Puro
Capítulo 7
Héloïse Godard, leitora, mulher de aluguel, filha de estalajadeiros da estrada Orléans— Paris, uma jovem recém-entrada em seu vigésimo quinto ano de vida, embora ainda não de todo quite com seu longo projeto de degradação, se levanta com as seis badaladas matinais do sino de Saint-Eustache, veste-se por tato (das meias brancas à fita verde amarrada ao pescoço), acende a vela para uma breve inspeção final do resultado, torna a apagá-la e desce a escada de madeira em caracol até o mundo público da rue du Jour.
É sempre um pequeno choque estar novamente ali fora, sempre um retesamento do que quer que seja que, ao longo da noite, enquanto ela dormia sozinha em sua cama, se suavizou, cedeu... Fecha mais a capa para se aquecer, põe o capuz, inspira o ar frio.
Marcou um encontro com Boubon, o cesteiro, em sua oficina no extremo oposto do mercado. Boubon é viúvo e um homem que, como Ysbeau, o livreiro, e Thibault, o alfaiate, não se encaixa — como acontece com ela — facilmente entre os vizinhos. Esta será sua oitava visita a ele. Os homens que ela visita — não são muitos —, ela visita regularmente, nos dias marcados, nos horários marcados. Seu comércio não é de varejo. Toda aquela conversa de que ela vai com qualquer um que acene com uma moeda debaixo do seu nariz não passa de mentira. Na maioria dos casos, não foi ela quem abordou os cavalheiros, e mesmo então nada foi explicitamente dito. Aprendeu a ser muito profissional, embora sem jamais tocar especificamente no assunto. Em sua opinião, esse é o principal motivo para gostarem dela: sua disposição para jamais confrontá-los com o que estão fazendo, o que estão comprando, com as suas necessidades. E aquilo de que eles precisam não é exatamente o que excita a imaginação vulgar do bairro. No caso de Boubon, por exemplo, ela se sentará em seu joelho em meio a freixos e hastes de salgueiro. Ele lhe falará do seu ofício, reclamará das dores nas costas, nas coxas. Ela ouvirá, com toda a atenção e ternura, antes de dar algum conselho e algum consolo, como faria uma esposa. Mais tarde, ele há de admirar a parte de cima de suas meias, correndo um dedo rombudo e calejado pelas ligas de lã enquanto ela pergunta de novo qual é a diferença entre trançar e tecer, e exatamente qual é a distinção entre arremate e sutache. Nada disso é especialmente desagradável. Sem dúvida é tolerável. Quase sempre. Então, quando vestido, corpete e combinação tiverem voltado a seus devidos lugares, os dois tomarão café preparado no fogão da oficina e ela pegará o dinheiro que lhe foi deixado no nicho junto à porta (não é uma daquelas assanhadas do Palais Royal que nada fazem ou dizem sem receber primeiro o pagamento) e sairá porta afora, rápida e silenciosamente, deixando ambos aliviados por não terem de pensar mais no assunto até a semana seguinte.
Mas, antes de Boubon, ela precisa comer. Não se pode atravessar o mercado de manhã sem parar para desjejuar. Apenas o ar — apesar dos pesares — já basta para despertar a vontade. Por isso, ela para na barraca de Madame Forges (a mesma Madame Forges que tinge o cabelo da cor de um pano de açougueiro), compra uma broa pequena e quente como sangue e vai arrancando pedacinhos da casca enquanto caminha. A essa hora da manhã, mal é notada, e muito raramente ofendida. Até Merda, o bêbado, escarrapachado num degrau devorando uma cebola, não faz mais que lhe lançar um olhar brando. Para poupar alguns minutos, ela corta caminho por dentro de um armazém de peixes e vê o velho padre com seus óculos azuis discutindo com uma vendedora o preço de uma cabeça de bacalhau. A mãe da garota talvez oferecesse a mercadoria de graça a um pobre padre — a avó, com toda certeza —, mas os tempos mudaram. Ninguém precisa mais reverenciar padres. Atualmente, um bocado de gente se dispõe a zombar de coisas como Céu e Inferno e anjos e demônios. E não são apenas os intelectuais no Café de Foy ou no Procope que fazem isso. Muita gente comum também. Gente como a menina peixeira, talvez. Gente como a própria Héloïse.
Ela segue o padre na direção da saída do armazém, perde-o de vista na primeira multidão do dia, toma o rumo da rue de la Fromagerie, atravessa o extremo sul do mercado e chega à esquina da rue aux Fers. Acima dos muros do cemitério — como sempre nos dias que correm, nos dias e nas noites, aliás — vê as espirais de fumaça das fogueiras. Hoje, porém, há algo mais para ser visto, algo novo. Letras negras no muro do cemitério. Altas, denteadas, impossíveis de ignorar. Letras que se estendem da porta do cemitério até quase a rue de la Lingerie: “REI GORDO RAINHA VADIA CUIDADO! BECHE ESTÁ CAVANDO UM BURACO GRANDE O BASTANTE PARA ENTERRAR VERSALHES INTEIRO!”
No meio da rua, homens e mulheres olham, discutem, tentam entrar num acordo sobre o que está escrito ali. Eles entendem “rei” e “rainha”, “vadia” e “Versalhes”. Quanto ao restante, há menos certeza. Ela poderia lhes dizer, é claro, mas ninguém haveria de querer escutá-la, uma mulher, aquela mulher.
Todos partem (ainda discutindo), e ela está prestes a fazer o mesmo (não pretende deixar Boubon ansioso; ansiedade ele já tem de sobra), quando vê, saindo da rue de la Lingerie, o jovem engenheiro, aquele que em meio à bruma chamou a si mesmo com aquele nome rabiscado no muro. Aquele que tocou seu rosto. Ele a vê. Então, um segundo depois, vê as letras negras, lê, se retesa visivelmente e, com o rosto afogueado, se aproxima dela e diz:
— Não sei do que se trata.
Ela assente, depois parte um pedaço do pão e estende a mão para entregá-lo a ele, que o aceita, quase o arrancando dela, enfiando-o rapidamente num dos bolsos do casaco e se afastando apressado.