79 Park Avenue
Capítulo 4
Joker Martin recostou-se na cadeira e acendeu o charuto. Sentia uma tranquila satisfação. As oportunidades tinham sido ótimas e ele fora esperto. Compreendera havia um ano e meio que a sindicalização era inevitável. Muita gente já fora assassinada.
Lembrava-se do dia em que Mike Rafferty chegara furioso ao seu clube, resmungando:
— Quem aquele idiota pensa que é?
— Quem é o idiota? — perguntara Joker.
— Kane. Frank Kane. Convocou uma reunião no hotel. Estávamos todos presentes. Ele começou então a dizer que de agora em diante todos nós íamos ter territórios e ninguém poderia invadir o campo dos outros.
Martin pensou um pouco no nome e perguntou a Mike:
— Está falando do homem de Fenelli?
— Não é mais. Kane tomou conta de tudo. Mas foi aí que eu saí. Não vou receber ordens de nenhum idiota!
— E os outros? — perguntou Joker. — Concordaram?
— São todos uns patifes covardes! — exclamou Mike. — Concordaram.
— Talvez fosse melhor você ter concordado também, Mike.
— Prefiro estourar no inferno. Quem dirige os meus negócios sou eu! Ninguém vai se meter em minha vida!
— Está certo, Mike.
— Vou jantar em casa — disse Mike. — Mais tarde, apareço para combinarmos o que é que vamos fazer.
Joker esperou um pouco, depois que ele saiu, e pegou o telefone. No momento em que a telefonista atendeu, ouviu um barulho, como o do cano de escapamento de um carro. Largou o telefone e correu para a janela.
Havia um ajuntamento na rua, em frente ao clube. Os curiosos não lhe permitiam ver quem estava estendido no passeio, mas ele podia ver o rastro de sangue.
Mike tivera o que preferira. Fora estourar no inferno. Pegou o telefone e pediu um número em voz baixa à telefonista. Atenderam e ele disse com voz calma e baixa:
— Sr. Kane, quem fala é Joker Martin. Não, Mike Rafferty não mudou de opinião. Mas agora é muito tarde. Quero que saiba, porém, que estou mil por cento ao seu lado...
Agira bem e havia prosperado. Tinha ido muito além do dancing e do salão de jogos nos fundos, que era só o que Mike lhe havia permitido. Kane tinha-lhe dado aquele território e ninguém podia deslocá-lo dali. Vivia tranquilo porque Kane mantinha a paz.
Mas as atividades estavam crescendo e ele precisava de uma ajuda. Não uma ajuda muscular, mas uma ajuda cerebral, uma ajuda de classe. Com a nova divisão de territórios, icara com a Park Avenue em toda a sua extensão até a 81st Street. Foi então que pensou em Ross Drego.
O rapaz era jovem e impetuoso, mas tinha cabeça. Tinha principalmente o instinto do jogo. Fora ótimo o pai haver brigado com ele depois da última encrenca em que se metera. Seis meses antes, Ross fora procurar Joker, mas sem dúvida alguma ele merecia todo o dinheiro que recebia. Tratava toda a Park Avenue e os grandes homens do mundo dos negócios pelo primeiro nome. Criara-se ao lado deles.
A única coisa com que Joker precisava ter cuidado era com a ambição do rapaz. Havia ocasiões em que isso o fazia perder a cabeça. Era muito sôfrego, queria partilhar de tudo. Joker sorriu pensativamente, tirando uma baforada do charuto. Podia controlar Ross, especialmente depois da nova transação em que Kane envolvera o sindicato. Isso daria a Ross um novo campo de ação e o manteria satisfeito.
Pegou o telefone.
— Ross já chegou? — perguntou à secretária.
— Já foi para aí, Sr. Martin.
Mal desligou, a porta se abriu e Ross apareceu. Joker examinou um momento um papel que estava em cima da mesa e olhou para Ross.
— Trouxe o dinheiro?
Ross jogou um pacote em cima da mesa.
— Pronto, Joker. Dez mil dólares. É tudo o que tenho.
Joker abriu uma gaveta, guardou o pacote e tirou um certificado de ações, que entregou a Ross. Este examinou-o e jogou-o com raiva em cima da mesa.
— Está brincando comigo, Joker? Isto é apenas uma ação. Você me disse que era um grande negócio.
— E é — disse Joker sorrindo.
— Conversa! Que é essa Empresa de Desenvolvimento Blue Sky? Nunca ouvi falar nisso!
— Isso é Las Vegas.
— Las Vegas? Onde é que fica isso?
— Em Nevada. Vai ser a maior fonte de dinheiro do país. Hotéis, cassinos, boates, clubes. E tudo legal.
— Devolva o meu dinheiro. Se quer que eu compre alguma coisa, arranje-me um interesse em Miami, em Reno, em...
— Não seja bobo, Ross. Miami está nas mãos do pessoal de Chicago, e a verdade é que aquilo não dá mais nada. Quanto tempo ainda pode durar? Ninguém sabe, mas não pode ser muito. Reno é uma cidade de gente desiludida. Não é para se divertir que o povo vai lá. Dandy Phil e Big Frank controlam Nova Orleans e não deixam ninguém entrar lá. Sun Valley e Palm Springs não servem para jogo.
— E daí? Ao menos, nesses lugares sei o que estou recebendo pelo meu dinheiro.
— Vai receber muito mais com isso. Estamos partindo da base, construindo a cidade e fazendo as leis. Não haverá contratempos. Tudo será legal.
— E quando é que tudo isso vai acontecer? — perguntou Ross, um pouco mais calmo.
— Um negócio assim leva algum tempo. Kane diz que será entre cinco e dez anos. Depende da sorte que tivermos.
— Nessa altura, eu já serei um velho.
— Claro — disse Joker, rindo. — Será o velho de trinta anos mais rico do país.
— Não sei — murmurou Ross. — Acho que preferia gastar esse dinheiro agora.
— Quem não prefere? Eu tenho dez ações como a sua. Acha que não seria melhor ter esses cem mil dólares no bolso à minha disposição? Mas me contenho porque sei que esse dinheiro vai me render um milhão, e de uma maneira tão legal que ninguém poderá fazer coisa alguma.
— Você tem mesmo cem mil dólares metidos nisso, Joker?
— Já não lhe disse?
— Quantas ações ao todo?
— Mil ações.
— Dez milhões de dólares! — exclamou Ross, cheio de admiração.
— E só estou deixando você entrar nisso porque tenho grandes planos a seu respeito.
— Que planos? — perguntou Ross apertando os olhos.
Joker recostou-se na cadeira e acendeu outro charuto.
— Como lhe disse, vai ser uma coisa inteiramente legítima e não consentiremos que ninguém com más intenções se meta no negócio. Por isso, estou trabalhando junto a Kane para que você seja a pessoa que vai controlar toda a operação para nós.
— Acha que vai dar resultado, Joker?
— Sem a menor dúvida.
Ross pegou o certificado e olhou-o.
— Sabe que isso aqui já está começando a ter melhor aspecto para mim?
— Cheira a dinheiro, não é? — disse Joker, rindo.
Ross guardou o certificado no bolso e sorriu.
— São três cheiros a que eu não posso resistir: dinheiro novo, carros novos e mulheres novas.
— Isso me faz lembrar de algo. Tive notícias hoje de uma velha garota sua, se estiver interessado.
— Não, as velhas garotas não me interessam. Já lhe disse que gosto de mulheres novas.
— Talvez essa seja diferente. Aquela polonesa loura...
— Marja? — exclamou Ross com um tom estranho, quase como se lhe fosse doloroso pronunciar o nome.
— Ela mesma. Estava pensando em ir procurá-la, mas queria saber se você ainda tem alguma intenção a respeito dela.
Ross percebeu que havia caído direitinho na armadilha de Joker. Não havia mais nada que ele pudesse dizer ou fazer. Joker olhava-o como um pai indulgente olha um filho.
— Não tenho nenhuma intenção de qualquer espécie. Ela é toda sua, Joker.