-lo. Em vez disso, o sujeito fala da cidade, do bairro, do preço das coisas, das greves recentes. Nada disso requer qualquer comentário da parte de Jean-Baptiste, que deixa o homem tagarelar, que o deixa trabalhar, e lhe fica grato.

— Andei doente — fala, afinal.

— Mas já está bom de novo — retruca Gaudet, escovando os cabelos castanhos e os poucos grisalhos dos ombros do engenheiro. — Logo o senhor será novamente o mesmo.

— Você acha?

O barbeiro abre um amplo sorriso para o espelho, dá de ombros com elegância e depois fecha aquela coisa afiada, brilhante, embutindo-a no cabo curvo.

Com o embrulho nos braços, sentindo o ar frio nas bochechas e no queixo barbeados, ele passa pela Companhia das Índias e pela rue des Bons-Enfants para chegar à place des Victoires. Depois de convalescer duas semanas na cama, a caminhada deveria tê-lo exaurido, mas, em vez disso, aparentemente, o restaura um pouco. Ele não encontra dificuldade para se lembrar do endereço que deseja. Abre a porta com uma ombrada. Uma campainha toca. Charvet, usando pantufas de veludo para pisar no assoalho lustroso, atravessa a loja. Para, ergue as sobrancelhas finas, inclina o torso e se retesa.

— O cavalheiro engenheiro, não?

Há uma cadeira junto à porta. Jean-Baptiste ali deposita seu embrulho. O embrulho começa a se desfazer, como se contivesse algo vivo.

— Eu gostaria de recuperar meu velho traje — diz ele. — Aquele que eu estava usando quando vim aqui com Saint-Méard.

Charvet olha para o assistente e depois novamente para o engenheiro.

— Seu velho traje? Mas ele foi vendido, monsieur. Para um comerciante, creio eu. Não foi isso, Cédric?

O assistente confirma com um gesto de cabeça.

Jean-Baptiste assente, deixa que seu olhar percorra a loja. Num dos manequins de madeira (um torso ajustável sobre uma coluna de madeira) vê um traje de lã preta bem-cortado. Aproxima-se, acaricia o tecido, avalia o tamanho.

— Este, então. Há de servir.

— Nisso — atalha Charvet, falando agora como se explicasse alguma coisa a uma criança, não uma criança esperta, mas uma criança boba — o senhor vai parecer um pastor calvinista. Nós o temos aqui porque é preciso expor um leque de estilos. Um leque amplo, se me entende. Mas para o senhor, monsieur, não há de...

— E para isto — intervém Jean-Baptiste, desabotoando o casaco e deixando entrever uma nesga de seda verde — não tenho mais serventia.

Charvet se empertiga de forma curiosa, estica o pescoço, pisca exageradamente.

— Ainda assim me lembro, monsieur, de como o senhor o apreciou quando comprou.

— O senhor se lembra? — pergunta Jean-Baptiste com uma curiosidade genuína.

— Queria estar mais à la mode.

— Mais moderno?

— Precisamente. O senhor... o senhor não se recorda?

— Eu me recordo de estar bêbado, me recordo das lisonjas.

— Continua sendo um traje excelente.

— Um traje que não quero mais. E eu também vim devolver o banyan — emenda Jean-Baptiste. — E o restante. Está ali, na cadeira.

Charvet e o assistente olham para a cadeira, para o embrulho, para a língua de adamascado vermelho saindo do papel.

Os dois ajustam o traje preto no engenheiro. Com uns poucos puxões, ele lhe cai surpreendentemente bem, a cor lhe assentando serena, embora seja verdade que lhe dê a aparência de um pastor calvinista. Charvet deixa as alterações a cargo do assistente e se afasta um pouco, cruzando os braços. De vez em quando olha, com certa repulsa, para a cabeça estropiada do engenheiro.

— Esse traje — observa, afinal — pode ser simples, mas não é barato. E o outro foi muito usado. Tem, inclusive, algumas manchas na manga. Manchas de gordura, se não me engano. Gordura ou algo pior. Serei obrigado a vendê-lo com desconto. E considerável...

— O meu antigo que ficou com o senhor — diz Jean-Baptiste, tornando a vestir com cuidado o guarda-pó e abotoando-o —, aquele que foi vendido para um comerciante, valia mais que todo o estoque da sua loja. Disso eu me lembro perfeitamente.

Encara Charvet até ele desviar o olhar. Dirige-se, então, à porta. O assistente se apressa em abri-la para o cliente, por pura força do hábito.

No bolso do casaco está a chave do cemitério, a chave do portão da rue aux Fers. Com as mãos nos bolsos, ele segura bem apertado a chave e atravessa o mercado. Pergunta-se se está com fome — nada comeu além de sopa no café da manhã, um caldo medicinal quando ainda estava praticamente escuro. Detém-se na entrada de um dos armazéns de peixe. O mercado lhe parece, de certa forma, diferente, embora ele não saiba dizer precisamente em quê. Tem a aparência de sempre — as mesmas barracas, os mesmos comerciantes de rosto vermelho e dedos calejados, os mesmos berros roucos, a mesma imundície. Ele entra no armazém de peixes, fica parado em meio às sombras que escorrem para dentro de poças d’água em que cintilam escamas de peixe e respira fundo. No interior das narinas há uma sensação de frio, de umidade, mas nada que se possa chamar de cheiro, de fedor. Então, isso também se foi! Ao menos esse é um sintoma que ele pode, sem risco de repercussão, confessar ao dr. Guillotin...

E então se vê na rue aux Fers, onde a fumaça marrom serpenteia acima do muro do cemitério e as letras negras — ainda parecendo recém-pichadas — o aguardam: “REI GORDO RAINHA VADIA CUIDADO! BECHE ESTÁ CAVANDO UM BURACO GRANDE O BASTANTE PARA ENTERRAR VERSALHES INTEIRO!”

Estará mesmo lendo ou apenas se lembrando? Não tem certeza. O que sabe, o que não precisa questionar, é que, quando viu aquilo pela primeira vez, ela estava ali — quase exatamente onde ele está agora —, segurando uma broa, da qual um pedaço ofereceu a ele, que dela o arrancou como faria um pássaro grande, desajeitado, uma gaivota grande de olho amarelo. E depois, no ossuário com Armand, a quem pretendia repreender, acusar de frívolo, rebaixar, ele próprio se viu acusado, ouviu que se preocupava exclusivamente com seu lado profissional, que a sua política era a política de “conclusões inconclusivas”.

Teria entendido o que Armand quis dizer com essa expressão? Não houve muitas oportunidades para refletir a respeito. Primeiro, a questão dos cachimbos dos operários, depois Lecoeur e Armand voltando bêbados da rua. Isso e uma centena de outras preocupações. Mas, sim, entendera direitinho. Sentira que era justo. Ressentira-se...

O portão do cemitério se abre. Um homem — um homem muito magro com uma basta barba loura de aparência mais jovem, mais vigorosa, que o rosto do seu dono — sai para a rua. Quando vê o engenheiro, o sujeito para, se retesa, encara.

— Block? — exclama Jean-Baptiste, chegando mais perto. — Block?

Block assente. Debaixo do braço carrega duas sacas enroladas, sacas de pão, a julgar pelo pó de farinha que as cobre.

— Você vai fazer compras?

Block assente de novo.

— Foi Jeanne quem mandou?

— Foi.

— Você recuperou sua saúde.

— Sim.

Os dois se encaram um instante, estampando no rosto uma faísca de reconhecimento da experiência compartilhada, a experiência de ruir e voltar a se erguer, das incertezas que o processo envolve. Então, roçando ombro com ombro, um passa pelo outro.

Dentro do cemitério, os homens estão reunidos em torno de uma cova no muro norte. Cova oito? Nove? Um deles, no processo de erguer uma grumosa pelve cor de cogumelo para empilhá-la no muro ósseo, o vê primeiro. Interrompe o que está fazendo e se empertiga (tanto quanto é possível para um mineiro). Lecoeur segue o olhar do homem, deixa escapar um grito de satisfação e corre, falando de um jeito tão rápido, tão confuso, que as palavras parecem atropelar umas as outras. Serão lágrimas o que ele tem nos olhos? Da fumaça, talvez. Da fumaça, nada mais.

Os homens que trabalham na superfície estão atônitos. Um diz uma palavra, que cai como um seixo sobre os companheiros lá embaixo. O engenheiro os cumprimenta. Não tem dificuldade para se recordar dos seus nomes. Agast, Everbout, Cloët, Pondt, Jan Biloo, Jacques Hooft, Louis Cent, Elay Wyntère... Fica satisfeito, surpreso, ao ver a pura satisfação que lhe dá vê-los novamente. Pede-lhes que continuem o trabalho. Eles aquiescem.

— Não fizemos — diz Lecoeur confidencialmente — todo o progresso que eu gostaria de ter feito. Terminamos duas na semana passada — continua, com um gesto na direção de onde os homens cavaram — e teríamos terminado esta se um dos lados não desmoronasse. Felizmente, foi durante a folga. Cheguei a temer pelo muro do cemitério.

— Vocês estavam usando a... as formas... de madeira... As formas que seguram as paredes?

— As escoras de madeira? Tive a esperança de que não fosse necessário. O tempo andava razoavelmente seco. Erro meu, é claro. Lamento por isso.

— Não é grave. Podemos escorar a parede com a terra. Uma rampa de terra. Depois colocamos as escoras de madeira.

— Sim, será melhor.

— Os homens já almoçaram?

— Faz algumas horas. Acho que já passa das três.

— Eu não tinha me dado conta.

— Tempus fugit — observa Lecoeur alegremente. Nos cantos da boca ele tem algumas casquinhas brancas. Os lábios, rachados pelo vento, parecem feridos. — Você está totalmente recuperado?

— Me disseram que tenho uma cabeça dura — responde Jean-Baptiste. — E você?

— Recuperado?

— Você está bem?

— Ah, não se apoquente por minha causa. Nós, os Lecoeur, temos o couro duro. — Ele ri. — Ouso dizer que posso dar conta de um urso. Se a necessidade se apresentar.

— Ou de um elefante?

— Um elefante?

— Surgiu na minha cabeça. Um elefante. Não sei por quê. Por acaso falamos de elefantes anteriormente?

— Eu não...

— Não é importante.

Por quase uma hora, Jean-Baptiste comanda, de pé, o trabalho; então, as pernas começam a tremer ligeiramente, e ele pede licença e se dirige até a casa do coveiro.

Jeanne está de pé junto à mesa fatiando linguiça curtida, apoiando todo o seu peso em cima da faca. Armand está sentado na cadeira de Manetti com um livro de música no colo, grandes páginas cor de creme, bastões negros, milhares de notas dançantes. Tem a testa franzida em concentração, e os dedos tamborilam os ossos dos joelhos. Ergue os olhos para Jean-Baptiste e abre um sorriso.

— Ora, ora, ora.

— Você precisa se sentar — diz Jeanne, largando a faca e puxando um banco de sob a mesa. Jean-Baptiste se senta pesadamente, fecha os olhos um instante e depois tira o chapéu devagar.

— Você ainda está muito pálido — observa ela.

— Ele sempre foi pálido — diz Armand.

— Você devia estar em casa — emenda Jeanne, dirigindo-se rapidamente até o fogão, onde um bule de café repousa sobre um tijolo junto ao fogo.

— Foi em casa — atalha Armand — que lhe partiram a cabeça. Não espanta que se sinta mais seguro num cemitério.

O café está apenas morno e, sem seu aroma, não tem gosto algum, mas Jean-Baptiste toma-o de um só gole e estende a caneca para ser servido novamente.

— E o seu avô? — indaga.

— Está descansando — responde Jeanne, os olhos castanhos piscando tímidos para os olhos cinzentos do engenheiro. Ele se pergunta o que a moça estará pensando. A última coisa de que se lembra com relação a ela, a todos, aliás, é da entrada na igreja para ouvir Armand tocar órgão. Terá sido aquela a noite da agressão? A véspera? Uma semana antes?

— Todo esse trabalho de ferver nossos amigos exumados — explica Armand — exauriu o pobre velho. Fico exausto só de pensar nisso.

— Essa linguiça está boa para comer? — pergunta Jean-Baptiste, pegando um pedaço e botando-o na boca. Porco e gordura de porco, tudo duro como o vil metal.

Armand fecha o livro de música. Vira a cadeira e observa o engenheiro, observa-o mastigar e, por fim, engolir.

— Você me acha interessante? — pergunta Jean-Baptiste.

— Interessante? Você sabe muito bem que é isso que acho desde o instante em que entrou na minha igreja. Confesso que estou curioso para ver o que o seu cirurgião aprontou.

— Está falando de Guillotin?

— Estou falando de Ziguette Monnard. Achei que ela havia conseguido dar cabo de você.

Em toda a extensão do ferimento de Jean-Baptiste, os pontos se retesam por um momento.

— Era essa a intenção dela — diz ele.

— Ah, meu amigo, mas você estava precisando de alguma coisa. Ainda não havia saído da casca do ovo... E esse traje não é novo? Viu isso, Jeanne? Negro como a meia-noite! Bravo! Afinal ele se revela o bom calvinista que sempre desconfiei que fosse. Sabia que a mãe dele pertence a essa religião?

— Minha mãe... — começa Jean-Baptiste, falando para o chão de pedra entre seus pés. — Minha mãe...

Então se cala. Não está com disposição para os joguinhos de Armand, não está em condições de jogá-los. Termina a segunda caneca de café, levanta-se e sobe para dar uma espiada em Manetti, senta-se um tempo ao lado do homem adormecido e, depois, descendo a escada, tem uma leve tonteira e por pouco evita rolar escada abaixo agarrando-se ao corrimão.

— Você já fez o bastante por ora — diz Armand, pegando-o com firmeza pelo braço e o levando até lá fora. — O cemitério ainda é seu. O pobre Lecoeur entrou em pânico sem você.

— Eu devia falar com ele... — insiste Jean-Baptiste.

— Amanhã.

— Virei cedinho.

— Não duvido — diz Armand.

— E vestindo meu traje de trabalho, se conseguir encontrá-lo.

— Estaremos prontos para recebê-lo. Vou até tentar não implicar com você durante um ou dois dias — completa Armand sorrindo.

— Quando tudo aconteceu — diz Jean-Baptiste, falando depressa e baixinho, e olhando por cima do ombro de Armand para os arcos do ossuário sul —, quando ela me atacou... depois, quero dizer, demorou um pouco até eu perder a consciência. Muito pouco, suponho, mas o suficiente. Eu queria... queria me apegar a alguma coisa. A alguma ideia. Achei que estivesse morrendo, sabe? Desejei alguma coisa que tornasse o momento possível.

— E o que encontrou?

— Nada. Absolutamente nada.

* * *

Rue aux Fers. Claridade cinzenta, pedras cinzentas; as formas negras de pássaros nos telhados íngremes. À esquerda, a esquina da rue de la Lingerie, à direita, a rue Saint-Denis. Junto à fonte, um cão, pele e osso e despelado, bebe água avidamente numa poça. Sentindo-se observado, o animal ergue os olhos, com água escorrendo do focinho, depois se vira, entra mancando na rue Saint-Denis e se detém por um instante, como a decidir que metade do mundo mais o atrai, antes de tomar a direção do faubourg.

O engenheiro segue atrás dele, penetra o fluxo da rua, para sem jeito no meio do caminho, imediatamente atrapalhando a todos. Já não dá para ver o cão, mas não é preciso. Ele já sabe o que fazer agora, embora, para um homem que sempre se orgulhou de possuir uma mente treinada e cristalina, a sensação, desconfortável, equivalha a um mergulho em rituais de magia. Subirá a rue Saint-Denis. Dará a volta para chegar à igreja de Saint-Eustache. Repetirá, tanto quanto lhe seja possível, o caminho que fez na noite em que saiu para pichar muros com Armand e seus companheiros enjeitados, na noite em que se viu sozinho em meio à bruma com Héloïse. Seguirá esse caminho e, assim, tornará a encontrá-la e passará sua mensagem — qualquer que ela seja. Não a vestiu ainda em palavras, mas com certeza, uma vez que a veja diante de si, elas brotarão da sua boca tal qual o Espírito Santo.

Atravessa uma nuvem de costureiras, moças ruidosas, coradas, que se dirigem ao rio depois de passar doze horas sentadas em bancos enfiando linha em agulhas. Na rue Saint-Denis, essa é a melhor hora do dia, quando o trabalho é temporariamente suspenso e surge uma chance de olhar para o céu e extrair um pequeno prazer do crepúsculo invernal. A taberna do Djeco já está cheia. Uma dupla de carregadores descansa encostada ao muro lá fora como valentes espanhóis na Era de Ouro. Funileiros, vendedoras de flores, engraxates, mendigos, rabequistas, escritores de aluguel — se alguém nesse grupo reparou no engenheiro, na intensidade pálida e doentia do seu rosto, e se sentiu, por meio segundo, curioso ou perturbado, nem por isso demorou a embarcar em novas distrações. Ele, sem dúvida, muito pouco vê, ou nada vê em absoluto, salvo por uma ou outra trombada recebida de homens e mulheres que avançam no contrafluxo. Olha apenas em frente, tão longe quanto consegue enxergar, procurando e tentando não ceder à crescente desconfiança de que tudo isso — o que está fazendo ali — não passe de um daqueles efeitos, imprevisíveis e de longa duração, sobre os quais o alertou Guillotin. Então, tendo caminhado não mais que trezentos metros desde a fonte, um borrão vermelho — quase roxo sob essa luz — o imobiliza, antes de pô-lo novamente em movimento a passo mais rápido.

Estranho tê-la encontrado com tamanha facilidade! Não lhe ser dado tempo para recuperar a sobriedade com a caminhada, para se recompor. Estranho pensar que a magia possa funcionar...

Ela está distante demais para ouvir se ele a chamar e caminha na mesma direção. Durante um minuto inteiro, ele a perde de vista quando uma dupla de burros de carga se põe entre ambos. Então, volta a vislumbrá-la parada diante da vitrine de uma loja, o rosto quase colado ao vidro. Ele conhece aquele lugar, já passou por ali várias vezes. Ali se vendem aquelas coisas, aquelas... — Cristo Jesus, ele está com uma delas na própria cabeça! —, mas as que são feitas para mulheres, para mulheres e meninas. Fitas e o resto, conchas, penas coloridas...

— Héloïse!

Chamou cedo demais; a voz não chegou longe, embora a mulher às suas costas, uma daquelas mulheres do mercado que envelheceram cedo demais, com um corpo que mais parece um barril de arenque, tenha ouvido claramente o seu chamado e imite muito bem o seu tom suplicante, rouco: “Oh, HÉLO-ÏSE!”

Ele se vira para olhá-la, mais confuso que zangado. Quem é ela? Será que a conhece?

— Ei, majestade! — grita outra, uma criatura-gêmea da primeira. — Não está vendo que o cavalheiro aqui a deseja?

Mas ela continua sem ouvi-los, continua a olhar a vitrine, indiferente à cena que se desenrola às suas costas.

— Ela não quer provocar ciúme no cesteiro — diz uma terceira. — Ou no velho livreiro. Ou no seu marido!

— Se o meu marido sequer olhar para ela, eu sirvo os colhões dele no jantar.

Agora ela se vira, observa o grupo, impõe-se diante da sua aproximação. Seja o que for que sinta — raiva, medo, espanto —, tem cuidado para manter qualquer sinal de percepção ausente do rosto. O engenheiro para a um metro e meio, talvez dois, de distância.

— Ele perdeu a língua — diz a primeira mulher.

— Não é da língua que ele vai precisar — emenda a segunda, rindo da própria piada.

— É ele — exclama uma voz masculina, uma cabeça careca debruçada na janela de um cômodo às escuras na casa vizinha à loja. — O sujeito que está cavando em Les Innocents.

— Tem certeza?

— Claro. Certeza absoluta. Basta olhar para ele.

— Deve querer o mesmo que os operários que chefia — diz outra voz feminina, mais jovem que as demais.

— Eu estava à sua procura — explica Jean-Baptiste a Héloïse. — Queria... eu queria falar com você. — À menção do verbo falar, a plateia irrompe em gargalhadas.

— Precisa mostrar a ela a cor do seu dinheiro, meu bem. Cruzes! Ele deve ser novato nisso tudo.

— E a garota Monnard? — indaga a voz mais jovem. — Largou dela, foi?

Héloïse, que nem sequer uma vez permitiu que seu olhar fosse atraído por qualquer outro indivíduo que não o engenheiro, concede-lhe agora quatro ou cinco segundos para consertar tudo. Ele toma fôlego, franze a testa, abre a boca:

— Chapéus — diz afinal. — Como eu posso ter esquecido dos chapéus?

Ela assente quase de modo imperceptível. Depois, com imensa calma, como se nada disso tivesse a ver com ela, como se não passasse de uma mera tolice com a qual se deparara e na qual agora perdera todo e qualquer interesse, ela lhe dá as costas e continua a caminhar.

O homem na janela se debruça mais.

— Chapéus! — grita. — Vocês ouviram o que ele disse? Ele disse “Chapéus!”.

Apenas um passo ou dois separa Jean-Baptiste da janela. Ele se aproxima, se posta rapidamente na frente do homem, que não tem chance alguma de reagir. Pega um chumaço do cabelo do homem, puxa-lhe a cabeça de encontro ao parapeito estreito. Na outra mão, segura a chave do portão do cemitério, com cuja ponta pressiona um local macio na garganta do sujeito, logo abaixo da mandíbula.

— O que eu lhe pareço? — indaga, num tom tranquilo, quase de conversa. — O que eu pareço a você?

No futuro — quando haverá motivos para falar de tais coisas — o homem dirá que viu um ódio homicida naqueles olhos cinzentos, insistirá nesse ponto e será ouvido. Seja o que for que ele vê ali, é suficiente para fazê-lo calar-se. Até as mulheres ficam desconcertadas. O espetáculo acabou. Todas se dispersam, cada qual para cuidar de sua vida medíocre. Passado um minuto, o engenheiro se vê totalmente sozinho.