79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 46 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 9

— Você está ficando muito conhecido, Ross — disse Joker, pegando outro pão. — Vai ter de recuar um pouco. Há muitos olhos em cima de você. Os colunistas dos jornais dão publicidade a tudo o que você faz.

— Que importância tem isso? Não estou realizando uma porção de coisas?

— Eu sei, mas nós não podemos arcar com a publicidade.

Ross largou com raiva o garfo.

— Mas que é que há com vocês lá em Nova York? A única maneira de realizar alguma coisa aqui é fazer um pouco de barulho. Aí é que todo mundo fica conhecendo a gente e trata de ajudar.

— Juntamente com a polícia, o Imposto de Renda e o FBI — disse Joker, sorrindo.

— E até agora alguém já conseguiu acusar-me de alguma coisa?

— Depende da coisa e da pessoa a quem você se refere, Ross.

— Fale claro de uma vez. Você não fez essa viagem toda de avião só para me pregar um sermão sobre procedimento.

Nesse momento, Maryann se levantou e disse:

— Vou ver se a menina já está dormindo.

Ross não levantou a vista. Continuava a olhar para Joker quando ela saiu da sala.

— Então?

— O Shan Du, por exemplo.

— Que é que há com ele? É meu.

— Você não compreende, Ross. É aí que você está errado. Já temos tanta concorrência e oposição que não podemos tolerar a que vem de dentro.

— Há lugar em Las Vegas para mais uns vinte hotéis.

— Sem dúvida. Foi por isso que nos metemos há tanto tempo no negócio. Queremos que tantos deles sejam nossos quanto for possível.

— Acha então que eu não posso ter nada para mim?

— Não me entenda mal, Ross. Você pode ter tudo o que quiser. Só acho é que não é acertado da sua parte.

— Fiz um bocado de dinheiro para vocês!

— E recebeu a parte que lhe era devida e mais até. O seu mal é que você sempre quer demais. É assim desde garoto. Procurou sempre agarrar mais do que devia. Desta vez passou dos limites.

Joker levantou-se, mas Ross segurou-o pelo braço.

— Que quer dizer?

— Lembra-se daquela vez em que você foi jogar dados na sala dos fundos do dancing? Naquela primeira vez em que você levou Marja?

— Lembro-me, sim. Que é que uma coisa tem a ver com a outra?

— Você pensou que era muito esperto trocando os dados. Mas não foi tão esperto assim. Encobri-o porque pensei que você iria aprender. Mas não posso encobri-lo mais.

Puxou o braço da mão de Ross e saiu da sala.

Maryann vinha descendo a escada e lhe perguntou:

— Já vai, tão cedo?

— Já. Não posso demorar-me mais. Tenho de ver algumas pessoas.

— Não há outro meio, Joker?

Ele sacudiu a cabeça quase imperceptivelmente. Hesitou um instante e disse em voz bem baixa:

— Se eu fosse você, pegaria a menina e iria fazer uma pequena viagem.

— Chegou a esse ponto?

— Chegou. Você vai sair?

— Não. Não posso abandoná-lo assim. Mas mandarei a menina para longe daqui, amanhã.

Um olhar de admiração apareceu no rosto de Joker.

— Está bem, mas tome cuidado. Afaste-se das janelas abertas. Depois, eu lhe telefono.

Maryann fechou a porta depois que Joker saiu e foi para a sala. Ross estava preparando um drinque.

— Que é que Joker queria? — perguntou ela.

— Nada.

— Nada? Não é possı́vel! Joker não viria até aqui à toa.

Ele bebeu o uísque de uma vez e exclamou:

— Nada, eu disse, e pronto! Agora, saia daqui que eu quero pensar!

Ela o olhou por um momento. Depois, deu-lhe as costas e saiu da sala.

Logo que ela saiu, ele pegou o telefone e discou. Quando atenderam, disse:

— Pete? Quero que me mande dois homens imediatamente. Joker acaba de sair daqui.

O outro disse alguma coisa, e Ross continuou com um riso nervoso:

— Tinha de acontecer, mais cedo ou mais tarde... Não poderíamos ficar assim indefinidamente... Não, não estou preocupado. Não terão coragem de fazer coisa alguma. Sabem que todo mundo tem os olhos voltados para mim. Tenho apenas de tomar um pouco de cuidado.

Desligou o telefone e preparou outro uísque. Deixou-se cair numa poltrona para bebê-lo. O que será que Marja sabia? Nunca pudera compreendê-la bem. Com ela, só se podia ir até certo ponto, depois do que, se esbarrava numa muralha de pedra. Lembrou-se da ocasião em que ela lhe dissera que estava grávida. Tinha sido há muito tempo. Estavam juntos havia apenas dois meses.

Ele havia entrado no apartamento onde estavam morando enquanto ele procurava uma casa. Era um excelente apartamento, num dos melhores hotéis. Entrara no quarto, procurando-a.

Encontrara-a arrumando suas roupas numa maleta.

— Que é isso? Aonde pensa que vai?

— Vou-me embora — disse ela, olhando-o calmamente.

— Por quê? Não a estou tratando bem?

— Não tenho motivo de queixa.

— Por que é que vai então?

Ela o olhara firmemente, dizendo:

— Vou ter um filho.

— É só isso? — perguntou ele, tomado de estranho alívio. — É coisa que se resolve com a maior facilidade. Conheço um médico...

— Não, Ross. Eu quero esse filho.

— Está bem, então — disse ele, com um sorriso orgulhoso. — Tenha seu filho. Nós nos casaremos e...

— Não quero casar com você.

— Mas não disse que queria a criança?

— E quero — disse ela, continuando a arrumar as malas.

— Por que não nos casamos então? Afinal de contas, se eu vou ser pai, temos de regularizar a situação.

— É justamente por isso. O filho não é seu.

Ele ficou um instante imóvel e muito pálido.

— De quem é? — perguntou ele com uma voz subitamente ríspida.

— Que é que lhe interessa isso, uma vez que não é seu?

Ele lhe agarrou o braço e puxou-a rudemente. Ela caiu em cima da cama e levantou para ele uns olhos em que havia dor, mas não medo.

— É de Mike?

Ela não respondeu.

Ross levantou a mão e deu-lhe um forte bofetada.

— Foi Mike, não foi?

— Que importância tem isso? Houve tanta gente.

Ele bateu nela de novo. A cabeça dela rolou para o lado e um gemido lhe escapou dos lábios. O sangue começou a correr-lhe pelo canto da boca.

— Puta!

Ela levantou lentamente os olhos para ele e disse:

— Nunca o autorizei a chamar-me pelo meu primeiro nome.

Ele deu-lhe outra bofetada. Ela escorregou da cama para o chão, onde ficou estendida. Ross deu a volta à cama e olhou-a. Ela não se moveu.

Olhava-o sem qualquer emoção nos olhos. Era o pior de tudo aquela ausência de expressão. Não havia nem ódio.

— Você não vai para lugar algum enquanto eu mesmo não resolver dar-lhe um pontapé.

— O filho é de Mike.

— Pouco me importa! Não quero saber de quem é. Você é minha. É só o que me interessa.