79 Park Avenue
Capítulo 12
—Joker está com uma casa de jogo no salão dos fundos — disse Ross.
Mike levantou os olhos e viu no rosto do amigo o brilho de exaltação que já conhecia.
— E daí? — perguntou Mike.
— Acho que vou até lá, Mike.
— Já se esqueceu do que seu pai disse? Se se meter ainda em alguma encrenca, ele o mandará para o interior pelo resto do verão.
— Não vou me meter em encrenca nenhuma. Estou apenas com vontade de jogar um pouquinho.
— Foi o que você disse da outra vez, e seu pai ficou furioso quando teve de ir tirá-lo da cadeia.
— Ele não vai saber — disse Ross, lembrando-se da vez em que tinha sido preso com uma turma que estava jogando dados nos fundos de uma garagem. — Joker diz que está bem protegido.
— Então vá— disse Mike. — O que acontecer será por sua conta e risco.
— Queria que você fosse comigo, Mike.
— Para quê? Não tenho dinheiro.
— Vou levar Marja e não quero que aquela gente comece a assediá-la assim que virar as costas.
— Por que não a deixa em casa então? — perguntou Mike com novo interesse.
— Não. Acho que ela vai me dar sorte — disse Ross, com o fingido desdém do jogador pelas suas superstições. — Acho que vou ganhar muito com ela ao meu lado.
— Você está é louco — murmurou Mike. ;
— Tem coisa melhor para fazer?
Mike abanou a cabeça. Estava pensando em Marja. Fazia mais de uma semana desde que a vira no elevador. Ainda não tivera coragem para procurá-la de novo.
— Vamos, então. Você precisa viver um pouco, Mike. Quer passar o resto da vida com o nariz metido dentro dos livros?
— Está bem, Ross.
Marja estava esperando no carro. Arregalou os olhos de surpresa quando viu Mike aproximar-se. Ross abriu a porta do carro.
— Há muito que espero reunir os dois — disse ele. — Marja, meu amigo Mike. Mike, esta é minha garota.
O rosto de Marja ficou vermelho, mas ela sorriu e estendeu a mão.
— Tenho ouvido falar muito em seu nome — disse ela, quase cerimoniosamente.
Mike ficou um pouco embaraçado, mas seguiu a sugestão dela.
— Também eu tenho ouvido falar no seu — disse ele, apertando-lhe a mão, que vibrou visivelmente ao seu contato. Retirou prontamente a mão.
— Chegue mais para cá — disse Ross, entrando no carro. — Mike vai conosco.
Nem Marja, nem Mike falaram até chegarem à porta do dancing. Conseguiram uma mesa peno da pista de danças. Eram quase nove horas e o salão estava bem cheio.
Ross pediu cerveja para si e Mike e um refrigerante para Marja. Correu a vista em torno, com os olhos cintilando.
— Vou cumprimentar Joker e saber a que horas o jogo começa.
— Com certeza, vai começar mais cedo do que devia — resmungou Mike. — Por que não dança antes com sua garota?
— Não. Dancem vocês dois. Vou ver primeiro como estão as coisas.
Marja levantou-se e Mike olhou-a, surpreso.
— Então? — disse ela, sorrindo.
Mike levantou-se e levou-a para a pista. A orquestra estava tocando um fox ligeiro. Sentiu-se estreitado, quando ela entrou no círculo dos seus braços. Tropeçou quase imediatamente, pisando-lhe o pé.
— Desculpe — murmurou ele com o rosto vermelho.
— Calma — disse ela, sorrindo. — Não vou comê-lo.
Dançaram durante algum tempo em silêncio e ela tornou a falar.
— Pensei que fosse procurar-me.
— Tenho andado muito ocupado. Além disso, você é a garota de Ross.
— Nunca lhe disse isso.
— Mas ele disse e você não contestou.
— Não posso impedi-lo de dizer o que quiser. E você não disse que me conhecia.
— De qualquer maneira, você não disse nada. E tenho a impressão de que não quis dizer.
A música parou, e ela se afastou dele. Mike seguiu-a até a mesa. Ela parou diante de Ross e disse:
— Quero cerveja.
— Está bem, menina, está bem — disse Ross, sem olhar para ela, voltando-se para uma porta nos fundos do salão.
Mike puxou a cadeira para ela, e ela se sentou. Depois, empurrou o seu copo para ela.
— Beba este. Vou pedir outro copo para mim.
Ela pegou o copo e tomou um bom gole. Mike ficou pensando no que teria dito que a fizera zangar-se.
— Então? — perguntou ele a Ross.
— Estou esperando. O garçom ficou de vir avisar-me.
— Avisá-lo de quê? — perguntou Marja, admirada. — Pensei que tínhamos vindo dançar.
Ross olhou para ela quase como se fosse uma estranha.
— Explique-lhe, Mike — disse ele, com um gesto displicente.
Mike sentiu a raiva crescer-lhe dentro do peito. Ross não mudava. Sempre deixava o desagradável para os outros fazerem.
— Explique você — disse ele.
Ross olhou para ele, com os olhos subitamente brilhantes.
— Que é que há com vocês dois? — perguntou ela.
Não responderam e ele disse a Marja:
— Vim para o jogo de que Joker me falou. É só isso.
Marja levantou-se num repelão.
— Para que me convidou então? Por que não disse logo?
Ross agarrou-a pelo braço e disse com um sorriso:
— Quis que você viesse para dar-me sorte. Tenho a impressão de que você vai dar certo comigo.
— E Mike? Você só o trouxe para tomar conta de mim?
— Foi, sim, Marja. Acha que eu iria facilitar com esse pessoal daqui? Mike, ao menos, é meu amigo e sei que posso confiar nele.
Mike olhou para ele e disse com um leve sorriso.
— Não tenha muita certeza disso, Ross.
— Que quer dizer com isso? — perguntou Ross, fechando a cara.
— Você disse a verdade. Ela é mesmo formidável.
— Está bem, rapazes — disse Marja, sentando-se. — Podem começar a lutar por minha causa.
Os três começaram a rir, muito satisfeitos.
A testa de Ross estava visivelmente perlada de suor quando ele pegou os dados. Estendeu os dados para Marja na palma da mão e disse:
— Sopre para dar sorte, menina.
Marja soprou.
— Veja se ganha — disse ela, olhando para a pilha de dinheiro que diminuía diante de Ross. Ele não ia bem no jogo e ela calculou que já estivesse perdendo uns quarenta dólares.
— Sopre com mais força disse ele numa voz carregada de tensão, aproximando mais os dados dos lábios dela.
Marja tomou fôlego profundamente e soprou na mão dele. Notou como ele alisava os dados com os dedos. Abriu os dedos por um segundo e ela parou de soprar, olhando para ele, com os olhos arregalados.
Por uma fração de segundo, os olhos dele icaram frios e, em seguida, ele sorriu. Mas sabia o que ela havia visto.
— Obrigado, menina — disse ele, virando-se para a mesa.
Ela ficou imóvel, observando a mesa. Parecia impossível que ninguém tivesse visto. Compreendeu então. Ross tinha sido esperto. Os outros jogadores estavam com os olhos fitos nela.
— Vamos, dadinhos — exclamou Ross, com voz áspera. Os cubos saíram rolando pelo pano verde, bateram na borda e voltaram. Rolaram, rolaram e afinal pararam. Era o maior ponto possível no jogo. Ross puxou o dinheiro com uma das mãos e com a outra pegou os dados. Começou a sacudir os dados na mão.
— Casem logo o dinheiro! — gritou ele. — Casem logo antes que minha sorte acabe!
Começou a fazer as apostas, e Marja se afastou da mesa, indo para onde estava Mike, que, encostado à parede, os observava. Sorriu quando ela chegou.
— Você dessa vez deu sorte.
Ela não teve qualquer expressão no rosto. Mike tampouco vira Ross trocar os dados.
— Para mim, chega. Quero ir embora — disse ela.
— Mas Ross ainda não acabou.
— Não faz mal. Quero ir.
— Vou dizer a Ross.
— Não. Deixe-o — disse ela, segurando-lhe o braço. Olhou para a mesa. Ross ganhara de novo e havia no seu rosto um ar de ardente exultação. — Ele já conseguiu o que veio procurar.
— Houve alguma coisa, Marja?
— Não. Apenas quero sair daqui.
— Está bem — disse ele, tomando-lhe o braço. Gritou então: — Já vamos, Ross.
O outro deu adeus displicentemente. Talvez nem tivesse compreendido o que Mike dissera. Estava sacudindo de novo os dados.
A orquestra estava tocando quando chegaram ao salão de danças.
— Quer dançar? — perguntou Mike.
Ela sacudiu a cabeça e continuou a andar. Um homem bloqueou-lhe a passagem e disse:
— Alô, beleza.
Ela não o olhou. Virou-se para o lado para passar, mas o homem tornou a fechar-lhe o caminho.
— Está fugindo dos amigos? — perguntou ele.
Ela levantou os olhos e viu Joker Martin.
— Estou cansada e vou embora — disse ela secamente.
O sorriso desapareceu dos lábios de Martin. Ele olhou para Mike, e este encolheu os ombros. Martin deixou-a passar, mas estendeu a mão em frente dela.
Marja parou.
— Não sei o que é que há com você — disse Joker. — Mas quando isso passar, tenho um lugar à sua espera aqui.
Pela primeira vez, ela mudou de expressão e disse:
— Obrigada, Sr. Martin. Olhe que posso aparecer e cobrar-lhe a promessa.
Em seguida, virou-se e começou a descer a escada.