Puro
Capítulo 15
Ele já se decidiu pela cova quatorze. Recém-esvaziada, limpa, com a terra dela retirada num monturo ao lado e distante o bastante das barracas para que haja esperança de manter o assunto em segredo, a cova quatorze é o lugar óbvio.
Na casa do coveiro, a cozinha está deserta. O velho deve estar lá em cima com Jeanne. Lisa, provavelmente, já voltou para casa para passar a noite com a família. Não há ninguém para se mostrar curioso, para fazer perguntas. Fica parado à porta da sala de registros, incapaz, por um momento, de entrar, intimidado por algum espectral pós-sopro da vida que até tão pouco tempo habitava ali. Então, entra de chofre, põe a sacola de Lecoeur em cima da cama e começa a enchê-la rapidamente com os poucos objetos que o outro se deu ao trabalho de tirar dela. Um par de sapatos de bico quadrado. Uma peruca de crina de cavalo. Uma camisa dobrada sobre a mesa. O colete de tricô. Dois livros: Os devaneios de um caminhante solitário, de Rousseau, e O homem máquina, de La Mettrie. O frasco vazio de remédio. Um relógio barato. O embrulho atado com fita contendo os esboços de Valenciana.
Consulta o próprio relógio. Está cedo demais para o que tem em mente. Tira da sacola O homem máquina e se senta com ele à mesa da cozinha. Não leu o livro. La Mettrie não é lembrado com carinho. Provinciano como o engenheiro, velhaco esperto, um homem que morreu de tanto comer patê. Passado um instante, abre o livro e sobrevive a quase meia página antes de perder a primeira palavra. Desvia o olhar, torna a fixá-lo, ajusta o foco. Nada fica mais claro. Enrubesce: aquela vergonha dos bancos escolares que voltou a lhe ser familiar nesses últimos meses. Então, a vergonha é varrida por algo mais urgente. Um espasmo nas entranhas, lá no fundo do quadrante inferior esquerdo, uma cólica. A dor passa, mas apenas para ressurgir mais aguda, aguda o bastante para fazê-lo gemer. Ele enfia o livro num dos bolsos, levanta-se do banco, sai da casa e corre, uma corrida estranha, de lado, como a de um animal ferido. Dá a volta pelos fundos da igreja na direção da parede de lona que esconde as latrinas. Que estupidez ir até ali à noite sem um lampião! Agarra uma das vigas, tateia com o dedão para achar o buraco, um dos buracos. Aqui? Tem de ser aqui: ele não pode esperar mais. Desce o culote (perdendo um botão na pressa) e deixa o muco lhe fluir das entranhas, ouve quando ele bate na superfície do muco que antecedeu o seu no buraco. Uma pausa: o corpo parece escutar a si mesmo; então, outro surto, que arde, quase queima. Agarra-se à viga, encosta a testa na madeira aplainada, sem fôlego, aguardando a convulsão seguinte. Vão batizar praças com os nossos nomes, disse Lecoeur naquela manhã em Valenciennes, enquanto a neve batia na janela. Os homens que purificaram Paris!
Um deles agora está morto com uma bala na cabeça; o outro, agarrado a uma viga acima da poça dos próprios dejetos.
Quando acaba, arranca algumas páginas de O homem máquina, limpa-se da melhor maneira possível, joga as páginas e, depois, o livro no buraco, e sobe o culote.
Na casa do coveiro, esfrega as mãos com vinagre. O fogo está quase apagado. Ele o atiça, põe mais lenha. Procura o brandy, mas pela primeira vez não há brandy. Lá em cima o assoalho estala, mas ninguém desce. Torna a sair, espia lá para o lado das barracas e depois volta à cozinha, acende um lampião e o leva com ele até a oficina dos médicos. Coloca o lampião em cima do caixão de Charlotte e depois segura firme as lapelas do casaco de Lecoeur. Tenta erguê-lo para sentá-lo, mas Lecoeur, morto há umas dezoito horas, está duro como um cachimbo de barro. Recua alguns passos e tenta equacionar a situação como se fosse um problema. Vai, então, até os pés de Lecoeur (onde uma meia se enroscou numa canela branca e fria), puxa-os para fora da mesa e escora o corpo de encontro à beirada. Funciona. Mais ou menos. Lecoeur fica na vertical, embora agora pareça menos com um cachimbo de barro do que com um tapete enrolado, um tapete pesado, encharcado. Ouve um baque surdo na terra entre ambos. A pistola? Voltará para pegá-la mais tarde. Em três movimentos, vira o corpo e o segura por baixo dos braços, com firmeza. Está no processo de arrastá-lo até a entrada da oficina quando ouve a lona ser afastada atrás dele.
— Você devia ter confiado em mim para ajudá-lo — diz Armand. — Ou achou que eu teria melindres?
— Pegue o lampião — atalha Jean-Baptiste. — E a pistola. No chão.
— A lua está clara o bastante para enxergarmos o caminho — retruca Armand. — E ele não vai sentir falta da pistola.
Os dois saem calados, levando o corpo de lado até a beira da cova e deitando-o no chão ao lado da grua. O engenheiro volta até a casa para pegar a sacola de Lecoeur. Manetti está na cozinha agora, sentado em sua cadeira.
— Estou levando parte da bagagem dele — diz Jean-Baptiste.
O coveiro assente, solene. Sabe-se lá o que terá entendido.
Do lado de fora da porta, Jean-Baptiste estende outra vez a mão para a pá providencial. Na cova, ele atira a sacola, que aterrissa de maneira discreta lá no fundo. Os dois erguem Lecoeur e o depositam no balancim, no berço. Armand passa uma corrente em torno da cintura do morto, joga o peso para trás e assume o seu lugar, enquanto Jean-Baptiste empurra balancim e corpo para a boca da cova. Então, os dois começam a manusear a corrente, ouvindo a engrenagem da grua gemer como um ganso mecânico.
— Qual é a profundidade desta maldita cova? — sibila Armand.
— Dezesseis metros — responde Jean-Baptiste. — Ele bateu no fundo!
— Você quer que eu desça? — pergunta Armand.
— Prefiro saber que tem alguém cá em cima. Alguém em quem eu confie.
Jogando a pá dentro da cova, ele vai até a escada e pisa nela. Armand tinha razão: agora que as nuvens se dispersaram, há luar suficiente para o que precisam fazer. Escuridão também. Ele lança um olhar para a rue de la Lingerie, para os fundos das casas, para as janelas. Vê numa delas, uma janela alta — possivelmente a do seu velho quarto —, uma luz se mover da esquerda para a direita como um sinalizador. Desce os degraus, passa com cuidado para a segunda escada e chega ao fundo da cova. Leva um longo minuto para encontrar a pá (um minuto em que todo tipo de loucura ameaça irromper em sua cabeça). Vai, então, até o balancim, libera Lecoeur e o puxa na direção de uma poça de luar num dos cantos da cova. Começa a cavar ali, a beirada da pá afundando com facilidade na terra que a primavera amoleceu. Os homens talvez achassem instrutivo vê-lo labutar assim, o engenheiro, o mestre de obras, sem chapéu e curvado em sua tarefa, começando a suar.
Ele cava durante tempo suficiente para que a poça de luar se desloque um pouquinho; depois, recua. É difícil ver exatamente o que fez — o luar não chega a ser propriamente uma luz —, mas de repente descobre ser intolerável prosseguir. Encosta a pá na parede, se abaixa, agarra Lecoeur, deita-o ao lado do buraco e o rola para dentro. Joga a sacola a seus pés. Nem sacola nem corpo estão profundamente enterrados, mas também não é preciso. Amanhã, ele mandará encher a cova até a boca com terra e cal. Dezesseis metros: profundidade suficiente para qualquer um. Ajoelha-se por um instante ao lado do buraco, respira fundo e, num gesto que esconde até quase de si mesmo, estende a mão para tocar o ombro do morto. Depois, fica de pé, pega novamente a pá e começa, rapidamente, a cobrir o corpo. Primeiro as pernas, depois o torso. Por fim, o rosto.