Puro
Capítulo 4
Na noite de 9 de março, logo após as onze horas, de acordo com o relógio do engenheiro, um comboio de carroças — veículos sólidos, espaçosos, construídos para transportar pedras — está pronto para partir em direção a Pont Neuf e à pedreira. Foram gastas mais de três horas para carregá-las, embora no cemitério o muro ósseo não pareça muito diferente de antes. As criptas e os sobrados de ossos acima das galerias nem sequer foram tocados.
Os cavalos aguardam, impacientes. De vez em quando um deles arranha com a pata o chão de pedra. Os padres são pálidos, ensaiados, jovens, competitivamente pios. Seguram com firmeza seus archotes, olham para seus vizinhos, olham para as carroças com suas cargas envoltas em veludo.
— Esperemos que as botas desses sujeitos sejam boas — comenta Armand. — Quando tudo isso acabar, eles terão ido até a lua e voltado.
Vinte, trinta curiosos se reuniram na extremidade da rue de la Ferronnerie. Até agora não houve grande coisa para ver. A fumaça das fogueiras, a aparição semanal dos mineiros, à semelhança de marinheiros de folga num porto estrangeiro, os olhos repletos de astúcia incômoda. Mas agora há isto: uma procissão com carroças e tochas e padres em suas batinas compridas com botões de metal. A primeira prova irrefutável do fim de Les Innocents! A primeira remoção. Não há — não houve — protestos, lamentações. Qualquer que seja a lealdade que os indivíduos ainda possam nutrir por esse pedaço de terra impura, ninguém, com exceção de Ziguette Monnard, se deu ao trabalho de erguer um dedo para salvá-lo.
No último momento, quando tudo está pronto e o show, prestes a começar, surge Père Colbert. Ele irrompe cemitério adentro, força a passagem com seu corpanzil entre Armand e Jean-Baptiste, olha-os, raivoso, através dos óculos escuros, e também para os jovens padres. Das mãos de um deles arranca um archote e então se encaminha para a dianteira da procissão, e ali se posta.
O engenheiro dá o sinal ao carroceiro. O carroceiro assovia para os cavalos. Ouve-se um ruído áspero, o som dos aros de ferro das rodas comprimindo as pedras e, vindo da caçamba das carroças, o chacoalhar abafado dos ossos que se acomodam sob as cobertas.
Os padres começam a entoar um salmo — Miserere Mei, Deus —, mas o ritmo de seus passos, do canto, se embaralha com o ruído das botas de Colbert marchando num ritmo próprio. Ele conduz a todos em direção ao rio, o rosto vermelho projetado à frente, como se preparado para descer ao inferno e resgatar os justos.