Puro

Andrew Miller · Capítulo 9 de 48

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Puro

Capítulo 8

 

Está sentado no quarto, envolto em adamascado e contemplando, para além da janela aberta, a igreja. O sol se põe, mas as pedras de Les Innocents pouco refletem seu brilho. As janelas reluzem por um instante, iluminadas por um fogo que mais parece vir de algum holocausto dentro da igreja do que de algo tão distante, tão benigno, quanto um sol vermelho de fim de outubro. Então, a luz vacila, recua, e toda a fachada se funde numa escuridão uniforme.

Jean-Baptiste se levanta da cadeira para ver se é possível detectar o brilho da primeira vela noturna na casa do coveiro, mas nada vê, não ainda. Talvez os dois se recolham, como camponeses normandos e os animais desses camponeses, assim que escurece demais para continuar trabalhando.

Será que a garota é retardada? Acha que não, mas quem garante que vai poder depender da descrição que ela fizer do que, sob a grama brava, ele há de encontrar quando começar a cavar? Supõe que não haja alternativa, já que não lhe resta muito mais para guiá-lo. As lembranças do coveiro idoso, registros que serviram de jantar para gerações de ratos...

Vira a cadeira e se senta de frente para a mesa. Remexe no estojo de isca e pederneira, acende a vela e a aproxima da extremidade do caderno em que, de manhã, fez suas anotações. Estuda os esboços, passa um dedo pelos números, tenta encarar a coisa toda como um problema de pura engenharia como os que, na escola, Maître Perronet submetia aos pupilos a caminho do seu gabinete. Tantos metros quadrados de terreno, tantos carrinhos de mão cheios de... escombros. Tantos homens, tantas horas. Um cálculo. Uma equação. Voilà! Não pode se esquecer, é claro, de deixar espaço para o inesperado. Perronet sempre insistia nisso, numa certa elasticidade, numa certa flexibilidade de modo que acomode aquele tanto de incerteza que dificulta todo e qualquer projeto e que o praticante ingênuo sempre ignora até ser tarde demais.

Do final do caderno ele arranca com cuidado uma folha de papel liso, abre o tinteiro, molha a pena e começa a escrever:

Meu senhor,

Conduzi um exame inicial tanto da igreja quanto do cemitério e não vejo motivo para postergar o trabalho que Vossa Senhoria me confiou. Será necessário recrutar no mínimo trinta homens de boa compleição para o cemitério e outros tantos para a igreja, alguns dos quais devem ter experiência na arte da demolição. Além disso, precisarei de cavalos, carroças e um bom suprimento de madeira.

No caso do cemitério, além da remoção dos restos das criptas, sepulturas e fossas coletivas, recomendo que toda a superfície seja escavada até uma profundidade de dois metros e que essa terra seja mandada para fora da cidade, a algum local despovoado, ou mesmo levada até a costa e jogada ao mar.

Se me permite perguntar, algum lugar apropriado já se encontra preparado para receber o material humano? E o que deve ser preservado na igreja, além dos objetos de natureza religiosa, das relíquias etc.? Existe lá, por exemplo, um órgão de origem alemã que poderia, se Vossa Senhoriaassim desejar, ser desmontado com vistas à sua preservação.

Estou, senhor, a seu inteiro serviço,

J-B Baratte, engenheiro.

Ele não tem areia onde escorrer a tinta fresca, por isso sopra para secá-la e limpa a pena da caneta. Do piso inferior, vem o som monocórdio da sineta que chama para o jantar. Mais comida de homens mortos. Ele se livra do banyan, estende a mão para o casaco pistache e então, antes de descer, faz uma pausa junto à janela com a vela na mão. Não passa de uma fantasia, é claro, de um impulso totalmente estapafúrdio que ele não se daria ao trabalho de explicar para ninguém, mas mesmo assim mexe a vela, de um lado para o outro, como se sinalizasse. Para quem? Quem ou o que poderia estar lá embaixo, naquele terreno escuro, observando? Jeanne? Armand? O padre? Algum vigia de olhos fundos, zelador daquele milhão de mortos? Ou alguma edição futura dele mesmo, habitando o porvir e vendo o bruxulear de uma chama numa janela diretamente acima de onde está? Que quimeras é capaz de criar até mesmo a mente de um homem como ele! Não pode lhe dar corda. Vai acabar acreditando na criatura de que falou o ministro, o cão-lobo do ossuário.

Acima de Paris, as estrelas são fragmentos de uma esfera de vidro atirada para o céu. A temperatura cai. Dentro de uma ou duas horas, as primeiras flores frágeis, crestadas pelo frio, desabrocharão no gramado de passeios públicos, de parques, de jardins reais, de cemitérios. Os lampiões de rua gotejam. Durante a última meia hora eles vêm deixando escapar uma fumaça alaranjada, nada iluminando além de si mesmos.

Nos faubourgs dos ricos, vigias anunciam as horas. Nos redutos miseráveis dos pobres, figuras esquivas tentam se esconder no calor umas das outras.

Na casa dos Monnard, no quartinho de guardados sob o telhado, a criada Marie está ajoelhada no escuro. Enrolou o tapete e grudou o olho no buraco acima do quarto de hóspedes. Também costumava observar o músico dessa forma, mas o buraco não foi obra sua. Ela o encontrou com o dedão do pé uma semana depois de começar a trabalhar para a família.

O ar sobe do quarto do hóspede numa espiral quente, levemente enfumaçado, que faz seu olho coçar. Ele acendeu a lareira esta noite, e a lenha continua a queimar, ao menos o suficiente para que ela possa vê-lo, ver seu corpo sob as cobertas, a boca pálida, a maciez em torno dos olhos fechados. Sobre a mesinha de cabeceira está um livro aberto, um pedaço de metal para medir e utensílios para escrever.

O que ela gosta de ver é o momento, o preciso momento, em que eles pegam no sono. Ela é, a seu jeito, uma colecionadora, e, embora garotas mais afortunadas, mais abastadas, possam colecionar dedais ou botões caros, a ela resta colecionar o que for gratuito. Precisa ter cuidado, é claro. O buraquinho não pode denunciá-la. Eles não podem olhar para o alto e ver acima, no teto, o cintilar licoroso de um olho humano.

Este, o novato, o estrangeiro de olhos cinzentos, está deitado de costas, o corpo um pouco virado para a direita, braço e mão esquerdos pendendo estendidos por cima da coberta, a palma da mão para cima, os dedos ligeiramente flexionados. Estarão mesmo tremendo ou é apenas uma ilusão provocada pelas brasas incandescentes? Marie enxuga o olho, torna a olhar. É como se a partir daquela mão aberta, pensa ela, ele se deixasse ir, a mente rolando pelo assoalho como uma bola de lã negra, se desenrolando, se desfazendo...

Dez ruas adiante, num apartamento de segundo andar da rue des Ecouffes, Armand Saint-Méard está esparramado numa cama grande, com uma mulher grande, sua senhoria e amante, Lisa Saget, mãe viúva de duas crianças vivas e de duas que foram para debaixo da terra antes do quinto aniversário. Mais adormecida que acordada, ela se esgueira da cama, se acocora sobre um balde, faz xixi, se enxuga com o trapo, volta para a cama. Quando torna a se deitar, a mão do organista passeia, zonza, sobre a coxa da mulher, toca um único arpeggio demorado no calor da sua pele e depois se aquieta, descansa.

A oeste — oeste em relação ao cemitério e ao mercado, e próximo o bastante à igreja de Saint-Eustache para que as palavras sejam ininteligíveis quando os sinos tocam —, Héloïse Godard, a austríaca, está sentada totalmente vestida na beira da cama lendo Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe.

O livro, como outros da sua coleção, foi-lhe dado como parte de pagamento por Monsieur Ysbeau, um cavalheiro agradável e erudito que administra dois grandes quiosques de livros na margem do rio. Na primeira terça-feira do mês, ela escolhe um livro nas caixas, enquanto ele se senta no banquinho a seu lado, o culote enroscado nos tornozelos. Quando se vira para ele, exige-se que ela se finja escandalizada, que o repreenda em linguagem chula, após o que ele pede desculpas, sobe o culote e, com meia dúzia de movimentos precisos, embrulha o livro.

Ela aprendeu a ler por cortesia dos pais, estalajadeiros na estrada Orléans—Paris, que pretendiam vê-la exercer a mesma atividade. Mandaram-na, para tanto, obter instrução com um certo curé que, debruçando-se sobre a cartilha com ela, se familiarizou com o recheio dos corpetes da menina. Mais tarde, o mesmo tratamento lhe foi dispensado por vários outros frequentadores regulares da estalagem, clientes mais pródigos, muitas vezes sob o olhar dos próprios pais, que pareciam considerar essa atitude uma consequência aceitável do ofício, optando por ignorar as lágrimas da filha, seus silenciosos pedidos de ajuda, até que, afinal, ela aprendeu a não esperar coisa alguma de ambos, a esconder deles e do mundo em geral qualquer demonstração dos próprios sentimentos.

As velas são o seu maior luxo. Ela só lê à noite, na urgência e privacidade da noite. Chega a queimar duas, às vezes até três, velas de cada vez. Não pode aparecer pela manhã com os olhos injetados. Nas estações frias, permanece enrolada na capa dentro do quarto gélido. O pobre Werther está apaixonado. (“‘Vou vê-la hoje!’, exclamo, quando acordo com o coração cheio de alegria.”) Será que as coisas acabarão mal? Ysbeau não quis lhe dizer, sorrindo apenas, como se o surpreendesse o fato de uma mulher como ela apreciar histórias de amor. Decerto não é uma garota sonhadora, uma ingênua. Sabe tudo sobre os homens e um bocado acerca da natureza do mundo. Mas é difícil, por pior que seja o que se aguentou, abrir mão do amor. É difícil parar de pensar nele como num lar que um dia podemos rever. Mais que difícil.

Lambe um dedo e vira a página.

Dentro da igreja de Les Innocents, na sacristia, Père Colbert também está acordado. Tem uma espécie de cama, um catre com um colchão de retalhos, mas quase sempre dorme sentado na poltrona de madeira, a cabeça grandalhona balançando sobre o peito. Ele baba quando dorme. O pano preto em seu peito amanhece úmido. Não faz diferença. Não há ninguém para vê-lo, e ele não se incomodaria caso houvesse. Em cima da mesa, uma pequena lamparina arde, uma mecha de algodão que flutua no óleo, uma pequena chama (azul, vista por ele através das lentes dos óculos) que um dia já tremeluziu na capela de Saint-Sebastian. À noite, nessa mesma cidade, o Diabo e seus servos andam à solta, e Père Colbert não deseja encontrá-los na escuridão completa e irremediável que se instalaria não fosse a lamparina. Que vá acabar por encontrá-los, que há de precisar fazê-lo, é um fato com o qual já se conformou. Talvez tenha até surpreendido um de seus acólitos rondando o órgão essa manhã. Não é verdade que a igreja toda se desassossegou? Não é verdade que ele ouviu os adormecidos na cripta deixarem escapar um leve gemido de medo? Em termos de ajuda, ajuda para partilhar o ônus da vigilância, ele não nutre esperança alguma de obtê-la (dizem que o bispo tem uma amante e já gerou filhos). Está sozinho em seu posto, tão sozinho quanto na época em que passava os dias na poeira da Província de Hunan, onde, certa manhã, o arrastaram para a praça pública e ele viu, com absoluta nitidez nos rostos na multidão, os olhos do Adversário. Dali em diante nunca mais foi capaz de ver coisa alguma com nitidez...

Vigia as portas, a que vai dar na rua e a outra, que leva à abside atrás do altar. Não passam de vultos, meros vultos, mas ele há de saber se alguém tentar forçá-las, se alguém tentar abri-las...

A cama de Jeanne — onde ela dorme pesadamente — fica junto ao pé de madeira entalhada da cama do avô. Em seu último aniversário, o décimo quarto, ele levou a cama nova escada acima e lhe disse que ela já estava crescida demais para partilhar com decoro o colchão de qualquer homem que não fosse um marido. As palavras a fizeram chorar, soluçar de dor, pois ela dormia ao lado do avô desde bebê, quando, entre um domingo e o seguinte, o pai, a mãe e as duas irmãs morreram de uma febre escaldante. Ser obrigada a dormir sozinha lhe trouxe uma repentina lembrança cega dessa perda, e ao longo de várias noites Jeanne esperou que o avô cedesse, mas isso não aconteceu e ela acabou se habituando ao novo arranjo, ao seu novo status de mulher.

Sonha agora com o cemitério acarpetado de flores brancas, cor-de-rosa, amarelas e carmins. Foi um lindo sonho, rico em promessas, e ela está sorrindo, enquanto, acima dela, acima das vigas rachadas e negras de fumaça, tão velhas quanto a igreja, o gato Ragoût, junto ao calor de uma chaminé, enxuga uma pata dianteira lambida, absorto em meditação, no pelo da orelha aleijada. No cemitério, sob um dos arcos do ossuário sul, alguma coisa chama sua atenção. Ele olha, atento, fica absolutamente imóvel e depois se deita rente aos tijolos.