79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 33 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 10

— Vamos tomar o café e o conhaque no terraço, Tom — disse Gordon, levantando-se da mesa.

Tom puxou a cadeira de Mary para que ela se levantasse.

— Uma delícia tudo, Tom — disse ela, sorrindo. — Nunca em minha vida comi tanto.

— É porque estava com apetite. E a senhora come com gosto, como uma pessoa deve comer.

— Obrigada, Tom. Mas a verdade é que ninguém pode resistir à sua comida.

— Obrigada, senhora — disse ele, com o rosto todo aberto de felicidade.

Gordon abriu a porta, e ela passou para o terraço. O céu estava límpido, a noite fresca, batida pelo vento suave que soprava do mar.

Ela respirou fundo e murmurou:

— É como se a gente estivesse no céu.

Ele sorriu, satisfeito.

— Você costuma convidar todo mundo para a sua casa assim, Gordon? — perguntou ela.

— Que quer dizer com isso?

— Costuma convidar as pessoas sem conhecê-las? Afinal de contas, eu poderia ser uma pessoa mal-intencionada e ser para você uma fonte de problemas e aborrecimentos.

— Você é o tipo de problema de que eu gosto — disse ele, rindo. — Pode aborrecer-me à vontade.

— Estou falando a sério, Gordon. Você é um homem rico e bem conhecido. Alguém poderia explorá-lo.

— Não faria mal. Isso me pouparia o trabalho de explorar os outros.

Ela foi até a balaustrada. A lua cintilava lá embaixo na água.

— Já vi que não dá para conversar.

Ele colocou os braços nos ombros de Mary e fê-la voltar-se.

— Continue a falar, menina. Para variar, é ótimo ter alguma pessoa que se preocupe comigo. Em geral, todo mundo quer alguma coisa de mim.

— Você é uma ótima pessoa. Não quero nada de você.

— Sei disso. Se você quisesse, teria voltado.

Ela não disse nada.

— Você é a primeira pessoa há muito tempo que não se importa que eu seja Gordon Paynter ou não.

— Gosto de você porque é decente — disse ela.

 

Ela acabou de tomar o café e disse:

— Você bebe demais. Por quê?

Ele acabou de tomar o quarto conhaque e disse:

— Bebo porque gosto. Além disso, não tenho nada mais para fazer.

— Nada?

— Nada. Não me meto em negócios porque toda vez que tento fazer alguma coisa, tenho prejuízo. Agora, desisti de vez. Tenho tudo de que preciso sem ter de trabalhar. Acha que está errado?

Ela sacudiu a cabeça.

— Mas no fundo acha mesmo, não é? — disse ele, segurando-lhe o braço. — Todo mundo acha. Dizem que é terrível que eu não faça nada enquanto metade do mundo passa fome.

— Pouco me interessa o resto do mundo — disse ela. — Só me preocupo comigo.

— Pois eu não sou assim — disse ele com uma voz incrivelmente triste. — E acho terrível tudo isso.

— Por que não faz então alguma coisa?

— Não me deixam. Meus advogados me controlam e não posso nem dar o meu dinheiro, se quiser.

— Pobre Gordon — murmurou ela, batendo-lhe na mão.

— Você disse a pura verdade. Pobre Gordon.

— Gostaria de ter pena de você.

— Como assim? — perguntou ele, levantando a cabeça.

— Ninguém ainda suportou tão bem a infelicidade.

Ele começou a rir. As gargalhadas ressoavam pelo terraço e desciam até a praia.

— De que é que está rindo, Gordon?

Ele conseguiu parar de rir e disse com voz ainda entrecortada:

— Afinal encontrei uma mulher honesta! E logo onde! Em Miami Beach!

— Que há com Miami Beach? Gosto muito daqui.

— Eu também — disse ele, ainda rindo. Foi até a balaustrada, olhou para o mar e disse: — Tenho maiôs lá dentro. Vamos entrar na água agora?

Ela assentiu com a cabeça.

 

Voltaram para o terraço embrulhados em grandes toalhas felpudas.

— Tom! — gritou Gordon. — Café bem quente que estamos gelados!

Ninguém respondeu.

Gordon chegou até as portas e gritou:

— Tom! Venha arrumar um pouco de café para a gente!

— Não posso, patrão — respondeu afinal a voz de Tom. — Já estou deitado.

Ele voltou sacudindo a cabeça.

— Nada posso fazer com ele. Já está há muito tempo comigo.

Ela sorriu.

— Deixe que eu faço o café.

— Isso é que não!

— Mas eu quero. Também estou sentindo frio. A água é ótima, mas é preciso a gente estar habituada.

Ele a levou até a cozinha, e ela acendeu o gás. Alguns minutos depois, estavam no terraço tomando o café nas canecas fumegantes.

— Ótimo — disse ele, acabando a sua caneca. Estendeu-se na cadeira, olhou para cima e perguntou: — Já notou como as estrelas são grandes aqui à noite?

— Não — disse ela, tranquilamente. — Para mim, parecem as mesmas que se veem em toda parte.

Ele a olhou, surpreso.

— Será que você não tem nem um pouquinho de romantismo dentro dessa alma?

Ela sorriu e disse:

— Já é bem tarde. Tenho de me vestir para ir-me embora.

Ele pegou-a pelo braço e murmurou:

— Mary Flood.

— É o meu nome.

— Mary Flood, não desapareça agora que tornei a encontrá-la.

— Você não sabe o que está dizendo.

Ele abraçou-a. Beijou-a depois com uma boca macia e quente. Era bem diferente dos outros. Ela sentiu um calor correr-lhe pelo corpo e fechou os olhos.

Sentiu a mão dele nos seus seios. Encolheu os ombros, e as alças do maiô caíram. Ouviu a exclamação de espanto dele e abriu os olhos.

Ele a estava olhando e murmurava:

— Você é linda! Linda!

Ela passou os braços pelo pescoço dele e encostou-lhe a cabeça no seu peito. Mal podia ouvir-lhe a voz.

— Desde o primeiro dia em que a vi sair da água, sabia que você era assim.

Ela desceu as mãos para a cintura dele e ouviu-o dar um suspiro quando ela o tocou.

— Esperei tanto por você — disse ele. — Esperei tanto tempo.

— Cale a boca! — exclamou ela. — Você fala demais!

Dois dias depois, ele a pediu em casamento.