Puro

Andrew Miller · Capítulo 23 de 48

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Puro

Capítulo 8

 

Quando fica sozinho com Armand, os dois frente a frente junto a uma das entradas da galeria do ossuário sul e com um sótão cheio de ossos sobre suas cabeças, o organista mostra os dedos de ambas as mãos para comprovar que eles não ostentam nem mesmo um salpico de tinta.

— Fleur ou Renard — diz ele. — De Bergerac, num impulso. Excesso de entusiasmo. Vou falar com eles. Mas acho que você devia se sentir lisonjeado.

— Lisonjeado ?

— Provavelmente causou nos três uma impressão considerável. Posso garantir que eles jamais escreveram uma palavra a meu respeito, e eu os conheço desde o orfanato.

— Eles foram enjeitados?

— Foram e são.

— Eu não sabia.

— Não. Você preferiu não gostar deles. Desdenhá-los.

— Mas eu preciso trabalhar aqui! Isso não significa nada para eles?

— E quem faria a ligação? Suponho que você não tenha mencionado seu nom de guerre a ninguém.

— Não. Claro. Não.

— Não?

— Não!

— Então?

— Não vou... Não sou...

O engenheiro hesita, olha à volta como se, entre as lápides, nas quinas das pedras, pudesse descobrir aonde não vai ou aquilo que não é. Fica evidente que devia ter tomado uma dose maior do remédio de Guillotin. Mais uma noite de insônia o deixou idiota, com os pensamentos apartados uns dos outros por terrenos baldios mentais. Raciocínio e coerência de repente lhe parecem dons finitos que ele pode, esta manhã, hoje à noite, na semana que vem, ver desaparecerem abruptamente. E aquele encontro estranho, espantoso, com a austríaca! Estaria a mulher esperando por ele? Esperando-o para lhe dar um pedaço do seu pão? Por que faria isso?

— Sua política — diz Armand, que talvez já esteja falando há algum tempo — é a política de conclusões inconclusivas. Pateticamente comum.

— Como assim?

— Você vê como são as coisas. Já leu a respeito, já ponderou, mas se recusa a chegar às conclusões óbvias.

— Que são...

— Que são aquelas a que homens com capacidade muito inferior há muito já chegaram. Homens como Fleur, Renard e De Bergerac.

— Talvez a minha dificuldade, então, seja o fato de eu saber o nome dos meus pais.

— Tudo que o ofendeu foi que a pintura na parede pode refletir sobre a sua condição profissional. Você é totalmente egocêntrico. Vê a si mesmo como um homem de pensamentos nobres, de tendência liberal, mas seu único ideal genuíno é a própria ambição.

— Você abriu mão da sua? O órgão de Saint-Eustache?

— Posso ver além das minhas ambições. Não sou limitado por elas. Essa é a diferença.

Com impertinência, os dois dão as costas um para o outro. Jean-Baptiste, de braços cruzados sobre o peito, lança um olhar para além das pedras enegrecidas da galeria e vê Lecoeur caminhando sobre a grama em direção a eles. Seu andar é inquieto, as pernas, rijas, o corpo, inclinado para a frente, o rosto, sombreado pelo chapéu...

— Um motim — diz ele, entrando abruptamente na galeria, sem se preocupar com cumprimentos. — Os homens se amotinaram! — Olha para os outros dois, parece imensamente satisfeito com a visão de suas expressões atônitas e, então, acrescenta: — Pode não ser correto dizer que se amotinaram, por enquanto. Mas estão infelizes. Muito infelizes. Não vão trabalhar.

— E o motivo?

— Querem cachimbos.

— Cachimbos?

— Para fumar. Não voltarão ao trabalho sem eles. Estão convencidos de que o tabaco é uma proteção essencial contra infecções.

— Que infecções?

— Infecções que eles podem contrair nas covas, claro.

— Eles querem fumar?

— Insistem em fumar. Todos eles. E não se dê ao trabalho de buscar a origem de tal ideia. Eles acordam um dia com elas e pronto. Tais noções podem mesmo ser autógenas.

Armand estala a língua.

— Isso é mais positivo que negativo. É uma exigência muito barata de satisfazer. E terão você em alta conta por isso. Serão apaziguados.

Enquanto falavam, os três deixaram para trás o ossuário. Os mineiros estão reunidos junto à fogueira, observando.

— Há uma loja na rue aux Ours — prossegue Armand —, em frente à agência dos coches. Ela tem várias centenas de cachimbos no estoque. Tabaco suficiente para satisfazer a Marinha toda. Eu recomendo.

— Então — diz Jean-Baptiste —, você talvez queira providenciar o que for necessário, não?

— Devo abrir uma conta? — indaga Armand, voltando sem qualquer esforço aparente ao seu papel de Escaramuche, Arlequim, Puck. — Preços especiais? Pagamento mensal?

— E, se Monsieur Saint-Méard não fizer objeções — emenda Lecoeur rapidamente —, posso acompanhá-lo.

Armand assente, com uma reverência. Lecoeur responde na mesma moeda.

— Como está o doente hoje? — pergunta Jean-Baptiste.

— Block? Ah, um anjo caridoso cuida dele — responde Lecoeur.

— Ele morreu? — exclama Jean-Baptiste, ainda concentrado nos homens, na turbulência do raciocínio de todos eles.

— Eu me referi a Jeanne — responde Lecoeur. — Ela cuida dele. Não devíamos nos preocupar com Block. Block sobreviverá a todos nós.

A julgar pelos sinos de Saint-Eustache e pelos inquietos ponteiros do relógio de Jean-Baptiste, passam-se quase duas horas até que Armand e Lecoeur retornem ao cemitério. O engenheiro já se amaldiçoou pela loucura de permitir que os dois fossem juntos, embora não saiba ao certo se poderia tê-los impedido, se dispõe de tal autoridade, tal direito, bem como da necessária força moral para tanto.

Fica óbvio que ambos estão bêbados a uma distância de muitos metros, mas parecem capazes de andar sem vacilar, e o embrulho nos braços de Lecoeur sugere que não se esqueceram do propósito original da expedição.

— Você viu o muro? — sibila Lecoeur, a boca tão próxima à bochecha do engenheiro que quase lhe dá um beijo. — Saint-Méard diz que o conhece. O tal de Bêche. Aparentemente, um homem que ninguém acusaria de radicalismo. De aparência bastante comum, mas, por baixo, um sujeito frio como gelo. Mata sem pestanejar. Saint-Méard o chama de vingador do povo. Isso não soa meio lírico?

— Esses são os cachimbos? — indaga Jean-Baptiste.

— Comprei todos que havia na loja. Depenei o estoque. Há vários sem dono. Talvez você queira ficar com um. Posso escolher? — Ele ri, começa a remexer no embrulho. Parece feliz, simplesmente feliz, pela primeira vez em muitos dias.

Quando, afinal, os homens se juntam e recomeçam o trabalho na cova, não há entre eles um só sem uma haste de barro entre os dentes. O que, aparentemente, não os incapacita para cavar, coletar e empilhar. Lecoeur se posta perigosamente próximo à beira da cova. Parece um sonâmbulo. Os médicos chegam. Guillotin se posiciona ao lado de Jean-Baptiste e, depois de observar a labuta durante um tempo, diz:

— Você viu a pichação no muro?

Jean-Baptiste assente.

— Existem forças em ação — diz Guillotin — que nossos patrões ignoram por sua conta e risco.

Jean-Baptiste vira-se para encarar aqueles olhos serenos, castanhos, no rosto grande e corado. Será que Guillotin pertence ao partido do futuro? Será que, juntamente com Renard, Fleur, De Bergerac e Armand, conhece as conclusões a serem tiradas? Os dois se encaram um instante até que o ruído de uma pá batendo na madeira, lascando-a, atrai a atenção de ambos de volta para a cova.

O engenheiro se agacha.

— Um caixão? — exclama.

O mineiro ergue os olhos e, em resposta, numa confirmação, tira o cachimbo da boca.

Eles o retiram da terra, transferindo-o para o berço, e, depois de içá-lo, depositam-no na grama.

— Suponho que devamos abri-lo — diz Jean-Baptiste baixinho, como se falasse consigo mesmo. Olha para o homem mais próximo. Guido Brun ou, se não Brun, aquele que se parece muito com Brun. Qualquer coisa Agast. Englebert Agast? O homem enfia a lâmina da pá sob a tampa do caixão, força, força com mais vontade até que a madeira, com um pequeno estalido, cede, e boa parte do caixão imediatamente se desintegra. No interior há um esqueleto, os resíduos de um homem, seus ossos ligados por retalhos de tendões ressecados. Fios de cabelo negro, ásperos como grama esturricada, brotam das laterais do crânio. Dentes grandes e marrons estão à mostra.

Lecoeur, agora acordado e muito sóbrio, faz o sinal da cruz, no que é acompanhado por vários mineiros.

— Para retirar os ossos — observa o dr. Thouret —, para separá-los para que fiquem como vocês querem, será preciso fervê-los.

— Ferver o cadáver? — pergunta Jean-Baptiste.

— Este é um procedimento perfeitamente normal — assegura o dr. Guillotin, de forma tranquilizadora. — Nada de obsceno aí. Fale com o coveiro. Esses cavalheiros conhecem seu ofício.

O caixão içado em seguida contém apenas um punhado de ossos, o que faz com que, ao ser retirado do berço e balançado, ele chacoalhe como um brinquedo de criança. O seguinte, exceto por um pouco de poeira, está vazio.

— Ao menos um escapou — comenta Guillotin, dirigindo-se ao grupo. — Há esperança para todos nós.

A observação supostamente pretendia aliviar a tensão, mas os homens olham para o médico com expressão pétrea, e apenas Lecoeur, com certa coragem derivada das boas maneiras, consegue esboçar um sorriso em resposta.

Um novo sistema surge, uma nova rotina. A madeira dos caixões é queimada na fogueira, onde provoca breves explosões de chamas de cores estranhas. Os corpos ainda teimosamente unidos por ligamentos e tendões são deixados dentro do ossuário, onde, a partir do meio da tarde, Manetti, ajudado por um dos mineiros, os recolhe num carrinho de mão e os leva até o local onde montou recipiente de fervura, uma banheira de cobre usada durante cem anos para arrematar o trabalho iniciado pela terra de Les Innocents e que agora foi trazida de um canto do cemitério onde havia muito desfrutava da sua aposentadoria.

De início, tanto nos homens lá embaixo na cova quanto nos homens cá em cima, encarregados de abrir os caixões, percebe-se uma tensão palpável. Todos se preparam para algum tipo de horror, algo abruptamente revelado, que possa, lá de dentro, encará-los . Junto com a garrafa de brandy, também o pote de tabaco é passado de mão em mão. Felizmente, isso basta para manter todos ocupados. No fim do dia, quando o último caixão é içado à luz da fogueira, tudo dá a bizarra impressão de tolerável, como se o trabalho, apesar de suas peculiaridades, não passe, afinal, de trabalho apenas, uma tarefa à qual alguém se dedica em troca de remuneração, uma coisa que se faz porque a inquietação humana precisa ser dirigida a algum propósito para não se retroalimentar.

* * *

Ele janta com os Monnard. Não há como evitá-los para sempre. Senta-se com eles — com Madame e Monsieur — ruminando garfadas de carne e feijão-manteiga. O fogo na lareira está mais vivo que de hábito: Jean-Baptiste providenciou uma remessa de lenha do cemitério, onde há de sobra. As chamas marulham no flanco polido do piano-forte. Ninguém comenta a ausência de Ziguette, embora de vez em quando a mãe lance olhares para a cadeira vazia, para os utensílios sem uso sobre a mesa.

Numa conversa espasmódica, os três já exauriram os assuntos rotineiros: o tempo, os méritos da carne, o preço alto dos grãos. Isso feito, cada um se voltou para os próprios pensamentos e para a mastigação incessante, até que Madame Monnard, depois de pigarrear, pergunta:

— É verdade, monsieur, o que Marie nos contou sobre as coisas escandalosas escritas no muro do cemitério?

— Marie? Achei que ela não soubesse ler.

— E não sabe, monsieur. Nem o próprio nome — esclarece Monsieur Monnard. — Mas ela escuta. Escuta melhor do que uma coruja.

Instantaneamente — espontânea e perfeita —, a imagem de Marie com orelhas empenachadas, empoleirada num galho sob o luar, brota na imaginação do engenheiro.

— Disseram a ela, monsieur — esclarece madame. — Ela soube.

— E não foi só essa — emenda Monsieur Monnard. — Monsieur Gobel esteve na loja hoje à tarde e me contou que viu algo muito parecido no muro em frente à Bolsa.

— Deve haver centenas — observa Madame. — Pode haver centenas?

— Essa outra — indaga Jean-Baptiste, gesticulando com o garfo —, a da Bolsa... usaram o mesmo nome?

— Bêche — responde Monsieur Monnard, atacando com a faca o último pedaço de carne em seu prato. — E todo tipo de ameaças ao rei e seus ministros. Minha esposa ficou muito perturbada, monsieur.

— Tenho medo — atalha Madame, que, com efeito, parece de súbito muito perturbada — de que nos assassinem em nossas camas. Que cortem nossas gargantas.

— Tenho certeza de que é pura falta do que fazer — afirma Jean-Baptiste. — Não passa de... não passa de brincadeira.

— Brincadeira? Para o senhor, talvez, monsieur. Sei que quer me tranquilizar, sendo o jovem atencioso que é, mas garanto que vou sonhar com esse Bêche escalando o muro para entrar pela janela do nosso quarto. O senhor viria, monsieur, se nós pedíssemos socorro? O senhor tem uma espada?

— Não, madame.

— Achei que tinha uma espada.

— Sou engenheiro, madame. Tenho uma régua de metal.

— Ouso dizer que talvez sirva — diz Madame Monnard, pensativa. — Se for das grandes.

Marie entra para retirar os pratos. A conversa cessa. Os pratos são recolhidos, empilhados. Ela tem mãos fortes e vermelhas como as de um homem, de um operário. E aquele cabelo preto! Aquele bigode feminino lustroso, que decerto não é um defeito. Para Jean-Baptiste, Marie parece dona de um vigor que ninguém mais na sala possui, como se suas raízes estivessem fincadas num solo mais rico, mais fecundo, que nenhum deles é capaz de atingir.

Quando ela sai, fechando a porta com o pé, Madame e Monsieur trocam olhares e depois voltam a encarar o engenheiro, como se alguma explicação — explicação para todas as coisas ruins e perturbadoras ocorridas após a sua chegada à rue de la Lingerie — fosse devida por ele.

— Eu gostaria de saber — começa Jean-Baptiste —, de perguntar, quero dizer, como vai indo sua filha, madame.

— Ziggi? Ah, monsieur, é muito difícil ter filhos. Ela dá a impressão de haver se derretido. O senhor deveria lhe fazer uma visita. Meu marido e eu estamos perdidos. Desde... por favor, nos desculpe, mas, desde que o seu trabalho começou, não há o que a console. É como se ela sentisse os golpes de pá na própria carne.

— Lamento muito — diz Jean-Baptiste. — De verdade. Mas o trabalho não pode ser evitado. Estou tentando, madame... Estamos tentando fazer o que é certo, o que é...

O fogo estala; uma fagulha voa. Jean-Baptiste, pondo-se rapidamente de pé, apaga-a com o dedão da bota.

— A lenha está verde — rosna Monsieur Monnard, encarando, raivoso, o fogo, como se a lenha verde fosse o cerne verde de tudo que o acabrunha.

No andar de cima, protegendo a vela de dezenas de correntes de ar que habitam o socavão no alto da casa, à semelhança de correntezas secretas, invisíveis, o engenheiro se detém do lado de fora do quarto de Ziguette e baixa os olhos para a linha de luz que vaza por baixo da porta. É tarde, mas ele está curioso para vê-la, para ver a garota derretida. E para lhe infundir, se possível, alguma tranquilidade. Como hóspede — uma espécie de hóspede — na casa, sem dúvida lhe compete demonstrar solidariedade à moça, e ele já está prestes a bater de leve, quando a porta é aberta por Marie, que tem no rosto um esboço de sorriso. Durante alguns segundos os dois ficam parados, encarando-se ostensivamente. Depois, ela recua para deixá-lo entrar.

Duas velas (além da dele) iluminam o aposento: uma sobre a penteadeira e a outra em um pequeno castiçal de porcelana pintada na mesinha de cabeceira. O quarto é espaçoso, no mínimo três vezes maior que o dele, e com uma enorme janela com venezianas que se abre para a rua silenciosa. Devidamente arrumado, seria um lugar agradável, talvez o mais agradável da casa, mas nada ali está em ordem. O cômodo parece ter sido assolado por uma tormenta particular, tormenta que fez rodopiar cada vestido e corpete, cada lencinho de linho, avental bordado e espartilho, as toucas rendadas e os chapéus de palha, os fru-frus, as franjas e os babados que o amor paterno de um cuteleiro possa ofertar à filha única, tormenta que lançou tudo para o ar e depois, cessando de súbito, deixou que chovessem em desalinho. No meio de toda essa balbúrdia e parcialmente encoberta por ela, encontra-se a própria Ziguette, o corpo vagamente esculpido por um lençol de linho, o rosto afogueado por um calor cuja fonte é decerto interior (o quarto não conta senão com um modesto crepitar de chamas na lareira), o cabelo — sem grampos, sem touca, sem trato — derramado sobre o travesseiro num pesado emaranhado louro. Ela ergue os olhos inchados para o engenheiro e, na alvura macia do seu pescoço, ele vê nitidamente o pulsar do sangue.

— Espero que não seja tarde demais para lhe fazer uma visita.

Ela não responde. Ele se vira para Marie, parada às suas costas com os dedos entrelaçados à frente do corpo e, agora, com uma expressão de total indiferença.

— Sua mãe — prossegue Jean-Baptiste, voltando a falar com Ziguette — achou que você não se oporia. Acabo de jantar com ela. Seu pai também, é claro. — Ele gesticula, indicando, lá fora, lá embaixo, a sala de estar. — Sinto muito vê-la indisposta. Lamento se, involuntariamente, causei...

A garota faz um gesto frenético. Marie pega embaixo da cama um enorme urinol. Ziguette vomita. Não produz grande coisa — presume-se que seu estômago esteja quase vazio —, mas o barulho, amplificado pelo urinol, impressiona. Marie segura a cabeça da moça, seus dedos vermelhos mergulhados no cabelo louro, puxando-o com força.

O engenheiro sai para o corredor, fecha a porta devagar e segue apressado para o próprio quarto. Senta-se na beirada da cama, o ouvido atento a mais barulhos do quarto da doente, e recebe alguns indícios débeis. Depois, a casa se aquieta, liberta por um momento até mesmo de seus leves estalos e estrilos.

Acender a lareira? Por que se dar ao trabalho?

Puxa o banyan para o colo como se fosse um cobertor, olha para o frasco de remédio sobre a capa do exemplar da Histoire Naturelle Volume II, de Buffon, pergunta-se se deveria oferecer a Ziguette um pouco do líquido, uma generosa colherada marrom, e de repente fica de pé, vai até o guarda-pó que usou de manhã, remexe num bolso, remexe no outro, e dele tira o pedaço de pão que Héloïse lhe deu junto ao muro do cemitério. Está seco, tem quase a consistência de um biscoito, mas ele o morde, com cuidado, deixa que amoleça na língua e sorri ante a lembrança daquele gesto da mulher, tão gracioso, tão espontâneo, tão simples. É quando ouve vindo de fora, lá de baixo, lá — sem dúvida — do cemitério, a estridência de uma gargalhada feminina. Destranca a janela, escancarando-a, e põe a cabeça para fora. Não há coisa alguma para ver, nada óbvio. Talvez a fogueira ao lado da cruz esteja ardendo com mais brilho do que deveria a essas horas, mas afora isso... Debruça-se mais, quase até a cintura, ajusta o foco da visão. Delineadas pela luz rubra do fogo, sombras se movem. Torna, então, a ouvir aquela gargalhada desenfreada, erguendo-se acima dos muros, tão cristalina quanto o sino de um mascate no silêncio frio e fedorento da noite.