Puro

Andrew Miller · Capítulo 17 de 48

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Puro

Capítulo 2

 

Armand e a amante devem andar ocupados, e talvez Jeanne também. Quando volta a Paris, Jean-Baptiste é apontado na rua ou simplesmente encarado como se em seu pescoço desse para ver, saindo do colarinho do casaco, um pedacinho da asa de um anjo ou, da sua testa, o coto de um chifre. No mercado, na manhã anterior à Festa da Epifania, um velho, um daqueles maltrapilhos meio ensandecidos que assombram qualquer espaço público, acena com um braço murcho na sua direção e o avisa para não mexer com “o campo dos nossos pais sob pena de provocar a ira do Todo-Poderoso...”. Dois dias mais tarde, o dono de um quiosque na rue de la Fromagerie lhe dá de presente um favo de mel e lhe deseja sorte. Ele começa a ouvir uma nova palavra às suas costas: engenheiro. Pergunta-se quantas daquelas pessoas têm uma noção clara do que seja um engenheiro.

Mas, de todas as reações que encontra nos primeiros dias frios do ano novo, nenhuma lhe causa mais perplexidade que a dos Monnard. De volta à casa, Jean-Baptiste sentiu quase prazer ao vê-los, foi bastante específico em seus agradecimentos a Monsieur Monnard pelo empréstimo do traje, assíduo em seu interesse a respeito de como Madame e Mademoiselle Monnard aproveitaram as festas. No entanto, logo no jantar da segunda noite ficou bastante evidente que as coisas não iam bem com eles. Foi Madame Monnard (depois de cuspir um pedaço de cartilagem nas costas da mão fechada) quem trouxe à tona o assunto que nitidamente era a fonte da inquietação geral.

— Monsieur — começa Madame —, é verdade o que ouvimos sobre o cemitério?

— Madame?

— Que ele vai... vai sumir?

Jean-Baptiste pousou a faca e o garfo.

— De certa forma, madame, é. Ele será removido, e a terra será limpa. A igreja, igualmente, será removida no devido tempo.

— Para nós foi um choque — acrescenta Monsieur Monnard. — Nem desconfiávamos disso.

— Lamento, monsieur, mas a igreja e o cemitério estão fechados há cinco anos. Não podem ser deixados...

— É difícil para nós imaginar — prossegue Madame com uma estranha estridência na voz.

— Espero que seja para o bem de todos, madame — atalha Jean-Baptiste. — Desta casa não mais se verá um local de enterros, não será mais preciso sofrer as consequências daí advindas.

— Que consequências? — indaga Monsieur Monnard.

Jean-Baptiste contemplou o prato à sua frente, no qual, sob a temperatura gélida do aposento, a comida já começava a congelar. — O senhor acha tudo isso saudável?

— Não lhe parecemos saudáveis, monsieur?

— Ora, claro que sim. Não foi minha intenção sugerir...

— E então?

E Ziguette começou a chorar. Um balido agudo, seguido de um ruído estrangulado e, depois, um soluço brotado das entranhas, tudo isso acompanhado por vigorosas contrações no rosto que levaram Jean-Baptiste a pensar que jamais a vira antes. A moça saiu correndo da sala, enquanto pai e mãe trocavam olhares.

— Se acaso eu... — começou Jean-Baptiste, prestes a levantar-se da cadeira.

— A pobrezinha tem horror a qualquer comoção — explicou Madame, passando em seguida a fazer certas observações, incompreensíveis a princípio, mas que Jean-Baptiste finalmente entendeu se destinarem a explicar que Ziguette estava no início de seu sangramento mensal e, por isso, incomumente sensível.

A continuação dessa cena incômoda teve lugar mais tarde na mesma noite. Jean-Baptiste estava em seu quarto, enrolado no adamascado vermelho de seu banyan. Lia alguns trechos de seu exemplar de Buffon, algo a respeito da forma como certas criaturas não venenosas imitam as características de suas primas venenosas, quando ouviu os conhecidos arranhões na porta e, abrindo-a, preparou-se para dar de cara com o musculoso Ragoût. Em vez disso, porém, deparou-se com Ziguette, branca como um cadáver e usando roupas de dormir. A cada suspiro ficava aparente que não usava corpete.

Ela queria explicar, ou pedir desculpas, ou ambas as coisas ou nenhuma das duas. Depois de alguns sussurros à porta, ele a convidou para entrar e, como havia apenas uma cadeira, ofereceu-a à moça, sentando-se ele mesmo na cama. Ela não pareceu espantada com o banyan, não fez qualquer comentário a esse respeito. Jean-Baptiste pôs mais um pedaço de lenha no fogo e tentou tranquilizá-la.

— Imagine como há de ficar bonito quando o trabalho estiver terminado. Em lugar do que você tem agora, uma linda praça. Jardins, talvez.

Ela assentiu. Dava a impressão de estar tentando seguir o raciocínio dele, mas os olhos novamente se encheram de lágrimas.

— É como — começou após uma pausa — se o senhor quisesse desenterrar a minha infância.

— Infância?

— Meus dias inocentes de menina.

— Vou escavar apenas o cemitério. Terra e ossos velhos. Muitos ossos velhos.

— O senhor não cresceu aqui — prosseguiu Ziguette em tom baixo. — Se tivesse crescido aqui, pensaria de outra forma.

Sentado um pouco abaixo dela, seu olhar, sabe-se lá por quê, descansava no colo da moça. Imaginou uma lenta efusão de sangue, um sangue cor-de-rosa brotando no tecido pálido da camisola e se espalhando por aquelas coxas e depois, talvez, começando a pingar no assoalho, a pingar audivelmente...

— Quando estiver tudo pronto — disse ele erguendo os olhos para ela —, quando estiver tudo acabado, você é que acabará pensando de outra forma. O desconforto inicial há de passar logo. Você vai ficar satisfeita.

Ela não discutiu. Começou, discretamente, a examinar o quarto, a cama, o baú, a mesa com os livros dele, a régua de metal. Então, reprimiu um bocejo, desculpou-se por incomodá-lo e, com um sorriso doce, aquoso, do tipo que se dá a alguém que, mesmo sem ter culpa disso, é incapaz de entender o que deveria ser claro como o dia, despediu-se.

Uma vez fechada a porta, Jean-Baptiste olhou para o teto, para o buraquinho acima da cama, pois uma ou duas vezes durante a conversa ouvira o assoalho ranger acima deles.

Subiu na cama. Nessa posição, o teto ficava confortavelmente ao seu alcance. Espiou dentro do buraco — nada, nada de luz, nadinha. Então, devagar, com cautela, inseriu o indicador da mão esquerda, mais ou menos como o Conde de Buffon faria para investigar o ninho de algum dúbio inseto, um inseto que podia ou não estar simplesmente fingindo ser venenoso... Não teve certeza do que sentiu, mas lhe pareceu que alguém soprara de leve o seu dedo e, durante algum tempo, equilibrado sobre a cama, ele o examinou.