Puro

Andrew Miller · Capítulo 18 de 48

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Puro

Capítulo 3

 

 

Ele tem um encontro com Lafosse. O mês de janeiro se arrasta; nada começou; nem um único osso foi trasladado. Jean-Baptiste se explica, faz um esforço para mostrar-se vítima das circunstâncias, o que, com efeito, acredita de fato ser. Não pode dar início à empreitada sem os mineiros, e os mineiros não chegaram. Vão chegar, vão chegar muito em breve, mas ainda não chegaram. A meio caminho da explicação, das justificativas exageradas para isentar-se de culpa, percebe que Lafosse não se importa, realmente, com umas semanas a mais ou a menos, não vai demiti-lo do cargo, nem mesmo fazer tal ameaça. Quem mais, assim em cima da hora, haveria de assumir um trabalho como esse? Jean-Baptiste faz sua prestação de contas. Não o deixa infeliz o fato de Lafosse estar gripado.

O que é capaz de fazer sozinho ele faz. Com Louis Horatio Boyer-Duboisson consegue lona, estacas de madeira, corda, correntes. Combina com um sujeito desdentado chamado Dejour o fornecimento de lenha e trabalha ao lado deste e seus filhos quando o primeiro carregamento é entregue. Não pode pôr os pés no mercado sem que os comerciantes o assediem com ofertas e promessas, às vezes com avisos sussurrados a respeito de um colega que não passa de um ladrão. A palha para os colchões vem dos estábulos atrás da agência dos coches na rue aux Ours. Ela é seca e razoavelmente limpa. Chegam trinta pás e trinta picaretas, também providenciadas por Louis Horatio Boyer-Duboisson. Em Valenciennes, não se permite aos mineiros serem donos das próprias ferramentas. Um homem dono da própria pá pode começar a pensar que é independente.

No quinto dia de fevereiro, Jean-Baptiste recebe uma mensagem de Lecoeur informando que, finalmente, tudo está pronto, que ele está prestes a partir rumo a Paris com os homens e que espera chegar dentro de uma semana. Como a carta levou dois dias para alcançá-lo, Jean-Baptiste se põe em vigília dois dias mais tarde, de pé, hora após hora, na esquina da rue Saint-Denis com a rue aux Fers, embora não tão perto da fonte italiana a ponto de se tornar alvo da irreverência das lavadeiras.

A temperatura está baixa, mas os dias são bonitos, com gelo pela manhã, mas quase chegando a esquentar por volta do meio do dia. Ele vê os mesmos rostos várias vezes, vê como as ruas têm suas próprias correntezas, suas pequenas marés. Tem um vislumbre de Héloïse afastando-se dele em direção ao faubourg Saint-Denis. Vê Père Colbert — não pode ser outra pessoa —, com seus óculos azuis, o preto-esverdeado da batina esticado sobre as costas grandes e curvas. Vê Armand, que lhe diz para contratar um rapaz, mas Jean-Baptiste não deseja depender de um rapaz, dos poderes de concentração de um rapaz, nem deseja, igualmente, sentar-se ocioso na casa dos Monnard aguardando algo que às vezes acha que jamais há de acontecer.

Então, por volta das duas da tarde, precisamente uma semana depois da data que consta na carta de Valenciennes, Lecoeur chega de repente lá das bandas do rio, de forma improvável e conduzindo uma carroça, erguendo o chapéu numa saudação elegante ao pôr os olhos em Jean-Baptiste.

Ali estão, ao todo, três veículos descobertos e com rodas grandes e enlameadas. Quando as carroças param, grupos de residentes, inclusive as lavadeiras, se reúnem para observar os forasteiros, que também os observam, alguns com os olhos esbugalhados e assustados de gado que é tocado, outros simplesmente maravilhados, com a expressão, talvez, dos homens de Hernán Cortés ao entrarem na cidade dourada de Tenochtitlán. Todo o tráfego da rue Saint-Denis cessa. Os cavalos baixam a cabeça. Um se alivia, ruidosa e repulsivamente, no calçamento de pedra. Lecoeur desce do seu posto na boleia da primeira carroça e se dirige, com grandes passadas, até Jean-Baptiste. Numa efusão de alívio mútuo, os dois se apertam as mãos com firmeza.

— Tivemos várias aventuras no caminho — diz Lecoeur. — Não propriamente Circe ou os Ciclopes, mas o suficiente para nos ocupar. Ainda assim, cá estamos, prontos para cumprir suas ordens.

Para um homem que passou um bom tempo na estrada na companhia de trinta mineiros, enfrentando toda a inclemência de um inverno impiedoso, Lecoeur parece maravilhosamente limpo e bem-disposto. Usa uma peruca castanha, está decentemente barbeado e tem um bonito lenço vermelho enrolado no pescoço. No hálito, apenas uma sugestão da bebida forte que qualquer homem que viaja no frio acaba tomando, por profilaxia.

— Trouxe todos eles? — indaga Jean-Baptiste, apontando as carroças com um gesto de cabeça.

— Trinta homens escolhidos a dedo. Acho que você não vai encontrar defeito neles.

— Fico grato a você — diz Jean-Baptiste —, imensamente grato, mas temos que levar as carroças para aquela rua — acrescenta, apontando para a rue aux Fers. — Do contrário, começarão a reclamar conosco. O pessoal daqui não faz cerimônia quanto a demonstrar seus sentimentos.

Em quatro minutos, carroças e cavalos são enfileirados junto à ala norte da igreja. Os homens descem, postam-se em grupos e olham, ora para Lecoeur, ora para Jean-Baptiste, avaliando, silenciosamente, a autoridade de cada um e, também em silêncio, chegando às próprias conclusões.

Jean-Baptiste destranca o portão que dá acesso ao cemitério. Ali terá lugar o primeiro teste. Os homens precisarão entrar no cemitério, um lugar inquietante até mesmo para uma mente esclarecida como a dele. Refugarão? O que fazer, então? Obrigá-los a entrar? Como? À ponta de uma espada? Ele não tem espada.

— É melhor você ir na frente — diz baixinho a Lecoeur. — Eles estão habituados a você.

— Muito bem — concorda Lecoeur, passando pelo portão sem hesitar. Os mineiros arrastam os pés às suas costas. Quando o último entra, Jean-Baptiste o segue, fecha o portão e se junta a Lecoeur.

— É como você disse — observa Lecoeur —, uma impressão meio intensa.

— A gente se habitua — diz Jean-Baptiste —, ao menos um pouco.

— Será uma inspiração para fazermos o trabalho mais rápido — atalha Lecoeur, tentando sorrir.

Há dias uma pilha de lenha para uma grande fogueira aguarda entre a igreja e a cruz do púlpito. Agora, com brasas trazidas da cozinha do coveiro, os homens a acendem. Espirais de fumaça sobem para o ar parado; no coração da fogueira ouvem-se estalidos; a fumaça se adensa; uma dezena de chamas salta das brasas. Os mineiros fazem um círculo à volta, dando-se as mãos junto ao calor.

Jeanne aparece. Jean-Baptiste a apresenta a Lecoeur. Os homens estão com fome?, ela indaga. Sem dúvida, com muita fome. Se assim for, ela irá até o mercado e trará sopa e pão para todos. Há uma barraca onde vendem sopa saudável às baldadas. Logo estará de volta.

A oferta — seu sentido generoso, pragmático — é rapidamente aceita. Lecoeur escolhe três homens no círculo para ajudar a moça. Jean-Baptiste conta o dinheiro e depois o deposita nas mãos dela.

— Eles são bastante dóceis — informa Lecoeur, indicando os ajudantes. — Diga-lhes o que quer que façam e eles obedecerão.

Os dois a observam partir com os homens em seus calcanhares.

— Ela será um bem valioso — comenta Lecoeur. — Já posso vê-la tornar-se a virgenzinha de todos.

— Depois de matar a fome, eles terão de montar suas barracas — diz Jean-Baptiste. — Acho que devem ser duas fileiras de cinco. Se não tiver nada contra, você dormirá na casa do coveiro. Ele mora sozinho com Jeanne. Acho que você vai se sentir confortável.

— Estou aqui como uma ferramenta — atalha Lecoeur. — Pouca diferença faz o lugar onde me deito à noite.

Jean-Baptiste assente. Está ouvindo os homens falarem em voz baixa e recordando algo de que, inexplicavelmente, se esquecera. Ao menos metade dos mineiros em Valenciennes fala apenas flamengo. Durante seu período de trabalho nas minas, aprendeu umas duas dúzias de palavras nesse idioma, mas há muito não se lembra mais delas.

— Você domina essa língua? — pergunta a Lecoeur.

— Acho que não o suficiente para fazer a corte a uma mulher, mas para as nossas necessidades creio que o que sei seja suficiente.

Passada meia hora, Jeanne volta com os mineiros. Dois deles carregam baldes fumegantes de sopa. Jeanne e o terceiro trazem nos braços uma boa quantidade de pão. Atrás desse grupo vem Armand, que se aproxima, decidido, de Jean-Baptiste e Lecoeur, e, ainda a alguns passos de distância, grita:

— Vi a fumaça. Eu já estava começando a achar que você não passava de um amável sonhador. Doravante, hei de acreditar em tudo que disser.

— Permita-me apresentar — intervém Jean-Baptiste — Monsieur Saint-Méard.

— O senhor faz parte do nosso grupo, monsieur? — indaga Lecoeur.

— Acho que pode me considerar assim — responde Armand, olhando para Jean-Baptiste.

— Monsieur Saint-Méard é o organista da igreja — explica Jean-Baptiste.

— Ex-organista — emenda Armand —, tão logo esses cavalheiros comecem seu trabalho. Mas pretendo participar da minha própria destruição. Não é esse o direito que temos todos?

— Bem, os antigos acreditavam que sim, monsieur — confirma Lecoeur.

— E nós somos os novos antigos, não é mesmo?

— Somos os homens — diz Lecoeur — que vão purificar Paris. Eu disse isso ao meu amigo aqui na última vez que nos encontramos. Será uma espécie de exemplo.

— Descartaremos o passado — acrescenta Armand, num tom entre sério e brincalhão. — A história vem nos sufocando há tempo demais.

— Aprovo enfaticamente tais sentimentos — diz Lecoeur, baixando o tom.

— Então, vamos brindar a essa aprovação — sugere Armand.

— Daqui a duas horas estará escuro — lembra Jean-Baptiste. — A bebida terá de esperar.

— Ele já está nos tiranizando — intervém Armand.

Lecoeur parece pouco à vontade.

— Mas ele tem razão, monsieur. Toda a razão. Há muito que providenciar aqui. Vamos precisar da nossa lucidez. Mais tarde, quem sabe?

A sopa e o pão são consumidos sem cerimônia. Os mineiros lambem suas colheres, limpam a barba com as costas da mão, escarram, se coçam e bocejam.

Vendo que todos terminaram, Jean-Baptiste sobe a escada em caracol que leva ao patamar estreito e gradeado no frontão triangular da cruz do púlpito. É seguido por Lecoeur e, totalmente por conta própria, Armand. Para se manterem empoleirados no púlpito, é preciso que se apertem. Com o braço livre, Jean-Baptiste gesticula para os mineiros, que se põem de pé e lentamente se aproximam da cruz. Outra coisa que esqueceu quanto a esses homens: depois de caminharem curvados nos túneis durante anos, muitos ficaram permanentemente corcundas. Eles se reúnem sob a cruz e inclinam a cabeça, de forma estranha, para olhar para cima. Jean-Baptiste diz a Lecoeur:

— Vou dizer umas palavras a eles. Depois, por favor, repita a essência do que eu disser em flamengo, sim?

Pigarreia. Não tem uma voz forte de pregador; quer ser ouvido, mas não pretende gritar com a plateia.

— Sejam bem-vindos — começa. — Talvez eu tenha conhecido alguns de vocês em Valenciennes. Nosso trabalho aqui será muito diferente. Todo este velho cemitério, bem como a igreja ali atrás, terá de ser destruído. Toda a superfície do cemitério será escavada. Todos os ossos, todos os que forem encontrados nos ossuários, todos os que estiverem sob a terra e nas criptas serão removidos e levados para outro lugar. Vocês deverão manuseá-los exatamente como manuseariam os ossos de seus antepassados. Começaremos amanhã pela primeira das covas grandes. Teremos, o tempo todo, fogueiras ardendo para purificar o ar e fazê-lo circular. Os médicos já concluíram que o fogo é a melhor defesa contra quaisquer vapores que a nossa escavação possa liberar. O pagamento que receberão será de vinte e cinco sous por dia de trabalho. Haverá uma refeição quente diária, mais um litro de vinho. Vocês não podem sair do cemitério sem autorização minha ou de Monsieur Lecoeur. A primeira tarefa será montar os abrigos e abrir fossas higiênicas. Ninguém deve conspurcar a terra. Trabalharemos todos os dias. Cada um de vocês será responsável por cuidar das próprias ferramentas.

Então, como adendo, completa:

— Meu nome é Baratte. Sou engenheiro.

— Excelente — sussurra Lecoeur.

— Funcionou bem — diz Armand.

Lecoeur dá início à tradução. Fica evidente que é mais fluente do que admitiu. Enquanto ele fala, Jean-Baptiste estuda o desanimado exército de mineiros. Um deles se destaca: mais alto que a maioria, sem chapéu, seu olhar parece examinar com frieza os rostos do triunvirato sobre o púlpito. Quase dá para adivinhar que ele se diverte como alguém que já viu essa cena, já testemunhou tais momentos com demasiada frequência para deixar de encontrar aí algum indício do disparate. Durante alguns segundos, ele pousa a mão no ombro de um mineiro muito mais velho à sua frente e, embora seja difícil enxergar claramente a vinte metros de distância, a mão com certeza não é exatamente como deveria ser, mas, sim, de alguma forma, deformada.

Quando Lecoeur termina, os três, correndo o risco de tropeçar uns nos outros, descem os degraus em caracol. As estacas e as lonas de Boyer-Duboisson são levadas para o terreno plano no meio do cemitério. Uma vez erguida a primeira barraca e sua construção entendida, as outras rapidamente ficam prontas.

O vendedor de madeira chega com a lenha nova. Dá uma olhada nos mineiros, chupa as gengivas, assente sua aprovação. Fornecer madeira para Les Innocents será o melhor negócio da sua vida: uma vez acesas, as fogueiras arderão ao longo de meses. A madeira nova está estocada bem próximo às barracas e é, ao mesmo tempo, valiosa e roubável. Uma boa quantidade já se foi, passada por cima dos muros à noite.

Jean-Baptiste inspeciona o trabalho nas latrinas e o aprova. Inspeciona cada barraca, puxa suas cordas. Várias vezes é chamado à porta do cemitério para atender um comerciante, missão que vez por outra confia a Armand, que aparentemente aceita de bom grado.

Já na escavação das latrinas e dos fossos para as fogueiras algumas centenas de ossos grandes e inúmeros fragmentos ósseos foram desenterrados, alguns brancos como giz, outros cinzentos, negros ou amarelos como champignons. Jeanne pega um dos crânios menores, tira com o polegar um grumo de terra da testa e volta a deitá-lo na grama como faria com um filhote de pássaro em seu ninho. Existe nessas ações algo levemente repulsivo, mas é óbvio para Jean-Baptiste que o exemplo da garota causará uma impressão mais forte nos homens do que qualquer palavra sua.

Quando passa por eles no gradual escurecer de cada fim de tarde, o engenheiro tenta fixar na memória seus rostos. Não são muitos os que olham em seus olhos. Quando um deles faz isso, Jean-Baptiste para e pergunta seu nome. Jacques Everbout, Joos Slabbart, Jan Biloo, Pieter Molendino, Jan Block. Jean-Baptiste não encontra o homem em quem reparou lá do alto do púlpito, o homem que o estudou com tão desmedida frieza. Seja quem for, ele aparentemente tem o talento de se tornar invisível quando lhe convém.

Quando construiu a ponte na propriedade do Conde S., contou com cerca de doze homens sob suas ordens — criados da casa e ajudantes de jardineiro, além de uma dupla de pedreiros artesãos e um mestre-pedreiro de Troyes. O mestre-pedreiro, sobretudo, não se esforçava para esconder a impaciência com o “garoto” que comandava o projeto. Os artesãos não eram muito mais gentis, e mesmo os criados da casa iam e vinham ao bel-prazer, e não perdiam a oportunidade de humilhá-lo, do jeito como os criados das grandes mansões são especialistas em fazer. É bom não ser humilhado. É bom não ser patrão apenas no nome. Aqui, em Les Innocents, ele precisa, sabe-se lá como, impor sua vontade, precisa fazer isso, mesmo que no fundo do coração esteja inseguro de si mesmo como estava então. Ainda assim, gostaria que os homens gostassem dele. Ou, ao menos, que não o desprezassem.

Quando já está escuro demais para qualquer atividade útil, os homens se sentam diante da entrada de suas barracas. Já foram alimentados uma segunda vez e tiveram a sede saciada. Jean-Baptiste — que só comeu porque Jeanne insistiu, ficando às suas costas com pão e uma tigela de sopa — faz uma última ronda com Lecoeur, e a dupla dá boa-noite aos homens, recebendo em troca algumas respostas guturais. Impossível saber o que eles estão pensando, se a metade pretende fugir durante a noite. Serão confiáveis? Houve, é claro, vez por outra, incidentes nas minas, incidentes violentos. Nem quer imaginar a cara do ministro quando souber que os homens desertaram e estão devastando Paris!

Longe das barracas, Lecoeur o tranquiliza.

— Você está lhes pagando consideravelmente mais do que recebiam em Valenciennes. E eles são sujeitos decentes à própria moda, podem se revelar muito boa companhia para alguém.

— Com você a comandá-los — emenda Jean-Baptiste.

— Você, meu caro Baratte, é o nosso comandante. Acho que ficaria bastante imponente no lombo de um cavalo branco.

— Precisaria melhorar meu flamengo.

— Avancem, ataquem. Dez sous para cada cabeça inimiga. Isso já bastaria, acho eu.

Estão atravessando a esquina do cemitério em direção à casa do coveiro. Lecoeur carrega uma tocha acesa, embora mal precisem dela. A claridade de lampiões vaza das janelas da casa, além do brilho rubro de chamas avantajadas.

— A minha primeira visão deste lugar — diz Jean-Baptiste — foi da janela do meu quarto, lá em cima. Olhei para baixo à noite e vi uma área de escuridão impenetrável. Agora está quase festivo aqui.

— Festivo? Desculpe, mas acho que um lugar como este jamais poderia parecer festivo.

— O que você está achando do fedor agora?

— Tolerável, no máximo. Não tenho um bom olfato. Deve ser em consequência das minas. Meu crânio está embotado de tanto pó de carvão.

— Dizem que existe um animal — comenta Jean-Baptiste —, metade cão, metade lobo, que mora na área dos ossuários daquele lado. — Ele gesticula indicando o muro sul à frente, os arcos que conduzem às galerias.

— Eu não deixaria essa história circular entre os homens.

— Não, você tem razão — concorda Jean-Baptiste.

— Mas, caso se comprove que isso é mais que uma velha lenda, eu vim preparado. — Lecoeur para e puxa algo do bolso do casaco. — Vê?

— Está carregada? — indaga Jean-Baptiste.

— Tenho pólvora e balas na bagagem. E andei praticando. Posso acertar um balde de carvão a trinta passos de distância.

— Lecoeur e o seu destruidor de lobos — diz Jean-Baptiste. Os dois riem baixinho. Lecoeur apaga a tocha com a lateral da bota, e a dupla entra na casa do coveiro.

O velho está dormindo ao lado do fogão, os cachos prateados de sua barba descansando sobre o peito. Armand está sentado à mesa com Jeanne. Jeanne se põe de pé assim que os outros entram.

— Estávamos esperando os dois — diz ela.

— Fizemos as rondas no acampamento — explica Lecoeur, com o olhar fixo na garrafa de brandy em cima da mesa, ao lado do cotovelo de Armand.

— Como está seu avô? — indaga Jean-Baptiste.

— Cansado — responde Jeanne, sorrindo sobre o topo da cabeça do velho. — Mas feliz, acho eu, de ver o trabalho começar. E ele sabe que estou contente. — Para Lecoeur, ela acrescenta: — Seus homens são muito bons.

Lecoeur faz uma leve reverência.

— Você já se tornou a favorita deles, mademoiselle.

— Agora — intervém Armand —, talvez tenhamos permissão para aquele drinque. Jeanne, vamos precisar de mais dois copos.

Os copos são providenciados, enchidos e erguidos. Até Jeanne toma alguns goles, e suas bochechas ardem com o calor da bebida. Armand volta a enchê-los. Jean-Baptiste põe de lado o próprio copo.

— Começamos a cavar amanhã — diz ele. — Será melhor não passar a noite na companhia da garrafa. Estarei aqui bem cedo, Jeanne. E acredito que Madame Saget também virá, certo?

— Lisa virá — confirma Armand. — Parece que ela fez as pazes com você.

— Vou ao mercado comprar pão assim que clarear — avisa Jeanne. — Você podia ir comigo e, quem sabe, Madame Saget também.

— E eu providenciei para que quinze lindas galinhas se juntem a nós no jantar — diz Armand. — Uma saca de batatas, uma saca de cenouras, o peso de um homem em lentilhas. Cebolas. E tomei a liberdade de encomendar cento e vinte litros de vinho Burgundy. Château Nada-de-Especial. Sugiro que tranquemos o vinho numa das salas da igreja. Duvido que Père Colbert queira bebê-lo.

— Ótimo — diz Jean-Baptiste. — Obrigado.

— Somos uma máquina! — exulta Lecoeur, cujo copo, enxugado duas vezes, sabe-se lá como está cheio de novo. — Deram corda em nós e estamos funcionando!

— Tique, taque, tique, taque — entoa Armand. Jeanne ri.

— Você vem? — pergunta Jean-Baptiste a Armand.

— Acho que vou ficar mais um pouco.

Faz-se uma pausa.

— Muito bem. Então, desejo a todos uma boa noite.

Ele sai, puxando, irritado, a gola do casaco. Será que Armand pretende fazê-lo de bobo? Estará de olho em Jeanne? Só lhe resta esperar que Lisa Saget o mantenha em rédea curta.

No portão da rue aux Fers, ele se volta para olhar para o estranho e reluzente palco que criou. De uma das barracas vem um som de cantoria, um som abafado e repetitivo, uma balada, talvez um lamento. Ele escuta durante alguns instantes e depois sai para a rua vazia, fecha e tranca o portão. Se Armand pretende ir embora, afinal, que encontre o caminho por dentro da igreja.

Na casa da rue de la Lingerie, ele evita os Monnard, passando com sua vela o mais silenciosamente possível pela sala de estar. Os Monnard, como todo mundo, decerto viram as fogueiras — ninguém teria uma visão melhor que eles — e, considerando a inexplicável oposição que fazem ao seu trabalho, é improvável que isso tenha originado uma comemoração. Caso se sente com eles, há de ser confrontado com silêncios, afrontado com suspiros. Já não faz ideia do que lhes dizer.

Em seu quarto, tira as botas. O brandy lhe arde um pouco no peito. Ele arrota e depois se inclina sobre a cama para olhar pela janela. Uma chuva fina começou a cair. Nada há para ver, salvo a claridade das fogueiras cercada pela escuridão.

Ele fecha as venezianas e se senta à mesa, puxando o caderno para si. Desde a semana passada, vem pensando em começar um diário, um registro da destruição do cemitério, algo técnico, mas também filosófico, espirituoso até, que possa um dia dar de presente a Maître Perronet numa pequena cerimônia na escola. Brinca com a caneta, girando-a entre os dedos. Devia ter ficado com os outros, bebido mais brandy, rido um pouco. Isso lhe faria bem, seria melhor do que sentar-se ali sozinho, nesse humor oscilante.

Destampa o tinteiro, molha a pena, escreve no alto de uma nova página a data e, abaixo dela: “Eles chegaram hoje, trinta pobres homens liderados por outro cuja presença talvez me cause arrependimento. O trabalho já me enoja e nem o começamos. Quem dera eu jamais tivesse ouvido falar de Les Innocents.”

Fecha o caderno, empurrando-o para o lado, senta-se ali desanimado como um homem cumprindo uma sentença. Então, puxa novamente o caderno, abre-o, lê o que escreveu, volta a molhar a pena e, metodicamente na página inteira, faz um X sobre cada letra até que as linhas fiquem escondidas, ilegíveis, sepultadas.

*

Um deles fala; os outros escutam. Ainda chove, mas não com intensidade bastante para apagar as fogueiras. Uma claridade vermelha opaca acha caminho pela aba aberta da barraca, iluminando a parte inferior dos corpos, mas deixando os rostos na sombra. O que fala usa uma roupa clara e está sentado num trono de lenha; os demais se encontram agachados ou ajoelhados na palha. Um sermão? Uma história? Qualquer um que não conheça essa língua, que mesmo falada baixo é como o ruído de xisto contra xisto, apostaria numa espécie de preleção, de uma tranquila emissão de ordens. De vez em quando, os ouvintes expressam uma reação, um assentimento murmurado. O orador mexe com as mãos, unindo-as, afastando-as. O terceiro dedo da mão esquerda lhe falta acima da segunda falange, terminando num toco rombudo de osso e pele enrugada.

Ele faz uma pausa e se abaixa para pegar algo ao lado das botas, erguendo-o como se fosse um ser vivo, capaz de despertar e voar. Trata-se de um pedaço de madeira cortada ou, quem sabe, o caule oco de uma planta — erva-doce, canabrás. Ele inclina a cabeça para o lado e sopra suavemente a base do objeto, em cuja ponta um brilho se transforma em fagulha e depois em chama, uma língua de fogo, sua luz se assentando sobre as feições do homem, sobre seus olhos entrefechados. Os outros, sentados, observam. Alguma coisa é absorvida. Ouvem-se, então, mais palavras, três ou quatro palavras pesadas, que os ouvintes repetem numa voz não mais alta que a chuva. Então, termina; acabou. Todos se levantam da palha, saem da barraca, alguns olhando para a velha igreja, outros para os ossuários. Calados como fantasmas, eles se dirigem às próprias barracas. A noite, em seu invólucro azulado de nuvens plúmbeas, os envolve suavemente. O cemitério se aquieta.