79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 28 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 5

Mary estava sentada no quarto esperando que o telefone tocasse. O cinzeiro estava cheio de pontas de cigarros. Era a manhã de sexta-feira. Estava ali havia quatro dias e tinha apenas o dinheiro suficiente para pagar o quarto. Mas Evelyn lhe havia dito que telefonaria na manhã de sexta-feira. Tinha combinado tudo.

Fora na lavanderia, seis meses antes da sua saída. A morena esbelta, que trabalhava como passadeira, levantara o olhar de repente.

— Que vai fazer quando sair daqui, Mary?

— Não sei. Procurar um emprego, talvez. Ainda não pensei no assunto.

— Que espécie de emprego?

— Qualquer um. O que for possível.

Evelyn riu.

— Vai é morrer de fome. Quando menos esperar, já lhe arrancaram o couro.

Mary olhou-a com curiosidade e perguntou:

— E você? Que é que vai fazer?

— Tenho planos — disse Evelyn, misteriosamente. — Grandes planos.

— Quais são?

Evelyn já ia responder quando viu uma das guardas que se aproximava. Falou rapidamente pelo canto da boca.

— Procure-me hoje depois que apagarem a luz e eu lhe contarei. Acho que nós duas juntas poderemos conseguir alguma coisa.

Eram quase dez horas quando Mary chegou perto da cama de Evelyn e perguntou:

— Ainda está acordada?

— Estou.

Mary sentou-se na cama e perguntou:

— Que é que você pretende fazer?

— Vou ganhar bom dinheiro em negócios de espetáculos. Meu amigo está me arrumando um lugar para quando eu sair.

— Quando vai ser?

— Três dias depois de você — disse Evelyn. — Ele me recomendou que conseguisse uma companheira e começasse a ensaiar um número. Foi por isso que lhe falei. Acho que faremos uma boa dupla. Você é loura e eu morena. É disso que o povo gosta. O contraste.

Mary hesitou, meio desconfiada.

— Qual poderia ser o número? Eu não entendo nada de teatro.

— Numa só noite, você poderá aprender tudo o que é necessário e até gostar...

— Ah! — disse Mary, compreendendo de súbito. — E isso?

— Ora, é muito melhor do que ser esfolada para ganhar dez dólares por semana.

— Não sei — murmurou Mary. — Foi uma coisa em que nunca pensei.

— Silêncio que nós queremos dormir! — disse alguém de uma das camas.

Evelyn levantou a coberta.

— Deite-se aqui comigo para podermos falar sem essas dorminhocas ouvirem.

— Não. Acho que vou voltar para minha cama — disse Mary.

— Está com medo?

Mary não respondeu. Deitou-se na cama, e Evelyn cobriu-a com a coberta. Ficaram imóveis por um momento. Mary sentia o calor do corpo da outra.

— Quanto é que se pode ganhar? — perguntou ela.

— De vinte a trinta dólares por dia, cada uma. E é muito fácil.

Mary estava pensando. O dinheiro é que era importante. Sem dinheiro, nada era possível. Além disso, tudo estava acabado para ela. Nenhum homem decente iria querê-la quando soubesse o que havia acontecido.

— Que é que se tem de fazer?

No mesmo instante, a outra moveu as mãos e Mary perdeu o fôlego.

— Pare com isso! — disse ela.

— Você não me perguntou o que se tinha de fazer?

— Foi — replicou Mary ferozmente —, mas eu não sabia que você gostava de mulher.

— E não gosto. Estava apenas dando-lhe uma lição.

Mary ficou calada. As mãos da outra voltaram a tocá-la, e ela encolheu nervosamente o corpo.

— Tenha calma — disse-lhe a amiga ao ouvido. — Uma brincadeira assim não lhe fará mal algum. De mais a mais, ajuda o tempo a passar mais depressa.

Na véspera da partida de Mary, Evelyn ajudou-a a arrumar a maleta.

— Lembre-se do que eu lhe disse, Mary. Fique esperando em seu quarto o meu telefonema na sexta-feira de manhã.

— Está bem — disse Mary.

Olhou mais uma vez para o relógio. Era quase meio-dia. Apagou o cigarro e colocou a maleta em cima da cama. Começou a arrumá-la. Evelyn não ia telefonar, e ela precisava sair do hotel enquanto ainda tinha dinheiro para pagar a conta.

O telefone tocou e ela correu para atendê-lo.

— Evelyn?

Foi uma voz de homem que respondeu.

— Quem fala é Joe, amigo de Evelyn. Ela está aí fora num carro. Está pronta?

— Quase pronta.

— Ótimo. Vou subir para apanhá-la.

Já tinha acabado de arrumar a mala quando bateram à porta.

Abriu e viu um homem grande e vistoso. Sorriu para ele.

— Joe?

Ele assentiu com a cabeça e entrou estendendo-lhe a mão, que ela apertou.

— Você é tão bonita quanto Evelyn disse — murmurou ele em voz falsamente cordial.

— Obrigada — disse ela. Encaminhou-se para o telefone. — Já estou pronta e vou chamar um boy.

— Não faça isso. Vou sair com a sua mala pelos fundos. Você sai calmamente pela porta da frente como se fosse dar um passeio. Assim, não terá de pagar a conta.

— Sempre pago as minhas contas — disse ela, olhando-o muito séria.

Ele encolheu os ombros.

— O dinheiro é seu.

Mary pegou o telefone e ligou para a portaria. Evelyn estava esperando no carro e sorriu quando ela se aproximou.

— Nem sabia mais se você ainda estava aí, meu bem.

— E eu já estava pensando que você não viria mais — disse ela, entrando no carro.

— Demoramos um pouco, porque Joe teve de ir pegar as malas dele.

— Pegar as malas?

— Claro — disse Joe, dando partida no carro. — Não se pode viajar sem roupas.

— Viajar? Para onde é que vamos?

— Para a Flórida — respondeu Joe. — Tenho um ótimo apartamento na North Beach, em Miami. Vamos fazer muito dinheiro nesta temporada.

 

Um homem alto e de cabelos grisalhos chegou à portaria do hotel.

— Tenha a bondade, quero falar com Mary Flood. Quarto 1204.

— Deixou de vê-la por pouco — disse o empregado da portaria. — Acaba de pagar a conta e sair do hotel.

— Saiu do hotel? — exclamou Joker Martin, em cujo espírito logo nasceu uma suspeita. — Havia alguém em companhia dela?

— Sim, havia um cavalheiro.

— Como era ele?

— Um homem grande, mais ou menos da sua altura e com o rosto muito vermelho.

— Ah! — murmurou Joker, afastando-se da portaria.

— Por quê? Alguma coisa errada?

— Não, nada de errado — respondeu Joker, agradecendo e tomando o caminho da rua. Ao menos, não tinha sido Ross. Pensara a princípio que fosse, mas Ross era mais baixo do que ele e moreno. Passou pela porta giratória e chegou à rua. Era bem feito por haver esperado. Deveria ter ido procurá-la logo que soubera da sua chegada. Uma pequena como ela não demoraria muito a estabelecer contato com alguém. Meteu um charuto na boca e começou a mascá-lo sem acendê-lo. Talvez até fosse melhor. Tinha muitas coisas naquele momento e podia esperar.

Ela tornaria a aparecer. Mais cedo ou mais tarde, todos tornavam a aparecer.