Puro
Capítulo 6
Um homem foge, foge com sua trouxa no meio da noite. Ninguém o viu partir; ninguém o ouviu partir. Mesmo os homens da sua barraca parecem surpresos, desconfortáveis, como se ele pudesse ter sido abduzido, talvez por alguma coisa que despertaram na cova. Lecoeur se oferece para liderar um grupo e ir atrás do fugitivo. O sujeito não pode estar longe e sem dúvida terá dificuldade para se esconder numa cidade que lhe é desconhecida.
— Eles não são prisioneiros — diz Jean-Baptiste. — Não fazem trabalho escravo.
— Os homens esperam autoridade — retruca Lecoeur, que cortou o pescoço de manhã quando se barbeava. — Afinal, por acaso não os resgatamos das minas?
— Não sei — diz Jean-Baptiste mais para si mesmo do que para Lecoeur — quem foi que resgatamos.
Todos os restantes estão presentes, embora o que caiu da escada, Jan Block, se encontre incapacitado para o trabalho. Jean-Baptiste o visita em sua barraca, onde o vê deitado em seu colchão de palha como o Cristo de Holbein. Os olhos seguem a silhueta escura do engenheiro ao entrar na barraca e se postar acima dele à claridade baça.
— Está com dores? Sente-se mal?
Block umedece os lábios com a ponta de uma língua pálida e diz algo. É forçado a repetir para que Jean-Baptiste entenda.
— Está com frio?
— Estou.
— Vamos lhe dar mais cobertores. E uma bebida quente.
Block pisca. O engenheiro sai. Quando encontra Jeanne, pede que ela vá visitar o doente e lhe leve café ou caldo. Será que há um cobertor sobrando? Ele reclama do frio.
Na cova, sob a direção de Lecoeur, os homens já puseram mãos à obra. Fogo, grua, escadas. O ruído oco de ossos atirados sobre ossos. Um mero assovio dos homens lá embaixo avisa os que estão cá em cima que o berço de lona está cheio e pronto para ser içado. Eles estão a uma profundidade suficiente para tornar necessário o uso de luzes mesmo de manhã, quatro tochas que se projetam das paredes e ardem constantemente. Jean-Baptiste se agacha, tenta avaliar as condições das paredes. Há esgarçamento na terra? Existe risco de desmoronamento? Os homens poderiam sair rapidamente se um lado da cova desmoronasse?
Conclui que precisa descer e ver com os próprios olhos (já é hora de descer), e sem qualquer aviso lança mão da escada mais próxima e começa a descer. Sabe que tanto abaixo quanto acima dele todo o trabalho cessou, que todos o observam. Os pés buscam os degraus. O céu se distancia. O ar se adensa.
Descendo da escada no fundo da cova, ele sente uma tontura momentânea e é obrigado a agarrar o cotovelo do homem a seu lado. Agora que está ali, deveria dizer aos outros para continuar o trabalho, mas o espaço é exíguo demais. Ele os observa, seus rostos compridos iluminados de cima pelo fogo e pela débil luz da manhã. Olha as paredes negras, olha para o que está sob seus pés, olha para cima, para o ponto onde a cabeça e os ombros de Lecoeur se inclinam sobre a boca da cova. Pega uma pá das mãos do homem em quem se apoiou, pressiona a lâmina de encontro à parede de terra e a faz girar. Vê, então, um naco úmido de terra se soltar da parede. Testa a parede oposta da mesma maneira e com o mesmo resultado. Devolve a ferramenta, firma o pé calçado de bota no último degrau da escada e é assaltado por uma onda de náusea, que, graças a Deus, consegue controlar até que passe. Sobe a escada, alcança o topo, recobra o prumo na grama.
Para Lecoeur, que se aproximou e se postou a seu lado, ele diz em voz rouca:
— Vamos fazer escoras. Escoras para sustentar as paredes. Traga os homens para cima.
Não há escassez de madeira adequada: Monsieur Dejour deve ter abocanhado metade da madeira à venda em Paris. Eles talham traves e escoras, improvisam barrotes e calços. É agradável trabalhar com a madeira, e, quando os homens descem depois do almoço, dá a impressão de que o fazem com o coração ligeiramente mais leve. No meio da tarde, a linha de prumo registra uma profundidade de quase dezessete metros. O berço agora traz mais terra que ossos. Ao escurecer eles terão terminado! Terão esvaziado uma das covas de Les Innocents!
O último turno dos escavadores emerge às seis e meia. Uma lua invernal brilha em seus rostos, brilha no muro ósseo que agora parece menos o que é, o remanescente macabro e deplorável de inúmeras vidas, e mais uma bela colheita, obtida com esforço. Jean-Baptiste tira o chapéu, esfrega o cabelo, seu próprio cabelo, que chegou a um comprimento quase respeitável, exatamente como sugeriu Charvet. Os mineiros se afastam dele, alguns com as pás sobre os ombros, como mosquetes. Um dia bom. Uma pequena vitória pelo trabalho obstinado e duro, por manter os nervos sob controle. Em silêncio, ao lado da cova, ele e Lecoeur se parabenizam. Estendem os braços e se cumprimentam.
Ele está menos satisfeito com o mundo na manhã seguinte. Dormiu mal outra vez, acordando em algum momento inútil da madrugada com o coração disparado. Daí em diante, ficou acordado, mentalmente escavando cova após cova, até enjoar disso, levantar da cama e se vestir no escuro.
No cemitério, examinado sob a luz de um lampião, Jan Block está nitidamente pior. Há um lustro em sua pele semelhante ao que se vê num queijo estragado. A respiração é difícil, sem proveito. Talvez esteja morrendo, talvez seja concebível, altamente concebível, que esteja morrendo de alguma infecção que os outros possam contrair, levando, em semanas, ao fechamento do lugar por inteiro, o último homem vivo tendo de rolar o último morto para dentro da cova vazia...
Uma hora depois, ele encontra um dos médicos, o dr. Guillotin, inspecionando o muro ósseo. Vê quando ele tira da pilha um fragmento e o guarda no bolso do casaco.
— Espero que não faça objeção — diz o médico, quando o engenheiro se aproxima. — Uma vértebra com uma deformação intrigante. Achei que podia pegá-la antes que Thouret a pegasse para ele.
Jean-Baptiste lhe fala do doente, descreve o acidente e pergunta se o médico faria a gentileza de examiná-lo.
— Se for uma infecção... alguma coisa que possa...
O médico concorda. O homem está por perto? Sim. Os dois caminham juntos até a barraca, baixam a cabeça para entrar. Tem mais alguém lá dentro. O mineiro da mão aleijada. Durante um momento, os recém-chegados são mantidos ao largo pelo olhar calmo do mineiro. Depois, ele sai, calado e sem pressa.
— Uma figura curiosa, esse sujeito — comenta o médico. — Olhos cor de violeta, você reparou? Algo muito raro. — Ele se vira para o homem deitado na palha. — Como é o seu nome?
— Este é o Block — responde Jean-Baptiste.
— Block? Bom-dia, Block. Você sofreu uma queda, certo? Está se sentindo mal?
Jan Block parece assustado.
O médico sorri:
— Não precisa ter medo de mim. — Para Jean-Baptiste, acrescenta: — Pode virá-lo? É mais fácil examinar as costas de um homem quando ele está de bruços.
Jean-Baptiste pega o mineiro pelos ombros e começa a mudá-lo de posição. O doente não protesta, embora o corpo trema. Não é fácil botá-lo de bruços. Isso feito, o médico diz:
— Levante a camisa dele.
A pele da parte superior das costas de Jan Block foi perfurada de um lado e do outro da coluna, e, embora sejam pequenas, as marcas estão rodeadas por halos vermelhos de inflamação.
Guillotin se aproxima. Olha, mas, como a maioria dos colegas de profissão, reluta em tocar no paciente. Assente.
— Pode descer a camisa. Obrigado, Monsieur Block. Vamos descobrir alguma coisa para aliviá-lo, está bem?
Depois de se afastarem alguns passos da barraca, o médico diz:
— Ele foi contaminado pelo que quer que tenha penetrado em seu organismo na queda. Os ferimentos precisam ser imediatamente limpos com uma solução de enxofre. Quanto à febre, ele deve tomar pó de cinchona, diluído em um pouco de brandy. Não sou, contudo, favorável a suprimir por completo a febre. A febre não é uma inimiga, é o fogo que serve de combustão para a doença. — O médico faz uma pausa e depois encara diretamente Jean-Baptiste. — Ainda que em perfeita saúde, somos refeitos continuamente no calor que nós mesmos geramos. O senhor conhece a teoria do flogisto?
— Superficialmente.
— O termo “flogisto” vem do grego “incendiar”. O elemento combustível presente em todas as coisas. O fogo latente. O fogo potencial. Passivo, até ser despertado.
— Por uma fagulha?
— Ou por algum choque ou fricção. Ou simplesmente pelo acréscimo gradual de calor.
— Há a possibilidade — indaga Jean-Baptiste — de que a infecção de Block tenha sido causada por alguma doença que continua presente nos ossos? É possível que os ossos ainda contenham um resíduo da doença que um dia os afligiu, ou melhor, que um dia afligiu seus donos?
— Que jeito pitoresco de encarar a questão! — diz Guillotin. — Você fala como se os nossos ossos fossem meros bens materiais, como um cavalo ou um relógio. Mas, respondendo à sua pergunta, acho improvável que alguma doença pudesse sobreviver tanto tempo à sua vítima. Não sugiro, porém, que você ou os seus homens permitam o contato dos ossos com qualquer ferida aberta. Recomendo que usem vinagre como desinfetante. E álcool purificado. Etanol. É muito eficaz. Mas tenha cuidado quanto a armazená-lo, pois é extremamente tóxico. E altamente inflamável. Até mesmo o seu vapor. Sobretudo o vapor.
— E onde posso encontrar etanol?
— Quer que eu providencie?
— Eu ficaria imensamente grato. E quanto ao enxofre e à cinchona?
— Vou escrever um bilhete para o boticário — diz Guillotin, com uma palmadinha no ombro de Jean-Baptiste. — Agora, vamos juntos até a casa do coveiro para ver se aquela mocinha gentil nos serve um café, certo?
À mesa da cozinha, Jeanne, Lisa Saget e os dois filhos de Lisa se ocupam descascando legumes. Uma cadeira é puxada para o médico, mas ele prefere ficar de pé junto ao fogo. Tem muita energia e bom humor. Diz coisas agradáveis e lisonjeiras para as mulheres e as crianças. Jean-Baptiste explica que os dois foram visitar o mineiro doente, que o homem sem dúvida está pior hoje, mas que o médico prescreveu alguns remédios.
— Natalie irá buscá-los — intervém Lisa, inclinando a cabeça na direção da menina. — Enxugue as mãos, Natalie, e vista o casaco.
— Podemos arrumar espaço para ele aqui em casa — diz Jeanne. — Posso pôr uma cama no corredor lá em cima. Ele terá mais conforto aqui.
— Você já se ocupa da cozinha e de muitos outros afazeres — retruca Jean-Baptiste.
— Uma boa enfermagem — emenda Guillotin — costuma ser a diferença entre a recuperação e a morte de um paciente.
— Então, é o que vamos fazer — afirma Jeanne, encarando Jean-Baptiste com os olhos bem abertos.
— Ele não pode ir para o hospital? — pergunta Jean-Baptiste.
As narinas do médico estremecem.
— Hospitais são lugares muito perigosos. Sobretudo para quem já se encontra enfraquecido pela doença.
Depois de abotoar o casaco, Natalie está pronta para cumprir sua missão. No escritório em que Lecoeur dorme há material para escrever. O médico elabora uma listinha, a qual relê, assina, dobra e entrega à menina.
— Acrescentei uma coisinha para você — diz a Jean-Baptiste. — Lachryma papaveris. Lágrimas de papoula. Há de ajudá-lo a repousar. Avaliei corretamente a situação?
— Procure Monsieur Boustanquoi — diz Lisa à filha. — Vá num pé e volte noutro.
A menina assente, sorri, coquete, para o médico e sai.
— Crianças — ronrona o médico. Dá um tapinha com o dedo na tampa do bule de café. — Podemos abusar da hospitalidade, mademoiselle?
A cova vazia é preenchida com a terra negra, fermentada com cal. O vento aumentou, zunindo e uivando entre os muros do cemitério. As roupas, as mãos e os rostos dos homens estão cobertos por uma película de cal. Olhos ardem, narizes escorrem, mas encher uma cova é melhor do que esvaziá-la. Também é mais rápido. No início da tarde, a cova número um é riscada por uma linha precisa no caderno de Jean-Baptiste. O fogo se extingue. A grua e o berço, a madeira para as escoras, as ferramentas e os homens são deslocados quinze passadas para o sul. Lecoeur e Jean-Baptiste delimitam o diâmetro de uma nova cova com cavilhas e cordas. Jeanne e o coveiro são chamados para confirmar a posição. Depois de andar de um lado para o outro mais ou menos como um cão em busca de um canto para dormir, o coveiro conclui que o quadrado marcado pela corda deve abarcar mais cinco passadas na direção do muro sul. As cavilhas são arrancadas e novamente marteladas. O coveiro aprova com um gesto de cabeça. Prepara-se uma nova fogueira, que é acesa. O grupo encarregado de cavar passa para dentro do cercado de corda; os encarregados de empilhar os ossos ficam a postos. A coisa toda recomeça, aquele som monocórdio de pás batendo na terra, depois o som dos ossos, o jeito como, quando batem uns nos outros, tilintam tal qual vasos de argila.
A dificuldade do dia pode ser medida pelo volume de bebida alcoólica necessário para enfrentá-la. Hoje é um dia de três garrafas. Uma por metro escavado. Um décimo de garrafa por homem por metro escavado. Será essa a equação? O engenheiro não a aprendeu na École des Ponts. Depois de encerrado o trabalho, e tendo os mineiros se dispersado para voltar a suas barracas ou se reunir em torno do calor da grande fogueira junto à cruz do púlpito, Jean-Baptiste e Lecoeur lavam as mãos no balde colocado junto à porta da casa do coveiro.
— O que será que eles fazem ali? — indaga Lecoeur, sacudindo água dos dedos e indicando com a cabeça a nova oficina dos médicos, uma estrutura pequena e sem janelas, feita de lona e encostada ao muro da igreja.
— Só Deus sabe — responde Jean-Baptiste, que mais cedo flagrou duas mesas de cavalete sendo levadas para dentro, juntamente com uma pesada bolsa de couro que chacoalhava com o movimento.
Na cozinha encontram apenas o coveiro adormecido em sua cadeira, mas, passados alguns momentos, Jeanne surge ao pé da escada, o rosto radioso como se tivesse acabado de banhá-lo em água fresca e cristalina.
— Ele está descansando — diz ela — e já tomou todos os remédios.
— Block? — indaga Jean-Baptiste.
Ela assente e acrescenta:
— O médico disse que virá visitá-lo de novo amanhã, se puder.
— Ótimo. Obrigado, Jeanne. Fico muito grato a você.
— E o seu remédio está em cima da lareira — diz ela. — Ali.
— Seu remédio? — pergunta Lecoeur.
— Bem, o dr. Guillotin parece achar que eu preciso de ajuda para dormir.
— Ah, dormir! — exclama Lecoeur. — Morfeu não tem se mostrado meu amigo ultimamente. Passo a noite toda inquieto como uma lebre.
— Então, fique com a metade — sugere Jean-Baptiste, examinando o frasco grosso e marrom, tapado e sem rótulo. — Deve haver o bastante para nós dois aqui dentro.
Deixando Lecoeur com Jeanne e o avô, ele volta para a rue de la Lingerie, com o frasco pela metade no bolso do casaco. Deveria tentar fazer alguns cálculos antes de dormir e amanhã sacar mais algum dinheiro com o ourives na rue Saint-Honoré. Tem de pagar os fornecedores. E os homens, é claro, além de querer comprar algo bonito para Lecoeur, para Jeanne e o avô, para Armand e Lisa Saget. Está devendo um mês de aluguel a Monsieur Monnard. Não gosta de atrasar o pagamento, de dar mais um motivo a Monsieur Monnard para ver defeitos no inquilino. Na escada para a sala de estar, cruza com Marie, que está descendo com uma bandeja cheia de pratos. Os pratos estão cheios de ossinhos. Ela lhe faz uma careta, uma expressão que talvez tenha significado específico no faubourg Saint-Antoine. Ele pergunta, mantendo um tom baixo, como vai Ziguette.
— Ah, coitadinha da Ziggi! — responde Marie, numa imitação razoável de Madame Monnard. Depois passa por ele, roçando coxa com coxa, ombro com ombro.
Jean-Baptiste sobe para o quarto, senta-se à luz da vela, põe sobre a mesa o frasco de remédio, cruza os braços e o contempla. Quantas gotas deve tomar? O dr. Guillotin chegou a dizer? Lembra-se de que o pai, próximo ao fim, tinha um remédio desses. O que era mesmo que lhe davam na boca com a colher? Dez gotas? Vinte? Decide, então, simplesmente, tomar um pouco. Não vai se preocupar em contar; está cansado de contar. Tomará um pouco para ver o que acontece e depois fará seus ajustes de acordo. É tarde. Tarde ou cedo. Jeanne, despertada por algo que ouviu em sonho, sai do quarto que partilha com o avô e dá uma espiada em Jan Block, cujo rosto está iluminado pelo luar que penetra pela estreita janela em arco na extremidade do corredor. Ela leva alguns instantes — depois de acordar de um sono profundo — para se dar conta de que os olhos do mineiro estão abertos. Sorri para o homem e depois se ajoelha a seu lado para que ele possa vê-la com mais clareza. O mineiro ergue a mão. Jeanne a pega antes que a mão torne a baixar e a segura um momento, deixando-a repousar, então, sobre o peito que respira com esforço. Lentamente ele fecha os olhos. Existe alguma coisa tão resignada, tão decisiva, nesse fechar de olhos que ela duvida que eles voltem a se abrir. A respiração do doente se interrompe por um momento, um longo momento, um momento que talvez se estenda à eternidade. Então, com um pequeno espasmo no peito, uma espécie de soluço, o homem volta a respirar, com mais facilidade.
Nos degraus, a madeira estala. Surge uma cabeça, saindo da escuridão da escada para a luz prateada do corredor. Uma cabeça raspada, olhos que cintilam.
— Não tenha medo — diz a cabeça, bem baixinho. — É só Lecoeur.
— Ele acordou — diz Jeanne. — Mas está dormindo agora.
— Você é uma boa garota — observa Lecoeur. — Acho que sonhei com você.
— Já é de manhã? — indaga ela.
— Não — responde ele, sem muita certeza. — Acho que não.