Puro

Andrew Miller · Capítulo 19 de 48

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Puro

Capítulo 4

 

De manhã, quando abre os olhos, já há luz em volta das venezianas. Ele procura o relógio, abre-lhe a tampa (o olho que tudo vê) e o segura próximo a uma das frágeis linhas de luz do dia. Oito e quinze! Abre de chofre a veneziana e olha lá embaixo. As barracas continuam ali. A fogueira enorme arde vivamente, figuras se deslocam entre as latrinas e as barracas. Aquele retalho de cor atravessando a grama úmida é Jeanne, e a mulher de ombros largos a seu lado sem dúvida é Lisa Saget. Lá está Lecoeur, conversando com um dos homens. E Armand! Armand mostrando sua utilidade, enquanto ele, o engenheiro, o comandante, continua na cama!

Não há muito o que vestir; não havia muito o que despir na noite passada. Ele abotoa o colete, enfia as botas, o chapéu e desce a escada de três em três degraus, passa pela porta do porão, uma porta que sempre parece se encontrar atrás de uma fina cortina de sombras...

No cemitério, depara-se com largos sorrisos, sobretudo por parte de Armand, mas ninguém é desagradável a ponto de tecer comentários. Todos estão ocupados, tranquilamente ocupados. Ele fica satisfeito, aliviado, mais agradecido a todos do que ousa expressar. Jeanne põe uma caneca de café em suas mãos, e, antes que ele possa lhe agradecer, ela sai de casa para ajudar o avô e Lisa Saget na construção de uma pequena cozinha anexa — uma fornalha, um fogão, alguns ferros para pendurar panelas, um toldo de lona para manter ao largo a chuva. Ele é quem deveria ter previsto a necessidade disso: não se pode cozinhar para trinta e cinco almas numa cozinha do tamanho da do coveiro. O que mais terá deixado de antever? Toma o café, deixando que o calor quase lhe escalde a língua e a garganta.

A sala contígua à cozinha transformou-se nos aposentos de Lecoeur. Jean-Baptiste espia lá dentro, vê que a cama já foi muito bem-feita, seja por Lecoeur ou por Jeanne. Ao pé da cama há uma sacola, não muito grande, e dá para ver que contém alguns livros. O ar no quarto, além do cheiro de mofo que vem dos registros do cemitério, tem um inconfundível odor de suor alcoólico.

Procura Lecoeur e o encontra junto a um dos velhos túmulos, um daqueles blocos de pedra desgastada excentricamente afundado na terra tal qual os destroços petrificados de um pequeno barco.

— Uma família nobre inteira pode ser encontrada aqui embaixo — diz Lecoeur, com uma palmadinha na pedra úmida —, mas as letras estão tão gastas que mal consigo ler o nome. Você consegue?

Jean-Baptiste olha. Rohan. Rohring. Roche.

— Não — responde. Depois, acrescenta: — Temos de começar agora.

— A cavar?

— É.

— Assim falou nosso Alexandre — entoa Lecoeur, que provavelmente ainda não está de todo sóbrio.

— Se você puder levar os homens até onde a terra está marcada, encontrarei com vocês lá.

Fica ali, pelo que sabe Jean-Baptiste — pelo que Jeanne e o avô foram capazes de lhe informar —, a mais antiga das covas, um quadrado de cerca de sete metros quadrados, delimitado com corda e cravelhas na extremidade noroeste, próximo ao local onde, atrás do muro, a rue aux Fers encontra a rue de la Lingerie. A superfície de grama desbotada e capim nada sugere. Se esse é o local, os que jazem ali não fizeram jus a qualquer homenagem póstuma duradoura.

De pé junto à corda, ele observa a aproximação dos homens. Cumprimenta-os, dizendo que espera que eles tenham passado uma noite tranquila. Em seguida, com a ajuda de Lecoeur, separa-os em três grupos: o que vai escavar, o que vai recolher os ossos e o que vai empilhá-los. Feito isso, os encarregados da escavação são mandados para dentro do cercado de corda.

— A terra — instrui o engenheiro — será amontoada deste lado. Quando a cova estiver vazia, ela será misturada com cal e devolvida ao buraco. Quanto aos ossos, eles serão, no devido tempo, levados de carroça até o novo local de descanso. — Ele faz uma pausa. Alguns homens balançam a cabeça. Os outros apenas o encaram.

O dia está muito quieto, uma quietude invernal. Jeanne e o avô, juntos, se mantêm calados a uma pequena distância da corda. Jean-Baptiste olha na direção dos dois. Sorri, ou tenta sorrir, mas seu rosto está frio. De todo modo, que significado teria tal sorriso? Ele se vira para o mineiro mais próximo, Joos Slabbart ou Jan Biloo. Jan Block, talvez. Faz um gesto de assentimento. O homem retribui, ergue o cabo da pá. A terra é aberta.

Eles cavam durante três horas, até que Jean-Baptiste pede a Lecoeur para fazer o primeiro intervalo. Nessas horas iniciais não viram muita coisa. Aparentemente, os mortos foram reduzidos a cacos, fragmentos, como se a cova os tivesse mastigado como acontece com pão seco na boca de um velho. Estarão cavando no local certo? Será que o coveiro se enganou? Ele e Jeanne já voltaram para a casa, mas, após a pausa, a cova começa a revelar seus tesouros, e cada segunda investida da pá desencava alguma estrutura reconhecível. Uma mandíbula com uma fileira de dentes com jeito de ainda serem capazes de morder. Todo o aparato delicado de um pé, costelas que lembram gomos de um velho barril de madeira. O monturo de ossos se torna um muro ósseo. Não há madeira, nem uma lasca, nada que sugira que os homens e as mulheres enterrados naquela cova contassem com algo mais que o abrigo de suas próprias mortalhas.

O almoço é anunciado por Lisa Saget batendo uma concha contra o fundo de uma frigideira. Qualquer desconforto que os homens possam ter sentido em seu trabalho não parece afetar seus apetites. Jean-Baptiste e Lecoeur se demoram junto à cova. Lecoeur dá a impressão de não estar bem, tendo puxado o lenço do pescoço para cobrir boca e nariz.

— Vamos acender uma fogueira depois do almoço — diz Jean-Baptiste. — Talvez ajude um pouco.

Lecoeur assente.

— Você vai comer? — indaga Jean-Baptiste.

— Primeiro, preciso tomar alguma coisa para acalmar o meu estômago — responde Lecoeur, numa voz abafada. Estranha e abafada.

— Está bem — concorda Jean-Baptiste. — Vou pedir a Armand para providenciar mais brandy. Podemos todos tomar um gole antes de recomeçar.

No turno da tarde, três dos cavadores são transferidos para o grupo coletor de ossos. Quase todos que estão dentro do quadrado delimitado se veem, a certa altura, pisando em ossos. Além de ossos, outras coisas começam a ser encontradas e retiradas. Uma cruz de metal esverdeado, deformada. Um broche, quase todo destruído, no formato de uma rosa. Parte de um cavalo de brinquedo feito de lata. Botões. Uma fivela de cinto com aparência de antiguidade. Nada ainda de grande valor. E se algo valioso for encontrado? Quem será seu proprietário legal? O homem que o descobrir? O coveiro? O engenheiro? Talvez seja o ministro.

A intervalos mais ou menos regulares, os homens — todos eles — parecem engolfados por ondas de repulsa. De olhos fechados, eles estremecem, hesitam. Então, alguém cospe nas costas da mão, uma bota ou tamanco se apoia mais resolutamente sobre a pá e o ritmo é retomado.

Quando os sinos da cidade anunciam que são quatro da tarde, a claridade começa a diminuir, e os homens, cujas cabeças baixas se encontram agora abaixo do nível do solo, dão a impressão, vistos de cima, de sombras escavadoras. Tochas são fixadas às paredes da cova. Agora, com efeito, a cena lembra um espetáculo: um bando de homens dentro de um buraco vermelho, tirando ossos de sob os pés. O muro ósseo margeia todo o comprimento de uma das laterais da fossa e se ergue até a altura dos ombros de um homem. A última hora deu a impressão de durar um dia inteiro. Jean-Baptiste tem a seu lado, sobre a grama, a garrafa de brandy. A intervalos — intervalos cada vez mais curtos —, ele a passa entre os homens, observa-os passarem-na entre si e depois a recebe de volta, mais leve. Às quinze para as seis, ele encerra o turno. Mais à frente, sabe que vai precisar insistir que o trabalho se estenda noite adentro, mas não já. Ele próprio não se acha capaz desse feito; não pode exigi-lo dos outros.

Encontra Lecoeur. Os dois caminham em silêncio até a casa do coveiro e ficam de pé junto ao fogo da cozinha.

Passado um minuto ou dois, Lecoeur, falando para o fogo, diz baixinho:

— Santo Deus.

— Amanhã será mais fácil — diz Jean-Baptiste.

Lecoeur se vira e repentinamente abre um sorriso sombrio:

— Amanhã vai ser de partir o coração.