Puro

Andrew Miller · Capítulo 5 de 48

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Puro

Capítulo 4

 

Na rue de la Lingerie, na cadeira à direita da janela na sala de estar do primeiro andar, Emilie Monnard — que todos chamam de Ziguette — morde delicadamente o lábio inferior e observa a noite cair sobre a rue Saint-Denis, a rue aux Fers e o mercado Les Halles. O mercado, é claro, há muito encerrou o expediente, tendo seu lixo aproveitável sido levado pelos que moram lá. O que resta, aquele amontoado de palha suja, entranhas de peixes, penas manchadas de sangue e folhagens arrancadas de flores trazidas do sul, será carregado pelo vento noite adentro ou espalhado por vassouras e água na aurora do dia seguinte. A vida toda ela observou tudo isso e jamais se cansou dessa visão: o mercado e — mais diretamente à vista — a velha igreja de Les Innocents com seu cemitério, embora no cemitério nada aconteça há anos, salvo as idas e vindas do coveiro e da neta atravessando um dos portões ou, mais raramente, o velho padre com seus óculos azuis, que parece, simplesmente, ter sido esquecido por todos. Que falta ela sente de tudo aquilo! Das lentas procissões serpenteando desde as portas da igreja, os enlutados apoiando a cabeça nos ombros uns dos outros, o dobrar do sino, os caixões balançando entre seus carregadores, o murmúrio das preces rituais e, finalmente — o clímax de todo o processo —, o momento em que o morto — homem, mulher ou criança — era baixado à terra como se no intuito de alimentá-la. E quando os outros partiam e o lugar voltava à quietude habitual, ela continuava ali, o rosto colado à janela, vigiando como uma irmã de caridade ou um anjo.

Ela suspira, olha novamente para a rua, para a rue aux Fers, e vê Madame Desproux, a mulher do padeiro, passar diante da fonte italiana e fazer uma pausa para falar com a viúva Aries. E ali, de pé junto à cruz do mercado, está Merda, o bêbado. E acolá, Boubon, o cesteiro, que mora sozinho atrás da sua loja na rue Saint-Denis... E, mais adiante, subindo a rue de la Fromagerie, vem aquela mulher em sua capa vermelha. Terá Merda gritado alguma coisa para ela? Provavelmente lhe causa alívio insultar uma criatura inferior a ele, mas a mulher não se detém nem se vira. Está habituada demais aos tipos como Merda. Como é alta! E como anda ereta! Agora, alguém — um homem — fala com ela, embora se mantenha a distância. Quem é? Decerto não Armand (ou seria mais acertado dizer que é muito provável que seja Armand?). Mas logo eles se separam, e Emilie perde ambos de vista. Quando a noite cair, alguns daqueles homens que à luz do dia a provocam ou insultam irão atrás dela, fecharão um acordo, um rendez-vous num quarto em algum lugar. É assim que funciona? E uma vez no quarto... Ah, ela já imaginou a cena, pintou-a com riqueza de detalhes, enrubesceu intensamente ante tais pensamentos, pecados da mente que deveria confessar a Père Poupart em Saint-Eustache e que talvez confessasse, caso Père Poupart não parecesse tanto com um porco escaldado. Por que não existem padres bonitos em Paris? Ninguém se sente propenso a confessar coisa alguma a um homem feio.

— Alguém interessante na rua, meu bem? — pergunta a mãe, entrando na sala, por trás dela, com uma vela na mão rechonchuda.

— Na verdade, não.

— Não?

Madame Monnard fica de pé atrás da filha, acaricia seu cabelo, enroscando automaticamente um dedo naquela maciez tão querida. Na rue aux Fers, um acendedor de lampiões está encostando uma escada no poste em frente à igreja. Em silêncio, as duas o observam em sua escalada precisa e o veem alcançar o globo de vidro com uma vara, fazendo a chama brotar, descer rapidamente depois. Quando Madame e Monsieur Monnard se mudaram para a casa, não havia lampião algum na rue aux Fers e os da rue Saint-Denis eram muito poucos. Paris era mais escura então, embora todos estivessem acostumados a isso.

— Estou com medo — diz Madame — de que o nosso novo hóspede tenha se perdido. Como é do interior, duvido muito que ele consiga encontrar o caminho no meio de tantas ruas.

— Ele pode pedir informações — sugere Ziguette. — Suponho que saiba falar francês.

— Claro que ele sabe falar francês — afirma Madame, com um quê de incerteza.

— Acho — prossegue Ziguette — que ele deve ser muito pequeno e muito peludo.

A mãe ri, cobrindo, com a mão, a boca e os dentinhos encardidos.

— Que ideias bobas você tem — diz ela.

— E ele come — continua Ziguette, que desde a mais tenra infância é dada a devaneios desse tipo, às vezes divertidos, noutras alarmantes — apenas maçãs e pés de porco. E limpa os dedos na barba. Gosto disso.

Está fazendo uma imitação, arranhando o ar com os dedos sob o queixo rosado e bem-feito, quando o ruído de tamancos de madeira no assoalho precede a entrada da criada.

— Você não viu ninguém, viu, Marie? — pergunta Madame.

— Não — responde Marie, parada à sombra junto à porta, o corpo jovem e forte alerta como o de quem espera alguma acusação.

— Seu pai me garantiu que chegaria cedo em casa — diz Madame à filha. — Seria extremamente desagradável se tivéssemos de recebê-lo sozinhas. Marie, Monsieur Monnard não mandou nenhum recado, mandou?

A moça balança a cabeça. Trabalha ali como criada há dezoito meses. O pai foi curtidor no faubourg Saint-Antoine e morreu de tifo quando ela era jovem demais para guardar uma lembrança dele. Como todos na casa, Marie padece de sonhos.

O crepúsculo cede lugar às primeiras horas da noite. Madame Monnard acende mais velas. Atiça o fogo na lareira, com cuidado. Queima-se lenha ali, e lenha é artigo caro. Uma tora pequena, nem mais comprida nem mais grossa que o braço de um homem, custa doze sous, e são necessárias vinte delas para manter o fogo aceso o dia todo. Ela se senta, pega o exemplar do Journal des Dames Modernes, que tanto entreteve a ela e a Ziguette na véspera, e torna a contemplar a ilustração dos selvagens, nobres selvagens — grandes senhores em seus próprios reinos selvagens —, cujos rostos eram fantasticamente ornamentados, do queixo aos olhos, com tatuagens azuis, arabescos e espirais lembrando croquis de jardins elaborados. E se o hóspede chegar com uma cara assim? Que impacto! Melhor ainda que o piano-forte (e que triunfo aquele, o instrumento erguido por uma grua, como uma vaca resgatada de um pântano, e depois forçado a entrar pela janela, com metade da vizinhança assistindo). Pena não ser possível mantê-lo afinado. O que costumava levar quase às lágrimas o professor particular de Ziguette, embora seja preciso admitir que o Signor Bancolari era o tipo de cavalheiro que jamais passava muito tempo sem chorar.

No piso inferior, a porta da rua bate. Uma corrente de ar, encontrando seu caminho escada acima, faz estremecerem as chamas das velas na sala de estar. Logo em seguida Monsieur Monnard aparece. Ainda enverga o avental de couro que veste na loja, o couro escurecido pelo uso e pela idade, embora o motivo que o obriga a usar um avental — tendo em vista que dispõe de não menos que três aprendizes perfeitamente competentes para polir e afiar tudo que deve ser polido e afiado — esteja além, muito além, da compreensão de Madame Monnard. O marido, porém, é o patrão na própria casa.

Os dois se cumprimentam. Ele cumprimenta a filha, que agora está sentada na banqueta do piano dedilhando notas que podem ou não fazer parte de alguma melodia que conheça. Monsieur Monnard tira a peruca e coça com força o couro cabeludo.

— Nenhum sinal do nosso hóspede ainda? — indaga.

— Ziguette — diz Madame Monnard — anda dizendo as coisas mais ridículas a respeito dele. Acha que por ser da Normandia ele não fala francês.

— Na Bretanha — atalha Monsieur Monnard — fala-se um idioma quase impenetrável. É como se o aprendessem com as gaivotas.

— Afinal, por que ele veio para cá? — pergunta Ziguette. — Não estava satisfeito em casa?

— Presumo — responde o pai — que pretenda fazer fortuna. Não é por isso que todos vêm a Paris?

Marie pergunta se pode trazer a sopa. Monsieur quer saber que sopa irão tomar hoje.

— De ossos — replica Marie.

— Ela quis dizer que foi feita com a vitela de terça-feira — explica Madame Monnard. — À qual juntamos uma série de ingredientes saborosos.

— Como pés de porco — emenda Ziguette, arrancando da mãe uma gargalhada de prazer.