Puro
Capítulo 13
Entre oito e nove horas da manhã, um temporal incessante reduz a fogueira da cruz do púlpito a um amontoado de lenha negra queimada que lembra os destroços de uma pequena cabana incendiada. Os homens permanecem em suas barracas. Há pão para comer, mas nada além disso, nada quente, até o final da manhã, quando Jean-Baptiste e Armand fazem dois grandes bules de café, batizam-no generosamente com brandy, e atravessam com eles a grama molhada.
Uma sonolência estranha tomou conta do cemitério. Ninguém imagina que algum trabalho possa ser realizado. Não hoje, talvez nem mesmo amanhã. E depois de amanhã? E depois?
Guillotin (que, para espanto divertido dos colegas, rotulou-se de “médico do cemitério Les Innocents”) examina Jeanne no quarto do andar superior, onde a cercaram de todo o conforto possível na cama do avô. Quando ele desce — seus passos soando pesados e sem pressa nos degraus nus de madeira —, os outros são informados de que o único perigo imediato vem do que se desenrola em sua própria mente, da morbidez que é a consequência inevitável de provações dessa natureza. Luto, pavor. A perda da virgindade em circunstâncias tão pesarosas e daí por diante. As feridas da carne são superáveis. Uma provável fratura do maxilar esquerdo, lacerações no tecido sensível da boca — lábios, língua, gengivas, etc. Equimoses — múltiplas — em ambos os braços e boa parte do torso...
— Ela é jovem, é valente. Você, meu caro engenheiro, poderia solidarizar-se com ela sinceramente, embora eu ache que ainda não é hora. Talvez leve algum tempo para que ela volte a achar agradável a companhia dos homens. Madame Saget poderia ficar de vigília?
— Sem dúvida ela há de querer fazer isso — diz Armand.
— Ótimo. Quanto a saber se haverá algum fruto, algum... bem, esperemos que não. — Ele sorri de forma gentil para o coveiro, sentado junto ao fogão apagado, que pode ou não ter entendido boa parte do que foi dito. — Um pouquinho de paciência, monsieur. Com o tempo as coisas se ajeitam. O senhor não perdeu a sua Jeanne.
O engenheiro acompanha Guillotin até a oficina dos médicos. Lecoeur está na mesa de cavalete mais próxima à entrada.
— Ele não era um sujeito desprezível — diz Guillotin, dobrando ligeiramente os joelhos para observar a cabeça de Lecoeur. — E ao menos teve a decência de providenciar a própria saída de cena.
— Equivoquei-me com ele — diz Jean-Baptiste.
— Equivocou-se? Talvez. Mas um homem pode ser uma coisa e depois se tornar outra. Ele não era um degenerado babão do hospício de Salpêtrière. Era trabalhador, instruído. Cortês.
— Se eu tivesse sido menos distraído... ou se tivesse convivido mais com ele. Fora daqui, quero dizer.
— Ah, você acha que o cemitério é o culpado? Que ele foi exposto demais a um ambiente lúgubre?
— É possível, não?
— Que tenha sido envenenado por isso tudo?
— Sim.
— E, então, alguma tendência criminosa se revelou?
— Sim.
— Ele me disse que vocês dois no passado planejaram uma cidade imaginária. Uma utopia.
— Quando trabalhávamos nas minas.
— E como se chamava a cidade de vocês?
— Valenciana.
— Por causa de Valenciennes?
— Foi... era um jogo — diz Jean-Baptiste.
— Dois idealistas. Sonhadores.
— Éramos jovens.
— Claro. E jovens inteligentes gostam desse tipo de jogo. Você está livre desse vício agora, suponho. — Guillotin ergue os olhos, sorri, depois vai até a outra mesa de cavalete e levanta a tampa do caixão. — Pobre Charlotte. Essas aventuras post-mortem não lhe foram benéficas. Você a trouxe para cá, não foi?
— Sim.
— É de presumir que ele tenha atacado Jeanne depois de se dar conta de que Charlotte não serviria a seus propósitos — observa o médico, repondo a tampa e fechando o caixão com cuidado. — E o padre? Alguma notícia dele?
— Não.
— Ele sumiu?
— Ainda estava escuro e houve muita confusão. Imagino que esteja dentro da igreja.
— Recolhido à toca, hein? E você não está muito disposto a procurá-lo, não é? Ao menos não sem uma pá para se proteger. Uma manhã e tanto. Nada disso deve ter sido fácil. Mas, sem dúvida, o ministro viu que você é um homem em quem se pode confiar, um homem que sabe o que fazer nesse tipo de circunstância.
Durante alguns segundos, a dupla contempla o cadáver sobre a mesa. Os olhos de Lecoeur estão parcialmente abertos e dão ao rosto estropiado a expressão de alguém decidido a recuperar uma lembrança. Então, os dois desviam o olhar e viram-lhe as costas, como se o morto já não fosse mais relevante.