79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 32 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 9

Entrou no vestíbulo do hotel e foi sentar-se numa poltrona num canto discreto. Abriu um número da Vogue que levara e começou a folheá-la displicentemente. Quem a visse, julgaria tratar-se de uma jovem bonita, queimada do sol e sadia que ali estava à espera do namorado. E era isso que ela estava mesmo fazendo... até certo ponto.

Alguns minutos passaram. Um boy parou diante dela e disse em voz baixa:

— Quarto 311.

— Quarto 311 — repetiu ela com um sorriso nos lábios.

— Isso. Ele já está esperando.

— Muito obrigada — disse ela, estendendo a mão.

— Não há de quê — respondeu o boy, segurando o dinheiro que ela lhe estava dando e afastando-se imediatamente.

Fechou devagar a revista e correu os olhos pelo vestíbulo enquanto se levantava. Tudo normal. O detetive do hotel estava olhando para o outro lado, os empregados da portaria estavam recebendo hóspedes novos e as outras pessoas que estavam por ali eram todas hóspedes. Satisfeita com essa rápida verificação, encaminhou-se para os elevadores. Não tinha nada com que se preocupar. Todas as providências tinham sido tomadas. Mac, o gerente do edifício, a havia orientado.

— Procure um lugar para operar — dissera ele. — Antes de mais nada, não se esqueça de pagar bem a todos os que puderem ter interesse no caso. Eles então a deixarão em paz e poderão até ajudá-la.

— Parece razoável — dissera ela.

— Não quero é que traga ninguém para cá. Procuro fazer disto um edifício respeitável e não quero encrencas.

— Posso sair daqui, se quiser.

— Espere, tenho uma ideia. O chefe da portaria do Osíris é meu amigo. Vou falar com ele e talvez possa resolver tudo para você.

O Osíris era um dos novos hotéis da praia. O chefe da portaria mostrou-se mais do que disposto a cooperar. Havia sempre procura de mulheres novas. Em pouco mais de um mês, ela ganhara mais dinheiro do que havia visto em toda a sua vida, mas quando acabava de pagar a todos só lhe restava uma parte bem pequena.

Fazia em média quatro visitas por dia, como ela dizia. Dividiam-se pelos vários hotéis com que o chefe da portaria tinha contato, a fim de que ela não ficasse muito conhecida. A dez dólares por visita, andava tudo em quarenta dólares. Trinta se consumiam nas gratificações.

Apertou o botão e esperou o elevador. Enquanto esperava, tirou outra nota da bolsa. O ascensorista tinha também de ser gratificado. De repente, sentiu uma mão no ombro.

Teve um sobressalto e voltou-se para ver Gordon Paynter sorrindo para ela.

— Não tive a intenção de assustá-la, Srta. Flood.

— Sr. Paynter! — exclamou ela.

— Pensei muito no que poderia ter acontecido — disse ele. — Nunca mais apareceu na praia.

— O meu contrato terminou justamente naquele dia. E tenho andado muito ocupada à procura de outra coisa.

— Venha tomar alguma coisa comigo no bar — disse ele. — Precisamos ficar em dia.

A porta do elevador se abriu e o ascensorista olhou-os, dizendo:

— Sobe.

Ela olhou para Gordon e disse:

— Não posso. Estou com hora marcada.

— Isso não pode esperar alguns minutos? Tenho vasculhado a cidade à sua procura.

Ela sorriu intimamente. Era tão fácil encontrá-la. Bastava conhecer as pessoas que sabiam, hospedar-se no hotel e pedir uma jovem loura.

— Infelizmente, tenho de ver esse homem agora. É a respeito de um contrato.

— Posso esperar — disse Gordon. — Vai demorar muito?

— Muito não. Talvez resolva tudo em meia hora ou uma hora.

— Vou então esperá-la no bar. Será fácil encontrar-me. Estarei tomando um martíni...

— Está bem, Sr. Paynter.

— Você já havia começado a chamar-me de Gordon.

— Está bem, Gordon — disse ela, entrando no elevador. — Procurarei não demorar muito.

A porta se fechou e o ascensorista perguntou curiosamente:

— Amigo ou freguês?

— Quarto andar, abelhudo — disse ela, entregando-lhe a nota de um dólar que trazia na mão.

— Não faz desconto para ninguém, Mary? — perguntou ele, sorrindo.

— Não posso. As despesas operacionais são grandes

O elevador chegou ao quarto andar, e ele abriu a porta, perguntando:

— E na sua noite de folga?

— Guarde o seu dinheiro, rapaz. Não tenho noite de folga.

Seguiu pelo corredor e foi bater na porta do 311.

Uma voz de homem perguntou abafadamente atrás da porta:

— Quem é?

Ela respondeu com voz apenas suficiente para ser ouvida do outro lado da porta:

— Serviço da portaria.

 

Olhou para o relógio, entrando no bar. Três quartos de hora. Parou um instante para habituar os olhos à penumbra. Ele estava sentado a uma mesa ao fundo e fez-lhe um aceno quando a viu.

— Conseguiu emprego? — perguntou ele, fazendo-a sentar-se.

— Mais ou menos.

— Outro martíni para mim — disse Gordon ao garçom que chegou à mesa. — E você?

— Cassis e soda.

— Vermute, cassis e soda — repetiu o garçom.

— Vermute, não — disse ela. — Apenas cassis e soda.

Quando o garçom saiu, Gordon comentou:

— Estranha bebida a que pediu, Mary.

— É assim que eu gosto.

— Aliás, você é mesmo uma pequena estranha, sabe?

Ela olhou, pensando que algum dos boys poderia tê-lo esclarecido a esse respeito, mas nada disse.

— Nunca mais apareceu, não telefonou, nem nada. Se eu não a houvesse encontrado por acaso hoje, talvez nunca mais a visse.

— E talvez fosse melhor para você — disse ela, muito séria.

— Que quer dizer com isso?

— Não sirvo para você. Não sou a espécie de pessoa com quem você costuma ter relações.

Ele sorriu. Ela devia ter ouvido falar nele.

— Que espécie de pessoas? — perguntou ele.

— Sociedade e essas coisas. Sabe muito bem o que quero dizer.

— É, só porque é uma moça que trabalha, não devo interessar-me por você?

Ela não respondeu e ele disse sem sorrir:

— Você é que é a verdadeira esnobe, Mary, Não tenho culpa de não precisar trabalhar. Isso podia ter acontecido a você. Ninguém escolhe seus pais.

— Decerto — disse ela, sorrindo. — Podia haver coisas piores.

— Também acho — disse ele pegando na mão dela por cima da mesa.

O garçom trouxe as bebidas.

— Vamos fazer um brinde — disse Gordon pegando o seu martíni.

— Um brinde a quê?

— A nós. E ao nosso jantar desta noite. Tom há muito aguarda a oportunidade de fazer um pato assado para você. Não aceito qualquer recusa — disse ele antes que ela falasse. — Vou levá-la para a praia assim que acabarmos de beber isto.

Ela respirou fundo, sentindo um toque de decepção. Ele não era diferente dos outros. Queria a mesma coisa.

— OK — disse ela.

— E ao im dos mistérios — disse ele, ainda fazendo o brinde. — De agora em diante, quero vê-la constantemente.

Ela sorriu e ele continuou.

— Tom e eu achamos que você é a moça mais bonita de Miami Beach. Acho que estamos ambos apaixonados por você.

Ela colocou o copo em cima da mesa e disse:

— Não diga isso. Não diga isso nem brincando. Não é preciso.