79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 26 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 3

O detetive era um homem magro e cerimonioso. Segurou a cadeira para ela se sentar diante de sua mesa. Estudou-a por um momento em silêncio antes de dar a volta à mesa e sentar-se de novo em sua cadeira. Chegara à conclusão de que ela nascera para viver em dificuldades. Era a impressão que dava.

Não era pelo seu aspecto, pois não havia a menor rudeza nela. Até os cabelos muito louros, que desvalorizavam tantas mulheres em virtude da sua gritante artificialidade, assentavam perfeitamente nela e deviam ser naturais. Mas o rosto, o corpo, o andar — tudo mostrava que ali estava uma mulher feita para os homens e, portanto, para os problemas.

Olhou o cartão e leu o nome: Mary Flood. Arregalou os olhos. Já estava compreendendo. Perguntou:

— Onde está hospedada, Srta. Flood?

— No Hotel Astor — disse ela, tirando um cigarro.

Ele mais que depressa riscou um fósforo para acendê-lo. Julgou ter visto nesse momento a sombra de um sorriso. Mas devia estar enganado. Nenhuma mulher podia ser tão segura de si na sua primeira visita à polícia. Devia ter sido um reflexo de luz.

— É um hotel muito caro.

— Prometi a mim mesma tudo do bom e do melhor — disse ela, como se isso explicasse tudo.

— Já tem emprego?

— Ainda não. Saí há dois dias apenas. Não procurei ainda.

— Não acha que já devia ter começado? Os empregos não estão tão fáceis assim.

— Vou procurar.

— Não lhe deve restar muito dinheiro — continuou ele. — Pelo que vejo, comprou roupas novas.

Um tom de desafio apareceu-lhe na voz.

— O dinheiro não é meu? Há alguma coisa que me proíba de gastar o dinheiro como eu bem entender?

— Claro que não, Srta. Flood. Queremos apenas ter certeza de que não se verá em dificuldades. E há sempre dificuldades para quem está sem dinheiro.

— Ainda não estou sem dinheiro — disse ela prontamente.

Ele não disse nada. Ficou a observá-la calmamente enquanto acendia um cigarro. Ela não deveria ter dificuldade em conseguir dinheiro. O problema consistiria talvez no excesso de homens dispostos a dar-lhe dinheiro. Esperou que ela falasse. A única coisa que elas não podiam suportar era o tratamento do silêncio.

Mas aquela era diferente. Deixou-se ficar tranquilamente calada, com os olhos fitos nele. Ao fim de algum tempo, foi ele quem começou a sentir-se constrangido. Era como se os papéis se invertessem.

— Conhece os regulamentos, Srta. Flood — disse ele, afinal. — Foram-lhe explicados antes de sua saída.

Ela assentiu com a cabeça, mas ele repetiu tudo assim mesmo.

— Deve apresentar-se aqui todos os meses. Não pode ter ligação nem convívio com qualquer pessoa que tenha antecedentes criminais. Deverá informar-me de qualquer mudança de endereço. Deverá comunicar-me onde está trabalhando logo que conseguir emprego. Não poderá sair do Estado sem nossa autorização. Não poderá possuir armas de fogo nem quaisquer outras armas perigosas... — Parou surpreso, ao ver que ela estava sorrindo. — Qual é a graça, Srta. Flood?

Ela se levantou, ainda com o sorriso nos lábios, e deixou o casaco cair-lhe dos ombros em cima da cadeira. Parecia que se havia despido.

— Acha que eu preciso de armas?

Ele sentiu o rosto vermelho. As leis pareciam as vezes tremendamente insensatas. Nada havia que se pudesse fazer em relação às armas naturais.

— Estou apenas lembrando-lhe as determinações que deve cumprir em seu benefício, Srta. Flood.

— Obrigada, tenente — disse ela, sentando-se de novo.

— Que espécie de emprego está procurando, Srta. Flood? Talvez possamos ajudá-la.

— Sabe de algum que preste?

— Garçonete ou vendedora de uma grande loja.

— Quanto é que pagam?

— Doze a quinze dólares por semana.

— Muito obrigada — disse ela, secamente.

— Por quê?

— Isso não pagaria nem o hotel. Preciso de um emprego que me dê muito dinheiro.

— Nem todo mundo é obrigado a viver no Hotel Astor — disse ele ironicamente.

— Mas gosto de morar lá — disse ela, ainda sorrindo. — Já vivi demais em pardieiros. Isso acabou.

— Onde vai conseguir o dinheiro que deseja?

Ela não respondeu.

— Prostituição? — perguntou com voz fria e impessoal.

— Isso dá bom dinheiro, tenente?

— Pode dar, mas também pode trazer complicações sérias de que não faz nem ideia. A prisão de mulheres é uma coisa muito diferente da Casa Correcional. Verá por si mesma.

— Não tenha tanta certeza assim, tenente. Não fiz nada... ainda.

— A senhorita é que deve ter certeza de não fazer coisa alguma de que se arrependa. — Empurrou a ficha dela por cima da mesa e ofereceu-lhe a caneta: — Assine.

Ela assinou; ele olhou a assinatura e disse:

— OK. Pode ir. E não se esqueça do que eu lhe disse.

Ela levantou-se, vestiu o casaco e encaminhou-se para a porta. Depois que a abriu, voltou-se para ele, com um sorriso zombeteiro nos lábios, e disse:

— Obrigada pelo estímulo que me deu, tenente.

— Para seu governo, não sou tenente. E basta manter-se em contato conosco.

— Está bem, tenente. Mas alguma tarde, quando as coisas estiverem muito aborrecidas aqui e quiser matar o tempo, apareça. Poderemos continuar a nossa conversa.

Ele quis falar, mas não soube o que dizer. O rosto começou a ficar vermelho.

— Sabe onde é que eu moro, tenente. Quarto 1204. Peça na portaria que o façam subir.

Ela saiu antes que ele pudesse dar-lhe uma resposta. O detetive ficou durante alguns momentos pensativo. Depois, tomou algumas notas a lápis na ficha dela e pegou o telefone.

— Quero falar com Joker Martin — disse ele à pessoa que atendeu.

Pouco depois, tornou a falar:

— Joker? É Egan, da delegacia da 54th Street. A garota por quem você perguntou acaba de apresentar-se... Sim... Só que agora se chama Mary e não Marja... Que mulher! E como é venenosa! Parece não ter medo de coisa alguma peste mundo de Deus... Obrigado, Joker... Foi um prazer ajudá-lo.