Puro
Capítulo 11
Ninguém jamais pôde dizer com certeza quando, precisamente quando, teve lugar a agressão. Em algum momento entre muito tarde e muito cedo, em algum bolsão profundo e aveludado de uma noite invernal. Ele estava sonhando, pressionado pelo peso da droga, e, então, seus olhos se abriram, e havia luz no quarto, uma ondulante luz prateada. Atrás da luz, a silhueta de uma mulher ao lado da mesinha de escrever segurava numa das mãos uma vela e, na outra, algo diverso. Estava totalmente nua, com a luz brilhando inquieta em sua pele, cintilando em seu cabelo, reluzindo nos cachos louros que lhe cobriam o sexo. Ela não falou. Ele ouviu a própria voz vindo em sua direção, porém muito lentamente. Ela se aproximou da cama e olhou para ele. O rosto, inclinado sobre a luz da vela, parecia calmo e quase terno, um anjo chiaroscuro curvado sobre a cama de algum eremita enfermo. Os dois podem até, por um instante, ter sorrido um para o outro. Então, o braço dela se ergueu, tornou a descer, e o mundo todo se partiu de encontro ao crânio dele numa onda de dor terminal. Por um instante, ele se deu conta de um ruído, de uma espécie de engasgo, que tanto podia vir dela quanto dele. Então, felizmente, não houve mais nada.