79 Park Avenue
Capítulo 8
O telefone começou a tocar no momento em que Marja chegou aporta.
— Deixe, que eu atendo, Sr. Rannis — disse ela — É Para mim.
Ela fechou a porta da cabina e atendeu.
— Alô.
— Marja? — perguntou a voz de Ross.
— É, sim.
— Quem fala é Ross.
— Eu sei.
— Que é que está fazendo, Marja?
— Nada. O calor está demais.
— Quer dar um passeio? Desceremos a Riverside Drive. Lá é fresco.
— Está bem.
— Vou pegá-la aí. Espere por mim.
— Não — disse ela, hesitando. — Tenho de ir para casa antes trocar de roupa. Meu vestido está encharcado. Vamos marcar noutro lugar.
— Na garagem, então. Eighty-Third Street, entre a Park e a Lexington. Vai demorar?
— Meia hora. Até já.
— Até já.
Ouviu o ruído do receptor desligando. Saiu da cabina e encontrou o velho Rannis, que a esperava, olhando-a desconfiado.
— Quem era?
— Uma amiga — disse ela vagamente, encaminhando-se para a porta.
— Quer chocolate? — perguntou ele, estendendo a mão para fazê-la parar.
— Não, muito obrigada.
Continuou a andar, mas a mão dele fechou-se sobre seu braço.
— Estou lhe oferecendo de graça — disse ele.
— E só podia ser de graça mesmo, porque estou lisa — disse ela, puxando o braço. — Mas não posso mesmo demorar; minha mãe está me esperando.
— Está bem. Mas não se esqueça, Marja. Se quiser alguma coisa, é só pedir.
— Obrigada, Sr. Rannis — disse ela, abrindo a porta. — Não me esquecerei.
Katti estava chegando à porta do prédio no momento em que Marja começou a subir a escada da frente. Ela ficou olhando os reflexos do sol nos cabelos da filha e, quando Marja chegou mais perto, disse:
— Alô, Marja.
— Alô, mamãe.
— Tudo bem na escola hoje?
— Claro — disse ela, olhando rapidamente para a mãe. — Que é que poderia ter acontecido?
Katti viu-se forçada à defensiva.
— Estou apenas perguntando.
Queria também pedir desculpas pelo que acontecera de manhã, mas as palavras não lhe saíram dos lábios.
— Aonde é que você vai? — perguntou Marja.
— Vou fazer compras — disse Katti. Era mentira, mas ela não queria que a ilha soubesse que ia submeter-se a um exame na clı́nica. — E você? Que é que vai fazer hoje à tarde?
— Vou estudar em casa de uma amiga — respondeu Marja. — Só vim aqui para trocar de vestido. Este está todo encharcado.
— Não faça barulho, Marja. O menino está dormindo e não quero que você o acorde.
— Fique descansada, mamãe.
Subiu para o apartamento e abriu devagar a porta. Tudo estava em silêncio. Entrou e ficou no meio da cozinha, escutando. Nenhum som. Foi pelo corredor até o quarto da frente e olhou.
O padrasto estava dormindo numa cadeira diante da janela aberta, com a cabeça caída para o lado e o jornal nos joelhos. Voltou na ponta dos pés pelo corredor, pela cozinha, e chegou ao quarto.
O bebê estava dormindo no berço. Ela abriu com todo o cuidado a porta do armário e tirou uma blusa e uma saia limpas. Colocou-as em cima da cama e, ao lado delas, roupa de baixo limpa. Tirou prontamente a blusa e a saia suadas e voltou à cozinha.
Abriu a torneira de leve para que caísse apenas um fio de água. Não queria fazer qualquer barulho que acordasse o padrasto. Tirou o sutiã e pendurou-o no espaldar de uma cadeira da cozinha. Num instante, ensaboou a parte superior do corpo. Em seguida, tirou o sabonete com um esfregão. Depois, lavou o rosto. Com os olhos fechados, para que o sabonete não lhe caísse nos olhos, estendeu a mão para pegar a toalha. O cabide mais peno dela estava vazio. Estendeu a mão tateante para o outro cabide.
Pegou a toalha e esfregou vigorosamente o rosto, enxugando depois debaixo dos braços e o resto do corpo. Tornou a botar a toalha no lugar e voltou-se para pegar o sutiã em cima da cadeira. Mas não o viu.
— Caiu, Marja — disse seu padrasto, entregando-lhe o sutiã. — Mas eu o apanhei para você.
Ela olhou por um momento, cheia de surpresa. Depois, pegou o sutiã, colocou-o em frente dela e disse sarcasticamente:
— Obrigada. Deve ter feito tanto barulho quando caiu, que o acordou.
Ele sorriu, sem dar atenção ao tom de voz dela.
— Sua mãe era assim como você, quando era moça, lá em nossa terra.
— Como é que sabe disso? — perguntou ela. — Quando ela vivia lá, nem sabia da sua existência.
Quis passar, mas ele lhe barrou a frente, agarrando-a pelo braço.
— Por que você é tão má comigo, Marja?
Ela o encarou, com os olhos indiferentes.
— Não é por minha vontade, tio Peter. O que acontece é que está acima das minhas forças vê-lo andar o dia todo dentro de casa.
— E se eu arranjar um emprego — disse ele ansiosamente —, você passará a ser boazinha para mim?
— Talvez — murmurou ela com um olhar calculista.
— Poderemos então ser amigos de novo? — disse ele, puxando-a e tentando desajeitadamente beijá-la.
Ela virou o rosto, de modo que os lábios apenas lhe roçaram a face. Em seguida, desvencilhou-se dele, foi até a porta, voltou-se e disse de novo:
— Talvez.
A porta se fechou. Peter sentia as têmporas latejarem. Que cadelinha! Algum dia ele havia de mostrar-lhe o que acontece a quem provoca um homem. Foi então até a geladeira para pegar outra cerveja.
Katti estava sentada num banco entre duas mulheres e esperava sua vez de ser chamada para o exame. Já não demoraria muito. Só havia uma mulher à sua frente.
Num canto da sala, a jovem enfermeira sentada à sua mesa olhava as ichas à sua frente. Ao im de algum tempo, todos aqueles nomes esquisitos lhe saı́am tão facilmente da lı́ngua como se se tratasse de Smith ou de Jones. Quando isso acontecia, a pessoa sabia que era uma veterana.
Um interno parou junto à mesa e disse-lhe alguma coisa em voz baixa. Ela pegou as duas fichas que estavam em cima e disse:
— Sra. Martino, sala 4. Sra. Ritchik, sala 5.
Katti e a mulher sentada ao seu lado levantaram-se ao mesmo tempo e sorriram numa súbita simpatia mútua. Katti seguiu-a até a mesa da enfermeira.
A mulher recebeu a ficha que a enfermeira lhe entregou, encaminhou-se para uma das salas de consulta e puxou a cortina.
Katti deu o seu nome à enfermeira.
— Sra. Ritchik.
A enfermeira olhou-a sem curiosidade e entregou-lhe uma ficha.
— Primeira visita?
— Não. Já estive aqui. Quando meu ilho Peter nasceu.
A enfermeira sacudiu a cabeça com impaciência. Como aquela gente era difícil!
— Quero dizer desta vez.
— Sim, é a primeira visita.
A enfermeira pegou um vidro de boca larga que estava sob a mesa e entregou-lhe.
— Ponha a urina para exame aqui e entregue ao médico quando ele chegar.
Katti pegou o vidro e se encaminhou por entre os bancos repletos de gente para a sala marcada com o número 5. Fechou a cortina.
Tirou a roupa metodicamente e preparou-se para a chegada do médico. Quando terminou, tirou o roupão de algodão do cabide e vestiu-o. Sentou-se então num banquinho ao canto e ficou esperando.
Alguns minutos depois, bateram do lado de fora e uma enfermeira estudante apareceu, com um bloco de papel na mão.
— Sra. Peter Ritchik?
Seguiu-se então a lista de perguntas sem as quais a clínica não podia funcionar. A enfermeira só gastou com isso cinco minutos porque Katti tinha todas as respostas prontas, pois ainda se lembrava de tudo desde a última vez em que ali estivera.
A enfermeira tirou do bloco a folha em que escrevera e prendeu-a num gancho logo ao lado da porta. Saiu, mas voltou com outra folha de papel que colocou no gancho junto da primeira. Depois, sorriu para Katti e disse:
— O médico já vem.
— Obrigada — disse Katti e ficou de novo sentada à espera. Em geral, o médico levava mais de quinze minutos para aparecer.
Dessa vez, quase meia hora se passou até que a cortina fosse aberta e um médico aparecesse seguido de dois internos. Tirou os papéis do gancho, examinou-os rapidamente e perguntou:
— Sra. Ritchik?
— Sim, doutor.
— Sou o Dr. Block. Há quanto tempo está grávida?
— Um mês, talvez dois.
Ele não pôde conter uma expressão de aborrecimento. Aquela gente era tão negligente.
— Deite-se aí na mesa e vamos ver.
Ela subiu obedientemente na pequena mesa e colocou as pernas nos dois suportes próprios. A luz da lâmpada amarela do teto lhe incidia nos olhos, e ela piscou.
A voz do médico parecia flutuar acima dela.
— Aspire o ar com força.
Ela encheu os pulmões de ar e manteve-se perfeitamente imóvel diante da intrusão dos dedos pesquisadores do médico. O toque foi leve, eficiente e não demorou muito. Ela quis levantar-se, mas a pressão da mão do médico no seu ombro fê-la permanecer deitada. Ficou tranquilamente à espera.
O médico levantou o lençol até que os olhos dela ficaram protegidos da luz. Falou calmamente com um dos internos.
— Cesariana no último parto. Trompas de Falópio obstruídas. Será necessário de novo.
O lençol desceu e ela se sentou, olhando para o médico cheia de curiosidade.
— Por que ficou grávida, Sra. Ritchik? — perguntou ele. — De acordo com a ficha, foi-lhe recomendado que tivesse cuidado, pois outro filho poderia pôr em perigo a sua vida.
Ela encolheu os ombros. Aqueles homens nunca compreendiam essas coisas. Para eles, tudo era muito simples.
O médico saiu de junto dela e começou a lavar as mãos, ao mesmo tempo que falava, dizendo coisas que para ele eram de simples rotina e que sabia perfeitamente que não seriam observadas.
— Procure ter o máximo de sol, de ar puro e de descanso. Abstenha-se de qualquer relação durante dois meses pelo menos. Faça uma alimentação substancial com leite e suco de laranja. Vou lhe passar uma receita. Tome o remédio e venha de novo aqui no mês que vem.
— E quando é que a criança vai nascer, doutor?
— A criança não vai nascer de parto natural. Teremos de tirá-la.
O rosto dela continuou impassível. Sabia disso antes dele.
— Quando, doutor?
— Em novembro ou dezembro. Não poderemos deixá-la assim durante os nove meses.
— Obrigada, doutor — disse ela, calmamente.
O médico saiu então, seguido pelos dois internos em silêncio.
Katti levantou-se lentamente e pegou as roupas. Não era tão ruim assim. Poderia trabalhar até outubro. Abriram de repente a cortina e ela se cobriu com o vestido.
Era um dos internos. Sorriu, pedindo desculpas, e disse:
— Desculpe, Sra. Ritchik. Esqueci-me disto — disse ele, sorrindo e pegando o vidro com urina.
Depois, olhou-a e tornou a sorrir timidamente.
— Não se preocupe, Sra. Ritchik. Tudo vai correr bem.
— Obrigada, doutor — disse ela, sorrindo também.
O interno saiu e ela acabou de vestir-se. Depois, saiu e pagou à enfermeira os cinquenta cents da consulta cobrados pela clínica. Desceu o corredor até o dispensário e entregou a receita que o médico lhe dera.
Enquanto esperava que aviassem a receita, ficou pensando no que iria dizer a Marja. Ela certamente não compreenderia. Tomaria isso como outra afronta e ficaria magoada.
Chamaram-lhe então o nome e ela recebeu o remédio. Comprimidos. Teria de tomar três por dia. Guardou-os na bolsa e saiu. Na rua avistou as torres da St. Augustine.
Resolveu ir falar com o Padre Janowicz. Era um homem muito perspicaz e lhe diria o que devia fazer.