Puro
Capítulo 13
Em Paris também há neve. Neve com cinzas, fuligem, lama, estrume. Nas ruas melhores, do lado de fora de casas melhores, tudo isso foi varrido e amontoado, formando pirâmides cinzentas. No restante da cidade, as rodas das carroças, os cascos dos cavalos e os tamancos liberaram o próprio caminho. No cemitério, a neve jaz nos braços da cruz do púlpito, assenta-se discretamente nos bustos de pedra das lanternes des morts, arremata o topo do muro e os telhados sujos do ossuário.
Com uma pá que pegou emprestada na casa do coveiro, Jean-Baptiste futuca o solo, sente sua resistência, ouve um tinido surdo, como se batesse em ferro. Finalmente o fedor do lugar diminuiu bastante. Não lhe desperta náuseas. Nem nojo intenso.
Armand surge da igreja, curvando-se para passar pela porta baixa e atravessando depois o cemitério, seu cabelo a única coisa de cor viva que resta no mundo.
— Vejo — diz ele, assentindo para a pá — que o senhor está fazendo jus a seu nome, Monsieur Bêche.
— Num solo como este — retruca Jean-Baptiste —, melhor seria usar um machado.
— Você sabe que ele pode passar meses congelado — diz Armand, num tom alegre.
— Isso não vai acontecer.
— Porque o ministro não há de permitir? Muito bem. Mas eu não acho que você vá desenterrar osso algum antes do Natal. Volte para casa. Lembre-se de quem você é.
Jean-Baptiste assente, cutuca o solo em torno dos dedões do pé com o lado da pá. Casa. Nada lhe agradaria mais. Ele anseia por isso.
— E você? — pergunta.
— No Natal? Vou passar três dias bêbado. Lisa há de me passar um sermão e me chamar de patife. Depois, vou curar a bebedeira, fazer amor com ela durante horas e levá-la com as crianças para assistir à missa em Saint-Eustache. Terei maus pensamentos com a jovem esposa sentada no banco à minha frente. Talvez encontre um jeito de abordá-la na hora da comunhão.
— E os seus amigos? Renard, Fleur, De Bergerac?
— Ah, você não morreu de amores por eles, não é? Na verdade, não há muito para gostar ali. A propósito, essa tinta na sua bochecha acaba saindo. Nesse ínterim, finja que são sinais. Aliás, por falar nisso...
Jeanne, a garota, envolta num xale pesado, caminha na direção dos dois, vindo da casa do coveiro, e acena para eles com a mãozinha rosada.
— Você voltou — diz ela.
— Voltei — responde Jean-Baptiste.
— Fiquei me perguntando aonde teria ido.
— Precisei tratar de negócios em outro lugar. Viajei.
— Que coisa boa — diz ela. — Foi bom?
— Cumpriu a finalidade prevista.
— E acaso ela sabe — indaga Armand — qual é a finalidade prevista? Ela sabe o que você tem em mente para nós?
Jeanne olha para Armand e depois para Jean-Baptiste.
— Você tem alguma coisa em mente para nós?
— Outros têm — diz Jean-Baptiste. — Pessoas importantes.
— Ah! — exclama ela.
— Ah, mesmo — emenda Armand.
— Você deve estar se perguntando, Jeanne, o que vim fazer aqui. Quando estava me ajudando, deve ter se perguntado.
— Gostei de ajudar você — diz ela. — Ajudo hoje também, se quiser.
— Hoje não vou precisar.
— O cemitério — intervém Armand. — Vou contar a ela, se você não contar. Vão dar cabo do cemitério, Jeanne. Do cemitério e da igreja.
— O assunto foi decidido há muito tempo — diz Jean-Baptiste. — O lugar será remodelado. Purificado. É o desejo do próprio rei.
— Do rei?
— Você não tem nada a temer. Os restos, os ossos, serão levados para um lugar, um lugar consagrado, onde ficarão seguros.
— Todos? — indaga ela.
— Sim.
— E você vai poder fazer isso? — pergunta Jeanne, olhando para a pá.
— Terei gente para me ajudar.
Ela assente várias vezes.
— Se é o que deseja — diz ela baixinho.
— Você e o seu avô... alguém cuidará de vocês. Dou a minha palavra.
— Tome cuidado com o que promete — recomenda Armand.
— O cemitério — prossegue Jean-Baptiste, ignorando o outro — não pode, simplesmente, ser esquecido. Pode?
— Oh, não — diz ela —, não pode.
— E você sabe como as pessoas se queixam dele.
Ela franze a testa.
— O vovô diz que elas se orgulhavam de morar perto de um lugar tão famoso. Que se gabavam disso.
— O olfato das pessoas — diz Armand — vem ficando mais sensível.
Ela assente de novo, com mais ênfase, como se esse ponto estivesse absolutamente comprovado.
— E a casa? — pergunta ela.
— Vocês terão uma nova. Talvez até mesmo aqui, quando o terreno estiver limpo.
— Aqui?
— É.
— O vovô vai ficar bem se eu estiver com ele.
— Claro. Você precisa estar ao lado dele.
Durante um quarto de minuto os três permanecem calados. Olham à volta. Nada veem que sugira que algo será um dia diferente do que é agora.
Uma hora depois, aquecendo-se com brandy e água quente num reservado espelhado no Café de Foy, Armand diz:
— Ela só concorda porque é você. Você deve ter usado algum encantamento normando com ela. Mas será que não a enganou? Depois que começarem a trabalhar, os seus mineiros vão espalhar os ossos por todo lado, como lenha. E a casa que prometeu a ela? Inventou essa história ali mesmo? Você não tem mais poder para lhe dar uma casa do que para me dar o órgão de Saint-Eustache.
— Farei o que puder — garante Jean-Baptiste.
— Você fará o que lhe mandarem fazer — atalha Armand. — Não lhe parece mais realista?
— O ministro...
— Seu grande amigo, o ministro.
— Eu não acredito que ele seja... que ele seja insensível.
— E acha que ele vai sentir alguma coisa por Jeanne? Ou será que é você quem sente? Entendo que possa parecer atraente enroscar-se numa garota como ela numa noite fria.
— Ela é pouco mais que uma criança.
— Pouco mais já serve. Casaram a nossa querida rainha aos quatorze anos. E ela concordaria em se deitar com você. Você pode levá-la discretamente para o seu quarto na casa dos Monnard, embora, sem dúvida, isso vá desagradar Ziguette.
— Me parece que é você quem está interessado em Ziguette.
— Se quer saber se eu faria com ela caso a oportunidade se apresentasse, a resposta é sim. O mesmo, presumo, se aplica a você. O que me leva a pensar que devíamos ir visitar nossa princesa persa. Que tal?
— Hoje não.
— Não? O senhor está se revelando um chato, Monsieur Bêche. Cuidado com a chatice. Não é moderno. Mas o senhor é quem sabe. Depois que pagar o brandy, eu lhe darei a honra de acompanhá-lo à sua casa.
Próximo ao mercado, quando atravessam o início da rue des Prêcheurs, os dois encontram a austríaca. Ela carrega um pequeno pacote de livros, embrulhado e muito bem-atado com barbante preto. Dá a impressão de se incomodar apenas um pouquinho com o frio, com a neve derretida que escorre entre as pedras do calçamento, com o vento cortante que outros enfrentam de cara feia. Armand a cumprimenta e depois percebe alguma coisa na troca de olhares, que não dura mais que um segundo, entre a prostituta e o engenheiro.
— Ah, não! Ela também? — indaga. E desata a rir.