Puro
Capítulo 5
A fossa junto ao muro do cemitério foi esvaziada e enchida de terra. Mais duas são abertas. O engenheiro vem refinando seus métodos. Pressiona mais os homens, aumenta a jornada diária, conforme as noites encurtam lentamente com a proximidade da primavera. Um segundo mineiro deserta, e volta dois dias depois, calado e faminto. Quanto aos outros, quem sabe? Pelo que se pode ver, parecem conformados com o trabalho, com a natureza dele, calejados. Jean-Baptiste adoraria saber sobre o que conversam quando estão sozinhos. Admira-os, admira sua coragem, aquele ar de independência que ostentam. Não é que parecem menos submissos que ele? Mais livres? Um deles em especial lhe chama a atenção, atiça sua imaginação: o mineiro do dedo aleijado e olhos cor de violeta, que vai e vem como uma aparição. Os outros demonstram reverência discreta pelo colega, gravitam à sua volta como uma constelação respeitosa. Lecoeur — fonte segura de informações sobre os demais — pouco tem a dizer a seu respeito, salvo que o sujeito se juntou ao grupo pouco antes que partissem de Valenciennes, em substituição a um mineiro que se declarou incapaz de viajar. Chamava-se Hoornweder. Provavelmente Hoornweder. Hoornweder ou Tant, ou talvez Moemus. Eles muitas vezes simplesmente inventam nomes para si mesmos. Por acaso o engenheiro tem motivos para estar insatisfeito com o sujeito? Não, não, responde Jean-Baptiste. Não existe motivo algum, trata-se apenas de mera curiosidade.
Em meados do mês, cinco procissões semanais estão tomando o rumo da Porte d’Enfer, e por algum tempo tais procissões — os padres entoando suas ladainhas, os círios, as carroças com sua carga macabra — entram para a lista de entretenimentos da cidade. O Mercure de France publica um pequeno guia com os horários das procissões e os locais de onde se pode apreciá-las melhor (recomenda-se enfaticamente a travessia do rio). Casais jovens, sobretudo os que pertencem às classes ociosas, permitem-se excitar por tal visão. Os moralistas, sombriamente entretidos, observam de braços cruzados. Turistas estrangeiros escrevem cartas para casa, buscam metáforas, buscam ver a França toda nessa comprida caravana de ossos. Logo, porém, a cidade dá de ombros coletivamente e procura outras formas de distração. Os cafés. A política. Uma nova insurreição, talvez.