Puro

Andrew Miller · Capítulo 12 de 48

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Puro

Capítulo 11

 

Antes de partir para Valenciennes, ele procura Armand e lhe conta tudo. Não está habituado a guardar segredos, e a verdade não revelada lhe pesa no estômago como uma das estranhas gororobas dos Monnard. Trata-se, ele sabe, da inescapável influência da religião da mãe, aquela ênfase letal sobre a consciência, sobre a incansável prestação de contas moral. Igualmente se trata do desejo de oferecer alguma coisa à única pessoa em Paris que ele tem motivos para considerar amiga, pois os dois se encontraram três ou quatro vezes desde aquele primeiro dia, confirmaram seu interesse um no outro e o prazer que sentem naquilo que os torna diferentes entre si. De qualquer modo, tudo virá à tona em pouco tempo. Melhor agora do que quando trinta mineiros de olhar meio enlouquecido adentrarem a igreja com picaretas e martelos.

Encontra Armand (no meio de uma manhã fria) na rue Saint-Denis, onde o organista discute com uma garota vendedora de camarões e, vez por outra — sem deixar de olhar nos olhos da moça —, estende a mão para pegar um dos bichinhos cor-de-rosa na bandeja sobre a cabeça dela. O músico cumprimenta Jean-Baptiste, pegando-o pelo braço e o levando a andar para cima e para baixo na rua, ouvindo enquanto ele recita seu prefácio desajeitado, interrompendo-o para apontar um casal de cães tristonhos copulando junto à porta de uma chapelaria. Antes que Jean-Baptiste possa continuar sua confissão, Armand o convida para jantar em sua casa.

— Os endiabradinhos da Lisa estarão lá, mas a comida é sempre decente. Sem dúvida, não tem gosto de cemitério. E mais tarde aparecerão algumas visitas.

Os dois combinam de se encontrar junto à fonte italiana às sete em ponto. Jean-Baptiste chega com dez minutos de antecedência e é obrigado a esperar mais quarenta por Armand. Não há pedido de desculpa, não há justificativa. Os dois partem juntos, passando de uma pocinha de luz para outra, enquanto o organista, gesticulando com seus dedos compridos e alvos, ataca um panegírico crivado de termos gregos e latim eclesiástico sobre a beleza, a fantástica proporção, dos seios de sua senhoria.

A rue des Ecouffes fica a uma distância de vinte minutos a pé, para os lados da place Royale e da Bastilha. No térreo da casa há uma loja especializada em fabricação e conserto de espelhos, e os dois se detêm um instante diante de um dos objetos na vitrine, embora já esteja escuro demais para ver mais que as silhuetas momentaneamente imóveis de ambos. Sobem três lanços de degraus íngremes de madeira para chegar à porta do apartamento. Lisa Saget e os filhos estão na cozinha. Ali há luz, fogo para aquecer e aroma de comida. Armand saúda sua senhoria com um beijo estalado na testa e afaga o cabelo das crianças. Uma galinha está sendo assada num espeto; a menina tem o encargo de girá-lo. Olha para Jean-Baptiste e sorri para Armand. Afora a falta de seios, a menina é a miniatura perfeita da mãe, de aparência poderosa.

— Monsieur Baratte — diz Armand, a voz abafada pelo armário dentro do qual ele procura copos e uma garrafa —, que está alojado no meu antigo ninho na casa dos Monnard.

É evidente que a mulher já ouviu falar dele. Está sentada à mesa da cozinha fazendo alguma coisa com a parte consumível das entranhas da galinha. Ergue os olhos e examina o engenheiro, esse homem de olhos cinzentos perdido dentro de um casaco verde.

— Ele vai jantar conosco? — indaga.

— É claro — responde Armand. — Ele não faz uma refeição decente desde que chegou a Paris.

Jean-Baptiste senta num banco à mesa. Está de frente para o fogo e a garotinha. O irmão, coçando as costas, a observa, por cima do ombro de Armand, desempenhar seu trabalho invejável junto à comida.

— E os Monnard? — indaga a mulher, ocupada com a faca.

— Acho que vão muito bem — responde Jean-Baptiste, ciente de que não foi exatamente isso que ela perguntou.

— Temos de encontrar outro lugar para alojá-lo — diz Armand —, se é que ele pretende se demorar por aqui.

— E ele pretende? — emenda a mulher.

— Quem sabe? — responde Armand. — Ele não fala muito.

Jean-Baptiste estuda as mangas pistache do casaco, imagina se a mesa estará bem limpa ou se seria aconselhável tirá-lo.

— Devo me demorar por aqui algum tempo. Não sei dizer quanto.

— Eu não conseguiria morar num cemitério — diz a mulher. — Não consigo imaginar que tipo de pessoa é capaz disso, entra ano, sai ano. Já basta ver Armand chegar em casa fedendo àquele lugar até as entranhas.

— Ela me lava com limão — intervém Armand. — Com um sabão feito de folhas de sálvia e cinzas. Ela me defuma com rosmarinho...

— Não seria bom — atalha Jean-Baptiste — se o lugar fosse removido?

— Removido? — A mulher dá um risinho. — E como se remove um cemitério como Les Innocents? Seria mais fácil remover o rio.

— É possível — diz Jean-Baptiste. — Tanto no caso de um como no caso do outro.

Armand, que até então examinava o couro cabeludo do menino, repartindo os cachos castanhos em busca de piolhos, para e aguça a atenção.

— É nisso que você está envolvido? No cemitério?

— Claro que não será fácil — diz Jean-Baptiste. — Levará muitos meses.

— Você é como o restante dos seus amigos — observa Lisa. — Capaz de garantir que a lua é uma tigela de sopa se achar que consegue convencer alguém.

— Só que para mim — intervém, calmamente, Armand — ele parece totalmente sério.

— Pode ser feito — emenda Jean-Baptiste. — E será feito.

— O cemitério todo? — indaga Armand.

— O cemitério. A igreja.

— A igreja?

— Ela não será tocada durante algum tempo. Talvez não antes de um ano.

— Então — diz Armand baixinho —, chegou a hora.

— Eu gostaria de ter lhe contado antes. Fui instruído para não falar do assunto.

A mulher interrompe seu trabalho.

— E o emprego dele? — indaga. — Isso também vai ser removido?

— Eu... Eu já abordei o assunto — responde Jean-Baptiste.

— Com o ministro? — pergunta Armand.

— Com o representante dele.

— E posso ter alguma esperança?

— Voltarei a abordá-lo.

Faz-se um silêncio, então, quebrado finalmente por uma palavra áspera de Lisa para a filha, que, atenta a essa troca interessante entre os adultos, parou de girar a galinha.

— Acho — diz Armand — que devo agradecer a você.

— Agradecer a ele? — indaga a mulher. — Agradecer o quê?

— A igreja, minha doce criatura, está fechada há cinco anos. Não posso continuar indefinidamente a tocar Bach para os morcegos.

— É tudo conversa fiada — diz a mulher, pegando novamente a faca. — Vocês devem ter parado para beber no Djeco no caminho para cá.

— Se não fosse eu — diz Jean-Baptiste —, seria outro a vir para cá. Embora eu não culpe você por... por ficar ressentido.

— Quem falou em ressentimento? — pergunta Armand, estendendo a mão para a garrafa. — Ninguém fica ressentido com o futuro. Nem com os que o promovem. — Ele enche os copos. — Vamos lá. Bebamos àquela terra nebulosa para a qual iremos todos, alguns sobre os próprios pés, outros à força, berrando.

A garotinha ri. Um instante depois, o menino a acompanha. Lisa os ignora.

Todos comem. A comida, sem dúvida, é a melhor que Jean-Baptiste teve o prazer de provar desde que chegou à cidade, embora sua satisfação pudesse ser maior se encontrasse um jeito de conquistar a simpatia da mulher, que o serviu de galinha como se preferisse botá-lo para correr porta afora à ponta do espeto. O tópico do cemitério não volta à baila. Armand está pensativo, meio distante, meio distraído, mas bem-humorado.

Quando terminam de comer, Armand ensina uma canção às crianças, que cantam com doçura. Ele pediu a Jean-Baptiste que lhes ensinasse alguma coisa, um pouco de aritmética, talvez, e durante cerca de meia hora é o que Jean-Baptiste faz. As crianças ouvem; nada entendem. Ele desenha figuras geométricas na ardósia — triângulos dentro de círculos, círculos dentro de quadrados — que são imediatamente admiradas. As crianças se postam uma de cada lado, esperando para ver que novidade inteligente aparecerá sob seus dedos. A menina descansa a mão confortavelmente em seu ombro.

O encanto é quebrado pelo ruído de alguma coisa pequena atirada na janela. Lisa — cujo comportamento com o convidado pouco a pouco se suavizou — levanta-se com um muxoxo de irritação. Pega uma das velas e vai com as crianças para um aposento nos fundos da casa. Armand sai pela outra porta e volta um minuto depois acompanhado de três homens. Os três parecem estudantes, embora sejam velhos demais para isso. Um ostenta uma rosa de seda surrada presa à lapela, o outro traz o pescoço fino envolto numa gola de pele amarelada, enquanto o último usa óculos de aro de arame sobre um nariz destinado à comédia.

— Messieurs Fleur, Renard e De Bergerac — apresenta Armand. Os homens fazem uma reverência zombeteira. — Eu sou Monsieur Orgue e você... Vejamos. Você é... Humm. Monsieur Triangle? Monsieur Normand? Ou Bêche? Sim, Bêche é melhor. Você será batizado em homenagem a uma das pás que vai usar para desenterrar os mortos.

— Vejo que o levou ao Charvet — observa Monsieur Fleur.

— É claro — confirma Armand, devolvendo o risinho do outro.

A conversa dos quatro não é fácil de acompanhar. Parece consistir de mexericos sobre homens e mulheres que também são donos de nomes típicos de personagens numa farsa. Quando o vinho acaba, encontra-se algo mais forte. Ninguém parece ter muita certeza do que se trata. O gosto lembra ligeiramente amêndoa e queima o peito de forma agradável. Os homens riem um pouco. De Bergerac afaga o próprio nariz; Renard mexe num buraco na sola do sapato, com carinho, como se mexesse num buraco no próprio pé.

Será que Lisa Saget foi dormir com os filhos? Jean-Baptiste está à sua espera desejando poder se despedir e voltar para casa. É bastante agradável sentar-se junto ao fogo bebericando, com o gosto da gordura da galinha nos lábios, mas ele já fez o que foi até lá fazer e amanhã precisa empreender a viagem até Valenciennes. Não quer viajar de ressaca.

Flagrando seu olhar para a porta, Armand pousa uma das mãos em seu braço.

— Nem pense em nos escapar, Monsieur Bêche. Ainda não terminamos.

Consomem as últimas gotas da bebida e se calam, o olhar fixo nas brasas da lareira. A sala começa a esfriar. Nada acontece. Já será meia-noite? Mais que isso? Então, sem aviso, Armand se põe de pé. Sai, mas volta quase imediatamente com dois vasos grandes embrulhados em palha trançada.

— Suponho, cavalheiros — sussurra —, que estejam todos armados.

Das profundezas de seus casacos, Renard, Fleur e De Bergerac produzem pincéis. Depois de mostrá-los, eles os guardam novamente.

Juntos, saem para a rua. Faz muito frio agora. Está frio e úmido, é uma genuína noite de inverno, em nada romântica. Jean-Baptiste abotoa o guarda-pó até o queixo, porém se dá conta, mais uma vez, do quanto gostaria de estar usando seu velho traje por baixo.

Seguindo Armand, os quatro enveredam por ruelas estreitas atrás da rue Saint-Antoine. A cidade lhes pertence — não veem pessoa alguma, não ouvem voz alguma. É aquele período fugaz, a virada da maré da cidade, quando a última das tavernas já expulsou sua freguesia, mas as carroças do mercado ainda não apareceram, as grandes, de seis rodas, com os lampiões balançando nas laterais, nem as filas de burros de carga, animais miseráveis que passaram a noite toda na estrada, vindos das fazendas e dos pomares no campo, as alcofas cheias até a boca.

Percorrem a rue Neuve, a rue de l’Echarpe e passam pelas galerias da place Royale... Seja o que for que estejam fazendo, bêbados, atravessando em disparada a praça com suas latas de tinta, não será fácil explicar, caso topem com uma patrulha. E se ele — o recém-nomeado engenheiro — tivesse que se explicar a Lafosse? Ao ministro? (Fiquei constrangido, meu senhor. Não me senti à vontade, dadas as circunstâncias, para me recusar a tomar parte no que me pareceu meramente um passeio. Se eu soubesse o que pretendiam esses homens, aos quais havia sido apresentado fazia tão pouco tempo...).

Chegam à rue Saint-Antoine, atravessam para o lado mais ermo, passando pela igreja de Sainte-Marie, onde uma dezena de indigentes se encolhe nas escadas à espera da missa das cinco horas, na esperança de ganhar moedas de alguma viúva pia.

À frente do grupo — a uma distância de uns cento e cinquenta metros — surge a fortaleza da Bastilha, seus muros e torres apenas formas recortadas indistintamente na escuridão. Ela se destaca, imponente, em meio a tudo, mas de alguma forma dá a impressão de estar encurralada, presa, de ser o último dos basiliscos, deixado para trás, amedrontado, cheio de uma força inútil. E, atrás daqueles muros, o que haverá? Montes de miseráveis agrilhoados em celas subterrâneas, enterrados vivos? Ou apenas mais pedra, pedra e muito ar viciado, com uns poucos quartos trancados sendo ocupados por moradores em puro tédio, embora não extremamente mal-acomodados —, cavalheiros escritores que, tendo produzido alguma sátira sobre uma das favoritas do rei, se viram afastados de seus estudos por uma lettre de cachet?

O grupo para na entrada de uma oficina. A rua em frente é examinada, chapéus são puxados de forma a encobrir mais os rostos e, mediante uma rápida palavra de ordem de Armand, todos se põem em movimento, correm curvados, passam pela frente da fortaleza e chegam ao portão vizinho, de três arcos: a Porte Saint-Antoine. É ali, na pedra do portão, que o governo manda afixar suas notificações e decretos. Um aumento no imposto sobre o sal, uma nova penalidade pela pesca ilegal no Sena, por esvaziar urinóis de excrementos humanos na rua entre as seis da manhã e as seis da noite; a data de um sermão a ser feito pelo capelão-mor na Sainte-Chapelle; o dia e a hora em que alguém será marcado a fogo ou enforcado.

Pichar essas notificações faz parte do toma lá dá cá entre o governo e o povo. Vez por outra, um infrator persistente leva uma surra do vigia, mas quase nunca uma obscenidade pichada contra a rainha — la pute austrienne! — ou algum coletor de impostos notoriamente ávido atrai atenção oficial.

Esta noite, sobre notificações recém-afixadas, é a vez de Renard, Fleur, De Bergerac, Orgue e Bêche produzirem garatujas. Tudo é feito em menos de um minuto. Jean-Baptiste segura uma das latas para Renard, tomado por uma pressa ensandecida, e sente o rosto ser salpicado de tinta. Nem sequer consegue ver o que eles escrevem, ou vê apenas uma única palavra — POVO!. Então, com latas e pincéis, todos se afastam correndo, como ratos de uma despensa.

De volta à rue des Ecouffes, Armand, ofegante, convida todos a subir para comemorar a ação noturna. Ele acha que talvez haja outra garrafa daquela bebida de amêndoa em algum lugar, quem sabe debaixo da cama. Jean-Baptiste se despede. A hora avançada, a viagem pela manhã... Cumprimenta de cabeça o grupo, de forma educada, até mesmo amistosa, mas todos já lhe deram as costas, ofendidos talvez pela sua falta de solidariedade e de esprit de corps.

Apertando a gola do guarda-pó junto ao pescoço, ele atravessa a rua. Uma bruma se ergue das pedras da rua, bruma que já engoliu pela metade os postes de iluminação e as janelas térreas. Logo sugará as placas das lojas, aquelas amostras de madeira e ferro — uma luva gigante, uma pistola que mais parece um pequeno canhão, um bico de pena comprido como uma espada — que balançam acima da rua pendendo de fios de arame. O engenheiro não se perturba. Conhece bem o caminho, aprendeu a se locomover no bairro, embora talvez tenha se esquecido de que uma cidade à noite não é exatamente a mesma de durante o dia. Ademais, está distraído pelo esforço mental de decidir como se sente em relação a correr pelas ruas carregando uma lata de tinta. Foi excitante? Agora que acabou, Jean-Baptiste pode admitir que sim, um pouco. Excitante, mas também cansativo, absurdo e infantil, pois que mudança há de ser operada por homens que disparam pela cidade pintando slogans nos muros? E, ainda por cima, que homens mais estranhos! Existe algo meio esquisito neles, algo que ele supõe não ser capaz de partilhar, uma espécie de desespero. É espantoso que Armand deseje se envolver com gente assim, embora para Armand talvez eles não sejam senão uma desculpa para passar a noite bebendo. A mulher era interessante, agradável apesar de certa rudeza. As crianças também. Ele gostou da companhia dos pequenos, da atenção carinhosa com que o observaram desenhar figuras geométricas na ardósia.

Ele para e tenta enxergar em meio à bruma. Já deveria estar na rue Saint-Denis, um pouco acima da rue aux Fers. Em vez disso, porém, está... onde? Numa rua que não reconhece em absoluto. Terá perdido o rumo? Procura uma esquina onde virar à esquerda, caminha uns bons quinhentos metros até achá-la, dispõe-se a percorrê-la, mas a cada passo se descobre menos seguro do seu paradeiro, faz uma fantasia de que, em vez de se encontrar no coração de Paris, o que o circunda são os becos de terra batida de Bellême. É quando vê, surgindo acima de sua cabeça, os arcobotantes de uma igreja, de uma igreja imponente. Saint-Eustache? A bruma tornou-se agora espessa como fumaça de lenha. Ele caminha devagar, com cuidado. Se a igreja for, de fato, Saint-Eustache, então — teoricamente — ele sabe precisamente onde está, mas teme ter se equivocado de novo, teme passar o que resta da noite vagando por ruas inidentificáveis, em meio a prédios que parecem navios encalhados.

Ouve, à sua frente, o repentino barulho de passos. Outra pessoa, como ele, está na rua a essa hora, alguém que, a julgar pela rapidez e firmeza das passadas, se sente totalmente seguro em seu caminho. Nada existe de sinistro nisso, nada óbvio quanto a esse aspecto, mas mesmo assim o medo de Jean-Baptiste aumenta rapidamente. Que tipo de homem estaria na rua a uma hora dessas e numa noite como essa? Será possível que o estejam seguindo? Que o estejam seguindo desde a Porte Saint-Antoine? Remexe nos bolsos em busca de algo para usar em defesa própria, mas nada encontra de mais perigoso que uma das chaves do cemitério. Tarde demais, de todo jeito. A trama da bruma começa a se desfazer. Uma forma, uma sombra, uma sombra envolta numa capa... Uma mulher! Uma mulher perdida em devaneios, já que ela para a apenas um mísero metro de distância dele. Durante três, quatro segundos, os dois congelam numa espécie de vigilância primitiva, antes que a postura de ambos relaxe ligeiramente. Ele a conhece. Não há dúvida. A capa, a altura dela, o olhar firme iluminado pela estranha claridade da bruma, uma luz débil e azulada que se irradia de todo lado e de lugar nenhum. Será que ela se lembra dele? Jean-Baptiste não consegue atinar com um motivo que a levasse a isso.

— Eu estava indo para casa — explica baixinho, quase num sussurro. Ela assente, aguarda. Lembrou-se dele! Ou assim ele supõe. — Me perdi.

— Qual é a sua rua? — indaga a mulher, num tom tão suave quanto o dele.

— A rue de la Lingerie.

— Ao lado do cemitério.

— Sim.

— Não é longe daqui — diz ela. — Dá para atravessar o mercado. — Seu olhar, por cima do ombro dele, indica a direção a tomar.

— Já nos vimos antes — observa Jean-Baptiste.

— Já.

— Lembra-se disso?

— Você estava com o músico.

— Você é Héloïse.

— Não me disseram seu nome.

— Bêche.

— Bêche?

— Jean-Baptiste.

Ele dá um passo em sua direção. Então, um átimo depois, mais outro. Os dois ficam ali, isolados dentro da bruma. Erguendo uma das mãos, ele a toca no rosto. Ela permanece impassível.

— Não tem medo de mim? — indaga ele.

— Não — responde ela. — Deveria?

— Não. Não há motivo.

Seus dedos repousam no rosto dela. Ele não sabe dizer o que está fazendo, o que o guia, logo ele, cuja experiência com mulheres é tão parca. Será que o fato de se tratar de uma prostituta lhe permite agir assim? Mas, nessa hora imprevista, palavras como prostituta, engenheiro, Héloïse ou Jean-Baptiste, soam vazias igual a ovos ocos.

— Então viro ali? — pergunta, despertando de súbito e baixando a mão.

— Ali na esquina — responde ela.

Murmurando um agradecimento, ele se afasta. Com facilidade encontra o mercado, uma cidade dentro da cidade, já movimentado, iluminado por lanternas e candeeiros, embora ainda faltem umas duas horas para que os primeiros fregueses apareçam. Na outra extremidade, fica a esquina da rue aux Fers, o muro negro do cemitério, as pedras úmidas de bruma da rue de la Lingerie...

Quando abre a porta da casa dos Monnard, algo dispara à sua frente. Ele se atrapalha com os apetrechos que encontra na mesa do corredor, mas finalmente consegue acender uma vela. Ragoût aguarda à porta do porão, o focinho apertado de encontro à nesga de vazio entre a porta e o chão. Encara Jean-Baptiste como se esperasse ajuda. Jean-Baptiste se abaixa, sente o ar passar pela fresta, ar frio, frio como o hálito de um homem nos últimos estágios de uma febre. Pousa a vela na prateleira ao lado da porta. Imediatamente a chama bruxuleia e, antes que ele possa atiçá-la, se apaga.