Puro
Capítulo 10
A nova cova não revela mais nenhuma beldade local. Quando chegam ao fundo (ela é mais funda que todas as outras: vinte e dois metros, na última medição da linha de prumo), os caixões estão em sua maioria quebrados, seus ocupantes misturados aos vizinhos, remexidos. Ao longo da semana, os homens trabalham até as oito ou nove da noite, cavando, içando e amontoando ossos sob a iluminação de tochas, lampiões e fogueiras. Então, no sábado — com a claridade serena de algum planeta luzindo no céu do cair da noite —, o trabalho chega ao fim. Os homens lá embaixo olham para cima; os que estão em cima olham para baixo. O engenheiro dá a ordem de encerrar a jornada. Pede a Lecoeur para reunir os operários junto à cruz do púlpito, antes de subir a escada em espiral com Lecoeur e anunciar sua decisão: toda vez que uma cova for esvaziada, toda vez que o trabalho numa delas se encerrar, cada homem receberá um bônus de trinta sous. Ele fez os cálculos na noite anterior, deslocando cifras entre colunas cuidadosamente riscadas até encontrar o dinheiro necessário.
— E tem mais — prossegue, buscando um tom que combine indulgência paternal e algo mais informal e mundano. — Amanhã, os portões do cemitério serão abertos e vocês estarão livres para sair e ficar fora até o pôr do sol, quando os portões serão novamente trancados. Hoje à noite, os portões podem permanecer abertos durante uma hora, caso alguma de nossas amigas deseje nos visitar.
Lecoeur aplaude. Talvez pretenda que os outros se juntem a ele numa demonstração de agradecimento, mas ouvem-se apenas alguns murmúrios e o ruído de botas na terra conforme aqui e ali alguém alterna o peso de uma perna para outra. Será que os homens entenderam seu recado? Ele olha para Lecoeur, mas, antes que possa lhe pedir um conselho, pedir-lhe, quem sabe, para resumir sua fala em um arremedo de flamengo, Lisa Saget começa a bater na frigideira, e os homens se encaminham para suas barracas a fim de pegar facas e tigelas.
— É muito bom deixar que eles saiam — observa Lecoeur, quando os dois descem do púlpito. — O ânimo deles melhorou um bocado.
— Você acha?
— Percebi nitidamente.
Jean-Baptiste assente. O que ele pode ver nitidamente é a si mesmo na segunda-feira de manhã sem um único mineiro ou com meia dúzia deles extenuados de tanto beber e de terem sido roubados de tudo, com exceção das próprias camisas. Podem ser fortes como janízaros, mas não hão de resistir às apalpadelas das mãos ágeis das mulheres locais. Ainda assim, se ele tentar confiná-los por mais tempo, terá de lidar com uma revolta, revolta que não será aplacada com cachimbos de barro e tabaco. Em Valenciennes — embora nunca tenha visto com os próprios olhos — corriam histórias de homens que, enlouquecidos, quebravam equipamentos, incendiavam construções da mineradora, chegando mesmo a sitiar o bloco dos administradores até serem contidos pela milícia. A maioria era oriunda do norte, como ele. Difíceis de tirar do sério, mas uma vez atiçados...
Uma hora depois da refeição, as mulheres chegam, cautelosas no início, o rosto das mais ousadas espiando pelo portão entreaberto na rue aux Fers. Então, o portão é escancarado e elas entram, chamando, usando expressões carinhosas, acenando com os braços.
Lecoeur, Armand, Jeanne, Lisa Saget e Jean-Baptiste observam tudo protegidos pela sombra da noite ao pé do muro da igreja. Não é fácil contá-las. Lecoeur calcula serem doze. Armand lhe diz que ele se esqueceu de computar uma, depois nomeia um punhado — Simone, Marie-Anne e aquela magricela que vem por último e que tem o apelido de La Pouce. A mais jovem não parece mais velha que Jeanne, enquanto a mais velha — uma criatura grandalhona, espalhafatosa, com a voz de um sargento-instrutor — mais parece uma avó e se locomove com expressão carrancuda e decidida.
Os mineiros aguardam como a tripulação de um navio enfeitiçado. As mulheres chegam como uma onda e os engolfam. Uma festa tem início à luz da fogueira. Os homens passam de mão em mão suas garrafas, as canecas de metal cheias de brandy. As mulheres bebem, assumem uma postura profissionalmente alegre, escolhem seus pares, fazem seu preço. Os primeiros casais se afastam no escuro, de braços dados, como fazem os amantes em qualquer lugar. Os observadores ao pé da igreja, que até agora se mantiveram calados (e mais ou menos com a expressão de exploradores assistindo às cerimônias de nativos numa praia sob o Cruzeiro do Sul), dirigem-se à casa do coveiro. Block e Manetti estão sentados junto ao fogo. O coveiro dorme, a cabeça descansando no encosto da cadeira, Jan Block, acordado, mais meio zonzo, leva um pequeno susto com a chegada dos demais e responde ao cumprimento de Jean-Baptiste com uma espécie estranha de assentimento reverente.
Todos se sentam à mesa da cozinha. Também ali há brandy (brandy é o que não falta, pensa Jean-Baptiste. Vou acabar mandando os ossos até a Porte d’Enfer flutuando nessa bebida). Todos conversam, mas a conversa é entremeada pelas gargalhadas irreverentes vindas de fora. Os pensamentos se dispersam. Um magnetismo carnal se insinua pelas frestas da casa como farripas de névoa azul.
— Precisamos de música — diz Lisa Saget, começando imediatamente a cantar numa voz comum, mas agradável, leve, jovem, bem diferente da voz com que fala. Armand se junta a ela. De forma canhestra mas entusiasmada, Lecoeur acompanha o ritmo batendo as mãos na mesa. O coveiro acorda, olha à volta, está perdido na própria casa. Jeanne o tranquiliza acariciando as costas das mãos enrugadas e morenas do avô.
Armand estende o braço para pegar o casaco.
— Teremos música, afinal — diz ele. — Faremos uma investida na loja de velas do velho Colbert. Vocês dois — instrui, apontando para Jean-Baptiste e Lecoeur — vão manejar os foles. As senhoras se sentarão comportadas e eu, o diretor musical, tocarei para deleite de todos.
Enquanto Jean-Baptiste procura alguma objeção para levantar contra esse plano ridículo (entrar na igreja agora? Tocar órgão?), os outros já estão tratando de abotoar seus casacos. Os olhares se voltam para ele: é difícil resistir a tais olhares. Ele dá de ombros e se põe de pé. Já que não pode impedi-los, ao menos poderá evitar excessos, embora a expectativa repentina disso — excessos! — lhe desperte uma espécie de ansiedade vívida, que o faz seguir o grupo porta afora com disposição suficiente, avidamente até.
Entram pela porta que se abre para o transepto sul. Armand segue na dianteira, segurando acima da cabeça uma lamparina que projeta uma claridade diáfana nas paredes cobertas por citações em latim, datas, boas obras e brasões. O grupo caminha devagar, arrastando os pés, em fila. Seus sussurros alçam voo acima de suas cabeças. Objetos surgem subitamente do escuro e, por um instante, parecem investir sobre eles. A asa manchada de dourado de um arcanjo balança quando eles passam. Uma Virgem com o rosto encardido repleto de uma ironia secreta os observa de cima de uma coluna...
Numa das capelas, Armand rouba velas de uma caixa de ferro, distribuindo-as pelo restante do grupo. Todos se juntam para acendê-las umas nas outras. Conforme a claridade aumenta, Jean-Baptiste vê, enfileirados no outro lado da capela, meia dúzia de recipientes grandes — jarros de vidro esverdeado em invólucros de palha — contendo um líquido transparente. Presos aos gargalos há rótulos que pendem de arames trançados. Ele se inclina com a vela para ler um deles.
Etanol.
Recua tão rapidamente que sua vela se apaga.
— Você botou isso aqui? — sibila para Armand.
— Isso? As jarras chegaram na semana passada. Encomenda para nossos amigos médicos.
— É etanol! Álcool puro. Basta aproximar uma chama e a igreja toda pode ir pelos ares.
— Calma — atalha Armand. — Estão bem-tampados. Lacrados com cera. Não há nada a temer. E por acaso faria diferença se a igreja pegasse fogo? Não nos pouparia um bocado de trabalho?
O engenheiro os apressa a sair da capela, tranquilizando-se apenas depois que todos atravessam a nave e se reúnem em torno do órgão. De cada lado dos teclados do instrumento veem-se aros de metal na forma de delicadas guirlandas, e quatro velas são enfiadas neles. Armand se posiciona. Jean-Baptiste e Lecoeur dão a volta para alcançar o fole, um metro de madeira priápica da grossura de um remo.
— O exercício vai ser bom para mim — sussurra Lecoeur, seu bafo saindo num vapor prateado. — Este lugar é frio como a lua.
— Mais frio — emenda Jean-Baptiste.
As mulheres sentam-se coxa com coxa no banco mais próximo, segurando suas velas diante do peito, qual penitentes.
— Comecem! — ordena Armand.
E eles começam. Para baixo, para cima. Para baixo, para cima. Em suas entranhas, no lado oposto, o instrumento estala e chia. Para Jean-Baptiste, a sensação é de estarem os dois girando uma manivela para erguer a máquina toda do chão, fisicamente, ou então, ressuscitando algum leviatã desmaiado, algo semelhante ao elefante que o ministro comentou ter assustado tanto os cães em Versalhes. É quando, das entranhas da coisa, vem um longo suspiro, o derradeiro suspiro do mundo, e, em seguida, com a delicadeza de gotas de chuva, a música começa. Voix celeste, voix humaine, trompette, cromorne, tierce — os sons crescem em camadas, quebram-se em ondas. Lecoeur grita alguma coisa. Jean-Baptiste responde com uma careta, mas não consegue entender, não consegue ouvir o que ele diz. As notas graves reverberam em toda a arquitetura do seu peito; as agudas operam algo similar em sua alma. Cristo Jesus! Parecem soar dentro dela. E todo esse esforço! Para cima, para baixo. Para cima, para baixo. Ao que parece, a beleza deriva do trabalho pesado, e ele começa a imaginar um artefato, um fole automático, movido a vapor, perfeitamente factível — e já quase montou mentalmente o mecanismo todo, azeitou seus componentes, quando a música cessa, no meio de um acorde.
Largando o fole, ele se dirige até a parte frontal do órgão. Nos bancos atrás de Jeanne e Lisa Saget, banhado pela luz débil das velas, vê um punhado de figuras fantasmagóricas já sentadas, enquanto outras vão, em silêncio, ocupando seus lugares. Os mineiros e suas prostitutas. As prostitutas com seus mineiros. Homens e mulheres sob um encantamento.
— Finalmente, você tem sua plateia — diz Jean-Baptiste. Armand os observa pelo espelhinho acima do descanso da partitura. Vira uma página da partitura manuscrita, alisa o papel, ordena a Jean-Baptiste que retorne a seu posto.
A música recomeça: uma introdução tão delicada quanto a última (faz lembrar bordadeiras, faz pensar em nascentes), e então, sem qualquer gradação, arrojadamente potente (faz lembrar coches-postais, faz pensar em canhonadas), e então... então, algo muito parecido com uma briga, um tumulto. O engenheiro e Lecoeur abandonam o remo. Uma voz — voz que já assaltou Jean-Baptiste noutra ocasião — troveja na escuridão diretamente acima deles. Mísseis, livrinhos pretos — missais? — voam na direção de suas cabeças, ora acertando um mineiro, ora acertando uma prostituta, batendo de repente — que mira estupenda! — na bochecha corada do próprio organista.
Entre os que estão reunidos nos bancos, há um momento de puro pânico. Então, as mulheres — as moças e as velhas — se organizam e reagem abrindo fogo, a fúria do padre contra elas enfrentada com um contundente escárnio, com zombaria, um desdém tão repleto de indignação histórica que é difícil crer que o padre não comece em pouco tempo a cagar as próprias entranhas. Se o pegarem, elas podem arrastá-lo lá de cima do seu poleiro, e a noite acabará em derramamento de sangue. Em homicídio, talvez.
De braços abertos, Jean-Baptiste tenta tocar as mulheres para fora, mas algumas estão plantadas como aqueles postes parrudos plantados dos dois lados nas ruas movimentadas, para proteger pedestres. É Jeanne quem salva a pele do padre. Pegando pela mão a prostituta mais avantajada, a comandante do grupo, ela a conduz delicadamente para fora. As outras a seguem, seus gritos agora sem resposta, ou respondidos apenas pelos próprios ecos. Na altura em que todos já saíram da igreja para o cemitério, o clima é de calma. As mulheres assediam Armand, bolinando-o, até que Lisa Saget as repreende com termos que todas entendem.
A festa revive: a sedução, a formação dos casais que partem de braços dados na escuridão. O engenheiro observa durante algum tempo e depois, trêmulo e repentinamente exausto (e se perguntando quantas velas terão sido deixadas acesas dentro da igreja, que alarmes poderão soar no meio da noite), troca discretos cumprimentos de cabeça com Lecoeur, afasta-se das fímbrias do grupo e toma, calado, o rumo do portão que dá para a rue aux Fers. Está sozinho — acredita estar sozinho —, mas ao chegar ao portão vê que Jeanne caminha a seu lado. Os dois param. Ele diz o nome dela. Ela sorri. O coração dele se aperta.
— Eles não vão incomodar você? — indaga, gesticulando na direção da fogueira, onde o grupo vai ficando mais animado.
— Eles não me farão mal — responde ela.
— Não — concorda Jean-Baptiste. — Não posso acreditar que alguém lhe fizesse mal.
— Não sou santa — retruca ela.
— Santa? Claro que não.
— Eu não contaria a ninguém se você me beijasse — diz ela, pousando uma das mãos na manga do casaco do engenheiro muito de leve. Leve como um pardal.
— Tenho o dobro da sua idade — argumenta ele. — Não é verdade?
— Não — responde Jeanne. — Você tem vinte e oito anos e eu, quatorze.
— Então, tenho exatamente o dobro da sua idade.
— Você tem namorada? — indaga ela, recolhendo a mão. — Está enamorado de Ziguette Monnard?
— Ziguette?
— Ela é muito bonita.
— Não estou... não tenho interesse em Ziguette Monnard.
— Boa-noite — diz ela.
— Sim — retruca ele, e ela aguarda para ver se “sim” é tudo, como se “sim” ainda pudesse levar a algo mais.
Ele olha por cima de Jeanne. A noite agora está mais fria, mais clara. As estrelas brilham azuladas acima de telhados azuis. No cemitério, os muros de ossos empilhados cintilam como as armaduras de algum velho exército derrotado.
— Você pode pedir a Lecoeur para se assegurar de que o portão seja trancado quando as mulheres saírem? Elas não devem se demorar muito mais.
Ela nada diz enquanto se afasta. Ele assente na direção das costas da moça, incapaz, a princípio, de arredar o pé de onde está; então, abre o portão e sai para a rua, obriga as pernas a darem grandes passadas, como se esperasse ultrapassar o próprio constrangimento. Deus do céu, será que iria matá-lo tê-la beijado? Ter baixado a cabeça um pouquinho até que os lábios de ambos se tocassem? Armand faria isso num segundo e Jeanne teria voltado para casa feliz, em lugar de furiosa e magoada. E o que foi que o deteve? Um apego ridículo a uma mulher cujos favores já poderia ter comprado pelo preço de um chapéu novo? Será que não consegue, de uma vez por todas, pôr a própria vida nos trilhos de forma decente, racional? Amanhã — amanhã sem falta! — precisa botar no papel alguma coisa, um esquema, como costumava fazer no passado. Um plano de ação pelo qual se pautar, um esquema racional esboçado pela melhor parte dele mesmo, pela parte mais nobre. Fazer isso, não aquilo. Assim se alcança o sucesso, assim, a mediocridade... será que jamais passará de um mero corpo? De uma réplica por um instante ativa daquilo que eles içam diariamente do solo de Les Innocents? Era assim que vivia Voltaire? Foi assim que o grande Perronet passou a vida, sentado entre maquetes e máquinas em seu escritório na École des Ponts, uma sala — ao menos em sua lembrança — onde jamais faltou o esplendor da luz matutina?
Quando, afinal, abre a porta da casa dos Monnard, já se sente mais calmo, mais inteiro, mais dono de si mesmo. Na mesa do corredor, ele procura a vela e os apetrechos para acendê-la, atrita sílex e aço e faz surgir a chama. O gato passa bamboleando pela porta da cozinha e o segue escada acima, parecendo temporariamente tentado a entrar no quarto de Ziguette, mas afinal seguindo o engenheiro até o dele. Jean-Baptiste pousa a vela na mesa, despe o casaco e as botas, e se enrola no banyan. Já é meia-noite? Mais que isso? O relógio está num dos bolsos, mas ele não se dá ao trabalho de pescá-lo. Prepara seu remédio — trinta gotas, mais ou menos, numa golada de vinho azedo e frio como o quarto — e depois se despe sob o banyan. Quando termina, apaga a vela, abre a janela e espia lá embaixo.
Será que as mulheres já foram? Não dá para vê-las nem ouvi-las. Devem ter ido para as barracas terminar o serviço. Ao menos a igreja não está em chamas, e o cemitério parece em ordem, embora uma luz ainda brilhe na cozinha da casa do coveiro. Se tivesse óculos de alcance como o dos marinheiros, seria capaz de ver alguma coisa lá dentro, de ver Jeanne sentada à mesa. Ver suas lágrimas? Fecha a janela, puxa a veneziana, desliza para debaixo das cobertas e aninha os pés sob o calor do gato. Escuridão. Escuridão e nada para ouvir senão o troar do próprio sangue. A droga está agindo rapidamente. Num minuto ou dois, a primeira quimera da noite vai se desenhar no interior das pálpebras fechadas. Antes disso, porém, antes que o sono e a seiva de papoula o tomem de assalto, ele emite um sussurro débil:
— Quem é você? Jean-Baptiste Baratte. De onde? De Bellême, na Normandia. O que você faz? Sou engenheiro, formado na École des Ponts. Em que acredita... No quê... você... Eu... Eu... Eu...