79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 12 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 11

Saiu do elevador e sentou-se no banco do hall. Apanhou o livro de matemática e abriu-o. Não estava tão cansado naquela tarde como havia esperado. Dormira desde as dez horas, quando chegara da igreja, até quase as quatro horas, quando a mãe o chamara.

Virou a página lentamente. Não se incomodava de trabalhar no elevador nos domingos à tarde, pois quase não havia movimento e ele podia tratar dos seus estudos.

Ouviu passos que atravessavam o hall e entraram no elevador. Não levantou os olhos. Queria acabar de ler o enunciado daquele problema.

Ouviu uma voz suave no elevador, a qual lhe era vagamente conhecida.

— Até hoje, Mike?

Ele largou o livro, assustado.

Ela estava no elevador, sorrindo para ele. Os cabelos muito claros brilhavam como ouro à luz das lâmpadas.

— Quer me levar? — perguntou ela.

Ele se levantou prontamente, consciente de um estranho tremor íntimo. Entrou no elevador, fechou a porta e perguntou:

— Como é que sabe meu nome?

Ela não respondeu. Limitou-se a olhar firmemente para ele com os lábios entreabertos numa espécie de sorriso, que lhe mostrava os dentes muito brancos

Sem poder sustentar-lhe o olhar, ele virou o rosto, sentindo que estava ficando vermelho.

— Qual é o andar? — perguntou ele, acionando a alavanca.

— Décimo segundo.

Compreendeu então e voltou-se para ela, dizendo:

— Você é a garota de Ross.

Ela não respondeu, olhando-o impassivelmente.

Mike parou o elevador entre dois andares e voltou-se para ela.

— Você é a garota de Ross, não é?

— Sou mesmo? Você devia saber. Você é técnico em garotas. Sabe que quem vê uma, vê todas.

Ele ficou muito vermelho. Ela o ouvira naquela noite. Não era de espantar que estivesse agindo assim. Era a única maneira que tinha de vingar-se. Baixou os olhos para o chão e murmurou:

— Desculpe.

Ela não disse nada, e ele insistiu:

— Estou pedindo desculpas.

— Ouvi muito bem.

— Podia ao menos dizer alguma coisa — exclamou ele, com alguma hesitação.

— Bravos! — exclamou ela, sorrindo. — Que é que está esperando ainda? Que eu bata palmas?

Encostou-se à parede do elevador. Sabia como se devia tratar gente assim. Olhou-a cuidadosamente da cabeça aos pés. Isso sempre as desconcertava. Não havia mulher alguma que gostasse de ser olhada assim.

Ela não falou e quando os olhos de Mike voltaram ao seu rosto ele não viu nela o menor traço de confusão.

— Ross tinha razão — disse ele rudemente. — Você nasceu para isso.

— Obrigada — disse ela secamente. — Precisava mesmo que me dissesse. Estava começando a icar preocupada.

Mike sorriu. Readquirira a confiança em si mesmo. Ela não passava de uma garota vulgar como tantas outras. Avançou e tomou-a nos braços.

Ela sorriu e não fez a menor menção de resistir. Olhou para o rosto dela e viu que os olhos estavam cintilantes. Curvou-se para beijá-la.

Sentiu a mão dela mover-se atrás das suas costas e de repente sentiu o chão do elevador fugir-lhe dos pés. Ficou um instante atônito e paralisado. Em seguida, teve uma exclamação de raiva e segurou a alavanca do elevador.

Aplicou o freio, esperando que funcionasse. Ela havia levado a alavanca à velocidade máxima. Ouviu o ranger das engrenagens, e o carro parou.

— Para que fez uma coisa dessas? — disse-lhe, furioso. — poderíamos morrer, sabe disso?

Havia no rosto dela uma exaltação que ele nunca vira em ninguém e nenhuma sombra de medo.

— Sério? — perguntou sarcasticamente. — Teria sido uma pena.

Mike acionou a alavanca e o elevador voltou a subir. Afinal, parou no andar de Ross e ele abriu a porta.

— Obrigada, Mike — disse ela, sorrindo polidamente.

— De nada — respondeu ele, com polidez.

Conservou a porta aberta enquanto ela se afastava pelo corredor. Ficou a olhá-la pelo espelhinho da porta do elevador. A garota tinha um andar de rainha e sabia disso.

Viu-a parar diante da porta de Ross e tocar a campainha. A porta se abriu quase imediatamente, e Mike viu o sorriso de Ross e ouviu a sua voz:

— Entre, Marja. Estava à sua espera.

A porta do apartamento se fechou. Mike ainda ficou ali um instante. Por fim, fechou a porta do elevador e desceu. Sentou-se de novo no banco e pegou o livro de matemática.

Mas não conseguiu concentrar-se. Ela continuava à sua frente. Fechou zangadamente o livro. Não adiantava. Não podia deixar de pensar nela.

Ainda a via caminhar pelo corredor. Via o sorriso de Ross e ouvia as palavras com que a recebera. Levantou-se e voltou ao elevador.

Foi só quando parou no andar de Ross que compreendeu. Pela primeira vez na vida, tinha ciúmes de uma mulher.

 

A campainha do elevador tocou. Mike levantou-se e olhou para o quadro. Era do décimo segundo que estavam chamando. Subiu.

Esperou que ela embarcasse para falar.

— Desculpe, Marja. Eu a havia julgado mal.

Ela o olhou ceticamente.

— Estou falando sério, Marja. Não devia tê-la tratado tão grosseiramente.

A dúvida começou a desaparecer dos olhos dela, e Mike notou então como eram profundos e sombrios aqueles olhos.

— As coisas não são fáceis para mim como são para Ross — continuou ele. — Ross é brilhante e direto. Tudo o que eu consigo é à custa de muito esforço.

Ela teve um sorriso cordial e sincero.

— Também não fui muito delicada. Estamos quites.

Ele estendeu a mão.

— Amigos então?

Ela apertou a mão, sorrindo.

— Amigos.

Ele olhou a mão dela, que desaparecia dentro da sua, e perguntou:

— Você é mesmo a garota de Ross?

— Ross é bom para mim. Muito bom mesmo. É bem diferente dos outros rapazes, não sei se me compreende.

— Ross é um ótimo rapaz — murmurou Mike, que acrescentou, ainda segurando a mão dela: — Quer ir um dia a um cinema comigo?

Ela moveu a cabeça em silêncio, com os olhos nos olhos dele. Marja sentia que alguma coisa estava acontecendo. O contato da mão dele era uma sensação que até aquele momento ela não havia experimentado. Conhecia muitos rapazes, mas nenhum ainda a perturbara como ele. Tinha sempre certeza dos seus sentimentos a respeito deles. Mas aquilo era diferente. Era outra espécie de sentimento, como se fosse uma fraqueza que a dominava toda.

Ele se aproximou dela e ela estendeu a boca. Até o beijo era diferente. Era quente e suave, delicado e ávido e tremendamente dominante. Ela fechou os olhos. Era como se estivesse flutuando dentro da água quente e preguiçosa. Podia sentir o calor que lhe subia pelo corpo. Compreendeu instintivamente o que era. Aquilo não era um jogo como com os outros. Dessa vez, fora colhida. O que sentia era o começo do desejo.

Afastou-se dele com o rosto afogueado.

— Leve-me para baixo — disse ela em voz baixa e embaraçada.

— Marja — murmurou Mike roucamente.

Ela não olhou para ele.

— Faça o favor de descer — disse ela, sem saber direito o que havia com ela. Estava contente, mas, apesar disso, tinha vontade de chorar.

Mike virou-se e acionou o elevador. Nada disseram até chegarem ao hall. Mike abriu a porta e perguntou:

— Posso vê-la de novo?

— Se quiser — disse ela.

Em seguida, saiu apressadamente do elevador e do edifício, como se estivesse fugindo.

 

Subiu lentamente as escadas para o apartamento. Não estava se entendendo. Os rapazes eram todos iguais. Eram apenas um jogo com que ela se divertia. Eram instrumentos impessoais, como a bola com que se jogava vôlei. Divertiam-na e davam-lhe uma impressão de energia, de força, de superioridade. Com Mike, era diferente. E ela não sabia por quê.

Ouviu o barulho de alguém que vomitava no quartinho do corredor. Olhou para a porta fechada, imaginando quem estaria se sentindo mal. Era uma das coisas que mais a revoltavam naquela casa. Não se podia nem passar mal particularmente, pois o banheiro icava no corredor.

Nisso, a porta do banheiro se abriu e o padrasto apareceu. Viu-a na porta da cozinha e disse-lhe:

— Apanhe depressa um copo de água para sua mãe; ela não está passando bem!

Ela encheu rapidamente um copo de água na pia e voltou para o corredor. A porta do banheiro estava aberta e ela viu a mãe, encostando-se muito agoniada à parede, enquanto o padrasto a sustentava.

Peter tomou o copo e levou-o à boca de Katti. Esta lavou a boca, cuspindo a água no vaso e, depois, bebeu devagar o resto da água.

— Que é que há, mamãe? — perguntou então Marja.

— Nada... Senti-me enjoada.

— Mas... — murmurou Marja, admirada.

A mãe tinha um estômago de ferro. Nunca enjoara, a não ser quando estivera esperando Peter. Não podia ser de novo isso. O médico havia dito que ela não podia.

— Está bem, mamãe?

Katti assentiu com a cabeça. Ia dizer alguma coisa, mas o marido falou por ela.

— É claro que está bem — disse ele, rudemente. — Não há nada demais em uma mulher grávida vomitar.

— Não, mamãe! — exclamou Marja, sem acreditar. — O médico disse que era muito perigoso.

— Nem sempre a gente deve acreditar nos médicos — disse Katti, tentando sorrir. — A profissão deles é assustar os outros.

— Vai ser outro menino— disse Peter, orgulhosamente. — Já calculei tudo.

— Calculou tudo, não foi? — disse Marja, friamente.

— Claro! — disse ele, sorrindo.

— Veja então se calcula também como é que vamos comer quando mamãe parar de trabalhar. E calcule também como é que vai conseguir a sua cerveja, porque não sou eu quem lhe vai dar.

— Marja! — gritou Katti. Mas era muito tarde. Ela já havia desaparecido e estava descendo rapidamente as escadas.

Katti voltou para o apartamento, sentindo-se muito fraca. Queria deitar-se um pouco. Talvez depois se sentisse melhor e aquela depressão desaparecesse. O Padre Janowicz tinha razão.

Devia ter tido a coragem de contar tudo a Marja. Talvez assim a filha tivesse compreendido.