79 Park Avenue
Maryann
Livro três
1
O engraxate estava esperando quando Henry Vito chegou ao seu escritório. O advogado entrou, jogou o sobretudo em cima do sofá de couro e sentou-se à sua mesa. Colocou o pé na caixa do engraxate.
— Bom dia, Tony.
— Buon giorno, Sr. Vito — disse alegremente o engraxate. Vito olhou para o jornal que estava em cima da mesa As manchetes da primeira página eram as mesmas da véspera. Na África do Norte, os alemães estavam recuando — ou avançando? De qualquer maneira, já estavam nisso havia várias semanas naquele ano de 1943. Jogou o jornal na cesta e começou a examinar a correspondência da manhã. Nada de importante. Trocou de pé na caixa do engraxate e olhou pela janela.
Do outro lado da rua havia um parque e, mais adiante, o edifício cinzento do Tribunal Criminal. Sentia-se como um gladiador olhando para a sua arena. Sentia-se assim desde quando era garotinho, no bairro italiano. Gostava de desafiar o símbolo da autoridade. Derrotar a lei era muito fácil. Torná-la ridícula dentro dos seus próprios padrões era divertido. E rendoso também. Libertar a consciência culpada dos seus laços legais era uma profissão lucrativa.
Ouviu uma batida na caixa, o que queria dizer que o lustro acabara. Jogou uma moeda para o garoto e tratou de trabalhar. O telefone tocou.
— Uma pessoa de nome Maryann Flood quer falar com o senhor — disse a recepcionista.
Não conhecia o nome e perguntou:
— Que é que ela quer?
— Cliente — respondeu a moça. — Diz que o recomendaram a ela.
— Quem?
— Diz que lhe dirá quando o senhor a receber. Disse também que paga bem e adiantado.
Vito sorriu. Fosse quem fosse aquela mulher, sabia o que estava fazendo.
— Mande-a entrar.
Pouco depois, sua secretária apareceu em companhia de uma jovem mulher.
Vito levantou-se, e a mulher se encaminhou para ele com a mão estendida. Vito apertou-lhe a mão. O aperto era firme e displicente como o de um homem. Mas havia nele um calor vibrante que fazia imediatamente sentir que se tratava de uma mulher.
— Obrigada por ter-me recebido — disse ela com voz baixa e bem modulada.
— O prazer é meu — disse Vito, apontando-lhe a cadeira ao lado da sua mesa. — Faça o favor de sentar-se.
A secretária apanhou o sobretudo no sofá onde Vito o havia jogado e saiu. Vito olhou para a mulher.
Usava um costume de tweed com um casaco da mesma fazenda e uma blusa de seda branca. As mãos eram benfeitas. Não tinha joias nem usava maquilagem, à exceção de um toque de batom nos lábios. Os olhos eram grandes, castanho-escuros, quase negros. Os cabelos louros apareciam sob uma boina creme.
Vito orgulhava-se da sua habilidade em analisar os clientes. Aquela moça era fina. Tudo nela o indicava. Com certeza, vinha falar do caso de um irmão ou de um parente que estava em dificuldades. Era desses casos que ele gostava, pois sempre rendiam bom dinheiro.
— Estou às suas ordens, Srta. Flood.
A mulher não falou imediatamente. Tirou um cigarro da bolsa e esperou que ele o acendesse. Ele assim fez, cada vez mais seguro do acerto da sua análise. Só as mulheres dos meios mais refinados tinham aquela maneira imperiosa de esperar que lhes acendessem os cigarros.
— Soube que é um bom advogado, Sr. Vito — disse ela. — O melhor de Nova York.
— Isso é muito lisonjeiro, Srta. Flood, mas não corresponde à verdade. Esforço-me ao máximo. É só.
— Tenho certeza de que faz muito mais do que qualquer outro pode fazer.
Notou a sombra de um sorriso nos olhos dela e ficou imediatamente na defensiva. Não ia deixar uma garota da sociedade zombar dele.
— Pelo menos tento, Srta. Flood — disse ele, dando calculadamente um tom de frieza à voz.
— Foi por isso que vim procurá-lo, Sr. Vito. Preciso de um advogado e quero o melhor.
— Por quê?
— Um amigo me telefonou hoje de manhã, dizendo que foi expedido um mandado de prisão contra mim e que vai ser cumprido hoje à tarde.
A voz dela era calma e sem qualquer paixão. Ele se espantou.
— A senhora vai ser presa? Qual é a acusação?
— Roubo depois de cometer um ato de prostituição.
Por um momento, não conseguiu dizer nada. Por fim, exclamou:
— Como?
Ela sorriu, repetiu a acusação e acrescentou:
— Foi por isso que vim procurá-lo.
Ele nunca errara tanto no julgamento de um cliente. Pegou um charuto e levou muito tempo a acendê-lo. Quando acabou, readquiriu o domínio de si mesmo.
— Conte-me o que foi que aconteceu — disse ele sem qualquer emoção.
— Eu estava no bar do Sherry ontem à noite, tomando um drinque antes de ir para a cama, quando o homem apareceu. Estava bêbado e insistiu em oferecer-me alguma coisa. Disse-me que era muito rico e tirou um grosso maço de dinheiro para provar o que dizia. Tomamos alguns drinques e fomos depois para minha casa, onde continuamos a beber. — A voz dela era calma como se estivesse falando do que acontecera a outra pessoa. — Ele saiu de minha casa por volta das quatro e meia da manhã. Deu-me vinte dólares e eu lhe dei um beijo de despedida.
— Que aconteceu depois?
— Fui dormir. Hoje de manhã, o telefone tocou. Era um amigo da polícia. Avisou-me que o tal homem aparecera lá e apresentara queixa contra mim.
— Tirou o dinheiro dele?
— Não. Ele tornou a guardar o maço no bolso depois de me dar os vinte dólares.
— Quem foi que lhe falou em meu nome, recomendando-me?
— O detetive Tenente Millersen, da delegacia da 54th Street. Conheço-o há cinco anos, e ele sabe que eu não seria capaz de fazer uma coisa dessas.
Vito conhecia Millersen. Era um bom polícia. Não lhe mandaria um mau caso, embora pudesse, também, estar enganado. Olhou firmemente para a moça.
— Tem certeza de que não pegou o dinheiro? Pode falar-me com franqueza. Pouco me interessa que tenha ficado com o dinheiro ou não. Tratarei do seu caso de qualquer maneira. Quero saber para mim mesmo.
A mulher olhou-o com os grandes olhos fixos. Levantou-se e tirou a boina. Sacudiu a cabeça e os cabelos lhe escorreram pelo rosto como ouro líquido.
— Sr. Vito — disse ela com sua voz rouca —, sou uma prostituta, mas não uma ladra.