Puro
Capítulo 9
Durante o tempo que leva para voltar a pé para casa e subir a escada até o quarto, ele se imagina o homem mais feliz de Paris. Não acende sequer uma vela — senta-se na cama na quase escuridão fria como se embrulhado nas pétalas roxas de uma flor. Como tudo é simples! Como somos idiotas, tornando a vida tão difícil! Parece até que queremos ser infelizes ou que temos medo de que a realização de nossos desejos seja capaz de nos fazer explodir! Por um instante — o velho reflexo —, sente vontade de examinar os próprios sentimentos, dar nome a suas partes, saber que tipo de máquina é essa, essa nova alegria; depois se deita na cama, rindo de mansinho, e assim se aproxima do sono, antes de sentar-se com um susto, de volta à velha incerteza. O que exatamente terá ela querido dizer com aquela mensagem? Haveria ali alguma ambiguidade? Será que se equivocou na leitura, já que agora, para ele, as palavras se tornaram criados tão pouco confiáveis? E por que ele achou de mandar um rapaz mudo com a resposta, quando, com um pouquinho de sobriedade, um pouquinho de paciência, poderia ter ido com o rapaz até em casa e escrito um recado simples e explícito?
Põe-se de pé, anda de um lado para o outro no quartinho, detém-se junto à porta, olha para o cômodo — onde agora todos os objetos não passam de silhuetas mal discerníveis — e percebe que, se ela aparecer amanhã (e por que às três horas?), os dois não poderão ficar ali, permanecer ali, morar nem uma noite juntos ali dentro.
Desce apressado a escada, passa pela porta da sala de jantar, pega uma vela acesa na mesa do corredor e volta — subindo dois degraus de cada vez — para o andar superior. Do lado de fora do quarto de Ziguette, ele se pega de ouvido colado à porta, recrimina-se num sussurro, abre a porta e entra.
Não esteve ali depois da noite em que a visitou para descobrir a aparência de uma moça derretida e encontrou tanto a moça quanto o quarto em avançado estado de desalinho. Está bem arrumado agora, um pouco úmido por não ter sido arejado, mas isso é fácil de solucionar. Ergue a vela, registra o guarda-roupa pintado, a lareira, a penteadeira com seu espelho oval (no qual a chama da vela agora reluz). A cama é grande o bastante para dois. Será que o quarto ainda cheira à sua dona? Ele não sabe dizer; não é capaz. Vai até a janela desguarnecida de veneziana e a escancara, sentindo o ar noturno fluir por entre os dedos. O surto de dúvida passou, mas com ele se foi a euforia, aqueles maravilhosos minutos de felicidade cega. Está com fome. Muita fome. Desce para juntar-se aos Monnard no jantar. O casal já está terminando a sopa, mas a terrina continua sobre a mesa. É este o momento para contar a Monsieur e Madame o que pretende, contar-lhes quem, amanhã — se a mímica de um rapaz mudo for compreendida —, irá morar na casa deles. Levando uma colherada de sopa à boca, ele tenta descobrir uma forma elegante e decisiva de falar tudo de uma vez, mas, antes que consiga dizer uma palavra sequer, começa a rir. A sopa, num filete marrom, volta dos seus lábios para o prato. Ele enxuga a boca, pigarreia e pede desculpas.
* * *
Raia o dia. Ele veste o traje preto e sai à procura de Marie. Encontra-a na cozinha. Ela está inclinada junto à mesa, balançando um pedaço de carne assada na boca para o gato pular e abocanhar.
— É um jogo — explica.
Ele assente e depois lhe pede para retirar todas as roupas de Ziguette, todos os bibelôs de porcelana, as aquarelas de amadora, as conchas, os dedais pintados, os leques floreados — tudo, enfim — do quarto da moça e transferi-los para o dele, onde, por enquanto, deverão ficar convenientemente armazenados.
— Por quê? — indaga Marie.
— Quero usá-lo.
— O quarto dela?
— É.
— Para o senhor?
— Para mim, sim. Para mim e... mais uma pessoa. Uma mulher.
— Uma mulher?
— Sim, uma mulher. Isso é tão extraordinário?
— Ela é sua esposa?
— É... é um arranjo. Entre nós. Os homens e as mulheres que vivem juntos no faubourg Saint-Antoine são sempre casados?
— Não.
— Então, seremos como eles.
— O senhor há de querer que eu lhe sirva — diz Marie. — E a ela.
— Vou lhe pagar um extra para tanto. A metade do que lhe paga Monsieur Monnard.
— Quando ela chega?
— Hoje, acho eu. Talvez esta tarde.
— Então, o senhor vai me pagar hoje?
— Vou lhe dar alguma coisa quando o quarto estiver pronto. Você vai ter tempo de sobra... de suas outras obrigações?
Ela assente, sorri timidamente, animada. Ao longo de toda a conversa, o gato não desgrudou os olhos da boca da criada.
Às duas da tarde, tendo contado uma série de mentiras a Lecoeur sobre precisar sacar recursos no ourives da rue Saint-Honoré, Jean-Baptiste volta para casa. Quando abre a porta do quarto de Ziguette, vê com alívio o armário aberto e vazio, a penteadeira onde não resta um único grampo, as paredes nuas. A eficiente Marie! Fará com que ela ganhe algo de valor por isso, o suficiente para um vestido novo, de boa qualidade, algo para exibir quando visitar sua casa, se é que tem casa, um lugar para chamar de lar.
Será que ela trocou a roupa de cama? Ele puxa a colcha, examina o travesseiro em busca de cabelos louros e depois, num impulso, olha embaixo da cama, onde encontra uma coisinha pequena, diáfana, que pega e gira entre as mãos. Cetim roxo. Um objeto de cetim roxo arrematado com uma fita roxa. Uma espécie de sapato, uma espécie macia de... que diferença faz que nome tenha? Não há tempo para isso agora. Ele o dobra, põe num dos bolsos, se empoleira num dos cantos da cama, mas imediatamente fica de pé e vai até a janela, se debruça, varre a rua com o olhar, resmunga um comentário frívolo sobre mulheres e pontualidade, volta até a cama, vai ao espelho, exibe e examina os dentes, tira do bolso o relógio, vê que ainda faltam quinze minutos para as três, senta-se de novo na cama, olha para a terra em seu sapato, terra do cemitério, talvez o húmus de homens e mulheres mortos, e se descobre pensando na Charlotte de Guillotin, a moça preservada com seus longos cílios brotando de pálpebras cinzentas e murchas, pálpebras que lembram moedas velhas. Por que precisa pensar nela agora? Será que não pode se livrar deles nem por uma ou duas horas? Salvo o pai, ele jamais costumava pensar neles...
E que rosto velho é aquele olhando para ele da janela do outro lado da rua? Então, gosta de espionar, hein? Muito bem. Ele se põe de pé e encara também, com os braços cruzados sobre o peito e um risinho zombeteiro nos lábios, até que começa a desconfiar de que não se trata de um rosto, mas de algo suspenso, talvez mesmo a luz suave de um espelho pequeno. É quando ouve o trote animado de cavalos, o ritmo sincopado das rodas. Os cabriolés têm sua própria música, e este é, sem dúvida, um deles. Corre para a janela, olha para baixo, vê o veículo parar à porta da casa e o velho cocheiro sair de seu posto e dar a volta para abrir a porta do passageiro. Um momento depois, vê o alto da cabeça de Héloïse. Da sua rainha.
— Então é isto! — exclama, a voz soando no vazio recém-criado do quarto como se fosse a de um ator, tão falsa e tão estranha quanto a de um ator. Ele desce a escada em desabalada e ruidosa carreira. Madame Monnard sai da sala e se posta no corredor esfregando as mãos, ansiosa.
— A casa está pegando fogo? — grita, quando o engenheiro passa correndo por ela. — Monsieur! Monsieur!