79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 53 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 16

O promotor público olhou atentamente para Mike através dos grossos óculos, batendo com uma lapiseira de ouro nos papéis que estavam em cima da mesa.

— Quer então pedir demissão?

— Quero,sim.

— Por quê?

— Motivos de ordem pessoal.

O Velho desviou os olhos para a janela.

— Não se sente bem no seu trabalho aqui, Mike?

— Não se trata disso, senhor.

O Velho ficou em silêncio e durante algum tempo só se ouviu na sala a sua respiração difícil.

— Nunca pensei que fosse covarde, Mike — disse ele, afinal.

Mike não respondeu.

— O trabalho que realizou no caso da Park Avenue Models é notável, um dos maiores que já se efetuaram neste escritório. Mas, como ele envolve pessoas de influência, você quer recuar.

Mike continuou calado.

— E eu? Como você acha que eu me sinto quando vejo o chefe dos meus detetives envolvido? Não acha também que devo retirar-me? Acontece que eu não posso. Prestei um juramento. Você também o prestou quando veio trabalhar comigo. Não podemos sair.

— Isso não vem absolutamente ao caso, Chefe.

— Bolas! Só porque alguns políticos desonestos e uns ricaços estão implicados? Tem medo de prejudicar sua carreira?

Mike não respondeu.

— Você não terá carreira para ser prejudicada se desertar agora! Todos ficarão sabendo que você é um covarde.

Mike respirou fundo e disse:

— Desculpe, senhor. Era só isso que queria me dizer?

— Será que não compreende, Mike? Esta talvez seja a maior oportunidade de toda a sua vida. Tom Dewey subiu justamente com um caso assim. Quando isso acabar, você poderá aspirar ao que bem quiser, Mike. Não estrague sua vida.

— Já posso retirar-me, senhor?

O Velho falou então com a voz cheia de desprezo:

— É muito raro eu me enganar no juízo que faço das pessoas, mas com você errei redondamente. Isso prova que ser corajoso não é apenas poder enfrentar as balas do inimigo. Isso você fez, mas ainda assim é um covarde.

Mike ficou vermelho e mordeu os lábios para não responder.

— Foi muito duro para mim engolir o caso de Millersen, mas mais duro é ficar sabendo que você é um covarde. Já estou velho, Mike. Passei quase toda a minha vida dentro deste escritório. Jamais quis senão fazer um bom trabalho, um trabalho honesto para proteger as pessoas que confiaram em mim. É esta a primeira vez que sinto que lhes falhei.

— Não falhou, Chefe — disse Mike. — Todas as informações estão aí em sua mesa.

— Certo, mas eu sou responsável por todos os homens que trabalham comigo. Sou responsável por Millersen e pagarei por ele, como sou responsável e pagarei por você. Ser promotor público não é apenas comparecer diante dos jurados ou de um juiz e conseguir condenações. É também uma questão de orgulho, o orgulho de fazer um trabalho benfeito, sem medo e sem favores. Se vier a desertar, será como se eu mesmo desertasse. O mundo inteiro saberá disso.

Mike nada disse.

— Ao menos, diga-me por que vai sair! — exclamou o Velho. — Eu sei que você não é covarde!

Mike respirou fundo e de repente percebeu que estava com as mãos tremendo.

— Conte-me tudo, Mike — disse o Velho gentilmente. — Você foi um bom polícia e um bom adjunto. Por que vai sair?

— Ela foi minha garota — disse Mike, encarando o Velho.

— Ela quem?

— Marja, isto é, Maryann Flood.

— Essa mesma Maryann Flood?

Mike assentiu com a cabeça.

— Mas como, Mike? Como?

— Eu não sabia que ela estava envolvida nisso quando pedi a Alec há três semanas que fizesse uma investigação sobre a Park Avenue Models. Se soubesse, talvez não tivesse começado.

O promotor olhou-o com uma compreensão nova e murmurou:

— Eu estava certo. Eu estava certo a seu respeito.

Mike continuou:

— Depois, quando recebi o relatório de Alec, tive de prosseguir, depois de conseguir a sua autorização. Interceptamos os telefones e começamos a vigiar. Todas as peças foram pouco a pouco se ajustando — coisas de que nem desconfiávamos. Como é que as batidas falhavam, uma porção de coisas. Até que um dia apuramos que, por ocasião da sua primeira prisão, o policial que a prendeu foi Frank Millersen. Foi ainda mais convincente descobrir que ele havia depositado no banco cerca de vinte mil dólares por ano. Não há nenhum polícia no mundo que possa fazer isso com o dinheiro que ganha. Daí chegamos aos homens de dinheiro que sustentavam o negócio, aos políticos a quem ela pagava, aos guardas e detetives subornados e às garotas. Por fim, tudo estava esclarecido, e nada mais havia a investigar. Foi então que compreendi que tinha de afastar-me e pedi a Joel Rader que se encarregasse do caso por mim.

— Você alegou doença — disse o Velho.

— E estava doente, sim. Doente da alma. Ao mesmo tempo, quero sair daqui antes de saber ao certo todo o mal que fiz a ela.

— Não poderá fugir disso, Mike — disse o Velho.

— Mas posso tentar, John.

— Você ainda gosta dela, Mike.

Mike baixou os olhos e nada disse.

Nesse momento, a porta se abriu e Joel Rader entrou todo animado.

— Conseguimos, Mike! — exclamou ele. — Foi recebida a denúncia contra todos eles, Maryann Flood, Millersen, todos! Vai ser o maior caso destes últimos anos! Tenho aqui os mandados de prisão contra eles todos, Chefe! Vamos descer agora mesmo para prender Millersen.

— Irei com vocês — disse o promotor, levantando-se. Olhou para Mike e acrescentou: — Não vem também, guarda?

 

Frank Millersen acendeu o cachimbo. Quando este pegou bem, começou a examinar os papéis em cima da mesa. Nada de especial. Poderia ter um fim de semana bem descansado com Betty e as crianças. Seria o primeiro desde muito tempo.

Nesse momento, bateram na porta.

— Entre — disse ele.

Ouviu os passos de várias pessoas e levantou a cabeça. O promotor estava diante da sua mesa e, atrás dele, viam-se Keyes e Rader. Mais atrás, estava o uniforme azul de um guarda. Sentiu um aperto no coração, mas conseguiu dar um sorriso forçado e levantou-se, estendendo a mão.

— Há muito que não me dá a honra de aparecer aqui, Chefe.

A mão dele ficou no ar, sem que o promotor fizesse qualquer menção de apertá-la. Millersen levantou a mão para tirar o cachimbo da boca, querendo dar a entender que fora esse o sentido do seu gesto.

— Temos um mandado de prisão contra você, Frank — disse o promotor.

— Sob que acusação? — perguntou ele, sentindo-se empalidecer e lendo a resposta no rosto de Mike.

— Quer mesmo que lhe diga, Frank? Há necessidade? — perguntou o Velho.

Millersen baixou a cabeça e deixou-se cair numa cadeira. Envelheceu de repente. Mexeu mecanicamente em alguns papéis da mesa e disse:

— Não.

Sem levantar a cabeça, percebeu que o promotor público saía da sala. Ouviu a voz de Rader:

— É melhor vir logo conosco, Frank.

Ele levantou os olhos cheios de agonia.

— Deem-me um minuto para eu me arrumar. Logo depois, irei com vocês.

Joel olhou para Mike, que assentiu com a cabeça.

— Está bem — disse Joel. — Ficaremos à sua espera.

Encaminharam-se para a porta, mas a voz de Millersen os fez parar.

— Mike!

Mike voltou-se para olhá-lo.

— Eu devia ter me lembrado de que você foi um elemento ótimo da polícia antes de entrar para o gabinete do promotor. Eu não faria um serviço melhor do que o que você fez.

— Sinto muito, Frank.

— Você cumpriu o seu dever, Mike.

Mike e Joel saíram e Millersen viu-os fecharem a porta. Tirou uma baforada forte do cachimbo e sentiu o fumo chegar-lhe aos pulmões.

Não havia pesar por si mesmo quando abriu a gaveta e tirou o grande revólver. Havia apenas uma grande tristeza por Betty e pelas crianças quando substituiu na boca o cachimbo pelo cano frio do revólver.