79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 42 de 55

Páginas do PDF

79 Park Avenue

Capítulo 5

Sentiu o cheiro bom do bacon frito logo que saiu do banheiro, ainda quente do chuveiro. Acabou de enxugar-se e foi para a cozinha embrulhado na toalha.

Maryann, vestida com um robe simples, estava preparando ovos no pequeno fogão. Olhou-o rapidamente e disse:

— Vá se vestir. O desjejum icará pronto num instante.

Ross viu que os olhos dela estavam límpidos e não mostravam o menor vestígio da longa e agitada noite. Não usava maquilagem e a sua pele resplandecia com a sua sadia qualidade animal de sempre.

— Vestir-me pra quê? Não vou a lugar algum.

— Vai, sim — disse ela, apontando para o relógio perto do fogão. — Quase meio-dia. É a hora em que as pessoas têm que deixar este hotel.

O rosto de Ross ficou vermelho. Era quase como se ele sentisse a vergonha que ela devia sentir.

— Você vai deixar o hotel comigo — disse ele.

— Não seja bobo — disse ela, calmamente. — O seu dinheiro não dá para isso.

Ele se aproximou, pegou-lhe a mão e disse com voz suplicante:

— É isso então apenas o que eu sou para você, Marja? Apenas outro cliente?

— Meu nome é Maryann — disse ela, encarando-o —, Marja desapareceu há muito tempo e todos os homens são clientes para Maryann.

— Quero que Marja volte a existir, Marja. Vamos começar uma vida nova, nós dois. Estou mais adulto e ajuizado e poderemos fazer grandes coisas juntos.

— O quê, por exemplo? — perguntou ela, sarcasticamente. — Casamento?

Ele tornou a ficar com o rosto vermelho. Ela não lhe deu tempo de responder e continuou:

— Não. Estou muito satisfeita com a vida que levo. Não quero assumir compromissos nem ligar-me a ninguém. E ande depressa, senão os ovos esfriam.

Ross sentiu uma cólera impotente explodir-lhe dentro do peito.

— Se fosse Mike, você não agiria assim! — exclamou ele e, ao ver-lhe um movimento involuntário no corpo, percebeu que havia acertado. — Que é mesmo que você vê naquele idiota? Ele nunca será mais do que um tira sem valor quando sair do exército!

— Mike está no exército? — perguntou ela, em voz baixa.

— Está. Alistou-se um dia depois de Pearl Harbor. Uma semana depois, estava incorporado às forças regulares.

— Está no estrangeiro?

— Como é que vou saber? Tenho mais o que fazer do que procurar saber do paradeiro dele! Quem sabe se você não quer que eu procure para você? Poderei dizer-lhe que você tem preços especiais para soldados!

 

Joker Martin entrou no restaurante e foi para a mesa de Vito.

— Parece preocupado, Joker — disse Vito logo que ele se sentou.

— E estou preocupado de fato. Não consigo fazer Ross ficar no oeste. Vem aqui de dois em dois meses. Agora mesmo, acabo de receber um telegrama dele dizendo que está em viagem.

Vito pediu dois drinques ao garçom e perguntou:

— Por que não põe outro no lugar dele?

— Pensei nisso, Hank, mas não tenho ninguém para substituí-lo. Depois, o pessoal de lá gosta de Ross. O nome da família dele representa uma grande proteção. Além disso, não há ninguém tão esperto quanto ele e, quando há, não tenho confiança na pessoa.

— Isso vem acontecendo há uns cinco ou seis meses?

— Exatamente.

— Então é aquela mulher!

— Que mulher?

— Maryann. Ela me disse que Ross vive a convidá-la para ir com ele para o oeste, mas ela não quer.

— Maryann? Quem é? Ross quer casar-se com ela?

— Não — disse Vito. — Não quer casar-se. Pelo menos, nunca me disse que queria. Mas a verdade é que está louco por ela, o que não é de admirar porque eu também quase fiquei.

— Ross nunca me falou em mulher alguma — disse Joker. — De que espécie é ela?

— É uma coisa muito especial. É uma prostituta que tem um código de ética todo seu.

— Puta não tem ética — disse Joker. — Só quer é dinheiro.

— Diz isso porque não conhece Maryann, Joker. Você pode comprar o tempo dela, mas não pode comprá-la.

— Maryann... — murmurou Joker. — Nome estranho para uma mulher da vida.

— Maryann Flood é o nome dela.

O rosto de Joker ficou instantaneamente vermelho e interessado.

— É uma garota loura com grandes olhos castanhos, quase pretos, que parecem querer penetrar até o fundo da gente?

— É sim. Você a conhece?

Joker deu um murro na mesa e exclamou:

— Que patife! Que cachorro miserável!

— Que é que há com você? — perguntou Vito. — Por que ficou com tanta raiva?

Joker bebeu o seu copo de um só gole e exclamou:

— Marja Flood! Eu devia ter desconfiado!

— É assim mesmo que Ross a chama. Quer dizer então que a conhece?

— Conheço, sim. Trabalhou para mim no dancing quando era garota. Quase me cassaram a licença porque a contratei. Naquela época ela era menor.

— Ah!

— Foi presa por haver cortado o padrasto com uma faca. Soube dela quando saiu do reformatório, mas perdi-lhe a pista logo depois. Ross sempre teve paixão por ela, mas ela não queria saber dele. Havia outro, um amigo de Ross. Desse é que ela gostava.

— Que foi que aconteceu?

— Como já lhe disse, Vito, ela foi presa. Depois disso, não sei mais o que aconteceu. A primeira notícia que tenho dela há cinco anos é a que você acabou de me dar.

O espírito de advogado de Vito não gostava de deixar nada sem investigar.

— E esse amigo de Ross de que você falou. Que foi feito dele?

— Entrou para a polícia e depois alistou-se no exército, segundo me disse Ross. Mas ela era uma mulher notável mesmo no tempo de garota. O seu poder de atração sobre os homens era.imenso. Ainda está assim?

Vito riu e Joker levantou a mão espalmada.

— Não é preciso dizer-me. Eu sei — disse Joker, acendendo um cigarro, e Vito notou que a mão lhe tremia. — Fiz grandes planos em relação àquela garota.

 

A campainha do telefone penetrou no sono de Maryann. Ela rolou na cama e encostou o rosto no travesseiro. O telefone continuou a tocar e ela acordou com relutância e atendeu.

— Maryann? — perguntou uma voz cautelosa. — É Frank.

Isso a fez despeitar completamente. Era Frank Millersen, o Tenente Millersen, da polícia.

— Outro problema, Frank? — perguntou ela, olhando para o relógio. Eram quase dez horas da manhã. Ele não havia telefonado desde que ela fora acusada de roubo.

— Não — disse ele com um toque de riso na voz cautelosa. — Com você, tudo em ordem.

Ela teve um suspiro de alívio. Havia já muito tempo Frank a prendera, quando ela ainda era verde e inexperiente. Passara trinta dias na prisão, mas fizera amizade com ele.

— Que é, então? Quer vir ver-me?

— Não, Maryann, muito obrigado. Você bem sabe que na polícia se ganha muito pouco.

— E você sabe que dinheiro nunca foi problema para nós dois, Frank. Eu gosto de você.

— Não me tente, Maryann — disse ele, rindo. — Nós ambos temos a cabeça no lugar. Só lhe telefonei para dizer que descobri o ex-polícia de que você me falou há alguns meses. Mike Keyes, é o tal que entrou para o exército e é irmão de sua amiga.

Ela se sentiu dominada por imenso interesse. Assim que Ross saı́ra, naquela primeira vez, telefonara para Frank e lhe contara a primeira história que lhe viera à cabeça.

— Descobriu? — perguntou ela, tentando controlar a voz. — Onde está ele?

— No Hospital de Veteranos de St. Albans. Está lá há três semanas. Foi ferido na África do Norte.

Apesar de tudo, não pôde dissimular a ansiedade da sua voz.

— Ferido?

— Foi, mas, segundo soube, nada houve de grave. Vai ter uma licença para passar o fim de semana fora do hospital amanhã de manhã. Se sua amiga quer vê-lo, deve estar lá antes das oito horas. Do contrário, será tarde. Sabe como são os soldados. A última pessoa a quem vão procurar é a uma irmã.

— Vou dizer a ela. Muito, muito obrigada, Frank — disse ela, desligando o telefone.

Acendeu um cigarro e ficou vendo o rosto de Mike por entre a fumaça azul. Ainda se lembrava do sofrimento que havia nos olhos dele na última vez em que o vira.

Que iria ele fazer na sua licença do fim de semana? Os pais dele estavam na Califórnia, onde o pai conseguira um emprego com a defesa. Foi o que lhe disseram na visita que fez à casa onde Mike havia morado.

Talvez fosse ver alguma moça de quem gostasse. Esse pensamento doeu-lhe no fundo do coração. Com certeza não pensava mais nela. Apagou lentamente o cigarro no cinzeiro. Estava arrependida do impulso que a fizera pedir a Frank que descobrisse o paradeiro de Mike.