Puro

Andrew Miller · Capítulo 36 de 48

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Puro

Capítulo 7

 

Ele não a vê, não a escuta aproximar-se até que ela esteja a seu lado. Cai a tarde, e ele está prestes a entrar na casa dos Monnard. Uma carroça grande — M. Hulot et Fils, Déménageurs à la Noblesse — chacoalha descendo a rua na direção da rue Saint-Honoré. Espantado, ele a encara de um jeito que imagina ser bastante cômico.

— Você queria falar comigo? — indaga a mulher.

— Isso faz semanas — responde ele.

— Então, não quer mais falar comigo?

— Quero. Sim.

— Sim?

— Sim, eu quero.

— Muito bem. — Ela aguarda. Olha-o diretamente nos olhos. Não está usando a capa vermelha hoje, mas sim um xale ou echarpe de tecido leve que lhe cobre o cabelo. O rosto parece tenso, os lábios, selados.

— Tenho pensado em você — diz ele, abrindo a boca e deixando que as palavras escorram ao bel-prazer. É tarde demais para circunspecção, para ponderar com cuidado o resultado. — Tenho pensado em você. Com muita frequência.

Ela assente. O gesto não o ajuda.

— Podíamos entrar — sugere ele. — Conversar lá dentro.

— Na casa dos Monnard?

— Eles não vão se opor. Não estão em condições de se opor aos meus desejos.

— Por causa da filha?

— É.

— Do que ela fez?

— É.

— Ela era sua amiga?

— Não no sentido que você diz.

— E que sentido é esse?

— Você sabe qual é.

— Não faria diferença.

— Não?

— Por que deveria fazer?

— Não — diz ele. — Sei lá.

Os dois se calam, como se a mente de cada um subitamente se visse zonza pela absoluta falta de sentido da conversa, pelo fato de ela estar acontecendo. É Héloïse quem se recupera primeiro.

— E o que era que você queria dizer? Que tem pensado em mim?

— Isso não é tudo.

— E o resto?

— Tenho me perguntado se você poderia... se poderia vir aqui.

— Visitá-lo?

— Se você poderia ficar aqui. Se gostaria de ficar aqui.

— Na casa?

— É.

— Sejamos claros — diz ela.

— Achei que estava sendo — diz ele.

— Você quer me tomar como amante?

— Quero que você fique comigo.

— O que significa esse ficar? Morar com você?

— Sim.

Agora, pensa ele, agora ela vai jogar a cabeça para trás e soltar uma gargalhada. Vai acusá-lo, numa voz cheia de desprezo, de não saber o que está dizendo. E é verdade. Ele não sabe. Era essa a sua mensagem? Venha morar comigo? Ou simplesmente ele disse a coisa mais extravagante que lhe ocorreu? Prepara-se para disfarçar a própria humilhação, mas, quando ela volta a falar, a voz é serena, séria. Em nada hostil.

— Você já morou com alguma mulher? — pergunta ela.

— Não — responde o engenheiro. E acrescenta: — Essa é uma pergunta de ordem prática? Você tem medo de que eu não saiba me comportar?

— Não nos conhecemos — insiste Héloïse.

— Não nos conhecemos bem — corrige ele.

— Se me conhecer melhor, talvez você me ache desagradável. Ou o mesmo aconteça comigo.

— Você não quer morar comigo?

— Eu não disse isso. Apenas não acredito que você tenha pensado... que tenha pensado o suficiente. Direito.

— Você se engana.

— Ou é você quem se engana.

— Não estou enganado.

— Ah! Você não gosta de ser contrariado.

Ela faz um movimento com a boca, posicionando os lábios como faria se estivesse no mercado confrontando algum vendedor astuto, persistente. Então, baixa os olhos e raspa lentamente a ponta de um dos sapatos no calçamento de pedra.

— Você gosta de mim — diz a ele.

— Sim.

— Por quê?

— Por quê?

— Você deve saber — insiste ela.

— É claro — diz ele, embora na verdade jamais lhe tenha ocorrido precisar de um motivo para gostar dela. — Você olhou para mim.

— Reparei em você?

— Isso.

— É verdade — confirma ela. — Eu reparei em você.

— Você estava comprando queijo.

Ela assente.

— E você parecia perdido.

— Você também.

— Perdida?

— Deslocada.

— Se eu aceitar sua proposta — diz ela, após mais uma daquelas pausas em que aparentemente pondera com cuidado o peso de cada uma das palavras dele —, vou precisar ter liberdade para ir e vir quando quiser. Também sou velha demais para aceitar ordens de você ou de qualquer outra pessoa.

— Você seria livre.

— E, se você um dia me bater...

— Eu jamais faria isso.

— Ouvi dizer que você encostou uma faca no pescoço de um homem. Aquela noite na rue Saint-Denis.

— Era uma chave, não uma faca.

— Uma chave?

— É.

— Porque ele me ofendeu?

— Sim.

— Ele não será o último.

— Então, brigarei com todos.

— Usando uma chave?

— Venha logo — diz ele. — Você tem muita bagagem?

— Umas roupas, uns livros.

— Livros?

— Achou que eu não sabia ler?

— Não — diz ele. — Não achei.

— Eu gostaria de ter mais livros. As boas edições. Não esses de quinze sous que se desmancham na mão quando a gente abre.

— Não esses, não.

— E o teatro... faz muito tempo que não vou ao teatro.

— Teatro — repete Jean-Baptiste. — Isso me agradaria também.

Durante um tempo os dois ficam calados, em paz. Até a rua entrou num daqueles períodos de azáfama eventual, praticamente sem uma alma à vista. É provável, pensa Jean-Baptiste, que de uma dessas janelas os dois estejam sendo observados por alguém que saiba quem ambos são. Não faz a menor diferença para ele.

— É você? — pergunta Héloïse, virando-se para olhar, em diagonal, para o outro lado da rua, onde, nas venezianas do armarinho, tinta preta anuncia mais uma das ameaças de Monsieur Bêche aos poderosos. Essa diz respeito ao destino que aguarda o diretor da Bastilha. Surgiu faz uma semana e ainda não foi apagada.

— Você sabe o meu nome — responde ele.

— Sei os dois — diz ela, sorrindo abertamente para ele pela primeira vez.