Puro

Andrew Miller · Capítulo 41 de 48

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Puro

Capítulo 12

 

Toda manhã, na meia-luz das auroras outonais, ele acorda de um sono sem sonhos ao lado de Héloïse. Em certas manhãs, acorda e a descobre a observá-lo, acorda para o sorriso dela. Noutras, ele é o primeiro a despertar e fica deitado muito quieto, estudando as encantadoras imperfeições daquele rosto, a intimidade e os mistérios daqueles olhos fechados. Então, quando ela os abre, o olhar — profundamente ancorado no sono e nos sonhos — quase sempre tem um quê de tristeza, embora seja uma tristeza que ela nega sentir quando ele a menciona. Com as bocas secas, os dois ficam deitados um tempo, falando de coisas íntimas, triviais. Com os lábios secos, trocam alguns beijos. E isso é como um remédio para ele, esse bálsamo matutino, o calor aconchegante das cobertas, o canto dos pássaros nos telhados vizinhos, a nova respiração no travesseiro. Mal repara no quanto parou de reparar, no quanto o mundo que existe fora dessas quatro paredes parou de ser devidamente atendido por ele.

Quando Marie se lembra de levar alguma coisa para o casal comer, os dois tomam café juntos no quarto. Nas manhãs em que se esquece, Héloïse fica na cama e ele faz a refeição no cemitério, com Jeanne, Manetti e Lecoeur. Quanto à maneira como ela passa o dia na sua ausência, isso é uma fonte de fascínio contínuo para o engenheiro. Nenhum detalhe é trivial. Não basta que ela lhe informe que Madame Monnard rouba no jogo de gamão; ele faz questão de saber exatamente como. Nos dados? Na contagem? E, quando as duas passam uma tarde junto à janela bordando, ele quer que ela lhe diga que tipo de ponto e que desenhos usaram. Botões de rosas? Zigue-zagues? Caudas de pavão?

— Do que vocês falam?

— De você, é claro.

— De mim?

— Não. Jamais de você.

— De Ziguette?

— Às vezes.

— E de Monsieur Monnard?

— Vez por outra, dele também. E do preço do pão, da possibilidade de chuva, do que é melhor para constipação, se sena ou sanguinheiro.

— Você devolveu a felicidade a ela.

— Não, Jean, não devolvi. Você sabe disso.

Um mês depois de chegar à casa da rue de la Lingerie, Héloïse está sentada na cama tomando café numa caneca pintada com rosas, quando diz que deseja ir ao teatro. Ele não lhe prometeu? Jean-Baptiste concorda. Vai falar com Armand. Armand decerto entende de teatros.

— O Odéon — diz Armand, enquanto os dois estão de pé sobre um losango de sol na grama, ao lado da cruz do púlpito. — Estão encenando uma peça de Beaumarchais. Beaumarchais é do partido.

— Do partido do futuro?

— Claro. E eu vou com vocês. Lisa também. Do contrário, você não saberá se comportar.

— Não faço objeções à sua companhia.

— Mademoiselle Godard não conhece você o bastante, não o estudou tanto quanto eu.

— Armand, você acha que Héloïse pertence ao partido do futuro?

— Héloïse? Ela e Lisa estarão entre suas rainhas.

— E a minha filiação ao partido?

— Ah, você será informado, meu caro selvagem.

— Informado? Por quem?

— Pelas circunstâncias. Pelo que você fará e não fará. Todos nós seremos encontrados no devido tempo.

— Quando fala assim, você me faz lembrar do pastor. Do pastor da minha mãe.

— E o que é que ele diz?

— Na cidade, não resta senão desolação, e o portão foi quebrado em pedaços. Se um homem correr do chocalho da serpente, cairá no fosso. Se escalar o fosso, será pego na armadilha...

Quatro dias depois, Jean-Baptiste e Héloïse se vestem para uma noite no teatro. Ele não possui nada mais alegre que preto. Ela o provoca. Onde foi parar o traje cor de sopa de ervilha? Pistache, diz ele, pistache descascado. E ele voltou para o lugar de onde saiu. Ótimo, diz ela. Verde não lhe caía bem.

Cruzam o rio num cabriolé. Armand e Lisa, de costas para os cavalos, Jean-Baptiste e Héloïse, de frente. As duas mulheres, tendo se conhecido no vestíbulo da casa dos Monnard, tendo observado uma a outra com cuidado entre as paredes revestidas de lambri, aparentemente resolveram se dar bem, para enorme alívio de Jean-Baptiste, que desenvolveu uma profunda fé na precisão do juízo de Lisa Saget.

As duas janelas do cabriolé se encontram totalmente baixadas. O sol de fim de tarde bate no rio. Na Pont Neuf, a multidão flui sobre si mesma, com lentidão. Toda vez que o cabriolé é obrigado a parar, estranhos espiam os passageiros lá dentro. Uma garota de chapéu de palha sobe no estribo e oferece buquês de flores. Armand insiste para que Jean-Baptiste compre os dois maiores, os mais bonitos. O cemitério está a milhas de distância; suas covas, seus muros ósseos, não passam de frutos da imaginação, algum velho problema do qual finalmente estão prestes a se verem livres. Por que não continuar assim? Uma mera semana, e estariam na Provence, deixando-se banhar pelo calor do sol. Ou cruzando os Alpes até Veneza! Os quatro numa gôndola, passando sob a Ponte de Rialto...

O cabriolé para diante da escadaria do teatro. Os dois casais se juntam à multidão que se espreme entre as colunas brancas. Jean-Baptiste jamais esteve no Odéon (que acaba de completar quatro anos). Também jamais esteve na Comédie-Française ou em qualquer outro grande teatro. A última vez que viu uma peça foi um daqueles espetáculos toscos encenados duas vezes por ano em Bellême por companhias de atores itinerantes que chegam ruidosamente (aos berros, tocando trompas de caça) e partem em silêncio (levando galinhas roubadas, maçãs surrupiadas e a honra de algumas raparigas locais).

Isso... bem, isso mais parece Versalhes, embora, é claro, seja menos teatral. Os quatro são conduzidos ao camarote que lhes cabe por um lacaio vestindo uma libré lavanda apertada que, com deselegância e atrevimento, não arreda pé enquanto não embolsa sua gorjeta. O camarote é apertado e não oferece uma boa visão do palco. O urinol lá atrás não foi esvaziado. Os pavios das velas não estão aparados, e uma das cadeiras dá a impressão de ter, ao longo de um espetáculo recente, sofrido um início de incêndio. Nada disso importa; a euforia deles é inquebrantável. O lacaio, feliz com o tamanho da gorjeta, sai para providenciar vinho e...

— O que tem para comer? — pergunta Armand.

— O que desejam? Laranjas? Galinha assada? Ostras?

— Sim — responde Armand. — Tudo isso.

O teatro começa a se encher. O alarido cresce. Os espectadores chamam uns aos outros, fazem sinais com chapéus e leques. Algumas mulheres cacarejam como galinhas. Um arranca-rabo tem início próximo ao pé do palco.

— Amigos do autor — explica Armand, do alto da sua experiência. — Inimigos do autor.

O lacaio de libré lavanda entra. Um sujeito é levado para fora, agitando pés e braços como um besouro caído de costas.

— O ministro está aí — diz Jean-Baptiste baixinho. — No camarote em frente ao palco.

— O sujeito com cara de machadinha? — indaga Armand.

— Ele mesmo — responde Jean-Baptiste. — Mas não fique olhando. Não quero que ele mande me chamar.

— Você tem tanto direito quanto ele de estar aqui — observa Héloïse.

— Ainda assim — diz Jean-Baptiste —, não quero pensar nele esta noite.

Os quatro se recostam em suas cadeiras. Atrás da cortina, os músicos afinam seus instrumentos. O engenheiro não menciona o outro homem presente no camarote do ministro, o jovem de casaco cintilante. O nome de Louis Horatio Boyer-Duboisson nada significaria para os demais.

* * *

Primeiro, tem lugar uma frenética pantomima; depois, vêm um longo intervalo e, finalmente, a peça. Sob a luz de quinhentas velas, a plateia assiste atenta, inquieta, meio entediada. O engenheiro, Armand, Héloïse e Lisa Saget chupam laranjas, roem ossos de galinha condimentada, jogam os ossos sob as respectivas cadeiras. Jean-Baptiste acha a peça indefinível, às vezes desconcertante. Quem é, exatamente, Marceline? Como Suzanne pode não se casar com Fígaro? E quem se esconde naquele armário? Héloïse, com os lábios grudados em seu ouvido, pacientemente explica tudo. Ele assente. Observa a plateia, observa os outros espectadores observarem. Mortos, despidos de suas penas e leques, das espadas, bengalas, fitas e joias, nus em pelo e empilhados como bacon, será que não seria possível fazê-los caber numa única cova? O pensamento brota em sua cabeça, perturba-o, e ele o afasta.

Mais uma galinha chega, e mais vinho, e amêndoas com gosto de serragem perfumada. O engenheiro está embriagado. Ajoelha-se para usar o urinol nos fundos do camarote, urina em cima da urina fria de outrem e retorna a seu lugar para descobrir que Suzanne, afinal, vai se casar com Fígaro.

— Então, todos vão ter o que queriam, não? — indaga, mas sua pergunta se perde no barulho de aplausos e na algazarra geral. Com cuidado, ele se inclina para a frente a fim de ver se o ministro gostou da peça. O ministro está de pé. A seu lado, Boyer-Duboisson sussurra em seu ouvido. O ministro ri. Boyer-Duboisson se afasta, também rindo. Na plateia, os espectadores se empurram para passar pelas portas como água com espuma correndo para o ralo. O ministro, ainda rindo, pousa a mão no peito, parecendo querer recuperar a seriedade, e olha à volta, encontrando, casualmente, o camarote de onde Jean-Baptiste o observa. Terá visto o engenheiro? O seu engenheiro? Acaso se lembra do rosto dele? Ainda assim, não consegue parar de rir. É como se nada menos que a morte fosse capaz de pôr fim a tamanho surto de hilaridade.

Impossível, quando saem, encontrar um cabriolé. Caminham pelas ruas pequenas, quase indiferentes à direção que estão tomando. Descobrem-se, assim (justo quando os sapatos das mulheres começam a incomodá-las), na Ile de la Cité, onde comem tripas servidas numa carrocinha junto aos muros da Conciergerie, alugando depois um esquife que os conduz pela longa faixa negra do rio até os degraus sob a Pont Neuf.

Sobem, aos tropeços, esses degraus traiçoeiros e se veem na rue Saint-Honoré, onde, depois de abraços e promessas de repetir o encontro — logo! logo! —, os dois casais finalmente se separam.

Em casa, Jean-Baptiste acende uma vela e, com Héloïse às suas costas, ambos bocejando exageradamente, começa a subir a escada para o quarto. Quando passam pela sala de estar, a porta se abre. Marie sai.

— Uma moça veio procurar o senhor — diz ela.

— Uma moça? — pergunta Jean-Baptiste. — Que moça?

— Bem, não era Ziguette — responde Marie, sem conseguir conter um riso nervoso. À sombra da vela, seu rosto mais parece uma máscara enfiada às pressas.

— Talvez seja melhor — alerta Jean-Baptiste — não deixar que Monsieur Monnard saiba que você andou bebendo o vinho dele, embora só Deus saiba como conseguiu se embebedar com ele.

— O senhor é um cavalheiro — diz ela, antes de virar-se para Héloïse. — Quando a senhora não morava aqui, ele falava sozinho a noite toda. Resmungos, resmungos, resmungos. Fazia a pobre da Ziguette subir pelas paredes.

Marie funga. Héloïse se aproxima e toma suas mãos nas dela.

— Mas quem era a moça? — indaga. — A moça que veio até aqui?

— Ah, eu mandei embora — responde Marie. — Ele agora tem a senhora, não é mesmo?

— É — responde Héloïse baixinho. — Tem.

Ele havia pretendido — planejara isso enquanto deslizavam pelo rio — passar a noite, ou boa parte dela, devorando sua Héloïse, mas, pouco depois de se deitar na cama (deitou-se de lado para vê-la despir-se e ouvi-la especular sobre a identidade da misteriosa visitante), adormece, e, pela primeira vez desde a agressão, começa a sonhar.

Está de volta ao teatro, andando sobre o tapete vermelho puído no corredor margeado de camarotes. Procura o camarote do ministro. Tem um recado para ele, um recado importante, que precisa ser entregue pessoalmente, mas as portinhas de madeira polida não têm números, e não há a quem perguntar. Então, ao típico estilo repentino dos sonhos, vê alguém, uma figura magricela encostada à parede sob um candelabro... Renard? Renard, o enjeitado? Não há dúvida. O pescoço esquelético envolto numa gola de pele engordurada, um leve ricto de tensão no rosto. Ele faz uma reverência para Jean-Baptiste e aponta para a porta à sua frente, virando-se e se afastando apressado pelo corredor vazio. Silenciosamente — sem bater ou arranhar —, Jean-Baptiste abre a porta e entra sem fazer ruído. A única iluminação é uma luz baça, vermelha e pulsante, como se oriunda de um incêndio nas poltronas da plateia, mas ela é suficiente para deixá-lo ver o ministro e Boyer-Duboisson, suas cadeiras lado a lado na frente do camarote. Será que realmente não o ouviram entrar? Estarão tão concentrados? Do bolso, ele tira o recado. Um recado com peso, ponta e lâmina. Chega por trás da cadeira do ministro e tapa com delicadeza, porém de forma decidida, os olhos do homem, sentindo na mão o adejar de suas pálpebras. Chega de nervosismo. Basta de desassossego. Ele é um garoto do campo; já cansou de ver esse tipo de coisa; sentou-se com o irmão para observar o matador de porcos nos campos invernais com suas cordas, suas lâminas enroladas num pedaço de lona. Quando põe mãos à obra, os pés do ministro se debatem como os de uma criança agitada...

Quando acorda, emergindo à superfície de si mesmo como se atirado num lugar ainda mais confuso que o sonho, ele tenta se explicar, se desculpar. Olha para as mãos, para os lençóis, mas tudo está absolutamente limpo, impecavelmente normal. Héloïse está tentando despertá-lo. Ele pisca, balbucia, sonolento, mas ela não o escuta. Está tentando lhe dizer alguma coisa, quem sabe querendo falar do próprio sonho.

— Calma — diz ela. — Calma, Jean. Venha. Estão esperando você.

Ele se senta na cama. Marie, parada à porta, segura uma vela. Não está usando roupas de dormir. Atrás dela, uma corrente de ar frio e indolente sopra do corredor.

Héloïse lhe entrega o culote. Obediente, ele o veste. Estranha o fato de não conseguir acordar por completo. Estará doente? É isso? Uma ostra estragada que comeu no teatro? A galinha? Não. Ele não sente enjoo.

Ajoelhada, Héloïse abotoa as pernas do culote. Ele abotoa o colete. O relógio está no chão, junto à cama. Ele se inclina para pegá-lo, abre a tampa.

— São quatro e meia da madrugada — diz, observação que deveria gerar algum tipo de explicação, mas não gera.

— Muito bem. — Põe-se de pé, passa uma das mãos no rosto, aceita o chapéu que lhe estende Héloïse e, depois, segue Marie pelo corredor. Não lhe faz pergunta alguma. Conhece a criada o suficiente agora para saber que é bem provável que ela simplesmente invente alguma coisa.

No piso abaixo, Monsieur Monnard, com a touca de dormir malposta, está de pé à porta do quarto.

— Será que nunca mais teremos paz? — indaga com voz rouca, meio lacrimosa talvez. — Minha esposa, monsieur, minha esposa está muito...

— Volte para a cama — diz Jean-Baptiste.

No hall de entrada, um sujeito alto e esquálido aguarda, inquieto, no escuro. Jean-Baptiste pega a vela da mão de Marie e a ergue para enxergar.

— Ele não fala francês — explica Marie.

— É claro que fala — atalha Jean-Baptiste, mas, quando Jan Block começa, apressado, a tentar explicar o que faz ali às quatro e meia da manhã, só com muita dificuldade e recorrendo ao seu estoque pequeno, mas gradualmente crescente, de flamengo é que o engenheiro consegue acompanhar suas palavras. Houve um acidente no cemitério. Sim. Um acidente ou incidente de algum tipo. Jeanne foi ferida. Monsieur Lecoeur está cuidando dela... Não. Monsieur Lecoeur não está cuidando dela. Monsieur Lecoeur, com efeito... o quê? Fugiu?

— Já chega — diz Jean-Baptiste, pondo a vela na mesa da entrada e se dirigindo à porta. — Vou ver pessoalmente.

Do lado de fora, um vapor leitoso pré-aurora paira na rua, algo que lembra a pele descascada de uma nuvem, úmida, miasmática, cobre-lhe o rosto de gotículas de orvalho. Block já alcançou a esquina. Olha para trás, insistindo em silêncio para que o engenheiro se apresse.

— Nem morto vou sair correndo — diz Jean-Baptiste, embora mais para si mesmo que para Block. Tenta imaginar que tipo de acidente pode ter ocorrido com Jeanne no meio da noite. Quanto a Lecoeur, por que o safado teve que sumir? Ou será que Block quis dizer que ele saiu em busca de ajuda? Quem sabe até para encontrar Guillotin ou Thouret. Isso, afinal, faria algum sentido, embora, mesmo enquanto entretém essa ideia, ele saiba que a verdade é bem diferente.

O portão do cemitério, quando lá chegam, está escancarado, mas uma vez lá dentro tudo parece normal. A fogueira junto à cruz do púlpito arde como tem ardido há semanas. A igreja projeta a mesma sombra imponente de sempre. Então, ele vê, para os lados do ossuário sul, o movimento de tochas, ouve a algaravia de vozes masculinas.

Block corre nessa direção. Jean-Baptiste, murmurando impropérios, sai a passo acelerado atrás do mineiro. Os homens estão reunidos entre o ossuário e a casa do coveiro. Block fala com eles, e eles se calam, o encaram, olham para além do colega e veem o engenheiro. Então, a conversa recomeça, em tom mais alto agora, mais urgente. Alguns apontam para o ossuário, acenam com as mãos, com os punhos. Jean-Baptiste nunca os viu assim. Quanto a Block, perdeu-o de vista. Vê Jacques Everbout e lhe pergunta onde está Jeanne.

— Em casa — responde Everbout.

Em casa. É claro. Onde mais ela estaria? Assente para Everbout, dá uma ordem totalmente desnecessária para que os homens permaneçam onde estão e depois se dirige para a casa. Não deu mais que cinco passos quando se sente cair na grama escura, os braços se agitando no ar. Põe-se de pé e olha para ver o que o fez tropeçar, estende a mão para identificar o objeto. Será um saco de cal que algum idiota descuidado largou na grama? Então, seus dedos tocam cabelo, textura áspera de pele. Assustado, retira a mão. Um cadáver! Felizmente, graças a Deus, não é recente. Uma das garotas mumificadas? A Charlotte de Guillotin? Por que aqui?

Mais dez passos, e ele chega à casa do coveiro. Há um lampião na cozinha, e, à sua volta, um pouco da bruma reluz como uma nuvem azul. Jeanne — embora não fique óbvio tratar-se de Jeanne — está deitada sobre a mesa da cozinha. Um cobertor a protege. Seus olhos estão fechados. O avô está a seu lado, alisando-lhe a testa. Faz um som grave, mas terrível, um lamento agudo que se poderia esperar que brotasse da garganta de algum animal cujos filhotes tivessem sido levados pelo fazendeiro. Ao ouvir movimento às suas costas, o velho pisca os olhos embaçados e entreabre os lábios, mostrando os dentes estragados.

— Sou eu — diz Jean-Baptiste —, o engenheiro.

O coveiro gesticula. Um show de mímica, uma pantomima. Ele é absolutamente incapaz de encontrar palavras. Jean-Baptiste se aproxima da mesa. Um quarto do rosto da moça sumiu sob o inchaço do olho esquerdo. A boca... A boca deve ter sido golpeada várias vezes. Com um punho? Uma bota? Alguma ferramenta? Quaisquer outros ferimentos que tenha — e Jean-Baptiste não duvida que existam — se encontram escondidos sob o cobertor. Felizmente, pensa o engenheiro.

Ele se inclina, sussurra o nome dela. O olho machucado não se abre, mas o outro, sim. Ele se abre e encara o engenheiro, sem expressão alguma. Jean-Baptiste toca o ombro da moça, e todo o seu corpo se encolhe. Ele retira a mão.

— Lecoeur? — indaga.

O olho desinchado lhe diz que sim.

— Ele... ele atacou você?

E o olho lhe diz que sim.

— Vou buscar o médico — diz ele. — Vou buscar algumas mulheres. Vou mandar buscar Lisa.

O olho se fecha. Ele sai. Já clareou bastante, mas a bruma permanece no ar, grossas madeixas dela enroscadas nas grades das galerias que contêm o ossuário. Ao lado da porta da casa, uma pá com a lâmina em formato de coração está encostada à parede. Ele a pega — o cabo amaciado pelo uso — e caminha em direção aos homens. O primeiro que encontra é o alto, aquele que perdeu metade de um dedo. Pergunta-lhe se Monsieur Lecoeur está no ossuário.

— Está — responde o mineiro com serenidade. Então, quando já vai se afastando, o mineiro toca em seu braço para detê-lo. — Ele tem uma pistola.

— Eu me lembro — diz Jean-Baptiste. Por um instante, sente a tentação de pedir ao mineiro para acompanhá-lo, sente o desejo de ter a calma e a força do outro a seu lado. Depois se põe a caminho sozinho, passa pela oficina dos médicos e chega à primeira galeria do ossuário. Penetra a gélida imobilidade do lugar, para, vira a cabeça, aguça a audição. Do lado de fora, os homens se aquietaram. Também aguçam a audição.

Ele avança: é impossível, sem iluminação alguma além da que lhe oferece a escuridão que começa a se desfazer, caminhar sem fazer barulho num solo como esse. Há detritos demais. Pedras, pedaços de ossos, quem há de saber o que mais. Não resta esperança de surpreender Lecoeur, de surgir à sua frente de maneira imprevisível. Jean-Baptiste resolve anunciar-se.

— Lecoeur!

Ouve o eco, mas nenhuma resposta.

— Lecoeur! É Baratte!

Nada.

Ele prossegue, confiando tanto na memória do lugar quanto em seus olhos. À direita, as arcadas se destacam, num azul baço e luminoso, contra o negrume empoeirado da galeria. De um jeito ou de outro, será a claridade a responsável por encerrar tudo isso. A claridade fará dele um alvo. A claridade não permitirá que Lecoeur se esconda. E depois, quando Lecoeur for capaz de enxergá-lo? O único motivo que consegue imaginar para que Lecoeur não atire é o fato de saber que não terá tempo para recarregar a pistola antes da chegada dos mineiros.

Ele olha para trás, calcula o número de galerias. Logo esbarrará no portão que dá para a rue de la Ferronnerie, o portão onde as carroças aguardam para receber sua carga. Será por isso que Lecoeur foi naquela direção? Para chegar de forma mais furtiva até a saída? Pode ter pegado a chave na casa do coveiro, estando com ela no bolso quando atacou Jeanne, a fuga já planejada antes que o crime fosse cometido.

Segurando firme a pá numa das mãos, o engenheiro procura o muro com a outra, os dedos sentindo as inscrições, depois a pedra áspera e, sem dúvida, as arestas torneadas de uma dobradiça. Tateia em busca do aro de ferro da maçaneta, gira-o, puxa, volta a puxar com mais força. O portão está trancado. Ou Lecoeur teve a frieza, a presença de espírito, de trancá-lo depois de sair ou ainda se encontra ali, no cemitério, no ossuário.

Está prestes a tornar a gritar seu nome — seus nervos já se cansaram desse jogo de esconde-esconde —, quando percebe movimentos às suas costas. Alguém, alguma coisa, se aproxima, se aproxima com passos seguros, inquietos e rápidos. Seu primeiro pensamento é que não se trata de Lecoeur, mas da coisa de que falou o ministro, o cão-lobo. Não seria esse o momento ideal? Um homem sozinho na noite depois de invadir seu hábitat secreto? Seja o que for, o engenheiro não tem esperança de evitá-lo. A energia derivada do propósito de enfrentá-la já o domina por completo. Ele gira a pá, ergue-a cegamente na escuridão, enquanto, ao mesmo tempo, ouve uma voz trovejar em seus ouvidos:

— Violador!

A força do esbarrão quase desequilibra Jean-Baptiste, que recua, vacilante, até colidir de costas com o muro. Então, apoiando-se nas pedras, ele golpeia três ou quatro vezes o escuro com furor, mas não há um segundo ataque. Ele espera, o coração disparado de encontro às costelas, e depois avança a passos cautelosos, empunhando a pá como se fosse uma estaca. Ouve sob o pé esquerdo um estalido de vidro quebrado. Abaixa-se, toca um pedaço de arame, um caco de vidro liso. Óculos! Dá mais um passo e vê, ao lado de uma das colunas da arcada mais próxima, a silhueta da cabeça de um homem. Aproxima-se mais, encosta a pá no peito do homem e sente o movimento da sua respiração.

— Quem era?

O engenheiro se vira de um salto, a pá a postos.

— Quem você atingiu?

— Lecoeur? Onde você está? Não consigo ver.

— Não se preocupe com isso. Estou vendo você muito bem. Meus olhos já se habituaram ao escuro.

— Era o padre.

— Colbert?

— Isso.

— Ele está morto?

— Não.

— O que usou para atacá-lo? O que é isso que você está segurando?

— Uma pá.

— Ah! Ele confundiu você comigo, talvez. Ou, pensando bem, é possível que não.

A julgar pela voz, é evidente que Lecoeur não está a mais de quatro ou cinco metros de distância, embora, de certa forma, pareça estar falando de dentro do muro.

— Você machucou Jeanne, Lecoeur.

— Machuquei?

— Você sabe disso.

— E você?

— Eu o quê?

— Você também não a machucou? Não abusou da sua natureza prestativa? Tornou-a sua criatura. Não a obrigou a assistir à destruição do seu pequeno paraíso?

Ele já se situou agora. Lecoeur deve estar sentado ou agachado num dos degraus que levam até o ossuário superior. Uma boa escolha. Um posto fácil de defender. Escuro até mesmo à luz do dia.

— Eu não a estuprei — diz Jean-Baptiste.

— Quer dizer que sou um pouco pior que você. Parabéns. É tudo uma questão de gradação, Baratte. E posso lhe assegurar que ela não era nenhuma santa. Morei na mesma casa que ela. Conheci a moça.

— Se os homens puserem a mão em você...

— Que homens? O que você sabe sobre os homens? Você não sabe coisa alguma sobre eles.

— Acho que não lhe farão mal se eu estiver com você.

— Você será o meu protetor? E o que virá depois? Um julgamento? Ou eu serei mandado para onde foi a maluca que partiu sua cabeça? Onde é mesmo?

— Dauphiné.

— Para que você me trouxe para cá, Baratte? Será que não podia me deixar apodrecer em Valenciennes? Por acaso acha que me ajudou?

— Então me deixe ajudá-lo agora.

— Seu idiota! Você não consegue nem ajudar a si mesmo. Olhe para você, no meio de um cemitério fedorento com essa pá, imaginando se pode chegar perto o bastante para me bater com ela. Quando chegou para trabalhar na mina, você era um sujeito terno. Tímido como uma garota. Quando pus os olhos em você, pensei... pensei que finalmente ali estava um homem com quem eu podia abrir meu coração.

— Este não é o momento, Lecoeur.

— Fomos amigos.

— Não me esqueci.

— Será que não havia nada de valioso nessa amizade?

— Está clareando. Isto não pode durar muito tempo mais.

— A claridade! Sim, a claridade. Me diga, então. Ela vai sobreviver?

— Sim, acho que sim.

— Já houve alguma bondade em mim um dia — diz Lecoeur com firmeza. — Não permita que digam o contrário.

Faz-se uma pausa de vários segundos — densa, carregada de silêncio oco. O engenheiro não se mexe. Espera, a silhueta delineada pela claridade que aumenta. O tiro, quando soa, é ao mesmo tempo ruidoso e abafado, como se numa das criptas um grande machado de pedra fosse atirado de encontro às lápides. Eco, reverberação, silêncio.

O engenheiro dá um passo à frente.

— Lecoeur? Lecoeur?

Não espera resposta.