Puro

Andrew Miller · Capítulo 45 de 48

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Puro

Capítulo IV

 

 

Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.

Antoine Lavoisier

1

 

Eles cavam — cavam e tornam a encher, como se lhes faltasse imaginação para fazer outra coisa. A cova quatorze recebe seus dezesseis metros de terra e cal. Na cova seguinte, precisamente no centro do cemitério, os ossos estão empilhados de forma tão compacta que é possível retirá-los como se fossem fardos de lenha. Os mortos já não se surpreendem quando nos veem, pensa o engenheiro, de pé junto à boca da cova debaixo de um chuvisco primaveril. Se no início os ossos mais expostos pareciam afrontados, acovardados, como um homem ou uma mulher forçados a sair nus na rua, agora eles parecem tão passivos quanto noivas a esperar pelas mãos dos mineiros para trazê-los à luz de Paris. A Última Trombeta! Os finados, os falecidos, reagrupados por anjos barbudos fumando cachimbos de barro. É o bastante — quase o bastante — para fazê-lo abrir um amplo sorriso. Pobres caveiras crédulas que imaginam que a vigília no escuro terminou!

No fim do mês chegam ao total de dezenove covas — quase a metade daquelas identificadas por Jeanne no outono anterior. Começam a cavar a número vinte na primeira semana de maio, e é enquanto trabalham nessa, a oito metros de profundidade numa manhã quente (uma dupla de melros bica o solo à procura de minhocas bem ao lado), que Jeanne deixa a casa pela primeira vez desde a agressão. Está de braço dado com Lisa Saget. Parece meio cega pela luz do sol. Alguns passos atrás vem Héloïse, de avental, segurando um cutelo numa das mãos, enquanto, com a outra, protege os olhos contra a claridade. Os homens que estão em cima suspendem o trabalho. Jan Block, em seu posto junto ao muro ósseo, tem uma expressão meio demente, e pela primeira vez ocorre a Jean-Baptiste que o mineiro esteja apaixonado, genuinamente apaixonado. Aliás, considerando-se tudo que aconteceu, seria ele o pior partido para Jeanne? Block não precisa de explicações, sabe de tudo que precisa saber. Jeanne gosta dele? Ou a ideia de ser tocada de novo por um homem lhe causa repulsa, é impossível? O engenheiro ergue uma das mãos em saudação. Ela acena em resposta, cansada.

Nas ruas, nas pracinhas, entre as barracas no mercado tão grudadas umas às outras como os favos de uma colmeia, os boatos sobre o que aconteceu naquela noite de março ainda são muitos e correm livremente. Alguns dos mineiros, apesar das ordens expressas em contrário, devem ter andado falando com suas prostitutas, pois uma semana depois da morte de Lecoeur todos já estavam a par, sabiam que ele levara um tiro, sabiam sem sombra de dúvida que o engenheiro de olhos cinzentos — de cuja agressividade alguns haviam tido uma amostra naquela noite na rue Saint-Denis — devia ter puxado o gatilho. Fazia todo o sentido; eles não eram bobos. Quanto ao porquê desse ato havia menos certeza. Os mineiros, aparentemente, guardaram silêncio com relação a Jeanne. Em consequência, a explicação preferida era a de que o engenheiro alvejara o capataz numa briga por causa de sua mulher, a austríaca. O capataz talvez a tivesse chamado o nome que lhe cabia, pagando por isso com a própria vida. Algo monstruoso, claro, selvagem, mas, ainda assim, as mulheres do bairro — cujo veredicto seria decisivo — não se opunham por completo ao fato de um homem matar outro numa situação desse tipo. Por todo lado as mulheres sofriam insultos impunemente, insultos vindos de homens. Se alguns destes pagassem pela insolência, como acontecera com o capataz, talvez não fosse mais do que o merecido.

Quanto aos Monnard, embora não estivessem imunes aos boatos e não ignorassem as idas e vindas no cemitério na noite do incidente, sua imaginação era, talvez, menos excitável, menos ávida, que a dos vizinhos, e ambos ainda se achavam imersos nas lembranças de uma noite diferente, há mais tempo, de uma catástrofe muito mais próxima de seus corações. Assim, nenhum dos dois exigiu saber por que haviam sido acordados na ocasião por um dos operários do cemitério batendo à porta, ou qual o significado do ruído pouco antes do raiar do dia, um ruído que lembrava o de uma árvore sendo partida por um vendaval. O único momento constrangedor teve lugar no jantar depois do domingo de Páscoa, quando Madame Monnard — aparentemente com toda a inocência e sinceridade — perguntou se o encantador Monsieur Lecoeur gostaria de visitá-los de novo. Jean-Baptiste não foi capaz senão de encarar com expressão vazia os restos da sopa em seu prato. Coube a Héloïse dizer que Monsieur Lecoeur havia sido chamado de volta a casa. Casa? Sim, madame, de forma totalmente inesperada. Questões de família? Questões urgentes de família, madame.

Ao longo das primeiras semanas de maio, com as folhinhas novas desabrochando, as primeiras borboletas despertando da hibernação do inverno e florezinhas teimosas forçando passagem por entre as frestas dos muros enegrecidos, Jean-Baptiste tem consciência de estar à espera. Não sabe o que espera. A chegada da irmã de Lecoeur, talvez, zangada, amedrontada, confusa. Ou a repentina aparição de algum funcionário público implacável, alguém que nem mesmo o ministro seria capaz de evitar confrontar. Precisa recordar a si mesmo, com uma frequência surpreendente, que não matou Lecoeur, que Lecoeur cometeu suicídio. Essa é a verdade. Não seria razoável que lhe parecesse mais convincente, mais tranquilizadora?

Nos dias 22, 23 e 24 de maio, ele é assaltado por uma das piores dores de cabeça que sentiu desde que foi ferido. Deita-se no velho quarto de Ziguette, na velha cama, com um pano dobrado sobre os olhos, abrindo e fechando os punhos. Dezesseis metros de terra a cal esmagam seu peito. A dor acaba se resolvendo com o habitual surto de vômito. Ele lava a boca, bebe água e sai cambaleando do quarto.

Está quente na cidade agora. As pedras emitem uma pulsação constante de calor durante uma hora ou mais após o pôr do sol. No cemitério, os homens querem mais água em seu brandy, precisam disso. Trabalham em mangas de camisa. Por volta do meio da manhã, o tecido se gruda à pele de suas costas. O trabalho desacelera. Andorinhas brincam no azul acima do ossuário. Durante todo o inverno, ao que tudo indica, eles se agarraram a alguma coisa, a alguma decisão que o calor agora fez esvair-se. O engenheiro sente o mesmo que os outros, mais até. Um desejo de largar tudo, de dar um basta à coisa toda. Para disfarçar, açula os homens, anda, inquieto, para lá e para cá entre as covas, fala mais, grita mais. Quando o homem que maneja a grua luta com um berço cheio de ossos, o engenheiro empresta o próprio peso à corda. Quando surge a necessidade de fixar uma grade de escoramento, ele desce ao fundo da cova para orientar a operação. À noite, supervisiona o carregamento de cada carroça, desloca-se entre a rua e o cemitério, fala com os carroceiros e até mesmo com os jovens padres, que ainda vigiam a porta, nervosos, à espera de que Colbert apareça, embora ninguém veja Colbert há várias semanas.

Movido pelo que rotula para si mesmo de impulso, mas que talvez não passe do desejo de confessar alguma coisa , ele conta a Héloïse sobre sua cegueira para a leitura. É uma tarde de domingo, o casal está ajoelhado na cama, as partes íntimas meio esfoladas, os fluidos dele reluzindo no ventre dela, os corpos de ambos à sombra das venezianas dois terços fechadas. Na verdade, é difícil esconder tal segredo de Héloïse, de qualquer um, aliás, difícil e cansativo, razão pela qual ele explica que não é capaz de chegar ao fim de uma página impressa sem tropeços, que ainda se desconcerta diante dos objetos mais triviais. Fala do caderno com a lista de palavras resgatadas.

Ela beija sua testa, torna a vestir a combinação, abre as venezianas e pega um livro. O livro é de um escritor inglês com nome francês. A vida e as estranhas aventuras de Robinson Crusoé, marinheiro. Segurando o livro diante de ambos, Héloïse lê uma página em voz alta, devagar. A seguinte é dele, a terceira, novamente dela. Passada uma hora, ele indaga:

— É verídico?

Ela ri.

— Você gostou?

Ele assente. Gostou. O náufrago. Sua solidão e ingenuidade. Tem apelo para ele.

— Como retribuição — diz ele —, vou fazer uma estante para você. Pode ficar ali naquela parede.

Ela agradece e depois acrescenta:

— Que não seja grande demais, de modo que passe pela porta.

— Porta?

— Não vamos ficar aqui para sempre, vamos?

Uma ração extra de bebida alcoólica; um punhado extra de moedas nas mãos dos homens (ele tem para distribuir o que usaria para pagar Lecoeur). Não funciona. Não pode funcionar. Não basta. E Guillotin adverte que, decididamente, cavar no calor é prejudicial à saúde. Vapores, contágio. O hálito azedo do lugar, exacerbado pelo calor do sol. Quatro homens — ocupantes da mesma barraca — já caíram doentes com uma febre baixa que os deixou apáticos, fracos, murchos como flores arrancadas da terra. O médico recomenda que o trabalho seja executado exclusivamente à noite ou, melhor ainda, suspenso até o tempo ficar mais fresco, no outono.

— Suspenso!

— Não seria a providência mais sábia?

— E, quando chegar o outono — atalha Jean-Baptiste —, estarei trabalhando aqui sozinho.

— Acha que os homens não voltariam?

— Você não se espanta com o fato de que eles permaneçam aqui?

Os dois estão caminhando juntos no final da tarde, enquanto os homens são alimentados. Tendo alcançado o extremo oeste do cemitério, dão meia-volta para regressar, à sombra do muro lateral.

— E quanto à igreja? — indaga o engenheiro.

— Como assim?

— Podemos trabalhar lá. É mais fresco.

— Começar a demolição da igreja?

— Eu precisaria de mais homens. Especialistas. Não muitos.

— Ela parece — observa Guillotin, fazendo uma pausa para contemplar o prédio, o rochedo negro e raiado que é a face oeste da igreja — terrivelmente sólida.

— Qualquer prédio consiste, em sua maior parte, de ar — diz o engenheiro, citando o grande Perronet. — Ar e espaço vazio. E nada existe no mundo que não possa ser reduzido a seus componentes. Com um número suficiente de homens é possível transformar o Palácio de Versalhes em entulho no prazo de uma semana.

Quanto mais ele pensa nisso, mais se convence de que vem pensando a mesma coisa há muito tempo. Testa a ideia com Armand.

— Ah, a minha linda igreja — choraminga Armand, sorrindo de orelha a orelha.

— O órgão está incluído nisso — diz Jean-Baptiste.

— Naturalmente.

— Você não tem objeções?

— É como eu lhe disse na noite em que saímos para escrever nos muros. Não devemos nos ressentir do futuro ou de seus agentes.

— E o futuro é bom independentemente do que traga?

— Sim — responde Armand sem um segundo de hesitação.

— Não acredito nisso — retruca Jean-Baptiste.

— Pense na luz — diz Armand.

— Na luz?

— A igreja de Les Innocents vem entesourando sombras há quinhentos anos. Você vai libertá-las. Vai deixar a luz e o ar entrarem. Vai deixar entrar o céu. Isso é o futuro.

— Isso — rebate Jean-Baptiste — é uma metáfora.

— Uma metáfora? Que escola você frequentou?

— Nogent-le-Rotrou.

* * *

Aurora: ele está deitado na cama de testa franzida contemplando o espaço indefinido acima, tentando descobrir a melhor maneira de demolir uma igreja. O que exatamente falou Maître Perronet a esse respeito? Será que estudaram demolição enquanto Jean-Baptiste estava em casa, em Bellême, ajudando a cuidar do pai? Se o prédio se encontrasse no meio de um campo, bastaria explodi-lo. Deus sabe que seria possível obter pólvora em quantidade suficiente a partir de todo o potássio do solo do cemitério. Mas uma igreja em plena rue Saint-Denis? Teoricamente, é claro, um prédio pode ser implodido: minado e derrubado sobre si mesmo numa nuvem ordenada de poeira e pedras. Na prática... bom, ele jamais ouviu um único relato de sucesso. Houve aquele caso em Roma, seis anos atrás, uma velha basílica da qual decidiram se livrar depressa. Encheram as criptas com barris de pólvora, espalharam os rastilhos, puseram fogo neles e riscaram do mapa a basílica, bem como a maior parte da vizinhança. Duzentos homens, mulheres e crianças estraçalhados. As janelas do Vaticano estremeceram. Ele não se lembra que fim levou o engenheiro. Será que ainda trabalha? Será que foi enforcado?

Para Les Innocents, será preciso uma abordagem mais metódica, mais prosaica. Tirar a cobertura, as telhas, os caibros e as terças, jogar tudo lá dentro. Fazer a igreja desaparecer como um lento esquecimento. Serão maciças as colunas ou preenchidas com entulho? E as fundações? Tão perto do rio como se encontra, a coisa toda pode estar flutuando na lama.

Vai precisar falar com Manetti. E, com Jeanne. Se a igreja vier a baixo, o mesmo acontecerá com a casa. E, se a casa vier abaixo, caberá a ele, conforme prometeu no início, encontrar uma nova moradia para os dois. Caixilhos e telhas, vendidos com cautela, deverão gerar recursos mais que suficientes para sustentar um velho e a neta, sustentá-los durante anos.

E como andará essa garota cujo estuprador ele levou para morar com ela? Guillotin lhe contou que ela perdeu parte da visão do olho esquerdo, mas, de resto, vem se recuperando bem. No que lhe diz respeito, embora já se tenham passado quase dois meses, ele procura tomar cuidado para não ficar a sós com a moça. Não consegue se esquecer de como ela se encolheu para evitar que ele a tocasse na noite em que a encontrou sobre a mesa da cozinha. E quer deixar o assunto descansar, para que, quando os dois estiverem sozinhos, Lecoeur não se sente com eles, ensanguentado e malicioso. Ignorá-lo por mais tempo, porém, pode significar a necessidade de lidar com outro assunto, igualmente difícil de ignorar. Lisa Saget diz que Jeanne está grávida. Disse o mesmo a Héloïse. Ainda assim, não se tem certeza. Restam algumas comprovações técnicas, e a própria Jeanne não fez confidências a ninguém. É difícil imaginar, porém, que uma mulher como Lisa Saget possa estar enganada. Será que uma criança tem alguma noção das circunstâncias da sua concepção? Muita gente acha que sim.

Ele inclina a cabeça para olhar para Héloïse, o cabelo macio espalhado no travesseiro. Em algum momento da noite, ela fez pequenos ruídos, disse uma dúzia de meias palavras sonhando, num tom magoado, de censura, mas agora dorme aquele último sono que precede o despertar, a respiração não mais alta que um roçar de dedos, o peito subindo e descendo, de leve, sobre o lençol.

Serão as colunas maciças ou preenchidas com entulho? E as fundações? Será que a coisa toda está flutuando na lama?

* * *

Na companhia de Armand, ele desce a rue de la Verrerie, o sol da tardinha entre os ombros de ambos, suas sombras ondulando sobre as pedras à frente. Da rue de la Verrerie para a rue Roi de Sicile, depois para a Saint-Antoine e mais cinco minutos de caminhada em direção à Bastilha, um pavilhão real em um dos torreões, inerte em seu mastro. Então, é descer a estreita rue de Fourcy, passar diante dos muros do convento e virar novamente à direita para entrar na rue de Jardin... Esse é o bairro de Saint-Paul. Que ali ficam os pedreiros até um cego saberia dizer. Armand e o engenheiro param diante da porta aberta de uma oficina. Pó de pedra cintila no ar quente à volta da porta. Depois da claridade das ruas, o interior da oficina é negro como breu. Armand entra primeiro, tropeça numa espátula, vocifera um palavrão. O som de marteladas cessa. Um homem troncudo, usando avental e touca branca, sai do negrume para olhar a dupla. Em seu rosto, cada poro, cada dobra ostenta uma camada de pó de pedra.

— Vocês são...?

— Baratte — responde Jean-Baptiste. — Engenheiro em Les Innocents. Estou à procura de Mestre Sagnac. Mandei um recado.

— E eu sou o organista — apresenta-se Armand, com uma ligeira reverência.

— Do cemitério, hein?

— Isso.

— Sagnac sou eu. Seu bilhete dizia que você está demolindo a igreja. Que precisa de pedreiros.

— Um mestre e quatro ou cinco assistentes.

— E operários?

— Eu tenho.

— Habituados a trabalhar nas alturas?

— Eles são mineiros. Ou foram.

Sagnac ri.

— Então, levarei alguns dos meus. Ao menos até que os seus encontrem as próprias asas.

— Como quiser.

— Ouvi dizer que o rei em pessoa está por trás desse projeto — diz Sagnac.

— Recebo ordens do ministro — esclarece Jean-Baptiste.

Sagnac assente.

— Todos trabalhamos para eles de um jeito ou de outro, não é? Você quer que eu providencie a madeira nova para os andaimes? Meus contatos serão melhores que os seus.

— Mas tudo a bom preço — atalha Armand, rapidamente. — Meu amigo aqui pode ter sotaque do interior, mas eu sou de Paris e aprendi tudo sobre a vida no Hôpital des Enfants-Trouvés.

— Vai me achar honesto o bastante — diz Sagnac. — Não hei de engodar nenhum pobrezinho enjeitado.

Um dos aprendizes, um rapaz desengonçado e coberto de poeira como o patrão, põe três banquinhos do lado de fora e os três se sentam para beber vinho branco e negociar.

— Quase dá para confiar nele — diz Armand ao engenheiro no caminho de volta para o cemitério.

— Ele conhece o trabalho que faz — diz Jean-Baptiste. — E não lhe pagaremos pelo que não fizer.

— Você está se adaptando lindamente — elogia Armand.

— Obrigado.

— Ouviu a última novidade sobre Jeanne?

Na manhã do dia 10 de junho, às seis e meia, Sagnac chega com quatro assistentes: Poulet, Jullien, Boilly e Barass. Traz também uma dúzia de operários envergando casacos e chapéus modestos, alguns com ferramentas no cinto. O engenheiro faz um tour com Sagnac pelo local. Batem em paredes, futucam a terra, confabulam, batem e futucam mais um pouco. Encontram-se com o coveiro e a neta. Um dos aprendizes faz esboços minuciosos da igreja. Os outros vão olhar o ossuário, o muro ósseo, e balançam a cabeça. Também olham os mineiros — aquele grupo desordenado de santos — e não fazem qualquer tentativa de esconder seu desagrado.

— E então? — indaga Jean-Baptiste.

— Para começar, vamos montar o andaime neste muro — responde Sagnac. — O que é aquilo ali?

— A oficina dos médicos.

— O quê?

— Pode ser desmontada.

— Está bem.

— Quando chega a madeira?

— A primeira leva vem amanhã. E, se os seus homens sabem martelar um prego, terão serventia para mim.

Varetas de madeira verde. Uma geometria simples, repetitiva, de quadrados e triângulos subindo pela lateral da igreja. Subindo rapidamente. Todo dia o engenheiro sobe junto, logo está acima do ossuário, de frente para a rue de la Ferronnerie, abarcando toda a rue des Lombards com vista para as janelas do primeiro, do segundo e, depois, do terceiro andar dos prédios.

Os mineiros não são tão ágeis quanto os operários do pedreiro; não pulam de barrote para barrote nem se debruçam despreocupados no ar estival, seguros apenas por uma das mãos a uma viga, mas nenhum deles demonstra medo de altura. Erguem, amarram, martelam, superam os colegas em força muscular, obstinação e na eficiência tranquila com que trabalham. No horário das refeições, os dois grupos se mantêm apartados. Os homens do pedreiro comem no andaime, levam a comida lá para cima, olham para baixo, sob os pés calçados em botas que balançam no ar, para os mineiros, que, reunidos em seu lugar de costume, fazem questão de jamais olhar para cima.

Uma semana de gritaria e marteladas, e o telhado da igreja é alcançado. Jean-Baptiste sobe para se juntar a Sagnac.

— O ar é um pouquinho melhor aqui, hein? — comenta Sagnac, com as costas largas empoleiradas no parapeito da borda do telhado.

— Se você acha... — diz Jean-Baptiste. Ele consegue ver o rio. O telhado do Louvre. Os quatro moinhos em Montmartre.

— Sugiro abrir caminho por aquela fenda — diz o pedreiro, indicando com um gesto. — E ver o que encontramos.

— Está bem.

— Você vai querer ficar com as telhas?

— Tantas quantos pudermos poupar.

— Então, vai precisar de guindastes.

— Temos corda, correntes, rodas.

Sagnac assente:

— Para estrangeiros, seus homens trabalham direito.

— Eles não são todos estrangeiros — atalha Jean-Baptiste. — Mas você tem razão, são bons trabalhadores.

— É um trabalho duro, de qualquer forma — diz Sagnac, olhando para o engenheiro, examinando-o ali, do lado de fora, como se o visse pela primeira vez.

Na igreja, o ar parece água parada. Frio, estagnado. Depois de descer do andaime, o engenheiro entra com Armand e quatro mineiros. O pedreiro está em algum lugar acima do transepto sul. De pé, dentro da igreja, não se vê coisa alguma do telhado; tudo precisa ser imaginado. Os homens esticam o pescoço, aguardam, esfregam o cangote e tornam a olhar para cima. Um baque abafado provoca um repentino ruído de asas invisíveis. O primeiro golpe é seguido por uma longa série de outros, a intervalos de dois segundos.

— Isso deve acordar Colbert — observa Armand.

— Isso se ele estiver aqui — retruca Jean-Baptiste.

— Ah, ele está, pode ter certeza.

— Do que ele vive?

— Cera. Liturgia. Os próprios polegares.

Um mineiro dá um passo atrás, espanando alguma coisa do rosto.

— Está caindo poeira — alerta Jean-Baptiste. — Chegue um pouco para trás.

O barulho é menos abafado agora. Faz-se uma pausa. Então, tudo recomeça, uma batida dobrada, mais difícil de localizar.

— Será que eles estão diretamente acima de nós? — especula Armand.

— Não, não. Lá naquela ponta. Vão tentar abrir passagem entre as vigas perto da base da abertura.

Algo bate nas lajes. Já não é só poeira que vem lá de cima. Mais do mesmo cai cá embaixo, cai a cada golpe dos martelos. Flocos de gesso, entulho. Então, algo grande desaba, espatifando-se a sete, oito metros de distância de onde os dois estão. As pancadas em duo se transformam em trios. Ba-ba-bang, ba-ba-bang, ba-ba-bang. Um minuto de silêncio; em seguida, dois golpes, muito precisos e objetivos, como se os homens lá em cima tivessem descoberto algum ponto vulnerável na cabeça do dragão, um alvo fácil. Mais um naco avantajado cai ruidosamente. O grupo logo abaixo recua. Na escuridão absoluta lá no alto, alguma coisa pisca. Um pequeno olho branco, pequeno e quase brilhante demais para ser encarado.

— Eles entraram! — exclama Armand. Uma sucessão de golpes, e o olho se abre mais. Um feixe de luz rodopiante penetra enviesado pelo telhado e chega ao chão, atingindo não um anjo dourado ou santo de gesso, mas a bota de um mineiro, que pula para trás como se tivesse sido queimado.

Timidamente, os homens estendem os braços para a luz, banham suas mãos nela. Mais uma dúzia de golpes lá em cima, e é possível banhar o peito e, depois, o corpo todo. Héloïse precisa ver isto, pensa o engenheiro. Héloïse, Jeanne... todos precisam ver isto.

— Aí embaixo! — grita uma voz. Sagnac. A cabeça do tamanho de uma moeda.

O engenheiro avança para a poça de luz, olha para cima.

— Estamos aqui — responde. É um diálogo estranho. Talvez fosse assim que Adão se comunicava com Jeová. — Algum problema?

— É como quebrar conchas de mariscos — diz Sagnac (“Conchas de mariscos...”, entoa o eco). — As vigas estão completamente podres. Mais vinte anos e tudo viria abaixo sem ajuda! — A cabeça some.

— Vou tocar — diz Armand, entrelaçando os dedos e estalando as juntas. — Uma dupla desses rapazes pode me ajudar com os foles.

— Você acha que é hora de tocar? — indaga Jean-Baptiste, acrescentando em seguida: — Tem razão. Você nunca teve tanta razão.

Meia hora mais tarde, enquanto Armand improvisa no órgão, o engenheiro lidera um tour pela claridade. Héloïse aperta seu cotovelo. O coveiro ergue os olhos e pisca como um prisioneiro mantido encarcerado durante cinquenta anos em alguma solitária, algum cachot úmido como aqueles que dizem existir na fortaleza da Bastilha. Lisa umedece os lábios, e seu rosto se abre como uma flor.

Guillotin diz baixinho:

— Mas... isto é filosofia!

Jeanne começa a chorar em silêncio. De início, se recusa a tocar a luz. Jean-Baptiste — munido da licença que lhe concede o momento — pega sua mão. Ela não se encolhe. Ele ergue a mão da moça e, quando a luz a alcança, a pele — a pele das mãos de ambos — parece cercada por um etéreo fogo azul.

Ao longo dos dias que se seguem, inúmeros buracos são abertos um ao lado do outro em toda a extensão do muro sul. O ar se adensa com a poeira, mas à noite ela baixa ou se dispersa. Fachos de luz se espalham, e os raios de sol acabam por formar uma franja irregular que se move lentamente na direção da rue aux Fers. Quando chega o fim do mês, a claridade já toma as beiradas da nave, risca o coro, se empoça ao pé do altar. Quanta sujeira aparece agora! Como esse lugar era dependente da escuridão! Os bancos — a maioria tão infestada de besouros que chega a ser perigoso usá-los para sentar — estão amontoados numa grande pilha sob o cruzeiro. Agora que há claridade, fica óbvio que tudo de valor — valor monetário — já foi levado, oficialmente ou não. Com Armand, o engenheiro gasta uma hora procurando a relíquia mais famosa de Les Innocents, o osso do dedão do estilita em sua caixa de ferro, mas não há sinal dela, e algo, uma espécie de expressão careteira no rosto do amigo durante a busca, leva Jean-Baptiste a lhe perguntar se, de fato, ele a roubou.

Armand diz que sim.

— Foi para levantar recursos para o hospital — explica.

— Isso é verdade? — insiste Jean-Baptiste.

Armand dá de ombros.

Um grito vindo lá de cima significa que alguma coisa grande vai cair — um dente de engrenagem, uma cinta metálica, um barrote desabando sobre os detritos cá embaixo. Ou pedra, uma pedra deslocada, que se espatifa de encontro aos estandartes como munição de artilharia.

Metade dos mineiros trabalha dentro da igreja, quebrando. Eles portam marretas, picaretas e barras de ferro, e acrescentam, ao que parece, um certo sabor sectário à empreitada. Os outros trabalham no telhado ou operam os guindastes que baixam fardos de telhas e caixilhos recuperados. Jean-Baptiste começa a se sentir novamente um engenheiro. Pedra, poeira e madeira podre são mais que suportáveis depois de terra negra e ossos. Parece até que a destruição vicia, que ela satisfaz algum apetite obscuro, algum impulso infantil de golpear com uma ferramenta pesada aquilo que está silenciosa e estupidamente ali.

Ele escreve para a mãe: “Estou destruindo uma igreja!” Junta à carta a remessa habitual de dinheiro e sugere — apenas com um toque brincalhão — que ela possa querer usá-lo para visitar Paris e ver o filho, de manga arregaçada, com o rosto coberto de poeira, botar de joelhos um elefante de pedra. E quem sabe o seu pastor não gostaria de acompanhá-la?

Ele risca essa última sugestão. Risca com todo o cuidado.

Trabalhando numa das capelas laterais, numa daquelas que a claridade tornou comum e secular, ele termina a estante. Uma estrutura independente com cinco prateleiras, construída, em grande parte, com a madeira da igreja, dos encostos e assentos dos bancos (aqueles poucos que os besouros não visitaram), embora no alto ele encaixe um entalhe retirado do retábulo atrás do altar. Ali estão pequenas figuras, apóstolos talvez, ou tão somente curiosos que com certeza sempre estiveram presentes na periferia de acontecimentos miraculosos ou terríveis. Convidados das bodas de Caná, aldeões assistindo à chegada dos soldados de Herodes. Héloïse enche três das prateleiras com livros que já possuía. Uma tarde com Ysbeau à beira do rio — ambos corteses, dispostos a esquecer o passado — enche boa parte da quarta de livros novos, todos em boas edições, e não daquele tipo de quinze sous que se desmancha na mão da gente.

Por toda a cidade, nesses dias de pleno verão, pintura negra e pichações frescas não param de surgir.

Junto à igreja de Sainte-Marie, na rue Saint-Antoine: “BECHE HÁ DE COMER UM BISPO GORDO E CUSPIR SEUS OSSOS. E UM CARDEAL NA SOBREMESA.”

No cais de l’Horloge, abaixo da Conciergerie (pichado de dentro de um barco?): “M. BECHE AFOGARÁ OS RICOS NO SUOR DOS POBRES.”

No muro em frente à Companhia das Índias: “BECHE VÊ SEUS CRIMES! A PUNIÇÃO ESTÁ A CAMINHO!”

Na balaustrada — do lado esquerdo de quem segue na direção sul — da Pont au Change: “GOVERNANTES SANGUESSUGAS! M. BECHE TRANSFORMARÁ SEUS FILHOS EM ÓRFÃOS!”

Descobrir as pichações, descobri-las antes das autoridades, autoridades agora muito mais ágeis na tarefa de apagar tais expressões de sentimentos, torna-se uma espécie de esporte. As pessoas trocam informações, informalmente e com bom humor, embora também com uma dose de seriedade indagadora. E se esse Bêche existir, afinal? E se um dia ele cumprir essas promessas?

Jean-Baptiste, informado da existência dessas garatujas por Armand (que continua a negar qualquer envolvimento), dr. Guillotin ou Héloïse — (que não abriu mão por completo do velho hábito de transitar livremente pelas ruas da cidade)—, e, numa ocasião, por Marie, assente e dá de ombros. O que elas significam para ele? Ainda assim, não pode negar um interesse mórbido por esse tal de Bêche, nem mesmo se impedir, às vezes, de fantasiar que ele exista, com efeito, em algum fétido bâtiment do faubourg Saint-Antoine, um homem com ideias afiadas como faca, um assassino filósofo, que mata em nome do povo. Acaso se disporia a confrontar um homem assim? Cometeria traição contra ele? Ou seria seu seguidor? Se tornaria, como ele, implacável? Sanguinário e implacável... Então, desperta da fantasia e volta a cuidar do seu trabalho. Pedras, suor, ordens que cortam o ar empoeirado. Ao que o mundo anda fazendo, ao futuro para o qual se prepara, ele dará atenção mais tarde. Sua prioridade é Les Innocents. A história terá de esperar um pouco.

Um local estratégico, um bom lugar, para apreciar o progresso na igreja é o seu velho quarto nos fundos da casa dos Monnard. Ele vai até lá quase todos os dias quando pode, fica de pé entre a cama e a mesa, e olha pela janela. O calor no quarto é sufocante. Deus sabe como deve ser no quarto de Marie, acima. Na cama, os vestidos de Ziguette jazem inertes como musgo arrancado de um rio. Pequenas traças douradas, do tipo que, quando espremidas entre o polegar e o indicador, deixam uma manchinha de ouro na pele, adejam, inquietas, entre sedas e cetins. Ragoût, talvez recordando a velha intimidade dos dois nesse quarto naquelas noites de inverno em que dormia aos pés do engenheiro, às vezes se junta a ele, acomoda-se no meio dos vestidos e adota o hábito de entrar, pela metade, dentro deles — um gato virando garota, uma garota virando gato.

No entardecer de um sábado do fim de julho, os dois estão no quarto. Ragoût aconchegado num traje de musselina, Jean-Baptiste encostado, sonolento, à mesa, contemplando a igreja, sua confortante aparência ferida. Um quarto do telhado ainda não veio abaixo — vão precisar de andaimes na rue aux Fers na semana que vem —, e ainda não foi cavada uma trincheira com profundidade suficiente para permitir que se examinem as fundações. Apesar de tudo, o progresso é aceitável, mais que isso. Até Monsieur Lafosse, em sua última visita, não conseguiu de todo esconder a própria aprovação e postou-se durante um minuto inteiro diante da janela da sala de estar, virando-se depois para dizer (num tom temperado com desconfiança) que o ministro não ficaria insatisfeito de saber que o seu projeto, finalmente, estava caminhando como devia.

Se os mineiros puderem ficar só um pouquinho mais, pensou Jean-Baptiste. Os mineiros e Sagnac. E ele, é claro, sobretudo ele. Conseguiu, ao menos, encontrar moradia para Jeanne e o avô. Quatro cômodos decentes, claros, no térreo de uma casa na rue Aubri Boucher, em frente à igreja de Saint-Josse, a alguns minutos a pé do mercado. Conveniente para uma futura mãe — para uma mãe —, pois já não há dúvidas de que Jeanne está grávida. Sua cintura engrossou visivelmente; os seios cresceram. Ela parece mais jovem. Jovem, tímida, sonhadora. Não está infeliz. Sorri, fala pouco, parece ao mesmo tempo perdida e resgatada, talvez como a mãe de Cristo tenha parecido um dia. E, sempre por perto, sempre encontrando algo para mantê-lo nos calcanhares da sombra dela, aquele homem-estaca, de barba, de botas — Jan Block...

O engenheiro boceja. Esfrega os olhos com as palmas das mãos, sente a constância monótona das instruções que seu corpo lhe dá, as batidas compassadas do coração: isto, isto, isto, isto... Quando abre os olhos, descobre-se olhando não para a igreja, mas para o quadro na parede, o desenho da Ponte de Rialto em Veneza, seu único arco alto o bastante para deixar passar os navios em qualquer maré, suas vinte e quatro casas estreitas com os telhados. O quadro pende do prego exatamente do mesmo jeito como ele o pendurou na noite em que chegou a essa casa, mas faz meses que não pensa nele, faz meses que não pensa naquelas velhas ambições que um dia foram emblemáticas. Pontes e estradas? Sim. Pontes e estradas cruzando a França, passando por cima de rios, unindo cidades e aldeias como pérolas num fio, e depois toda a empreitada, confiável, delicadamente emoldurada, ornamentando, como uma dádiva, as paredes de alguma cidade cintilante. Ele próprio a cavalo, grupos de homens atrás. Homens, cavalos, carroças, pedras. Nuvens de poeira. E, agora, ele pode. É perfeitamente crível. Não está inseguro, já não sente que precisa, por meio de algum exercício ansioso de vontade, manter todas as peças de si mesmo unidas ou deixar de existir. Mas serão suas ambições aquilo que foram um dia? Serão hoje, por exemplo, menos ambiciosas? Nesse caso, o que as terá substituído? Nada heroico, ao que parece. Nada de que valha a pena se gabar. Um desejo de recomeçar, mais honestamente. De testar cada ideia à luz da experiência. De se impor tão firmemente quanto possível sobre a fabulosa face da terra; de viver em meio à incerteza, à balbúrdia, à beleza. Viver bravamente, se assim puder. A bravura será necessária, não tem dúvida. A coragem de agir. A coragem de dizer não.

Na cama, o gato o observa com tranquilidade das profundezas do seu próprio mistério. Jean-Baptiste lhe sorri.

— Você acha, meu amigo, que eles me aceitariam de volta na fazenda?

Então, seu olhar é novamente atraído para a janela, para a igreja, onde uma fumaça preta sobe em espiral do telhado roto. Ela sobe, mergulha, rodopia em torno do andaime, dá um mergulho profundo até os muros do cemitério e depois torna a subir, abrindo círculos e mais círculos no ar para, então, bater em retirada. Ele grita, chamando Héloïse. Ela vem correndo.

— Eles estão partindo! — exclama. — Voando... Raios me partam! Parecem ratos voadores.

— O quê? Morcegos?

— Sim. Centenas de morcegos! Milhares!

Ela olha para onde ele aponta. Semicerra os olhos, mas nada vê acima da igreja, exceto a própria noite.