79 Park Avenue
A Justiça Pública Contra Maryann Flood
A JUSTIÇA PÚBLICA CONTRA
MARYANN FLOOD
Joel levantou os olhos quando entrei na sala. O rosto dele estava preocupado.
— O Velho tem andado como um louco à sua procura, Mike. É melhor ir falar com ele correndo.
— Que será que ele quer?
— Não sei. Soube que Vito veio falar com ele e isso não me agrada nada.
— Vito?!
— Sim, vá logo!
A secretária do Velho me fez entrar logo para a sala dele. O Velho estava sentado à sua mesa e Vito numa cadeira em frente.
— Mandou-me chamar, Chefe?
— Mandei. Você não me disse tudo a seu respeito e da Srta. Flood.
Senti a raiva crescer dentro de mim. Aquilo era uma coisa com que eu não contava. Dissera ao Velho tudo o que era necessário. Ele é que me pedira que ficasse quando pretendi afastar-me. Respondi-lhe com voz tão fria quanto a dele:
— Creio que não estou compreendendo.
— Um Frank Millersen basta para qualquer homem! — gritou o Velho, dando um soco na mesa.
Conservei a voz calma, embora meu humor estivesse descontrolado. Eu já havia passado por muita coisa e não precisava de que ainda por cima ele viesse gritar comigo.
— Ainda não sei de que está falando.
— Vai dizer que também não sabe disto aqui? — perguntou ele sarcasticamente, entregando-me uma folha de papel.
Peguei o papel e vi que era uma certidão de nascimento. De Michelle Keyes. Continuei a ler, sentindo o sangue fugir-me do rosto. "Mãe: Maryann Flood. Pai: Michael Keyes." Olhei para a data e senti o coração bater com força. Ajustava-se perfeitamente aos dias que havíamos passado juntos naquele fim de semana.
Compreendi então uma porção de coisas, como o olhar estranho que tivera na noite anterior quando eu lhe perguntara pela filha. Eu não havia desconfiado de que fosse o pai.
— Por que não me contou? — perguntou a voz ríspida do Velho.
— Por uma razão muito simples. Não sabia.
— E espera que eu vá acreditar nisso?
Perdi finalmente a calma e gritei:
— Pouco me interessa aquilo em que acredite ou deixe de acreditar!
— Sabe o que isso vai fazer com nosso caso? Vai arrasá-lo!
Olhei-o. Ali estava o homem que dizia que a única maneira de vencer era não se afastar da verdade.
— Arrasar por quê? — repliquei friamente. — Vito não conseguiu destruir qualquer das nossas acusações.
O advogado abriu então a boca e disse:
— Para que ia dar-se a esse trabalho? Qual é o júri que vai acreditar nas acusações quando vir isto? Tudo parecerá forjado para servir a uma vingança pessoal.
— Sempre ouvi dizer que era um bom advogado, Vito, um dos melhores. Nunca soube, porém, que a chantagem fazia parte do seu arsenal de recursos.
Vito levantou-se da sua cadeira na minha direção. Empurrei-o com uma mão e ele tornou a sentar-se com os olhos fuzilando. Nisso, o interfone tocou na mesa do Velho. Ele apertou o botão.
— Que é?
— A Srta. Flood está aqui — disse a voz da secretária.
— Faça-a entrar.
A porta se abriu e Marja apareceu. Entrou no escritório com aquele mesmo andar majestoso que sempre a distinguira das outras mulheres.
Não olhou para mim e perguntou a Vito:
— Que é que há?
Ele sorriu.
— Acho que o promotor vai entrar num acordo conosco.
Ela olhou para mim com um brilho nos olhos.
— Mike, você vai...?
— Eu disse o "promotor", e não o seu namorado.
O brilho morreu prontamente nos olhos dela. Perguntou a Vito:
— Por que diz isso?
Entreguei-lhe a certidão. Ela viu de que se tratava e me olhou com uma dor intensa no olhar.
— Onde encontrou isto? — perguntou com a voz trêmula.
Apontei para Vito.
— Como conseguiu isto, Vito?
— Foi Tom que me trouxe.
— Por que não me falou sobre isso?
— Para você não prejudicar o seu caso tentando proteger o seu namorado. Sou seu advogado e tenho de defendê-la, ainda que seja de você mesma.
— Está pensando que é por ele? Se eu quisesse que ele soubesse, já lhe teria dito há muito tempo. É por Michelle. Ela vive feliz. Pensa que o pai morreu na guerra. Acha que ela se sentiria bem se soubesse como foi que nasceu?
— Acha que ela iria gostar mais de saber que a mãe está na penitenciária?
— E muito melhor do que saber que é ilegítima! — replicou Marja.
— Você tem de fazer o que eu disse — disse Vito, levantando-se. — Há muita coisa em jogo, e você não pode recuar agora. — Virou-se para o promotor e perguntou: — Que é que me diz, John?
O Velho olhou-o em silêncio.
— Entramos num acordo? — insistiu Vito.
O promotor olhou para mim e disse:
— O caso será entregue a Keyes. Faço questão de nunca interferir no assunto dos meus assistentes. Pergunte a ele.
Vito olhou para mim.
— Não haverá acordo — disse eu.
— Você não vai gostar, Mike. Vou colocá-lo na cadeira das testemunhas e, quando eu acabar de interrogá-lo, você vai querer que a terra se abra para você desaparecer.
— Estou disposto a correr esse risco.
Vito olhou para o Velho e disse:
— Isso liquida com suas aspirações ao governo do Estado.
— Ficarei ao lado de Mike — disse o Velho.
Vito voltou-se para a porta, com o rosto vermelho e zangado.
— Vamos, Maryann.
Ela começou a acompanhá-lo, mas eu a chamei:
— Marja.
Ela parou e olhou para mim. Aproximei-me e peguei-lhe na mão.
— Por que não me disse?
Ela não respondeu, mas havia nos olhos dela um brilho estranho, que talvez escondesse as lágrimas.
— Mike, perdi um bebê porque pensaram que eu não seria capaz de cuidar dele. Não quis perder minha filha também.
— Você vem, Maryann? — perguntou Vito da porta.
— Desculpe, Mike — disse ela, puxando a mão e saindo.
Voltei-me então para o Velho e disse:
— Bem, creio que iz uma confusão tremenda de tudo.
Ele sorriu.
— Mike, peço-lhe desculpas por não haver confiado em você.
— Não pense nisso, John. Não tem mais importância.
Ele se levantou, dizendo:
— O julgamento vai recomeçar daqui a alguns minutos. É melhor irmos descendo.
Pensei nos gladiadores romanos, quando marchavam para a arena, e disse:
— "Morituri te salutamus!"
— Que foi que disse? — perguntou o Velho, que estava absorto nos seus pensamentos.
Olhei-o, rindo. Ele tinha orgulho de saber muito latim. Não era sempre que eu tinha ocasião de superá-lo nesse particular, ainda que fosse apenas em virtude de desatenção da parte dele.
— "Nós que vamos morrer te saudamos" — disse eu, traduzindo a frase.
Havia no tribunal um ambiente de contida ansiedade. Era como se algum misterioso instinto houvesse revelado a todos que ia acontecer uma coisa muito importante. Era visível o nervosismo até do escrivão e dos oficiais de justiça, que já deviam ser insensíveis a tudo aquilo que acontece em juízo.
O juiz chegou com vinte minutos de atraso. Todos se levantaram, e um minuto depois a sessão estava aberta.
Vito levantou-se e disse com uma voz forte, que ressoou pela sala:
— A defesa deseja chamar como sua primeira testemunha o Sr. Michael Keyes, do gabinete do promotor público!
O próprio juiz ficou visivelmente surpreso. Olhou para nós enquanto um murmúrio se elevava da assistência. Ouvi o tropel dos passos dos repórteres que corriam para a porta a fim de transmitir a notícia para seus jornais. O juiz bateu com o martelo na mesa para restabelecer a ordem. Um minuto depois, fez-se silêncio.
— É muito fora do comum o que a defesa requer — disse o juiz a Vito. — Presumo que tenha razões suficientes para tanto.
— E tenho, Meritíssimo — respondeu Vito. — Creio que é da maior importância, para que se faça justiça a minha cliente, que o Sr. Keyes seja chamado a depor.
O juiz me olhou e eu me levantei, dirigindo-me para a cadeira das testemunhas. Vito me olhava, impassivelmente.
Ela também me olhou quando eu passei pela mesa. Tinha o rosto pálido e abatido. Subi ao estrado das testemunhas e voltei-me para prestar o juramento de praxe com o escrivão. Vários flashes dos fotógrafos da imprensa espocaram, ofuscando-me momentaneamente.
Ouvi a voz dela, forte e clara, enquanto ainda estava piscando os olhos.
— Posso conversar um momento com meu advogado, Excelência? Desejo confessar-me culpada!
Houve de novo na sala confusão, ainda maior do que a da outra vez. Mais flashes espocaram e, quando pude ver direito, Vito havia voltado para sua mesa.
Discutiram durante algum tempo e, por fim, Vito se levantou.
— Posso pedir-lhe um recesso de dez minutos, Meritíssimo? Preciso de um momento em particular com minha cliente.
O juiz bateu com o martelo na mesa.
— O tribunal ficará em recesso durante dez minutos.
Depois levantou-se e saiu da sala. Deixei a cadeira das testemunhas e voltei para minha mesa.
Marja e Vito já haviam desaparecido pela porta da sala de conferências. Corri os olhos pela sala. O recinto destinado à assistência estava cheio de pessoas, apertadas como sardinhas. Senti alguém puxar-me pela manga do paletó. Era o Chefe.
— Tinha razão — disse ele, com uma voz cheia de admiração. — Ela tem fibra. E da cabeça aos pés!
A porta da sala de conferências se abriu, e Vito saiu sozinho. Olhou para a assistência, como se estivesse à procura de alguém. Tentei seguir-lhe o olhar, mas ele foi rápido demais. Fez um gesto com a cabeça que parecia quase um sinal de assentimento. Voltou depois para a sala de conferências.
Eu ainda estava olhando a assistência. Um momento depois, um homem se levantou. Tinha os cabelos brancos e dirigiu-se para a porta. Reconheci-o imediatamente. Era Joker Martin. Fiquei imaginando o que estaria ele fazendo ali, mas nesse momento a porta da sala de conferências se abriu e eu não pensei mais nisso.
Marja vinha à frente, com o rosto sereno e calmo, seguida de Vito. Foram para a sua mesa e sentaram-se.
Um momento depois, o tribunal estava de novo em sessão. Vito levantou-se. O rosto estava pálido, mas a voz firme.
— Minha cliente deseja reconhecer-se culpada de todas as acusações.
O juiz voltou-se para ela.
— E esse o seu desejo, Srta. Flood?
Ela se levantou e respondeu:
— Sim, Meritíssimo.
Tivemos de abrir caminho por entre a multidão até os elevadores. As costas me doı́am de tantos abraços de parabéns. A inal, vi-me sozinho no elevador com o Chefe.
— Terá meu pedido de demissão na sua mesa amanhã cedo — disse eu.
Ele não me olhou.
— Peço-lhe desculpas por toda essa confusão.
Ele nada disse.
O elevador parou no meu andar e eu saltei, deixando-o sozinho. Entrei no meu escritório. Joel e Alec ainda estavam lá embaixo. Sentei-me à mesa e peguei uma folha de papel. Redigi rapidamente o pedido de demissão, coloquei-o num envelope e mandei-o para o Chefe.
O telefone tocou. Atendi, pensando que dentro em pouco aquele telefone deixaria de ser meu.
— Keyes — disse eu.
— Mike, quem fala é Marja.
— Alô, Marja.
— Estou no Bar Boyd, na Broadway. Quer vir falar comigo?
Tinham andado depressa, sem dúvida. A fiança dela fora arbitrada em cinquenta mil dólares e ela já estava num bar antes quase de eu ter tempo de subir para meu escritório. Hesitei.
— Por favor, Mike, venha que é muito importante.
— Está bem. Já vou.
Levantei-me para sair. Voltaria no dia seguinte para esvaziar as gavetas.
Havia começado a nevar quando entrei no bar fracamente iluminado. Ela estava sentada a uma mesa num canto. Sentei-me ao lado dela, e um garçom apareceu:
— Que é que vai tomar, Marja?
— Cassis e soda.
— Gim com gelo para mim — disse eu para o garçom. Depois, voltei-me para ela: — Ainda está bebendo isso?
— Eu gosto.
O garçom voltou com as bebidas. Levantei o copo e disse:
— Ao crime.
— Não deve fazer esse brinde, Mike.
— Por quê?
— Ross sempre dizia isso, e acho que fiquei supersticiosa.
— Tem algum brinde melhor?
— Tenho.
— Qual é?
— A nós — disse ela, olhando-me bem nos olhos. Senti o calor de sua voz e de seu olhar atingir-me.
— Serve — disse eu, tomando um gole. Depois coloquei o copo em cima da mesa e perguntei: — Sobre o que queria falar comigo?
Um homem entrou no restaurante. Ela o olhou por um instante e voltou o olhar para mim.
— Sobre nós, Mike — disse ela, pousando a mão na minha. — Já é bem tempo.
Senti a eletricidade que seu contato me comunicava. Procurei conservar a voz calma.
— É mesmo?
— Sim, Mike. Não existe mais ninguém para mim.
— Você levou muito tempo para chegar a essa conclusão.
— Desculpe, Mike. Mas não pôde ser de outra maneira. Lembra-se do que eu lhe disse ontem à noite no carro?
Eu precisava de tempo para pensar. O coração me batia com força. Mudei de assunto.
— Quem pagou sua fiança?
A porta se abriu e outro homem entrou. Ela o olhou automaticamente e respondeu:
— Joker Martin.
Era isso então que ele estava fazendo no tribunal. Vito provavelmente fora pedir a aprovação dele para a con issão de culpa de Marja. Soubera que Joker controlava quase todas as atividades ilegais da cidade. Não falei.
Ela se aproximou mais de mim, e eu lhe senti o quente perfume.
— Não demorará muito, Mike — disse ela. — Sairei da prisão dentro de dois ou três anos com bom procedimento. Poderemos ir então para algum lugar onde ninguém nos conheça e começar vida nova.
Outro homem entrou e ela o olhou também. Depois, perguntou:
— Como é, Mike? Vamos fazer isso juntos?
Respirei fundo e comecei lentamente a tirar as mãos. Seus olhos se velaram.
— O que é, Mike? É porque vou cumprir a sentença?
Sacudi a cabeça. Ainda não me sentia com confiança para falar.
— Que é, então? Tenho direito de saber, Mike!
— Como é minha filha, Marja? — perguntei com uma voz que não parecia ser minha, mas de outra pessoa.
— É isso então? — perguntou ela.
— É isso, sim. Eu nunca afastaria uma filha sua de você como você afastou a minha de mim.
— Mas o que eu podia fazer, Mike? Estávamos separados por um abismo.
— E por que acha que estamos mais próximos agora? Passei a vida esperando por você. Pensei que nada havia que você fizesse que eu não pudesse perdoar e justificar. Mas estava errado. A única coisa que você nunca devia ter feito era separar-me de minha filha.
— Não se esqueça de que ela também é minha filha, Mike — disse ela, prontamente. — É a única coisa neste mundo que é minha, realmente minha. É mais minha do que sua.
— É justamente isso que eu quero dizer, Marja. Ela poderia ter sido nossa filha. Mas você só pensou em você. Não nela, nem em mim. Só pensou é que a queria.
— Não é tarde demais, Mike. Podemos ainda fazer isso.
— Não, Marja. Não se pode voltar atrás no tempo. Você mesma me disse isso um dia, lembra-se?
Os olhos dela estavam profundos e sombrios. Eram-me tão conhecidos, mas naquele momento pareciam-me quase os olhos de uma estranha. Um momento depois, o rosto de Marja se transformou numa impenetrável máscara. Ela se levantou e, sem dizer uma palavra, saiu do bar.
Vi-a na rua pela porta de vidro, com a neve a cair em torno dela. Uma limusine preta parou diante dela. Um homem saltou e abriu a porta para ela, tirando o chapéu. Pude divisar-lhe os cabelos brancos. Era Joker Martin. Depois, ele entrou também no carro, e este se afastou.
Acabei de tomar o meu gim e levantei-me. Joguei o dinheiro da despesa em cima da mesa e saí.
Entrei no tribunal para meu último ato oficial: ouvir a leitura da sentença de Marja.
Sentada no banco dos réus, estava pálida mas com os olhos calmos e sem medo quando o juiz começou a falar.
— Quanto à primeira acusação — aliciamento para fins de prostituição —, esta corte condena a ré a um período indeterminado de três a cinco anos e à multa de cinco mil dólares.
"Quanto à segunda acusação — suborno de certos funcionários públicos —, esta corte condena a ré a um ano de prisão e à multa de cinco mil dólares.
"Quanto à terceira acusação — extorsão por meio de ameaças verbais —, esta corte condena a ré a um ano de prisão e à multa de quinhentos dólares."
Houve um murmúrio de conversas na assistência quando o juiz concluiu a sentença. Ele bateu com o martelo na mesa, e fez-se silêncio.
— Foi chamada a atenção desta corte pelo promotor público para o fato de que a ré, com a sua decisão de reconhecer-se culpada, demonstrou o desejo de reabilitar-se aos olhos da sociedade. Diante disso, esta corte decide permitir que a ré cumpra simultaneamente seus vários períodos de prisão.
Houve de novo um murmúrio na sala. Era uma concessão extraordinária. Significava que ela não teria de ficar na prisão mais de dois anos, podendo ainda haver diminuição desse tempo por bom procedimento.
— Você sabia que o Velho ia fazer isso? — perguntei a Alec.
Ele sacudiu a cabeça. Joel, também. Marja estava a olhar-me de uma maneira em que julguei ver gratidão. Tive vontade de dizer-lhe que tinha sido o Chefe e não eu quem conseguira isso, mas não havia meio de falar-lhe.
Joel saiu comigo do tribunal e disse:
— O Velho está abrandando o coração. Vamos beber alguma coisa.
Agradeci e deixei-o no elevador. Quando cheguei à porta do meu escritório, esta se abriu de repente e o Velho apareceu. Tinha na mão um envelope e sacudiu-o indignadamente, dizendo:
— Acha que vou aceitar isto, acha?
Era o meu pedido de demissão.
— Acho que deve. É o que pode haver de mais justo.
— Então você é mais idiota do que eu pensava, Keyes! — exclamou ele, rasgando a carta em mil pedaços, que jogou no chão e começou a pisar raivosamente.
— Obrigado, Chefe — disse eu, finalmente.
— Está tudo certo, Mike. Achou mesmo que eu iria abrir mão de um bom assistente com tanta facilidade?
— Não é por mim que lhe estou agradecendo, Chefe. É pelo que fez por Marja.
— Nunca se esqueça, Mike, de que a balança da justiça deve ser sempre compensada com a clemência.
Clemência. Era um grande sentimento. O que eu não sabia era se estava ao alcance de qualquer pessoa.
Antes que eu dissesse alguma coisa, ele me bateu no ombro.
— Volte para seu escritório, rapaz. Há alguém à sua espera.
Saí pelo corredor e abri a porta do escritório lentamente. Não havia ninguém lá dentro. Devia ter sido uma pilhéria do Velho. Entrei e sentei-me à minha mesa. Ouvi um rumor no pequeno sofá que ficava encostado à parede atrás da porta. Levantei os olhos.
Uma menina se levantava do sofá e vinha para onde eu estava. Os cabelos eram do louro mais claro que eu já vira. Os olhos eram grandes, redondos e azuis, e, quando olhei para eles, tive a impressão de me estar vendo num espelho. Tinha os meus olhos. Senti um aperto na garganta e fiquei quase sem poder respirar.
Ela parou diante de minha mesa e me olhou solenemente.
— Sou Michelle — disse ela.
Assenti com a cabeça, sem poder falar.
— Mamãe disse que eu vou ficar durante algum tempo com o senhor e que o senhor tomaria conta de mim.
Havia uma sugestão de lágrimas naqueles belos olhos azuis. Senti também os olhos enevoados. Levantei-me e ajoelhei-me ao lado dela. Abracei-a e disse:
— Sim, Michelle, tomarei conta de você.
FIM
O AUTOR E SUA OBRA
Uma espantosa estatística lhe serve como cartão de visita: todos os dias, pelo menos vinte e cinco mil pessoas compram um título de sua autoria. Traduzido em mais de sessenta países, para cerca de quarenta idiomas, já ultrapassou em muito a barreira dos duzentos milhões de livros vendidos. É Harold Robbins, em trinta e quatro anos de carreira.
Nada mau para quem passou, na infância, todas as espécies de privações. Nasceu em maio de 1916, num dos mais miseráveis bairros de Nova York, o Hell's Kitchen (Cozinha do Inferno), e foi criado num orfanato até os onze anos, quando uma família judia o adotou, emprestando-lhe o sobrenome, Rubin. Pouco tempo depois, fugiu de casa, alistou-se na Marinha com idade falsa, até ser descoberto e mandado embora.
Já fazia da própria vida um best seller. Foi entregador de mercadorias, ajudante de bookmaker, vendeu refrigerantes e, como guarda-livros de um armazém, aprendeu o suficiente para ficar rico negociando com cereais e ações. Os bons tempos duraram pouco: aos vinte e um anos estava falido, mas pronto a recomeçar.
Dez anos depois, os rumos de sua vida eram completamente outros. Como bem-posto diretor de orçamentos da Universal Pictures, resolveu escrever um livro, para substituir um fraco roteiro que seria filmado em breve. Era 1948, e "Nunca ame um estranho" tinha muito da autobiografia de um novo fenômeno literário que surgia, com uma pequena mudança no sobrenome a conselho de seu editor: Robbins.
Consagrou-se com os dois livros seguintes, "Uma prece para Danny Fisher" e, principalmente, "79 Park Avenue", Os sucessos iam batendo os recordes de vendagem anteriores: "Mercadores de sonhos", "Escândalo na sociedade", "Ninguém é de ninguém", "O machão", "Os libertinos", com uma média de um livro a cada dois anos até os recentes "Os ambiciosos" e "A mulher só" (também publicados pelo Círculo).
Se não publicasse mais um livro sequer, ainda assim Harold Robbins prosseguiria na sua vida milionária, feita de barcos, carros maravilhosos e mansões faraônicas, graças aos direitos autorais e às adaptações cinematográ icas de suas obras. Alguma fórmula mágica? Nada disso. A inal, sexo, luxo e violência são a matéria-prima de pelo menos oitenta por cento dos best sellers americanos.
A diferença é que Robbins, mesmo considerado por boa parte da crítica como um subliterato, não admite comparações: "Sou o melhor". Aí, provam os números, disso ninguém duvida.
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