Puro
Capítulo 2
Meados de agosto; o sol nasce às seis e vinte. Os dias já estão perceptivelmente mais curtos. Ele abre as venezianas, estuda as casas ainda na sombra do outro lado da rua, imagina se também é observado. Não dá para dizer. Na cama, às suas costas, Héloïse se mexe. Ele pergunta se ela quer uma vela, se deve acender uma vela. Não há necessidade, ela responde. Dá para enxergar bem o bastante. Tem água? Ele enche um copo, o qual põe nas mãos dela, e a ouve beber.
Vestindo apenas a camisa com que dormiu, enfia o culote, põe a camisa para dentro, encontra as meias e se senta na cama para calçá-las. Héloïse está pegando o penhoar no gancho onde o pendura durante a noite, no canto da tela que esconde o toalete.
— Céu limpo — diz ela.
— É.
— Não chove há semanas.
— Não.
— Eu gostaria que viesse um temporal, um aguaceiro para lavar as ruas.
A conversa dos dois transcorre mal acima de sussurros. Ele abotoa o culote, ela faz o que precisa atrás da tela. Do outro lado da rua, entre os topos das chaminés, uma linha fina e dourada de sol força passagem. Ouro rosado, ouro alaranjado.
— E se a gente viajasse? — pergunta ele.
— Viajar?
— Duas semanas.
— Você pode fazer isso?
— Posso pedir a Sagnac para cuidar de tudo aqui. O trabalho é basicamente dele, de qualquer modo.
— E para onde iríamos?
— Para a Normandia, para Bellême. Deve estar mais fresco por lá. Bem mais fresco. E já é hora de você conhecer a minha mãe, não acha?
— Sua mãe?
— É.
— E se acontecer alguma coisa aqui? — indaga Héloïse, saindo de trás da tela, molhando o rosto com a água de laranjeira. — E se os seus homens se recusarem a trabalhar para Sagnac?
— E por que se recusariam?
— Talvez não gostem dele.
— Não precisam gostar dele. Nem sei se gostam de mim. E seriam apenas uns quinze dias. Menos, se você preferir. Não quer conhecer a minha mãe?
— Quero — responde Héloïse. — Mas tenho um pouco de medo, só isso. Vivemos... irregularmente.
Ele se aproxima. Adora ver o rosto dela de manhã.
— Ela é boa — diz, segurando os dedos molhados e frios de Héloïse.
— Boa?
— Sim.
Ela começa a rir. Ele adere. É um riso suave, sibilante, cortado de súbito por um espirro improvavelmente alto vindo do quarto abaixo, espirro este seguido por uma sequência de outros.
— Monsieur Monnard — diz Héloïse — pegou o resfriado de Marie.
— Ando pensando — emenda Jean-Baptiste — se Monnard... se ele e Marie... será possível?
— No sábado à tarde — responde Héloïse —, juro que ouvi sons bem estranhos lá em cima, no sótão.
— Sons?
— Como se alguém castigasse uma criança com palmatória.
— E agora eles estão resfriados juntos — diz Jean-Baptiste.
— Pobre da esposa — emenda Héloïse.
— Ela devia ir para Dauphiné — observa Jean-Baptiste. — Não sei por que não vai.
— Ou ela podia voltar para cá.
— O quê? Ziguette? Você conseguiria dormir tranquilamente com uma assassina em casa?
— Ela não é uma assassina, Jean. Mas não, eu não conseguiria morar na mesma casa que ela. Teríamos de achar outro lugar. Por exemplo, Lisa disse que tem um bom apartamento perto do deles na rue des Ecouffes. Um tabelião e a esposa são os inquilinos, mas vão se mudar em setembro.
— E isso é o seu por exemplo, hein?
— Um lugar só nosso — diz ela.
— Seríamos vizinhos de Armand.
— Não vamos morrer por causa disso. Vai pensar no assunto, Jean?
— Vou — diz ele.
— Promete?
— Prometo.
Os dois se afastam e continuam a se vestir. Ele abotoa o colete junto à janela e baixa o olhar para o teto de lona balouçante de uma carroça que passa, uma carroça que ele conhece bem — M. Hulot et Fils, Déménageurs à la Noblesse.
E o que originou essa conversa repentina acerca de viagens? A luz do sol na coifa de uma chaminé? Foi isso? Na metade do tempo, ao que parece, as pessoas não sabem o que estão pensando, o que querem. Ainda assim, a ideia não é impossível. Sagnac gostaria de se mostrar prestativo, por um preço. Quanto aos mineiros, por que haveriam de criar objeções desde que recebam o que lhes é devido? Ele tenta imaginar essas férias, Héloïse despreocupada no campo verdejante, os passeios no bosque, os dois descansando as costas de encontro a um monte de feno enquanto contemplam trutas no córrego, a bênção da mãe em suas testas... Não é tão fácil de imaginar quanto ele gostaria. Mais fácil é se ver nervoso, o tempo todo pensando no cemitério e depois arranjando uma desculpa para voltar à cidade.
— Vou comprar rabo de boi hoje — diz Héloïse. — Sanson, o açougueiro, prometeu arrumar para mim. Os homens vão gostar. Vou fazer uma rabada com cebola, alho, tomate e tomilho, acompanhada de uma bela quantidade de vinho tinto. Talvez use pés de porco também. Pés de porco são um ingrediente excelente para um prato desses. O molho fica muito mais grosso. Sua mãe preparava pés de porco para você, Jean? Não é uma comida comum na Normandia? Jean... o que você está fazendo?
Tendo se afastado da janela, ele agora está sentado diante da penteadeira com o olhar fixo no brilho azulado do espelho.
— Uma das suas dores de cabeça? — indaga Héloïse, se aproximando e pousando as mãos com delicadeza de um lado e do outro da cabeça de Jean-Baptiste.
— Não — responde ele. — Em absoluto.
— Eu não devia ter mencionado Ziguette.
— Não faz mal.
— Mas você está com a testa franzida.
— Acabei de notar que estou começando a ficar parecido com o velho Dudo.
— Dudo? Quem é Dudo? — indaga Héloïse.
Seus olhares se encontram no espelho, e ele ri para ela.
— Um dos camponeses Baratte — responde o engenheiro. — O mais puro de todos.
Já faz um bocado de calor ao sol, que se derrama pela rue aux Fers e penetra os ossos da cabeça de Jean-Baptiste. No extremo oposto da rua, ele vê as silhuetas das lavadeiras ao lado da fonte italiana, a água cintilando como asas de abelhas. Abre a porta do cemitério, que não está trancada, que não é trancada desde a noite do incidente com Lecoeur. Uma porta trancada de nada lhe serviu então, não serviu de nada a ninguém. Decerto não a Jeanne. Quanto aos que se sentem inclinados a roubar um pouco de madeira, que roubem. A bem da verdade, esse é o tipo de gente, suspeita o engenheiro, que desdenha o uso de portas.
No telhado da igreja, os pedreiros e operários já se encontram em seus postos, embora, pelo barulho que estão fazendo, tudo indique que haja mais conversa que trabalho acontecendo lá em cima. Jean-Baptiste esquadrinha o andaime, as balaustradas, mas não acha Sagnac. Talvez ainda não tenha chegado, e os aprendizes procurem aproveitar ao máximo essa breve liberdade.
Uma dezena de mineiros se senta em círculo no parapeito que circunda a base da cruz do púlpito, as botas apoiadas sobre a grama crescida. Alguns fumam seus cachimbos, outros ainda estão comendo o pão que sobrou do café. O engenheiro lhes deseja um bom-dia ao passar na direção da casa do coveiro. A cozinha ali não tem mais coisa alguma, despida de tudo que não seja essencial para alimentar os homens. No antigo quarto de Lecoeur, os registros mofados do cemitério foram encaixotados, embora não haja indícios do que deva ser feito com eles, para onde mandá-los e quem há de querê-los. A cama avantajada no andar superior será desmontada amanhã ou depois de amanhã, e assim transportada para a rue Aubri Boucher. Todas as refeições serão preparadas no extremo oeste do cemitério. O perigo é grande demais para quem quer que permaneça na casa. Uma pedra deslocada na igreja pode perfurar o telhado como uma bala de canhão.
No extremo da mesa da cozinha, uma sombra se mexe, adquire consistência. O coveiro, com o cabelo escovado e muito bem-penteado, mas sem casaco nem colete, usa apenas uma camisa acinzentada de algodão desabotoada até a metade do tórax. Tem um ovo de galinha na mão, o qual descasca com cuidado.
— Sua missão já está praticamente cumprida aqui — diz o engenheiro.
Manetti assente sem levantar os olhos do ovo.
— Talvez vá sentir saudades, não? De algumas coisas?
— Do jardim — responde o coveiro. — Não teremos mais jardim.
— Jardim? Não. — Da janela da cozinha, Jean-Baptiste consegue ver a modesta meia-lua de papoulas junto ao túmulo Flaselle. E também tufos de folhinhas de salgueiro próximo ao ossuário da lateral oeste, bem como azedinhas, cujas folhas os homens gostam de mastigar. — É verdade que no passado cortavam a grama daqui para fazer feno? Que traziam animais para pastar?
— É verdade.
— Jeanne me contou. Logo que cheguei. Ela aprendeu tudo com as suas histórias.
— Existem histórias — observa o coveiro, com um olhar fixo e não totalmente amistoso — que não se podem contar a uma criança.
O silêncio entre ambos é quebrado quando o médico surge à porta.
— Que manhã gloriosa! — exclama para os dois homens. — Um ótimo dia para ambos. — Ele abre um sorriso para a dupla. A Jean-Baptiste ele diz: — Você vai até a igreja? E onde está aquela linda mulher que inexplicavelmente foi convencida a viver com você?
— Ela deve estar chegando — responde Jean-Baptiste.
Do lado de fora, enquanto caminham juntos, o médico comenta baixinho:
— Acho que a cabeça dele está começando a divagar.
— Manetti? Ele me parece bastante lúcido.
— É mesmo?
— E quanto a Jeanne? — indaga o engenheiro.
— Quer a minha opinião profissional?
— Sim.
— Para ela, a única realidade é o bebê. Acima de qualquer outra coisa. Me ofereci como parteiro para quando for a hora. Sem cobrar. Assumi por conta própria o papel de tio.
— O senhor tem uma sobrinha em Lyon, não?
— Minha amada Charlotte.
— E a outra?
— Como?
— A outra Charlotte. O que fez com ela?
— Ah, tivemos de queimar a moça. Não seria possível conservá-la.
Os dois fizeram a volta para chegar ao portão oeste. Já não é seguro entrar pelo transepto sul. Jean-Baptiste pergunta ao médico se ele deseja algo da igreja.
— Já que você tocou no assunto — responde Guillotin —, existe um par de quadros pequenos numa das capelas. Você conhece esse tipo de pintura. Paisagens indistintas, com um toque religioso inofensivo a distância. Depois de limpo, acho que ficará muito bem na parede do meu consultório. Você não faria objeções, suponho.
— Terei prazer em vê-lo ficar com eles. Do contrário, acabariam mesmo no fogo.
— Fogo! Meu caro engenheiro, você tem alguma coisa de Átila, o Huno. Queimar obras de arte, com efeito!
Uma vez no interior da igreja, os dois avançam em fila única. O sol já está acima da linha do telhado, e, no lugar em que não mais existe telhado, a claridade penetra em ângulo agudo na parede oposta, iluminando, com uma espécie de perfeição desnecessária, a canelura de uma coluna, a beirada chanfrada de um arco, um rosto de pedra contempla, de olhos esbugalhados, alguma maravilha no nada. Os operários e aprendizes de Sagnac continuam a palrar como passarinhos. Alguma coisa cai, cintila ao passar da luz para a sombra e se espatifa em cima dos bancos empilhados com o barulho de um trovão.
A ala norte ainda permanece protegida, abrigada, escura como as fímbrias de uma floresta. Quando o engenheiro se aproxima com o médico, os dois veem Armand e dois dos mineiros, Slabbart e Block, abaixados ao lado do órgão, usando ferramentas para mexer no instrumento. Quando Armand fica de pé e olha para Jean-Baptiste, seu rosto está molhado de lágrimas.
— Esse provinciano miserável — diz ele para o médico, aproximando um dedo acusador do colete de Jean-Baptiste — me obriga a esquartejar meu próprio instrumento.
— Ora, monsieur — atalha Guillotin com ternura —, monsieur! Já o chamei de Átila, o Huno. E garanto que ele há de encontrar alguma bela recompensa para consolá-lo.
— O que está fazendo com o órgão? — indaga Jean-Baptiste.
— Retirando o teclado. Se ficar com o teclado, ainda vou poder praticar.
— Também vai querer os registros?
— Acha que consegue retirá-los?
— Claro — responde Jean-Baptiste, estendendo o braço para tocar a extremidade entalhada do mais próximo. Já sabe seus nomes agora, ao menos alguns: cromorne, trompette, voix céleste, voix humaine. — Eu o pouparia inteiro, se pudesse.
— Para fazer o que com ele? — pergunta Armand, cujo surto de luto parece já estar passando. — A coisa já teve seus dias de glória. Milhares deles. Vai morrer com a igreja.
— Então, vá tocar lá em casa hoje à noite — sugere Jean-Baptiste. — Leve Lisa. Quem sabe conseguimos convencer Jeanne e o avô a ir também. O senhor será bem-vindo, doutor.
— Um pequeno sarau? — indaga Armand.
— Por que não? Garanto que os Monnard não farão objeções.
— Os Monnard? — repete Armand, entregando seu cinzel ao engenheiro. — Tenho certeza de que não. Os Monnard jamais criarão empecilhos, certo? Aliás, não está na hora de você pensar em deixá-los em paz? Os dois já foram castigados. Ouça Héloïse.
Durante meia hora no frio empoeirado da ala norte, Jean-Baptiste labuta com Slabbart, afrouxando o teclado e depois passando para o entorno dos registros. O mineiro tem uma habilidade precisa com as ferramentas, e é prazeroso trabalhar com ele. Quando, porém, fica claro que Slabbart é perfeitamente capaz de concluir o trabalho sozinho, Jean-Baptiste se afasta, caminhando bem rente à parede, e sai novamente da igreja. À sua frente, acima do ossuário, o sol bate em cheio nos fundos das casas da rue de la Lingerie, cegando todas as janelas com o seu brilho. Será que se trata realmente de castigar os Monnard? Castigá-los por terem uma filha louca? Conscientemente, ele jamais pensou dessa maneira. Ao contrário, seu comportamento com o casal — tratando-o com o mínimo possível de civilidade, mantendo Ziguette em seu exílio, fazendo rigorosamente o que queria na casa, morando ali com Héloïse — sempre lhe pareceu absolutamente razoável. Justo e razoável. Agora lhe ocorre que talvez tenha se comportado com os dois mais ou menos como Lafosse tem se comportado com ele, mais ou menos, talvez, como o ministro se comporta com Lafosse. Reduziu-os a pó. Humilhou-os.
No telhado, mais gritos e risos. Ele sai da sombra da igreja, semicerra os olhos para ver melhor o andaime, conclui que precisa subir até lá em breve para falar com Sagnac. Primeiro, porém, vai mandar os homens para separar os ossos que serão embarcados nas carroças à noite. Depois, eles poderão começar o trabalho de extrair as grades de ferro que guarnecem os sótãos de ossos. Já examinou a maioria, já viu (empoleirado numa escada) como a pedra está desgastada junto às grades e como estas se encontram enferrujadas. Removidas as grades, bastará puxar os ossos lá de dentro com um ancinho, tarefa muitíssimo mais simples do que carregá-los nos braços, em inúmeras idas e vindas pela escada estreita e enegrecida, até o nível térreo das galerias. Puxá-los para dentro de grandes lonas, depois embrulhá-los numa trouxa e arrastá-los até o portão. Um jumento seria útil. Uma dupla de jumentos melhor ainda. Será que Louis Horatio Boyer-Duboisson lida com criaturas tão humildes? Difícil crer que não.
Ele reúne os homens à sua volta. Eles vão chegando em seu ritmo próprio, cadenciado, de mangas arregaçadas e colarinhos abertos. Pescoços morenos, braços morenos. Mais fazendo lembrar fazendeiros que mineiros. O engenheiro começa — em sua habitual mistura arrevesada de francês e flamengo — a lhes passar suas ordens, começa a explicar o seu raciocínio a respeito do sótão e das grades. Pelo canto do olho observa Héloïse chegar do mercado com duas cestas grandes nas mãos. Um dos homens, Elay Wyntère, corre para ajudá-la.
— O nosso jantar — diz o engenheiro. Sorri para os homens e depois vira o pescoço para olhar para a igreja.
Uma gritaria foi seguida por um silêncio estranho. Não há mais ninguém martelando nem serrando. Os operários no telhado, os que podem ser vistos do solo, parecem simplesmente imóveis, olhando fixamente para o interior da igreja. O dia vai passando. A luz tudo banha, admirável e imutavelmente. São os mineiros os primeiros a entender. O que foi que não aprenderam com o trabalho em Valenciennes a respeito dessas coisas? A catástrofe sentida na forma de uma leve vibração que sobe pelas botas, o silêncio que vem depois. Eles passam correndo pelo engenheiro, esbarram com ele, em direção à igreja. Após um momento de confusão, Jean-Baptiste também sai correndo atrás.
— O que foi? — grita Héloïse. — Não entre lá, Jean!
Ele grita de volta para ela:
— Espere!
— Jean-Baptiste!
— Espere!
No interior da igreja, os mineiros já fizeram um círculo em torno de um ponto a meio caminho entre duas colunas, do lado sul da nave. Jean-Baptiste precisa puxar com firmeza o braço de um deles, empurrar o ombro de outro, levantar a voz, forçar passagem. No chão, dentro do círculo, um homem jaz esparramado, um pedaço de viga serrada caído sobre as pedras. Já é possível ver um halo irregular de sangue em volta da sua cabeça, embora a localização do ferimento não esteja evidente. Será que o sangue vem da boca? Terá sido ferido no rosto? Um dos mineiros está acocorado junto à vítima. Jean-Baptiste se ajoelha do outro lado.
— Slabbart — diz o mineiro.
— Encontre Guillotin — ordena Jean-Baptiste. — E traga-o aqui. — O mineiro se põe de pé; os outros abrem caminho para deixá-lo passar. Há uma urgência na forma como se movem, embora não passe da excitação vil do momento. Slabbart obviamente está morto, deve ter morrido na hora, em meio a um gesto, talvez quando ergueu os olhos para o teto, reagindo a algum aviso. A madeira o atingiu então, derrubando-o.
— Quem é? — indaga Armand, abrindo passagem com rudeza.
— Slabbart — responde Jean-Baptiste, que então olha para o telhado e para os rostos que espreitam das beiradas cá para baixo. Põe-se de pé. O tecido nos joelhos do culote, negro de sangue, lhe gruda na pele. Sai da igreja. Está meio surdo. Vê Héloïse, mas não consegue ouvir claramente o que ela lhe diz. Começa a subir no andaime, usa as escadas que vê, escala a própria estrutura quando não encontra outra maneira de ascender. Escalando com uma pressa inquieta, vê por um ângulo estranho, de cima, as ruas por trás dos muros do cemitério — uma carroça grandalhona fazendo a curva para entrar na rue Troufoevache, uma jovem usando chapéu de palha que caminha na companhia de uma mulher mais velha, uma viela que vai dar na rue des Lombards... Quando alcança o passadiço superior, o céu parece crescer. É como se tivesse escalado as paredes da cova mais funda de Les Innocents e chegado sem fôlego à superfície. À frente, rostos chocados, apavorados. Corpos tensos. E, mais adiante, na prancha que se estende por sobre a nave, dois rostos contraídos pelo horror do ocorrido, contraídos de medo, contraídos — segundo conclui mentalmente o engenheiro — pela culpa. Ele se alça para a plataforma e corre atrás dos donos desses rostos. Talvez jamais tenham visto um homem correr desembestado por uma prancha estreita a cinquenta metros de altura do solo. A surdez já passou agora. Pode ouvir todos eles gritarem. Um clamor, como o de gaivotas. A dupla no telhado tem uma expressão ensandecida. Os dois deslizam pelas telhas, cada vez mais próximos da beirada, da queda. Então, a voz de Sagnac se ergue acima de todas as outras:
— Baratte! Baratte! Você vai matá-los! Você vai matá-los, merda!
Provavelmente é verdade. Os dois vão cair, alguém vai cair. Cair ou ser atirado. É isso que ele pretende? Faz uma pausa e olha pra trás. Sagnac avança, desajeitado, pelo sulco profundo entre o telhado e a borda. O pedreiro tem os braços esticados, as palmas das mãos viradas para cima naquela postura — apaziguadora, defensiva — em geral adotada quando se lida com alguém de comportamento inteiramente imprevisível.
— Foi só um acidente — diz Sagnac. — Ninguém teve a intenção de causar mal algum. Mas eles serão castigados. Pelo descuido. Você tem a minha palavra. Eles aprenderão a lição. — Observa o engenheiro, observa-o atentamente, antes de baixar a voz. — Pelo amor de Deus, Baratte. Um deles é meu genro.
Com as coisas mais calmas agora, Jean-Baptiste se conscientiza do calor do sol. É escaldante ali em cima, um calor redobrado pela reverberação das telhas nuas. Não dá para ver direito o interior da igreja, onde estão os outros, onde está Slabbart. O genro e o amigo se abraçam como crianças aterrorizadas. O engenheiro perdeu o interesse por eles. No solo, no solo distante e reluzente, Héloïse e Jeanne, duas figuras diminutas na grama junto à cruz do púlpito. Ele assente para ambas, faz um ligeiro movimento com os braços, uma espécie de aceno, e se prepara para descer.
Ela o espera lá embaixo, junto ao andaime, e a primeira coisa que faz é lhe dar um tapa, um soco feminino e curioso em que a parte de baixo do punho lhe acerta o ombro. Não diz coisa alguma. Afasta-se dele, com os braços firmemente cruzados sobre o peito. Ele volta a entrar na igreja. Guillotin chegou. Slabbart foi virado de barriga para cima. O ferimento — um corte que sangra, tão comprido quanto o dedo anular de um homem — é quase precisamente no local onde, na cabeça de Jean-Baptiste, Ziguette golpeou com a régua, mas a madeira penetrou mais profundamente que o metal, encontrando não só o osso, mas a maciez abaixo, perfurando-a. Guillotin presta atenção para manter os bicos dos sapatos fora da poça de sangue. Olha para Jean-Baptiste e faz um movimento quase imperceptível com os ombros.
— Arrume um cobertor — diz Jean-Baptiste ao mineiro a seu lado. — Enrole o corpo e leve para a capela mais distante.
Gesticula na direção do local atrás do órgão e depois dá alguns passos adiante, como se pretendesse agachar-se ou ajoelhar-se novamente junto ao morto, mas é impedido de prosseguir por um punhado de mãos que o obrigam a se virar, que o pressionam, forçando-o a afastar-se do círculo. Guillotin vem depois, impelido pela mesma força respeitosa, seguido por Armand. O círculo se fecha.
Durante uns poucos segundos, os homens expulsos, patrões até um segundo atrás, ficam ali desconcertados, mudos, às costas dos mineiros. Então, deixam a igreja juntos, saem para a claridade berrante da manhã.
— Eles têm alguma religião? — indaga Guillotin.
Jean-Baptiste faz que não com a cabeça. A boca está seca como um osso, o coração ainda bate forte depois da escalada.
— Havia uma igreja na mina, mas nenhum deles sequer chegava perto. Os administradores achavam que eles não acreditavam em nada.
— Não existe no mundo um único homem que não acredite em alguma coisa — diz Guillotin.
— Preciso beber alguma coisa — diz Armand.
— Eu lhe faço companhia com prazer — emenda Guillotin. — E você, meu caro engenheiro, com certeza merece um copo. Ou melhor, dois ou três.
— Se eu contar isso a Lafosse — diz Jean-Baptiste —, ele vai me mandar enterrá-lo aqui.
— Como aconteceu com seu velho amigo — completa Armand com delicadeza.
— Você se refere a Monsieur Lecoeur? — pergunta Guillotin, olhando para os dois. — Fiquei me perguntando se ele estaria aqui. Jeanne sabe disso?
O engenheiro indica que não com um gesto de cabeça e ergue os olhos para o telhado da igreja. O que estarão fazendo os homens ali? Conversando? Aguardando?
— O morto pode ir para o cemitério em Clamart — diz Guillotin. — É para lá que a maioria dos que viriam para Les Innocents vai agora. Um lugar totalmente decente. Ou, então, para o cemitério protestante em Charenton, se for mais conveniente.
— Vou perguntar aos outros — atalha Jean-Baptiste. — Farei o que eles quiserem.
— Chorei por causa do meu órgão — observa Armand —, mas agora meus olhos estão secos. Não consigo imaginar que tipo de homem isso me torna.
— Não existe luto abstrato — diz o médico. — O que esse homem significava para você? Para qualquer um de nós? Ora, aí vêm as mulheres. — Esfregando as mãos, ele sorri para os vultos de Jeanne, Héloïse e Lisa Saget, que se aproximam. — Elas hão de saber o que fazer. Elas terão ideias.
A ideia das mulheres — ao menos de Lisa Saget — é preparar a comida. Rabada. Vinte broas dormidas o bastante para embeber a gordura. Vinho esfriado no ossuário.
A uma da tarde, quando Lisa bate na frigideira, Sagnac já levou seus homens embora, saindo furtivamente com eles pelo portão da rue de la Ferronnerie. Os mineiros deixam a igreja de forma ordenada. Nada em suas posturas, nas vozes que usam uns com os outros, sugere algo muito fora do comum. Pegam seus pratos e talheres de metal, fazem fila junto ao anexo da cozinha e levam a comida com eles para a cruz do púlpito, onde se sentam e comem.
— Desculpe, Jean — diz Héloïse a Jean-Baptiste, quando os dois ficam sozinhos sob a sombra da casa do coveiro —, mas você me assustou um bocado. Acho que nem Ragoût correria em cima de um muro daquele jeito.
— Então me desculpe também. É que perder um homem dessa maneira...
— Foi um acidente?
— Jamais provaremos o contrário.
— E o que você vai fazer com ele?
— Slabbart? Ele pode passar esta noite na igreja, mas precisamos descobrir o que fazer com ele amanhã. Neste calor...
— Ele tinha família? Esposa? Filhos?
— Não sei. Vou ver se descubro.
— Eles podem receber algum dinheiro.
— Dinheiro!
— Dinheiro vai ajudá-los, Jean. Você não tem outra coisa para lhes dar.
A tarde comprida de verão. Uma enorme quietude pairando no cemitério, em todo o bairro. O céu aberto e pálido tem algumas nuvens esparsas, o sol se põe na direção da rue de la Lingerie, e, assim que ele se esconde atrás dos beirais dos telhados, o tempo gradualmente esfria. Surge uma lua, gorda e alaranjada. As carroças chegam da pedreira. Os homens, que passaram a maior parte da tarde junto à entrada de suas barracas, põem mãos à obra sem ressentimento, sem um subtom queixoso. Ainda assim, Jean-Baptiste suspende os trabalhos tão logo considera a quantidade de ossos suficiente para calar eventuais observações desagradáveis do supervisor na Porte d’Enfer sobre o ócio no cemitério. Os padres começam sua marcha, as bainhas das batinas esbranquiçadas de poeira. O canto que entoam soa roto, desanimado. Se pudessem escolher, talvez atirassem todos os ossos no Sena. Agosto em Paris não é um mês pio.
São quase onze da noite quando Héloïse, Armand, Lisa e Jean-Baptiste deixam o cemitério. Guillotin já partiu há muito, e Jeanne e o avô não foram convidados para juntar-se ao grupo: está tarde e, é claro, não pode haver sarau agora, não pode haver alegria. Armand sugere uma ida até o Palais Royal para encontrar algum lugar para se sentarem e beber como soldados. Héloïse protesta. O Palais, em sua incansável euforia, há de deixá-los constrangidos. Podem muito bem beber em casa. Os Monnard provavelmente já se recolheram, e há brandy na cozinha e uma garrafa de aguardente lá em cima, no quarto. E vinho, naturalmente, o vinho de Monsieur Monnard. Será que isso não basta?
O grupo concorda. Quando entram em casa, o ar no corredor é denso como feltro, e a casa toda está escura e silenciosa. Os Monnard, com efeito, já se recolheram. Marie também, embora aparentemente tenha levado o brandy consigo para a cama, quem sabe como panaceia para o resfriado. Héloïse vai pegar a aguardente. Na sala de estar, Armand serve quatro copos de vinho pela metade e depois termina de enchê-los com a aguardente.
— Talvez tenha gosto de vinho agora — diz ele. — Um brinde a Slabbart. — Todos erguem seus copos e bebem.
— Qual era o primeiro nome dele? — indaga Héloïse.
— Joos — responde Jean-Baptiste.
— Joos — repete baixinho Héloïse.
— Toque para nós, Armand — pede Lisa.
Armand balança a cabeça.
— A música provocará novas emoções. Devemos conservar as que já temos.
— Toque assim mesmo — insiste Lisa, pegando a mão do organista, afagando os pelos ruivos em seus dedos.
Ele dá de ombros, senta-se na banqueta, folheia as partituras acima do teclado — as peças que o Signor Bancolari tentou ensinar a Ziguette Monnard —, mas joga todas no chão e começa a tocar alguma coisa lenta que sabe de cor.
— Já está desafinado — comenta. — Tudo está, no mínimo, um semitom abaixo.
— Está perfeito — discorda Héloïse. — Por favor, não pare.
Jean-Baptiste atravessou a sala e se postou à janela. Fica ali, de braços cruzados, olhando para fora. Como só existe um par de velas na sala, ambas sobre o piano, ele consegue enxergar sem grande dificuldade. A lua está alta agora, quase diretamente acima deles, menor e não mais alaranjada. Armand toca durante vários minutos uma peça mais bonita que triste, mas triste mesmo assim.
Quando a música termina, Jean-Baptiste diz:
— Eles estão dentro da igreja.
— Os mineiros? — pergunta Héloïse.
— É.
— Uma vigília — diz Armand.
— Esqueça deles por ora — intervém Lisa. — Deixe-os em paz.
Jean-Baptiste assente e se junta aos outros junto ao piano.
Armand emenda uma música mais animada.
— Vocês se lembram da peça a que assistimos? Aquela dos criados e patrões? Esta é a ópera.
Ele toca a abertura e duas ou três árias. Conforme avisou aos outros, novas emoções surgem. O clima se altera e se torna — de um jeito perturbador, melancólico e inspirado pela bebida — quase alegre. Quando ele faz uma pausa, as mulheres aplaudem. Ele agradece com uma reverência.
— Eles continuam lá — comenta Jean-Baptiste, que, durante a interpretação da última ária, foi incapaz de refrear o impulso de voltar à janela. — Eles têm luz. Fogo.
Armand se levanta da banqueta e se junta ao engenheiro próximo das venezianas.
— Não se pode esperar que eles fiquem lá no escuro — observa.
— O que você sabe sobre eles? — pergunta Jean-Baptiste calmamente.
— Sobre os mineiros?
— Sim.
— Tanto e tão pouco quanto você. São tão misteriosos quanto as enguias.
— Quero ir ver — diz Jean-Baptiste.
— Ver? Ver o quê?
— Ele quer ver o que estão fazendo — explica Héloïse. — Está preocupado, Jean?
— Mas que mal eles podem estar fazendo numa igreja destruída no meio da noite? — pergunta Lisa.
— Não faço ideia — responde Jean-Baptiste, pegando na mesa o chapéu. — Não me demoro.
— Vá com ele — diz Lisa a Armand.
— Como queira, minha pombinha — concorda Armand, revirando os olhos. Ele não tem chapéu. Segue o engenheiro em direção à porta. As mulheres se entreolham.
— O que somos agora? — indaga Armand, quando os dois param junto ao portão do cemitério. — Espiões?
— Silêncio... — diz Jean-Baptiste.
Eles atravessam a grama em direção à igreja. Uma onda de luz marulha nos vidros da janela acima da porta do lado oeste. Sob a cruz do púlpito os dois se detêm novamente, observando e ouvindo. Serão vozes aquilo que escutam, vozes que se elevam além das traves do telhado?
— Se vamos entrar — sussurra Armand —, pelo amor de Deus, entremos de uma vez.
A porta desse lado, aberta o dia todo, está fechada agora. Jean-Baptiste retira a tranca e empurra a madeira trabalhada. Em quatro passos eles cruzam o vestíbulo. Encontram, então, uma segunda porta, com abas de couro gasto pendendo das dobradiças. Ela se abre sem alarde, mas imediatamente brota a sensação — a certeza — de que o que quer que esteja acontecendo dentro da igreja foi interrompido. Uma dúzia de pontos de luz marca o lugar onde os mineiros se acham reunidos em torno da pilha de bancos na nave. O primeiro homem que o engenheiro reconhece é Jacques Everbout. Atrás dele — quem é aquele? —, Rave? À sua esquerda, Dagua, Jorix, Agast. Nenhum deles se mexe. Todos observam, observam atentamente os recém-chegados.
— Está sentindo o cheiro? — sussurra Armand.
— O quê?
— Cheiro de bebida. O lugar está fedendo a bebida.
— É etanol — diz Jean-Baptiste. Ele indica com o queixo dois jarros grandes envoltos em palha, os lacres rompidos, que foram postos, lado a lado, junto aos bancos.
Um movimento... Um homem dá um passo à frente, saindo de trás do grupo de um jeito quase despreocupado. Uma silhueta de branco. Camisa branca, calça branca, um pano branco no pescoço. Aproxima-se dos dois e fica a uma curta distância. Sua sombra, projetada à frente pelo círio nas mãos do mineiro às suas costas, escorre pelo chão de pedra e alcança os pés do engenheiro. É o mineiro do dedo aleijado. O mineiro dos olhos cor de violeta. O único que Lecoeur não conhecia. Hoornweder? Lampsins? Seja qual for seu nome, não há dúvida de que ele é o comandante aqui.
— Não era a nossa intenção — começa Jean-Baptiste, encontrando a voz com dificuldade — incomodar vocês. Vimos as luzes. Eu...
— Aquele é Slabbart? — pergunta Armand, apontando para uma espécie de trouxa sobre um banco no topo da pilha.
O mineiro de branco assente.
— Nosso irmão foi morto hoje. Esta noite, nós nos despediremos dele.
— Despedir? — indaga Jean-Baptiste. — Para onde vão levá-lo?
— Ele está onde precisa estar — responde o mineiro. — Vamos nos despedir dele aqui. — Olha para o engenheiro, espera pacientemente que o outro entenda, que junte as peças: a noite, o etanol, o cadáver embrulhado...
— Está falando em queimá-lo? Aqui?
— Este lugar o matou — diz o mineiro. — Matou o nosso irmão. Para nós está acabado.
— Mas, se vocês o queimarem aqui, a igreja toda vai pegar fogo! — argumenta Jean-Baptiste. — Vocês podem incendiar o quarteirão inteiro!
— É a igreja que vai queimar — diz o mineiro. — Pouparemos o resto.
— Quando a igreja começar a arder, o fogo escapará totalmente ao controle...
— Entendemos de fogo — diz o mineiro. — Entendemos muito bem.
— E quanto a Jeanne e o avô?
— Vou tirá-los daqui — atalha outra voz, uma voz que o engenheiro reconhece imediatamente. Jan Block.
— Por favor, me ouçam — insiste Jean-Baptiste, buscando freneticamente um novo tom, algo melhor que mera incredulidade. — O irmão de vocês que morreu hoje... Sinto muito, sinceramente. O pedreiro me prometeu que os homens cujo descuido causou o acidente serão castigados. Ele me deu sua palavra. Talvez haja até... algum tipo de compensação.
— O que o pedreiro fizer — intervém o mineiro — é decisão do pedreiro. Não tem nada a ver conosco.
— Mas por que isso? Por que arriscar tudo?
— Você também arrisca. Arriscou na noite em que entrou no ossuário atrás de Monsieur Lecoeur, não foi? Vindo aqui agora, arriscou de novo.
— Deixe que eles façam o que quiserem — sussurra Armand, nervoso. — Você não tem autoridade aqui, neste momento. Não vão escutá-lo. Tudo isso acabou.
O mineiro já se afastou. Está dando ordens. Fala a própria língua agora. Não levanta a voz. Mais etanol é trazido da capela onde os jarros se encontram guardados. Os homens rompem os lacres, espalham o líquido sobre a madeira. Num último ato, dois dos mineiros escalam a pilha de madeira e derramam o restante do líquido em cima do corpo embrulhado. Quando descem, o mineiro de branco gesticula para que se afastem mais. Diz algumas palavras — uma oração ou despedida ritual — e depois pega o círio da mão do homem a seu lado, aproxima-se dos bancos, para, olha para o engenheiro, apossa-se de um segundo círio e vai até ele.
— Juntos — diz.
— O quê?
— Juntos.
— Queimar a igreja? Participar disto?
— Pegue o maldito círio! — diz Armand, preparando o corpo como se estivesse pronto, ansioso, para pegá-lo por conta própria. — Pegue antes que ele nos ponha lá em cima junto com o pobre do Slabbart.
No final não é tão difícil de fazer. Ele olha nos olhos do mineiro, nas profundezas frias e cor de violeta daqueles olhos, e não vê desafio, não vê ameaça. Vê o quê? Juízo? Filosofia? Loucura? Ou apenas ele mesmo, seus próprios olhos, o reflexo do próprio olhar? Estende a mão para aceitar o círio. No momento em que dele se apossa, no momento em que o segura nas mãos, tudo assume a natureza de um ritual, de algo ensaiado, algo cujo progresso é irresistível. Os dois homens se aproximam juntos da pira, ficam ali diante da madeira que se ergue além deles a uma altura de seis ou sete homens. O mineiro atira seu círio primeiro, mirando para que aterrisse a dois terços de distância do topo da pilha. Jean-Baptiste, passado um derradeiro e breve momento de hesitação, joga o dele para que caia um pouquinho à frente. Durante um instante, os círios ardem serenamente, quase parecendo que irão se apagar sozinhos, mas, então, uma lufada de ar noturno, entrando pela abertura do telhado, os atiça, e chamas azuis brotam de seus pavios, erguem-se rapidamente e envolvem a coberta de Slabbart, tornando a descer para seguir a trilha do etanol, chegando ao chão de pedra, aos próprios jarros, que se enchem imediatamente de chamas azuis.
O que foi que eu fiz?, pensa Jean-Baptiste. O que foi que eu fiz! Ainda assim tem vontade de rir, sente que tudo foi incendiado agora, não apenas essa igreja odiosa, mas tudo que um dia o oprimiu, ostensiva ou sutilmente. Lafosse, o ministro, o desdenhoso Conde S. O pai. Sua própria fraqueza e indecisão...
Eles aguardam; observam. A madeira, depois de banhada pelo sol de verão durante semanas, começa a estalar e refulgir. Em certos momentos, o próprio ar parece arder. Então, ouve-se uma pequena explosão — um dos jarros? —, e os mineiros começam a sair, a sair rapidamente, em silêncio. Não há algazarra ainda. O fogo precisa ser mantido em segredo até que fique incontrolável. Não há de demorar.
Armand agarra o braço de Jean-Baptiste, despertando-o do devaneio.
— Colbert — diz ele.
— Colbert? Nem sabemos se ele está aqui!
— Há quartos — explica Armand. — Atrás do altar.
Os dois contornam os bancos em chamas, pulam pequenos riachos de etanol chamejante, atravessam o coro, passam pelo altar. À direita, há duas portas. A primeira se abre para a escuridão: um quartinho rapidamente examinado. A segunda porta está trancada. Eles batem, chamam o padre pelo nome. Tentam arrombá-la, chutam.
— Use isto! — grita Armand, que derruba do pedestal uma estátua de madeira, uma daquelas peças que ninguém se daria ao trabalho de roubar, uma Joana D’Arc toscamente esculpida, a santa em armadura de madeira, segurando uma cruz diante do peito como se fosse uma flor. No segundo arremesso, ela racha a porta. No terceiro, a porta se escancara.
— Ele está aqui, não há dúvida — diz Armand com uma careta. — O lugar fede como um buraco de raposa.
O brilho do fogo orienta os dois, que também se utilizam das mãos para encontrar o caminho. Na extremidade do quarto existe outra porta, igualmente trancada, dando para a rua. É Jean-Baptiste quem descobre o padre, quem consegue discernir um borrão branco enroscado numa cama na lateral do cômodo. A pele está pegajosa — coberta por uma camada de suor, seja de febre ou de inanição —, mas não é a pele de um morto. A dupla tira o padre da cama e o carrega, como um saco de aveia, para fora do quarto. Veem, então, que o homem está totalmente nu. Suas pálpebras estremecem, os olhos se abrem. A expressão nesse olhar é a de um homem que acordou e se viu nas mãos de demônios a caminho da fornalha.
Mais uma explosão. Os bancos e as vigas da pira de Slabbart começam a se deformar no calor. O próprio Slabbart está escondido atrás de paredes de chamas cujos topos cada vez chegam mais perto do teto aberto. Partes do coro queimam agora, as chamas encontrando passagem por entre os estreitos arcos de madeira. Com o padre balançando entre eles, duas vezes Armand e Jean-Baptiste são forçados a pular extensas fileiras de fogo serpenteante. Deus permita que os mineiros não tenham embarricado as portas! As portas não foram embarricadas, o caminho está livre. Depois de depositar Colbert no chão, eles enxugam as mãos na grama e tossem para expelir a fumaça da garganta. Será que foi dado o alarme? As chamas são nitidamente visíveis agora pela janela que dá para ali, e deve acontecer o mesmo com as janelas que se abrem para a rue Saint-Denis.
Jean-Baptiste procura o mineiro de branco, mas é Block quem ele vê primeiro, apressando Jeanne e Manetti a se afastar da casa. Ele corre até os três, tirando do bolso a chave da casa dos Monnard, a qual põe na mão de Block.
— Leve os dois para a rue de la Lingerie. Diga aos que estão lá para esperar. Você também. Se o fogo chegar perto, leve todos até o rio. Entendeu?
Block indica que sim com um gesto de cabeça.
Jeanne diz:
— Você precisa vir também!
— Não demoro — diz o engenheiro. — Andem logo!
Ela lhe estende a mão. Durante um segundo, Jean-Baptiste a aperta na sua.
— Me perdoe — murmura, embora não tenha certeza de que ela escute.
Observa o trio partir — o mineiro, o velho, a moça grávida —, observa seus vultos se afastarem, a fragilidade de suas silhuetas que aos poucos diminuem. Parece, pensa o engenheiro, o começo e o fim de todas as histórias jamais contadas.
Quanto tempo faz que jogaram os círios? Dez minutos? Meia hora? O incêndio já causa um barulho sobrenatural, gemendo, trovejando, sibilando. Que combustível o fogo terá descoberto naquele lugar? Que atmosfera incendiária estaria acumulada nas criptas esperando uma fagulha? Flogisto! O fogo secreto de cada objeto, despertado e liberado! Na janela que dá para o cemitério, os vitrais bisotados começam a se quebrar. São tiros solitários a princípio, depois uma fuzilaria.
E, finalmente, um sino! O dobrar urgente e irregular de um sino. De Saint-Josse? Saint-Merri? Ele corre até o portão da rue aux Fers e sai para a rua. Há um bocado de gente ali que não precisou de sino para ser alertada, gente que perambula em roupas de dormir, alguns gritando, outros contemplando em silêncio a igreja, outros aparentemente felizes, como se estivessem numa festa de rua. Ele se junta à multidão que se acotovela, é levado de roldão por ela. Bem que lhe serviria agora ser mais alto do que é, mas, ainda assim, consegue ver o mineiro vestido de branco, consegue vê-lo de pé junto à fonte italiana, com uma das mãos pousadas na cabeça de um tritão de pedra e a outra gesticulando para orientar seus companheiros, seus irmãos. Eles lhe lançam olhares de vez em quando — os músicos para o mestre do coro —, mas parecem já saber o que precisam fazer. Empurram a multidão para trás, afastam-na dos muros, criam um cordão de isolamento. Alguns têm ferramentas, podadeiras artesanais prontas para neutralizar a ameaça de detritos abrasadores. Não há improviso nesses preparativos. Não há frouxidão em sua disciplina. Entendemos de fogo, dissera o mineiro. Entendemos muito bem. Será essa a primeira, a segunda, a terceira igreja que queimam? E o que mais? Uma fábrica? Um castelo?
Iluminada por baixo, a fumaça sobe numa torrente suja e alaranjada, e sai pelo telhado da igreja. Ele a segue com os olhos, vê como ela, enquanto sobe, toma a direção oeste... um vento leste! Não forte, mas talvez forte o bastante. Um vento oeste faria as chamas chegarem com facilidade à rue Saint-Denis. Do jeito como está — se o vento permanecer assim —, o fogo tem apenas o cemitério à sua frente. O cemitério, o ossuário. A rue de la Lingerie, também, é claro, embora decerto ele não vá chegar tão longe. E se chegar? Será que pode confiar que Block faça o que é preciso? Tem mais confiança em Héloïse e Lisa, não consegue imaginar que tipo de emergência estaria além da capacidade dessas mulheres.
Ele se vira para Armand, mas o homem a seu lado na multidão não é Armand. Está apontando para o céu, onde fagulhas do tamanho de pombas alçam voo em disparada por sobre as telhas. Fagulhas que são pombas — pombas ou pombos ou quaisquer que sejam essas coisas cegas que se agarraram a seus ninhos e agora, frenéticas e incandescentes, tentam futilmente escapar.
— Almas humanas! Almas humanas! — grita o homem, agarrando o braço de Jean-Baptiste numa espécie de êxtase.
O engenheiro se liberta, abre caminho aos empurrões, força passagem entre dois dos mineiros (Rave e Rape, com os quais talvez não tenha de todo perdido a autoridade, o prestígio). Entra correndo pelo portão aberto do cemitério. Grita por Armand, corre, torna a gritar mais roucamente e, por fim, ouve uma resposta de algum lugar próximo à casa do coveiro. Devem ter posto fogo nela também. As telhas já fumegam, e a luz de chamas brilha atrás de uma das janelas do andar de cima. Armand está se afastando rapidamente da casa, o cabelo vermelho incandescente. Nas mãos, ele segura algum troféu. Uma garrafa verde reluzente.
— Eu sabia que ainda havia uma guardada lá — diz ele, fazendo uma pausa para expelir a fumaça dos pulmões. — Mas, se eu demorasse um pouco mais para encontrar...
Arrancando a rolha, ele puxa a garrafa com força e carinho para si.
— Ao partido do futuro! — brinda. Enxuga a boca e passa a garrafa para Jean-Baptiste. O engenheiro a aceita, bebe e depois aponta por cima do ombro de Armand com a mão que segura a garrafa. — A grama está pegando fogo.
É verdade. Centenas de lâminas de grama ardem entre a igreja e a cruz do púlpito, cada pontinha uma flor delicada que desabrocha apenas por um ou dois segundos. É de uma beleza inesperada. Não é fácil desviar o olhar.
Atrás deles, à sombra do fogo, o velho padre, nu como um verme, começa a berrar.