Puro

Andrew Miller · Capítulo 14 de 48

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Puro

Capítulo 13

 

 

Em Paris também há neve. Neve com cinzas, fuligem, lama, estrume. Nas ruas melhores, do lado de fora de casas melhores, tudo isso foi varrido e amontoado, formando pirâmides cinzentas. No restante da cidade, as rodas das carroças, os cascos dos cavalos e os tamancos liberaram o próprio caminho. No cemitério, a neve jaz nos braços da cruz do púlpito, assenta-se discretamente nos bustos de pedra das lanternes des morts, arremata o topo do muro e os telhados sujos do ossuário.

Com uma pá que pegou emprestada na casa do coveiro, Jean-Baptiste futuca o solo, sente sua resistência, ouve um tinido surdo, como se batesse em ferro. Finalmente o fedor do lugar diminuiu bastante. Não lhe desperta náuseas. Nem nojo intenso.

Armand surge da igreja, curvando-se para passar pela porta baixa e atravessando depois o cemitério, seu cabelo a única coisa de cor viva que resta no mundo.

— Vejo — diz ele, assentindo para a pá — que o senhor está fazendo jus a seu nome, Monsieur Bêche.

— Num solo como este — retruca Jean-Baptiste —, melhor seria usar um machado.

— Você sabe que ele pode passar meses congelado — diz Armand, num tom alegre.

— Isso não vai acontecer.

— Porque o ministro não há de permitir? Muito bem. Mas eu não acho que você vá desenterrar osso algum antes do Natal. Volte para casa. Lembre-se de quem você é.

Jean-Baptiste assente, cutuca o solo em torno dos dedões do pé com o lado da pá. Casa. Nada lhe agradaria mais. Ele anseia por isso.

— E você? — pergunta.

— No Natal? Vou passar três dias bêbado. Lisa há de me passar um sermão e me chamar de patife. Depois, vou curar a bebedeira, fazer amor com ela durante horas e levá-la com as crianças para assistir à missa em Saint-Eustache. Terei maus pensamentos com a jovem esposa sentada no banco à minha frente. Talvez encontre um jeito de abordá-la na hora da comunhão.

— E os seus amigos? Renard, Fleur, De Bergerac?

— Ah, você não morreu de amores por eles, não é? Na verdade, não há muito para gostar ali. A propósito, essa tinta na sua bochecha acaba saindo. Nesse ínterim, finja que são sinais. Aliás, por falar nisso...

Jeanne, a garota, envolta num xale pesado, caminha na direção dos dois, vindo da casa do coveiro, e acena para eles com a mãozinha rosada.

— Você voltou — diz ela.

— Voltei — responde Jean-Baptiste.

— Fiquei me perguntando aonde teria ido.

— Precisei tratar de negócios em outro lugar. Viajei.

— Que coisa boa — diz ela. — Foi bom?

— Cumpriu a finalidade prevista.

— E acaso ela sabe — indaga Armand — qual é a finalidade prevista? Ela sabe o que você tem em mente para nós?

Jeanne olha para Armand e depois para Jean-Baptiste.

— Você tem alguma coisa em mente para nós?

— Outros têm — diz Jean-Baptiste. — Pessoas importantes.

— Ah! — exclama ela.

— Ah, mesmo — emenda Armand.

— Você deve estar se perguntando, Jeanne, o que vim fazer aqui. Quando estava me ajudando, deve ter se perguntado.

— Gostei de ajudar você — diz ela. — Ajudo hoje também, se quiser.

— Hoje não vou precisar.

— O cemitério — intervém Armand. — Vou contar a ela, se você não contar. Vão dar cabo do cemitério, Jeanne. Do cemitério e da igreja.

— O assunto foi decidido há muito tempo — diz Jean-Baptiste. — O lugar será remodelado. Purificado. É o desejo do próprio rei.

— Do rei?

— Você não tem nada a temer. Os restos, os ossos, serão levados para um lugar, um lugar consagrado, onde ficarão seguros.

— Todos? — indaga ela.

— Sim.

— E você vai poder fazer isso? — pergunta Jeanne, olhando para a pá.

— Terei gente para me ajudar.

Ela assente várias vezes.

— Se é o que deseja — diz ela baixinho.

— Você e o seu avô... alguém cuidará de vocês. Dou a minha palavra.

— Tome cuidado com o que promete — recomenda Armand.

— O cemitério — prossegue Jean-Baptiste, ignorando o outro — não pode, simplesmente, ser esquecido. Pode?

— Oh, não — diz ela —, não pode.

— E você sabe como as pessoas se queixam dele.

Ela franze a testa.

— O vovô diz que elas se orgulhavam de morar perto de um lugar tão famoso. Que se gabavam disso.

— O olfato das pessoas — diz Armand — vem ficando mais sensível.

Ela assente de novo, com mais ênfase, como se esse ponto estivesse absolutamente comprovado.

— E a casa? — pergunta ela.

— Vocês terão uma nova. Talvez até mesmo aqui, quando o terreno estiver limpo.

— Aqui?

— É.

— O vovô vai ficar bem se eu estiver com ele.

— Claro. Você precisa estar ao lado dele.

Durante um quarto de minuto os três permanecem calados. Olham à volta. Nada veem que sugira que algo será um dia diferente do que é agora.

Uma hora depois, aquecendo-se com brandy e água quente num reservado espelhado no Café de Foy, Armand diz:

— Ela só concorda porque é você. Você deve ter usado algum encantamento normando com ela. Mas será que não a enganou? Depois que começarem a trabalhar, os seus mineiros vão espalhar os ossos por todo lado, como lenha. E a casa que prometeu a ela? Inventou essa história ali mesmo? Você não tem mais poder para lhe dar uma casa do que para me dar o órgão de Saint-Eustache.

— Farei o que puder — garante Jean-Baptiste.

— Você fará o que lhe mandarem fazer — atalha Armand. — Não lhe parece mais realista?

— O ministro...

— Seu grande amigo, o ministro.

— Eu não acredito que ele seja... que ele seja insensível.

— E acha que ele vai sentir alguma coisa por Jeanne? Ou será que é você quem sente? Entendo que possa parecer atraente enroscar-se numa garota como ela numa noite fria.

— Ela é pouco mais que uma criança.

— Pouco mais já serve. Casaram a nossa querida rainha aos quatorze anos. E ela concordaria em se deitar com você. Você pode levá-la discretamente para o seu quarto na casa dos Monnard, embora, sem dúvida, isso vá desagradar Ziguette.

— Me parece que é você quem está interessado em Ziguette.

— Se quer saber se eu faria com ela caso a oportunidade se apresentasse, a resposta é sim. O mesmo, presumo, se aplica a você. O que me leva a pensar que devíamos ir visitar nossa princesa persa. Que tal?

— Hoje não.

— Não? O senhor está se revelando um chato, Monsieur Bêche. Cuidado com a chatice. Não é moderno. Mas o senhor é quem sabe. Depois que pagar o brandy, eu lhe darei a honra de acompanhá-lo à sua casa.

Próximo ao mercado, quando atravessam o início da rue des Prêcheurs, os dois encontram a austríaca. Ela carrega um pequeno pacote de livros, embrulhado e muito bem-atado com barbante preto. Dá a impressão de se incomodar apenas um pouquinho com o frio, com a neve derretida que escorre entre as pedras do calçamento, com o vento cortante que outros enfrentam de cara feia. Armand a cumprimenta e depois percebe alguma coisa na troca de olhares, que não dura mais que um segundo, entre a prostituta e o engenheiro.

— Ah, não! Ela também? — indaga. E desata a rir.