Puro
Capítulo 3
Um homem — um homem nem moço nem velho — está sentado na antessala de uma ala do Palácio de Versalhes. À exceção do reflexo do seu próprio vulto negro no verde saburroso dos espelhos, não há mais ninguém presente. Nenhum estranho elegante se senta dessa vez na poltrona estreita à sua frente. Mas estamos novamente em outubro, e há simetria suficiente aí.
Na extremidade do aposento, a porta da sala do ministro está fechada (há simetria nisso também). Logo, se nenhum criado de olhos encardidos aparecer para admiti-lo, ele vai se levantar e bater à porta ou arranhá-la, vai entregar seu relatório, as trinta páginas perfeitamente atadas com fita que se encontram em seu colo e que detalham — com várias omissões necessárias — a destruição da igreja e do cemitério de Les Saints-Innocents.
Ele alisa a capa do relatório com o lado da mão, espana dali alguma imperfeição imaginária, uma ou outra cinza, talvez. É instrutivo constatar quanta coisa pode conter um documento tão frio, de aparência tão inócua quanto um guardanapo dobrado! Um ano de ossos, de escavação de covas, de trabalho incessante. De corpos mumificados e padres cantores. Um ano diferente de qualquer outro que ele viveu. Que há de viver, quem sabe? Um ano de estupro, suicídio, morte súbita. De amizade, também. De desejo. De amor...
Quanto ao incêndio que lhe pôs fim, isso foi o assunto das últimas cinco páginas do relatório e, quando chegou a hora, não foi tão difícil de abordar quanto temera. Um punhado de mentiras sobre como e quando descobriu o fogo, algumas suposições espúrias quanto à sua causa. Em seguida, uma breve descrição do incêndio propriamente dito, como ele durou até o amanhecer do dia seguinte, como destruiu a igreja da maneira mais completa imaginável, destruiu a casa do coveiro, transformou em cinzas todos os ossuários (com exceção do ossuário oeste), danificou duas casas na rue Saint-Denis e uma na rue de la Ferronnerie, embora nenhuma delas por completo. Não houve — por que haveria o ministro de se interessar por isso? — necessidade de contar que a grama no dia seguinte se parecia com hastes de vidro negro, estalando sob as botas dos homens, que a cruz do púlpito se destacava como um braço enegrecido dos destroços, que a fumaça pairou sobre o quarteirão durante dois dias antes que um grande aguaceiro a dispersasse, nem que o velho padre foi diagnosticado como insano pelo dr. Guillotin e levado de cabriolé pelo próprio médico para o hospício Salpêtrière.
Com relação aos mineiros, bastou relatar que a coragem e a vigilância deles salvaram do fogo muitas propriedades e que, depois do incêndio, todos trabalharam com afinco na limpeza. Levaram cinco semanas para derrubar o que teimava em permanecer de pé, para separar, quando possível, os ossos humanos do emaranhado de cinzas com que se misturaram... Mais dezenove comboios foram enviados para a pedreira até que ele, o mestre de obras, declarou que o que restara podia ficar e tornar-se parte do balastro sob as novas pedras que o mestre-pedreiro Sagnac viria a assentar, tendo o pedreiro sido formalmente encarregado de transformar o local no Marché des Innocents...
Pois isso foi o que se decidiu, o que ficou decretado. Um novo mercado em cima da velha terra come-carne do cemitério! O movimento do pequeno comércio, o pregão de mercadorias onde no passado havia apenas o som do sino do padre e o baque surdo da pá do coveiro. E Jeanne será dona de uma barraca, tendo declarado ser esse o seu desejo. De flores, flores secas e ervas, embora primeiro ela precise parir o que carrega naquele grande inchaço que ergue suas saias do chão. Guillotin mantém sua palavra de atuar como parteiro. Ele a visita com frequência e conta histórias divertidas e ternas da vida doméstica no apartamento da rue Aubri Boucher, da garota sonhadora, do velho coveiro, do mineiro. Na última dessas sessões, contou-lhes — a Jean-Baptiste, Héloïse, Armand e Lisa — do berço que Jan Block construiu, uma caminha sobre embaladeiras em forma de meia-lua, tudo, segundo o médico, feito à perfeição, com uma rosa gravada nos pés e um passarinho — um pardal — na cabeceira.
Os demais — os irmãos de Block — partiram já faz umas duas semanas, embora não se saiba para onde. Houve um último encontro entre Jean-Baptiste e o mineiro de olhos cor de violeta no jardim atrás de Saint-Sepulcre, onde os homens tornaram a montar suas barracas após o incêndio. Raiava a aurora, e uma camada de orvalho cobria as últimas flores de verão, as dálias e os gerânios. Jean-Baptiste foi até lá com o pagamento dos homens. O dinheiro foi aceito — a bolsa por um instante pesada na palma da mão do mineiro — e depois, com um ligeiro relaxamento do formalismo habitual, o mineiro informou ao engenheiro que todos partiriam na manhã seguinte.
Para Valenciennes?
Não.
Mas vocês permanecerão juntos?
Sim.
Então, eu desejo... sou grato a você. A todos vocês.
Um assentimento de cabeça.
Você é Hoornweder?
Lampsins.
Lampsins, então.
Moemus.
Moemus?
Sack, Tant, Oste, Slabbart...
Na manhã seguinte, os jardins estavam vazios. Nada além de um punhado de grama pisada para dizer que alguém andara por ali. Uma sensação estranha, perturbadora, de não tê-los mais por perto, ali ou em qualquer outro lugar. Héloïse o acusa de sentir saudades dos homens, e, apesar de rir para ela — como é possível sentir saudade de gente assim! —, há verdade no que ela diz. Dependeu deles, dependeu muito deles. Sem aquele misto específico de constância e rebelião, será que Les Innocents não estaria ainda espalhando sombra na rue Saint-Denis?
E de quem ele não dependeu? Quem foi que ele não onerou com tal fardo? O próprio relatório não poderia ser escrito sem Héloïse sentada a seu lado, página após página, na mesa em seu velho quarto. Quando a palavra necessária era uma palavra ainda não recuperada, ela a encontrava para ele, e, se preciso fosse, a escrevia para ser copiada (tendo ela aprendido a escrever com um clérigo lascivo, e ele, à ponta de vara com os irmãos da Congregação do Oratório). Os dois levaram três dias para redigir o documento, enquanto o calor do fim de setembro entrava pela janela aberta e os trovões rugiam sobre a cidade. Então, quando terminaram, os dois arrumaram seus pertences. Os dele mal levaram uma hora para caber no baú. Héloïse, com seus livros e chapéus, seus grampos, sapatos e fitas, gastou mais uma, embora pudesse ter levado menos tempo se Marie não estivesse sentada na cama em lágrimas e carecendo ser consolada a cada quinze minutos com a expectativa do retorno de Ziguette.
Ele não pretende ver Ziguette Monnard, não se puder evitar. É improvável, claro, que ela queira vê-lo — o que poderiam dizer um ao outro, afinal? —, mas sua chegada não é aguardada antes do final do mês, e a essa altura ele estará com Héloïse em Bellême e, depois disso, no novo apartamento da rue des Ecouffes.
E depois disso? O quê? O cemitério roubou alguma coisa dele, uma vitalidade que ele terá de recuperar antes de ser capaz de seguir em frente. Vai ter de imitar os mortos durante um tempo; ou melhor, imitar aquelas sementes que permaneceram tanto tempo adormecidas e imperturbáveis na terra do cemitério. Então, quando estiver pronto — e quando aqueles livres e louis que guardou acabarem —, quem sabe visite seu velho mestre, Perronet, peça algum emprego decente, modesto, algum emprego que não o deixe à disposição de homens que ele não respeita, de homens que não o respeitam...
Olha para a porta da sala do ministro. Estranho como as portas fechadas não são todas iguais. Como, a seu jeito, são tão expressivas quanto as costas de um homem. Essa lhe diz que, ainda que fique sentado ali até o fim dos tempos, ela não se abrirá, a menos que ele mesmo se incumba disso. Põe-se de pé, puxa um cacho de cabelo, o qual prende atrás da orelha, coloca o chapéu debaixo de um braço, o relatório debaixo do outro, vai até a porta, bate duas vezes, escuta. Então, estende a mão para o metal frio, curvo, da maçaneta. A sala está vazia. Claro que está vazia. A mesa permanece ali, aquela mesma mesa grande, mas não há papéis sobre o tampo, não há migalhas de macaron, não há ministro. Será que alguém esteve ali nas últimas semanas? Meses? Ele pousa o relatório, com precisão, no centro da mesa. Fecha a porta, atravessa a antessala e chega ao corredor. Faz uma curva, desce um lanço de escadas, percorre todo um segundo corredor, desce mais escadas e já vai entrar na boca de mais uma passagem ampla, margeada de portas e mal-iluminada, quando percebe que essa é a mesmíssima rota que seguiu no outono anterior, que está reprisando os mesmos enganos cometidos então, que de alguma forma se lembrou de como se perder exatamente da mesma maneira. Atrás dessa porta os cavalheiros poloneses jogavam cartas. Por aquela outra, ele viu a mulher ser carregada como se fosse um barco. E esta é a escada de serviço estreita e em espiral pela qual ele desceu, um ano atrás, e encontrou soldados, lavadeiras e garotos de uniforme azul. Hoje, salvo uma dupla de cãezinhos adormecidos num banco, ele está sozinho.
Abre a porta para o pátio de limoeiros. As árvores também foram parar em outro lugar. Um punhado de vasos de terracota vazios (todos grandes o bastante para esconder um homem), material de revestimento enrolado, uma fileira de ancinhos, enxadas e pás pendendo de pregos dispostos ao longo de uma parede... Vai até a janela, força a moldura úmida, sobe no parapeito, passa para o barril de água, pula.
Nenhuma badalada de relógio no palácio às suas costas — não é hora cheia —, mas o caminho se apresenta exatamente como há um ano, levando-o até o caramanchão, o banco e o cupido de pedra acima dele. Senta-se. Por que não? A tarde é quase quente, e ele não pretende ser um visitante frequente do Palácio de Versalhes. A sombra do cupido se derrama sobre seus joelhos. Ele fecha os olhos, respira, é momentaneamente assaltado por uma sensação — bastante convincente — da eternidade do momento. Estará dormindo? Alguns passarinhos vão acordá-lo. Reúnem-se ao redor de seus pés, mas ele não tem coisa alguma para lhes oferecer. Eles se aproximam mais e mais, dando a impressão de que vão pular para suas mãos; então, ao ouvirem o ruído de botas pesadas correndo, alçam voo para o céu. Um homem surge, se detém junto ao caramanchão, olha para Jean-Baptiste por cima da echarpe que lhe cobre o nariz e a boca, murmura algumas palavras abafadas e incompreensíveis, e volta a correr. Alguns segundos depois, aparece outro homem, também mascarado, também correndo. Então, vem um terceiro, este usando o tipo de capuz de couro com um focinho pontudo que os responsáveis pela inspeção de casas costumavam usar durante surtos de peste. Depois de ver um quarto homem passar correndo, Jean-Baptiste se levanta para segui-los. É como seguir abelhas para a colmeia. Toda vez que se depara com uma encruzilhada no caminho e fica na dúvida sobre que direção escolher, basta aguardar um instante para que um homem passe correndo. Durante vinte minutos ele adere ao jogo de para e anda dentro de um labirinto de arbustos altos até chegar a um portão num muro de tijolos e, depois de atravessá-lo, a um pátio de areia. No extremo do pátio fica um grande barracão de pedra, o tipo de construção que se imagina servir para guardar carruagens de qualidade do tipo que existe em grande número em Versalhes.
Ele fica de pé encostado aos tijolos, observando. É pelas portas duplas abertas do barracão que os mascarados entram e desaparecem. Alguns reaparecem, saem correndo pelas portas e se apoiam sem fôlego de encontro a um muro antes de voltar relutantemente lá para dentro. Um deles, um garoto de azul, cambaleia até uma gamela, arranca a máscara e vomita.
Nitidamente é hora de partir. Nitidamente, também, será impossível partir sem saber o que há no barracão. Ele se aproxima das portas, andando em círculo, de lado, e então penetra o interior sombrio que elas abrigam. No centro do barracão, no difuso tumulto em seu núcleo, homens mascarados puxam cordas. Quatro grupos de homens, quatro cordas grossas. E, preso à extremidade das cordas, algo cinzento, vasto e solitário. Toda vez que os homens puxam e a massa cinzenta é balançada, ouve-se um tinido, como o de uma centena de sininhos tocando. Em pé sobre um balde emborcado, um homem supervisiona toda a operação. Ele não repara em Jean-Baptiste até que o engenheiro, furtivamente, se aproxime o bastante para afinal entender o que é que os homens tentam deslocar, aquele enorme e inchado peso morto em seu ninho de garrafas de vinho vazias, um dos olhos vidrados grande como um prato de sopa, a ponta delicada de uma orelha canelada, uma presa curva e encardida... O supervisor bufa, então, enfurecido com o intruso, sua respiração fazendo inflar o pano que lhe cobre a boca. Ele aponta para a extremidade solta da corda mais próxima. Agita os braços: o desespero o enfurece. Durante vários segundos Jean-Baptiste encara o homem, sente por ele uma terrível pena fraternal, uma terrível repulsa fraternal. Então lhe vira as costas, espanta as moscas do próprio rosto e corre em direção àquela linha tênue que indica o fim do barracão e o começo da luz.