Puro
Capítulo 14
Héloïse vai até o cemitério. Jean-Baptiste não mandou chamá-la; ela chega com a autoridade que lhe conferem os próprios temores. Bate no portão. Um dos homens — Joos Slabbart — a deixa entrar. Embora tenha com frequência observado o cemitério das janelas da casa, é a primeira vez que se vê no interior de Les Innocents. Detém-se um instante para absorver o que a cerca — a cruz, as lanternas de pedra, os ossuários, o muro ósseo, as barracas —, antes que Slabbart a acompanhe até a casa do coveiro. Quando toma conhecimento do ocorrido, Héloïse pousa uma das mãos no braço do coveiro e depois tira do gancho junto à escada o avental de Jeanne. Recorda a Jean-Baptiste que foi criada numa estalagem, e fossem quais fossem os defeitos dos pais (entre eles não ter grande amor por ela), os dois conheciam seu ofício e fizeram questão de ensiná-lo à filha. Ergue as saias e se agacha junto ao fogão vazio.
— Primeiro isto — diz ela, enquanto os dedos longos remexem rapidamente a lenha.
Quem chega em seguida é Monsieur Lafosse, para cujo escritório em Saint-Germain o engenheiro enviou um estafeta com uma carta, tão logo foi capaz de pôr as ideias em ordem. A carta, escrita sobre a mesa da cozinha, pretendia ser um relato seco, quase técnico, dos acontecimentos da noite anterior, mas, quando a releu, ela mais lhe pareceu um desses dramas perturbadores cheios de mortais cegos e deuses intratáveis que às vezes se pegava folheando na biblioteca do Conde S., nos dias em que a chuva impedia os trabalhos de “decoração”.
Ele leva Lafosse para ver o corpo de Lecoeur, embora não o leve, é claro, para ver Jeanne, que dificilmente seria acalmada pela visão de um homem com cara de mensageiro da Morte ao pé da sua cama.
Quando os dois saem da oficina, Lafosse enxuga com um lenço a ponta pálida do nariz.
— E a moça? Vai ficar boa?
— Jeanne? Foi o que ele perguntou. Lecoeur.
— E você respondeu?
— Que sim. Ela vai ficar boa.
— Então não vejo qualquer dificuldade.
— Eu gostaria que o senhor me dissesse como proceder.
— Estamos em um cemitério, não estamos?
— Estamos.
— E quantos você retirou da terra?
— Não posso dizer precisamente. Muitos milhares, creio eu.
— Então, enterrar um não será grande problema. O saldo ainda pesará a seu favor.
— Enterrá-lo? Em Les Innocents?
— Enterrá-lo, enterrar seus pertences. Retirar seu nome de todos os documentos, de todos os registros. Jamais mencioná-lo novamente.
— Essas são as instruções do ministro?
— Essas são as suas instruções.
Os dois alcançam juntos o portão do cemitério. A chuva se foi, substituída por um estranho calor úmido, febril.
— Menos uma boca para alimentar — diz Lafosse. — Menos um salário para pagar. Isso lhe permitirá fazer uma economia. O país está falido, Baratte. O ministro paga tudo isso do próprio bolso. — Ele estuda o cemitério enquanto, em seu rosto, a repulsa floresce devagar. — Como você tolera isto aqui? — indaga.
O engenheiro abre o portão para ele.
— Achei que não tivesse escolha.
— E não tem, mas mesmo assim...
Ao cair da tarde — com uma lua se insinuando entre as nuvens —, ele acompanha Héloïse de volta à rue de la Lingerie. Ela cozinhou e faxinou. Trabalhou o dia todo. Ele lhe agradece.
— Amanhã farei o mesmo — diz ela. — Farei tudo que Jeanne fazia. Também irei ao mercado.
Ele quer objetar — era isso o que tinha em mente para ela, ser uma dona de casa de cemitério? —, mas sabe que não encontrará ninguém mais competente, mais confiável.
— Vou lhe pagar — diz ele.
— Vai, sim — diz ela. Os dois sorriem para a noite que cai. É o primeiro sorriso do dia.
Sobem até o quarto sem encontrar nem os Monnard nem Marie. Ela acende uma vela; ele acende a lareira.
— Você vai voltar para lá — diz ela.
Ele assente:
— Alguns assuntos... Assuntos pendentes.
— É claro. — Ela olha para a vela, atiça a chama. — Estou com uma pontinha de medo de deixar você ir.
— E eu estou com uma pontinha de medo de que, se não for, jamais porei novamente os pés naquele lugar.