Puro
Capítulo 7
Ele não a vê, não a escuta aproximar-se até que ela esteja a seu lado. Cai a tarde, e ele está prestes a entrar na casa dos Monnard. Uma carroça grande — M. Hulot et Fils, Déménageurs à la Noblesse — chacoalha descendo a rua na direção da rue Saint-Honoré. Espantado, ele a encara de um jeito que imagina ser bastante cômico.
— Você queria falar comigo? — indaga a mulher.
— Isso faz semanas — responde ele.
— Então, não quer mais falar comigo?
— Quero. Sim.
— Sim?
— Sim, eu quero.
— Muito bem. — Ela aguarda. Olha-o diretamente nos olhos. Não está usando a capa vermelha hoje, mas sim um xale ou echarpe de tecido leve que lhe cobre o cabelo. O rosto parece tenso, os lábios, selados.
— Tenho pensado em você — diz ele, abrindo a boca e deixando que as palavras escorram ao bel-prazer. É tarde demais para circunspecção, para ponderar com cuidado o resultado. — Tenho pensado em você. Com muita frequência.
Ela assente. O gesto não o ajuda.
— Podíamos entrar — sugere ele. — Conversar lá dentro.
— Na casa dos Monnard?
— Eles não vão se opor. Não estão em condições de se opor aos meus desejos.
— Por causa da filha?
— É.
— Do que ela fez?
— É.
— Ela era sua amiga?
— Não no sentido que você diz.
— E que sentido é esse?
— Você sabe qual é.
— Não faria diferença.
— Não?
— Por que deveria fazer?
— Não — diz ele. — Sei lá.
Os dois se calam, como se a mente de cada um subitamente se visse zonza pela absoluta falta de sentido da conversa, pelo fato de ela estar acontecendo. É Héloïse quem se recupera primeiro.
— E o que era que você queria dizer? Que tem pensado em mim?
— Isso não é tudo.
— E o resto?
— Tenho me perguntado se você poderia... se poderia vir aqui.
— Visitá-lo?
— Se você poderia ficar aqui. Se gostaria de ficar aqui.
— Na casa?
— É.
— Sejamos claros — diz ela.
— Achei que estava sendo — diz ele.
— Você quer me tomar como amante?
— Quero que você fique comigo.
— O que significa esse ficar? Morar com você?
— Sim.
Agora, pensa ele, agora ela vai jogar a cabeça para trás e soltar uma gargalhada. Vai acusá-lo, numa voz cheia de desprezo, de não saber o que está dizendo. E é verdade. Ele não sabe. Era essa a sua mensagem? Venha morar comigo? Ou simplesmente ele disse a coisa mais extravagante que lhe ocorreu? Prepara-se para disfarçar a própria humilhação, mas, quando ela volta a falar, a voz é serena, séria. Em nada hostil.
— Você já morou com alguma mulher? — pergunta ela.
— Não — responde o engenheiro. E acrescenta: — Essa é uma pergunta de ordem prática? Você tem medo de que eu não saiba me comportar?
— Não nos conhecemos — insiste Héloïse.
— Não nos conhecemos bem — corrige ele.
— Se me conhecer melhor, talvez você me ache desagradável. Ou o mesmo aconteça comigo.
— Você não quer morar comigo?
— Eu não disse isso. Apenas não acredito que você tenha pensado... que tenha pensado o suficiente. Direito.
— Você se engana.
— Ou é você quem se engana.
— Não estou enganado.
— Ah! Você não gosta de ser contrariado.
Ela faz um movimento com a boca, posicionando os lábios como faria se estivesse no mercado confrontando algum vendedor astuto, persistente. Então, baixa os olhos e raspa lentamente a ponta de um dos sapatos no calçamento de pedra.
— Você gosta de mim — diz a ele.
— Sim.
— Por quê?
— Por quê?
— Você deve saber — insiste ela.
— É claro — diz ele, embora na verdade jamais lhe tenha ocorrido precisar de um motivo para gostar dela. — Você olhou para mim.
— Reparei em você?
— Isso.
— É verdade — confirma ela. — Eu reparei em você.
— Você estava comprando queijo.
Ela assente.
— E você parecia perdido.
— Você também.
— Perdida?
— Deslocada.
— Se eu aceitar sua proposta — diz ela, após mais uma daquelas pausas em que aparentemente pondera com cuidado o peso de cada uma das palavras dele —, vou precisar ter liberdade para ir e vir quando quiser. Também sou velha demais para aceitar ordens de você ou de qualquer outra pessoa.
— Você seria livre.
— E, se você um dia me bater...
— Eu jamais faria isso.
— Ouvi dizer que você encostou uma faca no pescoço de um homem. Aquela noite na rue Saint-Denis.
— Era uma chave, não uma faca.
— Uma chave?
— É.
— Porque ele me ofendeu?
— Sim.
— Ele não será o último.
— Então, brigarei com todos.
— Usando uma chave?
— Venha logo — diz ele. — Você tem muita bagagem?
— Umas roupas, uns livros.
— Livros?
— Achou que eu não sabia ler?
— Não — diz ele. — Não achei.
— Eu gostaria de ter mais livros. As boas edições. Não esses de quinze sous que se desmancham na mão quando a gente abre.
— Não esses, não.
— E o teatro... faz muito tempo que não vou ao teatro.
— Teatro — repete Jean-Baptiste. — Isso me agradaria também.
Durante um tempo os dois ficam calados, em paz. Até a rua entrou num daqueles períodos de azáfama eventual, praticamente sem uma alma à vista. É provável, pensa Jean-Baptiste, que de uma dessas janelas os dois estejam sendo observados por alguém que saiba quem ambos são. Não faz a menor diferença para ele.
— É você? — pergunta Héloïse, virando-se para olhar, em diagonal, para o outro lado da rua, onde, nas venezianas do armarinho, tinta preta anuncia mais uma das ameaças de Monsieur Bêche aos poderosos. Essa diz respeito ao destino que aguarda o diretor da Bastilha. Surgiu faz uma semana e ainda não foi apagada.
— Você sabe o meu nome — responde ele.
— Sei os dois — diz ela, sorrindo abertamente para ele pela primeira vez.