79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 8 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 7

A luz cinzenta da manhã, que se coava através do pequeno pátio, insinuou-se pela janela quando Katti abriu a porta. Ficou ali um momento olhando a filha.

Era de surpreender o aspecto de Marja quando dormia. Acordada, era quase uma mulher; dormindo, como naquele momento, era uma criança. As feições estavam repousadas e suaves e a respiração era tão delicada que mal agitava o lençol que lhe cobria o peito. Era essa a Marja que ela conhecia, a sua filhinha calma e querida.

Entrou no quarto e aproximou-se do berço. Tocou no bebê. Que milagre! Ainda estava seco. Emitiu um pequeno som quando ela o tocou. Katti voltou-se rapidamente para olhar a filha.

Os olhos de Marja estavam abertos.

— Bom dia, mãe.

Katti não respondeu. Lembrava-se de como ficara preocupada na véspera ao ver que Marja estava demorando em voltar da escola. Peter lhe dissera que ela havia ido tomar banho de mar e só voltara para casa às onze horas da noite.

Marja sentou-se na cama, e a coberta desceu até a cintura, mostrando o corpo nu. Bocejou e espreguiçou-se, a pele dos seios muito branca em contraste com a parte vermelha queimada pelo sol.

— Cubra-se, Marja! — exclamou Katti, com voz escandalizada. — Quantas vezes já lhe disse para não se deitar sem vestir o pijama? É feio dormir assim.

— Mas estava tão quente, mamãe — disse Marja, começando a vestir o pijama. — Depois, ninguém ia me ver!

— Não quero saber! Não é decente dormir assim! Só os animais é que dormem nus.

Marja empurrou as cobertas e levantou-se da cama, com o paletó do pijama caindo-lhe até o meio das coxas. Abraçou a mãe e beijou-lhe o rosto.

— Não se zangue, mãezinha.

Katti sorriu a contragosto e empurrou docemente a filha.

— Não me venha com agrados. Conheço todos os seus truques!

Marja sorriu para ela e antecipou-se à sua pergunta.

— Fui nadar no mar ontem. Está vendo como fiquei queimada?

— Claro! — disse Katti, secamente. — E podia deixar de ver?

— Uma amiga de Francie tem uma casa em Coney Island, num lugar chamado Porta do Mar.

— Porta do Mar? Então a família dela deve ser muito rica.

— E é mesmo. Eles moram na Park Avenue.

O bebê começou a chorar de repente. Katti inclinou-se sobre o berço e pegou-o. A criança parou de chorar.

— Apesar disso, você devia ter dado um pulo aqui em casa para avisar-me. Fiquei muito preocupada por sua causa.

— Não houve tempo, mamãe. Fomos assim que saímos da escola.

— Mas você só voltou para casa depois das dez e meia. Por quê? — perguntou Katty, deitando o bebê na cama de Marja e tirando-lhe a fralda molhada.

— Ela quis que eu jantasse com ela e eu jantei — disse Marja, tirando uma fralda limpa da cômoda e passando-a à mãe.

— Nunca mais faça isso, Marja. Seu pai também ficou muito preocupado.

— Por quê? — perguntou Marja, cheia de sarcasmo. — A cerveja acabou?

— Marja! Isso não é coisa para dizer de seu pai!

Marja foi até o armário e tirou um velho roupão de banho no qual se enrolou.

— Ele não é meu pai — disse ela, teimosamente.

— Por que continua a dizer isso? — perguntou Katti, com voz magoada. — Ele gosta de você e quer que você goste dele. Não é culpa dele se você não faz o menor esforço para isso.

Marja não respondeu. Apanhou a escova dentro de um copo na cômoda e encaminhou-se para a porta. Ao chegar à porta, disse à mãe:

— Vou fazer a mamadeira de Peter.

Chegando à cozinha, colocou a mamadeira dentro de uma panela no fogão. Acendeu o fogo e foi até a pia. Lavou-se rápida e cuidadosamente, enxugou-se, pegou a mamadeira e voltou para o quarto.

— Dê você a mamadeira a Peter — disse Katti, levantando-se da cama. — Vou fazer o café. Não quero que chegue atrasada à escola.

Marja debruçou-se sobre o menino, com a mamadeira na mão.

— Quer seu café, Peter? — perguntou, rindo.

Os olhinhos escuros de Peter sorriam para ela. As mãozinhas se estenderam para a mamadeira, ao mesmo tempo que um sorriso distendia a boca sem dentes.

— Você é tão lindo — murmurou ela, colocando a mamadeira na boca do menino.

Ele deu um gemido feliz, pegando o longo bico de borracha. Um pouco de leite escorreu-lhe do canto da boquinha.

— Lambão — disse Marja, rindo e limpando-o com a toalha que ainda tinha na mão. — Será que consegue ficar na cama sem cair enquanto Marja se veste?

Peter continuava a mamar, satisfeito.

Ela se levantou, enquanto os olhos escuros do bebê a acompanhavam.

— Acho que pode dar um jeito — disse ela, sorrindo.

Foi até a cômoda e tirou a roupa.

Deixou cair o roupão e tirou a parte de cima do pijama.

Rapidamente, quase no mesmo movimento, vestiu as calças e estendeu a mão para pegar o sutiã. Um clarão de luz passou-lhe pelos olhos e ela olhou para o espelho em cima da cômoda.

A porta estava aberta atrás dela e ela podia ver a cozinha através do espelho. Ali, sentado à mesa, o padrasto a observava. O olhar de desprezo que ela lhe lançou foi tão forte que ele baixou os olhos.

Ainda olhando-o, passou as alças do sutiã pelos ombros e abotoou-o. Depois, virou-se e foi até a porta. Ele ainda estava olhando. Ela icou um momento a encará-lo em silêncio e, depois, fechou a porta e acabou de vestir-se.

Peter havia terminado a mamadeira. Ela o pegou alegremente nos braços e levou-o para a cozinha. O Padrasto não estava mais lá.

Katti colocou um prato de mingau em cima da mesa e estendeu os braços para pegar a criança.

— Tomou toda a mamadeira?

— Tomou, sim — disse Marja, entregando o menino à mãe. Sentou-se à mesa e olhou para o prato com ar aborrecido: — Aveia de novo?

— Aveia faz bem, Marja. Coma.

Marja nem fez menção de provar. Queria era um cigarro, mas olhou para a mãe sem saber se teria coragem de acender um cigarro antes de comer qualquer coisa. Desistiu da ideia e murmurou:

— Não estou com fome.

O padrasto entrou nesse momento na cozinha e perguntou grosseiramente:

— Mingau de aveia é humilde demais para seu paladar apurado? Quem sabe se não prefere presunto com ovos?

— Para dizer a verdade, prefiro — disse Marja, friamente.

— Que pena não haver! — exclamou ele sarcasticamente. — Ela se envergonha de nós por sermos pobres e não podermos dar-lhe as coisas finas que deseja, Katti.

— Não seríamos tão pobres assim se você se esquecesse de vez em quando da cerveja e fosse trabalhar.

— Respeito pelos pais ela não tem — disse Peter, voltando-se para Katti. — Só insultos. Deve ser isso o que ela aprende vagabundeando pela rua até altas horas da noite!

— Respeito por meus pais sempre tive — replicou Marja. — Por você, não.

— Pare com isso, Marja! — exclamou Katti, zangada.

— Ele é que deve parar de provocar-me.

Pegou a colher e provou o mingau de aveia. Estava massudo e sem gosto.

— Seu pai tem razão — disse Katti. — Você deve ser mais delicada com ele. Ele só pensa no seu bem...

— Mentira! — exclamou Marja, jogando com raiva a colher dentro do prato. — Ele só pensa é nele mesmo! Se fosse um homem de verdade, não deixaria você trabalhar a noite inteira, enquanto ele fica o dia todo em casa de camisa de meia. Não passa de um explorador!

Katti avançou rapidamente e a bofetada ecoou na cozinha.

Marja levou a mão ao rosto, onde se avermelhavam, rapidamente, as marcas dos dedos. Havia no seu olhar uma estranha expressão de espanto.

— Você me bateu! — disse ela à mãe, com a voz cheia de horror.

Katti olhou para ela e sentiu um aperto na garganta, compreendendo que era a primeira vez que batia na filha.

— Foi para você aprender a respeitar seus pais — disse ela, com voz trêmula.

Por um momento, os olhos de Marja se apertaram e Katti pensou que a filha ia chorar. Mas as lágrimas não saíram. Em vez disso, os olhos de Marja mostraram uma fria calma que fez Katti compreender que a filha já era uma mulher e se afastava dela.

— Marja! — exclamou em voz suplicante e deu um passo em direção à filha.

Mas Marja recuou e disse brandamente, quase como se estivesse pedindo desculpas por ter apanhado.

— Desculpe, mamãe! Desculpe!

Em seguida, deu as costas e saiu pela porta da cozinha.

Katti voltou-se para Peter, ouvindo os passos de Marja que descia a escada. Começou a chorar.

— Que foi que eu fiz, Peter? Que foi que eu fiz a minha filhinha?

Ele não se aproximou dela. Havia um distante eco de triunfo em sua voz.

— Fez apenas o que já devia ter feito há muito tempo, Katti. Agiu muito certo!

— Acha mesmo, Peter? — perguntou em polonês.

— Sem dúvida — disse ele, com os olhos cheios de satisfação.

Ela o olhou. O menino nos seus braços começou a chorar. Ela o acalentou automaticamente. Gostaria de acreditar no marido. Gostaria de sentir que estava certa. Mas, por mais que quisesse acreditar, uma dúvida lancinante a torturava no fundo do coração.