79 Park Avenue
Capítulo 20
Peter estava sentado à janela no escuro. Olhou para a rua. Marja já devia ter voltado para casa havia mais de uma hora. Sabia que naquela noite ela não iria trabalhar até tarde.
Esticou o pescoço para fora da janela. Duas pessoas vinham bem devagar pela rua. Uma era Marja.
E o homem que estava com ela era o tal Mike. Vinham enlaçados, um com o braço na cintura do outro. Sentiu um violento acesso de ciúme. Marja já era uma mulher. Naqueles últimos meses, ela havia mudado muito. Estava tão segura de si. Devia ser aquele emprego.
Tinha ouvido contar muitas histórias a respeito das garotas que trabalhavam em dancings. Era uma turma terrível. Lembrava-se de algumas que havia conhecido muito antes de casar-se. Na maioria, não passavam de prostitutas.
Teve vários pensamentos eróticos. Aquilo não era direito. Ele tinha visto Marja antes de todos eles. Ela não tinha o direito de tratá-lo como tratava. Andava pela casa quase nua, sabendo perfeitamente o que ele sentia.
O suor lhe inundava a testa. Foi até a cozinha escura e abriu a geladeira. Não havia mais cerveja, e ele ficou furioso. Lembrou-se então da garrafa de slivovitz no armário.
Pegou a garrafa, desarrolhou-a e levou-a à boca, sentindo a bebida descer-lhe queimando pela garganta e pelo estômago. O calor irradiou-se por todo o seu corpo e ele se sentiu forte e disposto a tudo.
Segurando a garrafa com todo o cuidado, foi até a sala e olhou pela janela. Não os via mais. Procurou ver se ouvia os passos de Marja na escada e nada.
Esperou quase dez minutos. Bebeu outro gole da garrafa. Ela não o enganava. Sabia o que estava fazendo lá embaixo. Esse pensamento o enfureceu. Que cadela! Todo mundo se servia dela menos ele. Ela zombava dele.
Teve uma ideia. Atravessou o apartamento e saiu pela porta da cozinha. Desceu as escadas em silêncio até o primeiro patamar e espiou pela balaustrada do corrimão para o térreo.
Viu-os num canto do vestíbulo. Marja estava com os braços passados pelo pescoço do rapaz e os dois estavam se beijando. As costas do rapaz escondiam Marja, mas ele sabia o que estavam fazendo. Era claro até pela maneira como estavam de pé.
Ouviu um riso abafado, e Marja se afastou do rapaz. Viu então o rosto dela. Os lábios pareciam intumescidos à luz amarelada do vestíbulo, e ela estava sorrindo.
— Amanhã? — ouviu Mike dizer.
— Amanhã, sim — disse Marja, rindo, feliz. — Começou a subir a escada, e Peter voltou mais que depressa para o apartamento. Esperou na porta da cozinha até ouvir-lhe os passos. Depois, atravessou o apartamento às escuras e foi até a sala da frente.
Sentou-se na cadeira do canto de onde podia observar a cozinha pelo espelho da parede. Sentia uma cólera violenta. Os músculos da barriga se contraíam convulsivamente. Tomou outro gole, e o líquido lhe escorreu até o queixo.
A porta da cozinha se abriu e a luz do corredor mostrou Marja, que entrava. Ouviu-lhe a voz.
— Peter?
Não respondeu.
— Está dormindo, Peter?
Prendeu cuidadosamente a respiração. A cadela podia pensar que ele estava dormindo. Não tinha que lhe dar satisfação do que estava fazendo.
Marja entrou na cozinha e foi no escuro até a porta do quarto dela. Um instante depois, a luz do abajur em cima da cômoda foi acesa no quarto.
Observou tudo atentamente. Ela pensava que ele estava dormindo porque não fechara a porta do quarto. Viu-a atravessar o quarto e começar a tirar o vestido. Ouviu-a cantarolar de longe. Sem dúvida alguma, a putinha estava muito feliz.
Estava agora só com a roupa de baixo. Levantou a cabeça. Ele prendeu a respiração, pensando que ela talvez tivesse desconfiado de que ele a espiava. Mas aparentemente não era nisso que ela estava pensando. Saiu do quarto para a cozinha e foi até a pia, desaparecendo da sua vista. Ouviu o barulho da água e continuou a esperar.
Ela tornou a aparecer, ainda cantarolando baixinho. Desabotoou o sutiã quando entrava no quarto. Viu-a coçar as costas, onde as alças apertadas haviam feito marcas. Foi depois para um canto do quarto peno do armário, e ele deixou de vê-la.
Levou a garrafa à boca e tomou outro gole. Depois, limpou a boca com as costas da mão. Sentia o coração bater descompassadamente. Ouviu passos e tornou a olhar.
Ela passou pela porta do quarto, com um quimono em cima do corpo. Não tinha mais nada em cima da pele. Saiu para o hall e ele a ouviu mexer na torneira. Compreendeu então que ela ia tomar banho.
Em geral, ela esperava que ele tivesse saído, mas devia pensar que estava dormindo. Sorriu satisfeito. Ela não era tão esperta assim. Ele era mais esperto do que ela.
Ela saíra para o corredor, deixando a porta entreaberta. Levantou-se prontamente da cadeira e foi até a cozinha na ponta dos pés. Escutou atentamente à porta por um momento. Ouviu o barulho da descarga no banheiro do corredor e olhou rapidamente em torno. Não tinha mais tempo de voltar para a sala da frente. Correu para o quarto dela e escondeu-se atrás da porta aberta.
Marja sentou-se na tina de lavar roupa que servia de banheira e deixou a água quente penetrar-lhe a pele. Algum dia, ela teria uma banheira de verdade, num banheiro de verdade. Estava cansada de tomar banho na cozinha e de ir à privada no corredor. Mas naquele momento o banho era agradável. Ensaboou-se com verdadeiro prazer.
Fechou os olhos e pensou em Mike. Ele era maravilhoso! Era estranho o que havia acontecido. O que ele a fizera sentir quando a beijara era exatamente como se dizia nos livros. O novo desejo que ela sentia era tão intenso que tinha havido um momento em que ela mal pudera sustentar-se em pé, tão fracas estavam suas pernas.
A água começou a esfriar e ela abriu os olhos. Era tarde e mais do que hora de estar na cama. Tirou a espuma do corpo e saiu da tina. Pegou a toalha no espaldar da cadeira e se enxugou vigorosamente. Podia sentir a pele rebrilhante e quente. Embrulhou-se na toalha e foi para o quarto.
Foi diretamente ao armário e pendurou o quimono. Tirou então a camisola do cabide e voltou-se para a cama, jogando a toalha no espaldar de uma cadeira. Tinha começado a passar a camisola pela cabeça a fim de vesti-la quando o instinto a fez olhar.
O coração ficou pequeno dentro do peito, e a dor súbita do medo lhe abalou o corpo. Peter estava de pé num canto do quarto. Ela abaixou os braços e colocou a camisola diante do corpo.
Ele deu um passo na direção dela, rindo idiotamente e estendendo a mão para ela, ao mesmo tempo que murmurava:
— Marja!
Ela fugiu dele para trás do berço. O medo se congelou numa fria cólera.
— Saia daqui! — disse ela, ferozmente.
Ele ficou parado, com o corpo a oscilar levemente. O suor, lhe escorria da testa e os olhos estavam vidrados. Passava constantemente a língua pelos lábios.
— Saia daqui! — gritou. — Saia, bêbado vagabundo!
— Por que é que tem essa raiva toda de mim, Marja? Eu gosto de você.
Deu um passo em direção a ela pela frente do berço, e Marja se afastou cautelosamente.
— Você me dá nojo! — exclamou ela. — Saia daqui!
O garoto acordou de repente e começou a chorar. Marja olhou instintivamente para o berço. Peter avançou rapidamente e segurou-a pelo braço antes que ela tivesse consciência disso. Puxou-a com força e tentou beijá-la.
Ela se debateu, procurando desvencilhar-se e afastando o rosto. Em dado momento, passou as unhas com toda a força pelo rosto dele.
— Largue-me! Canalha, imundo!
Peter agarrou a camisola que ela mantinha diante do corpo, enquanto as mãos dela lhe arranhavam a cara. Com um grito de dor, ele recuou, ouvindo a camisola rasgar-se. Ainda conseguiu agarrá-la com uma das mãos. Levou a outra ao rosto e tirou-a manchada de sangue. Ficou olhando apaticamente o sangue.
— E agora? Vai sair ou não vai? — perguntou ela, com o peito arfante.
Ele sacudiu a cabeça para livrar-se do torpor que o invadia e gritou:
— Cadela descarada! Você agora não vai mais me provocar! Vou lhe mostrar o que é um homem!
Ergueu a mão e deu-lhe uma bofetada em cheio no rosto. Ela saiu cambaleando e quase caiu no chão. Ele a acompanhou lentamente, com os olhos itos no rosto da moça.
Nos olhos dela não havia medo, mas um ódio selvagem. Ela encolheu as pernas por baixo do corpo. De repente, pulou em direção à cama, passando por ele estendendo a mão para pegar a faca embaixo do colchão.
Ele a pegou pelos cabelos, puxando-lhe a cabeça para trás, de modo que ela ficasse com o corpo meio arqueado na borda da cama. Ela viu a mão dele descer para seu rosto. Procurou torcer o corpo para evitar o golpe. Mas um clarão forte lhe explodiu no cérebro e ela caiu para a frente, procurando conter as lágrimas de dor que lhe vinham aos olhos.
Sentiu que as mãos dele lhe viravam o corpo. Dores fulgurantes percorriam-na toda. Sentiu o corpo oprimido como se um grande peso a esmagasse. Por fim, a última e mais aguda das dores lhe explodiu nas virilhas, e ela começou a deslizar quase contente para a escuridão que se fechava em torno dela. A última coisa de que teve consciência foi o choro da criança no berço ao lado.
Voltou a si lentamente. As sensações lhe voltaram ao corpo e com elas a dor. Tinha a impressão de que milhares de pequenas agulhas estavam enterradas em sua carne. Virou a cabeça cautelosamente.
A luz ainda estava acesa no quarto, e ela estava sozinha. Pouco a pouco, a memória foi voltando. Sentou-se na cama e um grito de dor lhe saiu dos lábios.
Viu as roupas de Peter no chão perto da cama. Foi dominada pela náusea e saiu correndo para a cozinha. A dor lhe atingia o estômago em ondas sucessivas, enquanto ela vomitava na pia. Afinal a náusea passou e ela se sentiu tomada de arrepios de frio.
Abriu a torneira da água quente e entrou na tina. Procurou desesperadamente limpar a pele com o sabonete, mas a sujeira que a cobria não estava na superfície. Estava bem dentro dela e de lá nunca mais iria sair.
Mas a água quente lhe atenuou um pouco a dor e ela afinal saiu da tina. Foi pingando água até o seu quarto e tirou uma toalha do armário. Enxugou-se e, depois, começou cuidadosamente a vestir-se.
Ficou em frente ao espelho e passou batom, penteando depois os cabelos para trás. Via no espelho o rosto imóvel e impassível. Só os olhos ainda tinham vida. Estavam cheios de ódio.
Foi até a cama e arrumou-a. A fronha estava ensanguentada. Trocou-a por uma limpa. Puxou bem o lençol e prendeu-o embaixo do colchão.
Ouviu um leve ruído no berço. O bebê estava molhado. Trocou a fralda. Enchendo uma mamadeira de água, colocou-a perto dos seus lábios. Em seguida, levantou o colchão e apanhou a faca.
Atravessou o apartamento em direção do quarto de Peter. Abriu a porta sem fazer barulho e olhou. Ele estava na cama todo encolhido. Ligou o interruptor, e o quarto icou inundado de luz. Peter nem se moveu. Continuou a dormir, com a respiração pesada e a colcha puxada até o pescoço.
Ela colou a faca perto do rosto dele e disse:
— Acorde, Peter!
Ele continuou dormindo. Deu apenas um ronco forte.
Marja bateu-lhe violentamente no rosto.
— Acorde!
Ele abriu os olhos quase imediatamente. Ficou por um momento absolutamente imóvel. Depois, viu a faca e seus olhos se encheram de terror.
— Que é que está fazendo, Marja? — perguntou com voz vacilante.
— Vim cumprir minha promessa, Peter. Lembra-se do que eu disse?
Ele a olhou, com medo de fazer o menor movimento.
— Você está louca?
— Estou tão louca quanto você — disse ela, sorrindo e passando violentamente a faca pelo rosto dele.
A carne se abriu como um melão maduro que estala ao sol. O sangue começou a correr abundantemente, enchendo o ferimento que se estendia das proximidades da orelha até o queixo. Ele deu um grito de agonia e pulou da cama, correndo para a porta, arrastando a colcha pelo chão.
Atravessou o apartamento e chegou ao corredor sem parar de gritar. Viu pela porta aberta que ela estava no seu encalço. Começou a correr pelas escadas abaixo. Tropeçou na colcha e rolou alguns degraus até o patamar seguinte.
Ela chegou ao alto da escada e olhou para ele. Ainda estava gritando. Fechou os olhos. Pouco tempo antes, vira a mãe estendida ali mesmo. Deu as costas e voltou para o apartamento.
Fechou a porta e foi até a pia. Abriu a torneira e lavou cuidadosamente a faca. Colocou-a em cima da mesa e sentou-se numa cadeira de frente para a porta. Era a mesma cadeira em que a mãe sempre se sentava quando ficava esperando que ela voltasse para casa.
Os olhos ardiam. Sentia-se cansada, muito cansada. As pálpebras se fecharam.
Bateram fortemente na porta. Ela abriu os olhos, nos quais havia vestígios de lágrimas.
— Entre — disse ela calmamente.
Foi assim que a polícia a encontrou quando entrou na casa.